domingo, 23 de abril de 2017

Melhor e Mais Rápido - Jeremy Gutsche | Editora Rocco



"Se você levar apenas uma mensagem deste livro, espero que seja a de que a única certeza real na vida é a mudança."

O que há de comum entre uma boa história, um saboroso vinho e um caríssimo smartphone? Pesquisa, muita pesquisa. Afinal, para obtermos êxito - e quem sabe longevidade - em nossos projetos, é preciso conhecer as características e demandas de nosso público, e claro, do mercado, para assim desenvolvermos produtos, serviços e experiências satisfatórias para todo aquele que se identificar com nossas criações.

Chamamos trendhunter ("caçador de tendências") o profissional que se utiliza do conhecimento de áreas como a antropologia do consumo, a sociologia, o marketing e muitas outras para construir e entender o seu público, e com isso ajudar empreendedores no desenvolvimento de novos produtos e serviços. Jeremy Gutsche é um profissional considerado um dos pioneiros neste segmento, e seu livro Melhor e Mais Rápido tem como objetivo ajudar o leitor a colocar em prática seus projetos e a encontrar no exemplo de empresas inovadoras aquela força necessária para gerar ideias e estimular o seu potencial criativo.

Mas por que deveríamos conhecer uma obra técnica que fala de pesquisa, inovação e mercado? Primeiro, porque "todo mundo cultiva" (p.17), e esta metáfora "agrícola" é apresentada no livro para demonstrar que diariamente o ser humano estabelece relações e negócios, e cria raízes, e tenta a todo custo proteger aquilo que foi conquistado. Tendo em vista esta necessidade de estabilidade e equilíbrio, o livro de Jeremy Gutsche nos diz que, em um mundo bombardeado por informações incessantes e transformações contínuas, é preciso também cultivar um "espírito de caçador" em nossa personalidade e cotidiano, para que assim possamos entender as mudanças ao nosso redor e a criar oportunidades de uma melhor sobrevivência e crescimento.  


O livro é dividido em três partes: Desperte, Cace e Capture, e ainda possui um apêndice com estudos de caso ("Como abrir um restaurante em trinta dias" e "Como educar o mundo") e desafios para o leitor-empreendedor.

"Se você quer encontrar uma ótima ideia que pode revolucionar sua carreira ou o seu negócio - e talvez até mudar sua vida -, despertar seu caçador interior é um bom começo. Mas como encontrar oportunidades melhores com mais rapidez? Como você pode ser regularmente mais inteligente, mais adaptável e mais hábil do que seus concorrentes? Para vencer, você precisa saber onde caçar e onde alavancar o impulso do seu ambiente." (p. 61)

Esta citação aparece no início do capítulo quatro, onde Jeremy apresenta os Seis padrões de oportunidade, que consistem em um conjunto de conceitos, tais como convergência, divergência, ciclicidade, redireção, redução e aceleração, que, ao serem identificados, permitirão que empreendedores e indústrias de todos os setores possam entender "como ideias de negócios vitoriosas são criadas" (p. 64), e, consequentemente, ter em mente os fatores que nos tornarão um "melhor inovador, tomador de decisões e até investidor".

Para o leitor, fica o desafio de descobrir como ser "melhor e mais rápido" em seus projetos, assim como o de encontrar estratégias para não ser "esmagado" pelas transformações de nosso cotidiano. Como realizar tudo isso? Um bom começo é aprender com os erros e acertos daqueles que nos antecederam e, quem sabe, ter este livro como uma boa referência e companhia.



Jeremy Gutsche

A velocidade das transformações no mundo dos negócios parece crescer de forma exponencial. Gigantes como Kodak e Lehman Brothers foram atropelados pela inovação, ou pela falta dela. Novas corporações como Netflix e Uber alteram o consumo de mercados tradicionais a partir de suas plataformas online. No meio de um redemoinho de incertezas, Jeremy Gutsche encontrou sua bússola caçando tendências e as utilizando como um caminho para as oportunidades de bons negócios. Criador do site TrendHunter, a maior comunidade do mundo sobre inovação, Gutshe agora compartilha sua experiência no livro Melhor e mais rápido – O caminho inovador para ideias imbatíveis, registro que é fruto do seu trabalho com mais de 300 marcas e das discussões no site que contabiliza 60 milhões de visitas por mês.

Abordando tanto casos de sucesso, como os da Zara e da autora de Harry Potter, J.K. Rowlling, quanto os de estagnação, como os das empresas Blockbuster e Blackberry, Gutsche indica ao leitor a análise dos padrões que estão na estrutura das ideias que conquistam mercados e renovam marcas. Histórias deliciosas como a Microsoft engolindo as enciclopédias da Britannica com seus CD-ROMs para depois ser devorada pela Wikipedia são parábolas de orientação sobre a inovação como forma de sobrevivência de carreiras e produtos. Os casos são apresentados com rigor nos detalhes que diferenciam trajetórias bem-sucedidas, tornando o livro um guia instigante, não só para quem busca inovação, mas também para os que procuram aperfeiçoamento constante em suas carreiras ou empreendimentos. 

O próprio percurso profissional de Jeremy é emblemático em relação aos casos apresentados no livro quando o assunto é perseguir uma boa ideia. Depois de ter experimentado o sucesso como empreendedor na faculdade e o fracasso como investidor de seu próprio dinheiro, o autor abandonou uma ascendente carreira em um grande banco para tocar seu projeto de website. A aposta deu certo. Dois bilhões de visualizações e centenas de clientes depois, ele conta no livro como criou uma enorme e valiosa rede de influenciadores digitais e desenvolveu um método comprovado para identificar ideias melhores com mais rapidez.

Os seis padrões de oportunidade burilados por Jeremy Gutsche e a comunidade do TrendHunter mostram como avaliar as chances de uma iniciativa florescer, apontam segredos para buscar oportunidades na esteira de outros projetos de sucesso (um caso simbólico nesse sentido são grandes ideias como Twitter, Instagram e Snapchat, que nasceram a partir do êxito do Facebook) e indicam de forma didática como aperfeiçoar o faro para bons negócios, tomando sempre como referência a inovação constante. Conhecer um pouco mais sobre o trabalho e a visão de Gutsche é uma boa chance de entender melhor o atual momento dos negócios em rede e de refletir sobre o padrão que existe nas oportunidades que surgem diariamente.

Mais sobre o autor:

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Tô querendo te encontrar - Uma crônica de Gih Medeiros




Tô querendo te encontrar

Esperar por você, não tem sido fácil e nem de longe tranquilo. Mas tenho que acreditar que tudo o que tenho vivido só está servindo para me transformar numa pessoa melhor, que vai combinar mais com a pessoa que você está se tornando, enquanto a vida não nos coloca na mesma trilha.

Enquanto aguardo, penso no que eu quero de você, de nós dois... Sem utopias ou fantasias. Essa fase de sonhos açucarados eu já deixei para trás há um bom tempo. O que eu quero hoje é palpável, é realizável, é construível. E quero muito que seja com você.

Eu desejo abraço durante a chuva, enquanto a água que cai espanta todo mundo, fazendo-os correr, mas nós seguimos devagar, se aquecendo no calor um do outro.

Quero ouvir seu riso espontâneo de manhã, ainda que seja da minha cara amassada e mal-humorada, bem diferente de ti, que já está cheio de energia e alegria para começar o dia.

Quero sentir seus dedos entre meus cabelos, num carinho despretensioso enquanto assiste a uma partida de tênis entre dois jogadores com nomes impronunciáveis, só porque gosta do esporte, e eu tento não cair no sono durante mais uma leitura, com a cabeça recostada no teu colo, só porque é bom estar com você, independente do que fazemos.

Quero me sentir segura ao falar sobre assuntos que não ouso discutir com mais ninguém, porque sei que você não vai me deixar sentir uma boba, pois só quer que eu me sinta à vontade para ser eu mesma, sempre.

Desejo que a gente alcance logo aquele patamar no convívio, onde nos entendemos instintivamente, sem necessidades de demasiadas explicações ou explanações sobre o que sentimos.

Anseio pelos momentos em que com uma simples mensagem, você consiga me deixar alerta e com um sorriso idiota na cara.

Mas, acima de todos esses desejos para nós, eu espero que você não demore a chegar e que a gente se encontre em breve, numa esquina qualquer da vida, num relance de um olhar... Onde for para vigorar.

“Fico pensando onde está você
E se você está pensando em me encontrar
Como sou, onde estou e onde quero chegar
Como sou, como é que vai ser
E onde vou te levar
Mas se você me ver pode acenar pra mim
Já pensou que louco te encontrar assim?
Eu vou na boa, eu vou na fé
Eu sei que vou te encontrar
E quando eu te encontrar nós vamos comemorar

Me encontra ou deixa eu te encontrar
Me encontra ou deixa eu te encontrar”

Me encontra, Capital Inicial 
Acústico NY ao vivo, 2015


quarta-feira, 19 de abril de 2017

The catcher in the rye / O apanhador no campo de centeio - J. D. Salinger | Texto por Bruno Fraga


"Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso. Em primeiro lugar, esse negócio me chateia e, além disso, meus pais teriam um troço se eu contasse qualquer coisa íntima sobre eles." 

Um livro que infelizmente é mais lembrado pelas controvérsias do que por sua qualidade literária, The Catcher in the Rye, publicado em Julho de 1951, tornou-se instantaneamente um clássico pela maneira que  J.D Salinger captou a essência da inquietude juvenil.

"Among other things, you'll find that you're not the first person who was ever confused and frightened and even sickened by human behavior. " (Nota do Autor )

Certos acontecimentos na vida de Holden Caulfield serão narrados por ele, mas somos advertidos: não espere um extenso desenvolvimento como visto em livros como David Copperfield, de Charles Dickens. Ao invés de focar em vários episódios sobre sua vida, Holden deseja contar sobre um "negócio doido" que aconteceu nas datas próximas ao último Natal.

O relato do protagonista é exatamente o que se espera quando um adolescente escreve: lotada de observações contraditórias, pensamentos confusos e palavrões, mas a doçura e inocência vista através das atitudes do jovem tornam a obra harmônica. 

Após uma série de reprovações, Holden é expulso da escola poucos dias antes do recesso de Natal. Com receio de encarar seus pais com a verdade, o jovem decide ficar em um hotel por uns dias e gastar seu tempo livre em uma jornada reflexiva sobre sua curta vida.  Acompanharemos então um fumante crônico, mentiroso compulsivo de 17 anos que passará por agressões, bebedeiras, encontros, arrependimentos, planos para fuga e questionamentos sobre paradeiros de patos no inverno. 

Mais interessante do que os acontecimentos por si só, é tudo que ocorre dentro da cabeça do protagonista. Por mais que a origem dos pensamentos do rapaz possa ser fútil e a conclusão simplista, os dramas existenciais a brotarem em sua mente são perspicazes. A maneira rápida com que os raciocínios são apresentado por Holden facilmente trazem alguma identificação ao leitor mais jovem, que poderá se surpreender por não esperar tamanho dinamismo em um livro dos anos 50.

Ao Tentar decifrar Holden Caulfield é natural remeter-se ao acontecimento negativo mais marcante na vida do jovem: a morte de seu irmão mais novo, Allie. As constantes lembranças fornecem combustível para tentar compreender a origem dos problemas do jovem. Apesar do principal motivo de sua fuga ser evitar seus pais, Holden revela que gostaria de estar naqueles dias próximos ao natal com sua irmã caçula. Phoebe, mesmo nova demonstra uma inteligência incrível e já enxerga os exageros nas dramatizações de seu irmão. 

O livro propositalmente permite uma série de interpretações. As questões começam desde o início, momento em que existe uma imprecisão do local onde Holden está narrando sua história. Tudo inserido sem apelar para um terreno vago de ideias que deixaria o leitor com a sensação de que ficou faltando algo. Acharemos centenas de análises do comportamento de Holden internet a fora, o que torna a experiência da leitura, mesmo após finalizada, incrível, oferecendo um exercício de infinita reflexão.

Salinger criou um personagem de fácil reconhecimento para todos aqueles que já se sentiram de alguma maneira deslocados, sem remover um calculado espaço para possibilitar uma visão mais pessoal do leitor. O fato de ser um dos escritores mais reclusos da história só aumenta o mito sobre suas obras, para a sorte de nosso imaginário.

“What really knocks me out is a book that, when you're all done reading it, you wish the author that wrote it was a terrific friend of yours and you could call him up on the phone whenever you felt like it. That doesn't happen much, though.” (Holden Caulfield)



terça-feira, 18 de abril de 2017

Lançamentos de Abril - Global Editora (parte 2)

Segundo post com os lançamentos literários da Global Editora. A parte 1 você encontra neste link :) Abaixo as novidades de Abril da editora:


Poemas italianos - Cecília Meireles

Em Poemas italianos, Cecília Meireles constrói um mosaico de versos alicerçado na rica herança histórico-imagética que a Itália legou à humanidade. A autora apresenta não só uma realidade contemplada, mas permite também as diversas possibilidades de reviver cada um desses versos. Somos convidados pela autora a contemplar a beleza e o mistério de recantos da Itália: a sólida grandeza do Coliseu, a encantadora Fontana di Trevi, os impressionantes seres petrificados em Pompeia e tantos outros. Ao mesmo tempo que os poemas de Cecília estão permeados pela presença destes simbólicos cenários remanescentes de um passado distante, ela os recria em toda a sua vivacidade, intuindo como o passado sempre opera subterraneamente no presente.
 

Cartas provincianas: correspondência entre Gilberto Freyre e Manuel Bandeira

Seleção: Silvana Moreli Vicente Dias

Os diálogos fraternos entre um dos maiores intérpretes do Brasil e um de nossos grandes escritores. Isto é o que traz este Cartas provincianas: correspondência entre Gilberto Freyre e Manuel Bandeira.

Nascidos no Recife, Pernambuco, Gilberto Freyre e Manuel Bandeira, duas figuras luminares da intelectualidade brasileira do século XX, trocaram cartas, postais e telegramas ao longo da terna amizade que cultivaram. Nelas, partilharam angústias e planos e também discorreram sobre os desafios e os encantos que o Brasil os proporcionava. A correspondência coligida nesta edição encontra-se minuciosamente anotada e analisada por Silvana Moreli Vicente Dias.


A cabeça de Medusa e outras lendas gregas - Orígenes Lessa
Ilustrações: Cláudia Scatamacchia

A rica mitologia grega, com seus deuses e heróis, é referência até os dias atuais, em várias áreas de estudo. Em A cabeça de Medusa e outras lendas gregas, Orígenes Lessa, baseado na obra do escritor norte-americano Nathaniel Hawthorne, reconta seis narrativas maravilhosas.

Nessa obra estão presentes algumas das mais famosas lendas gregas, como: A cabeça de Medusa, A caixa de Pandora, O toque de ouro, O cântaro milagroso, A quimera e As três maçãs de ouro. A linguagem ágil de Orígenes nos transporta à história da civilização da Grécia Antiga e à origem de mitos importantes e significativos presentes até hoje na cultura ocidental.

O livro conta com as belíssimas ilustrações de Cláudia Scatamacchia. É leve, divertido e atual como todo clássico. Um livro para ser lido com a imaginação.


Algumas assombrações do Recife Velho - Gilberto Freyre

Para este Algumas assombrações do Recife Velho foram selecionados sete contos do livro Assombrações do Recife Velho para serem adaptados para os quadrinhos. A HQ traz as seguintes histórias: “O Boca-de-Ouro”, “Um Lobisomem Doutor”, “O Papa-Figo”, “Um Barão Perseguido pelo Diabo”, “O Visconde Encantado”, “Visita de Amigo Moribundo” e “O Sobrado da Rua de São José”. A adaptação foi conduzida por André Balaio e Roberto Beltrão, que possuem larga experiência na produção de histórias em quadrinhos e estão à frente do projeto O Recife assombrado. Mais informações no site.

Gilberto Freyre sempre se interessou pelo universo das assombrações e do sobrenatural. Numa de suas incursões no campo da ficção, o sociólogo escreveu Assombrações do Recife Velho, uma reunião de histórias de assombração que tem como cenário sua cidade natal, Recife. O livro publicado por Freyre em 1955 foi o resultado de um longo trabalho iniciado por ele em 1929, quando esteve à frente do jornal recifense A Província.


Introdução à literatura infantil e juvenil atual - Teresa Colomer

Introdução à literatura infantil e juvenil atual busca refletir sobre quatro perguntas fundamentais sobre a literatura infantil e juvenil: para que servem os livros dirigidos às crianças e jovens; como facilitar essa leitura; como se caracteriza a literatura infantil e juvenil, tanto a clássica como a atual; e como definir os livros mais adequados entre tantas publicações existentes?

Com diversas ilustrações e atividades didáticas sobre as questões abordadas, a obra é dividida em capítulos, e traz ao final uma série de referências bibliográficas, tanto das obras mencionadas como de outras para consulta.

Estudantes de literatura e pedagogia, professores, bibliotecários, educadores em geral, autores e pais, encontram informação útil para iniciar as novas gerações no diálogo cultural que a literatura proporciona.


Apontamentos - Bartolomeu Campos de Queirós
Ilustrações: Mauricio Negro

Bartolomeu Campos de Queirós sempre nos surpreende com sua prosa poética, construída com maestria. Em Apontamentos não poderia ser diferente. Nesse livro, o autor propõe uma reflexão sobre a importância de todo cidadão conhecer e pôr em prática a nossa Constituição, denominada também de Carta ou Carta Maior.

A narrativa, entremeada de diálogos, é um convite ao jovem leitor para que fique atento às necessidades de seu país e aproprie-se das leis e das normas que regem uma nação.





Novidade para os leitores: o site da Livraria Martins Fontes está com uma promoção de até 50% de desconto nos títulos da Global Editora!  Conheça alguns dos títulos em promoção:


Cecília Meireles - Amor em Leonoreta
Cecília Meireles - Crônicas para Jovens
Manuel Bandeira - Antologia Poética
Manuel Bandeira - A Cinza das Horas
Marina Colasanti - Do seu coração partido


Bartleby, o escrivão - Herman Melville | Editora José Olympio


"Bartleby era um desses seres sobre os quais nada pode se dizer com certeza (...). Em uma resposta ao meu anúncio, um jovem imóvel surgiu uma manhã à porta do escritório. (...) À princípio, Bartleby escrevia numa quantidade espantosa. (...) Mas escrevia em silêncio, apaticamente, mecanicamente.

Creio que foi no terceiro dia de sua presença no escritório (...) quando eu o chamei, explicando rapidamente para que o desejava: conferir junto comigo um pequeno documento. Imaginem minha surpresa... mais do que isso, minha consternação, quando Bartleby respondeu, sem deixar sua privacidade, em voz singularmente suave e firme:

- Preferia não fazê-lo.

Fiquei em silêncio total por um momento, recompondo minhas faculdades atordoadas (...).

- Preferia não fazê-lo?

- Preferia não fazê-lo."


Bartleby, o escrivão, é um personagem lembrado por sua resignação e apatia. Publicado em 1853, Bartleby é uma espécie de comentário de seu próprio autor, Herman Melville, cuja vida fora igualmente marcada pela reprovação e esquecimento. Em sua meia idade, já na década de 1860, era constante o pessimismo de Melville em relação a escrita, e tamanha ausência de perspectiva fez com que abandonasse o ofício literário para, assim como Bartleby, ocupar o restante de seus dias em um cargo meramente burocrático.

Sobre este icônico personagem, pouco sabemos de suas origens (a não ser no prólogo, onde o narrador - um advogado razoavelmente bem sucedido - encerra com um suposto indício biográfico, de poucas linhas, porém capaz de despertar no leitor uma nova empatia por Bartleby, e uma espécie de justificação por seu excêntrico comportamento). Na opinião de muitos comentadores, como Enrique Vila-Matas, o enredo de Bartleby é o fundamento para a chamada "Literatura do Não", ou da Negação, onde a apatia de seus personagens é ao mesmo tempo um não sujeitar-se ao mundo, como também uma espécie de insolente permanência (em si, e em tudo aquilo que não se deseja modificar):

"- Agora, uma das duas coisas precisa ocorrer: ou você faz alguma coisa, ou algo será feito a você. Então, a que tipo de trabalho você gostaria de se dedicar? Você gostaria de voltar a fazer cópias para alguém?

- Não. Eu prefiro não fazer qualquer mudança."


Um pouco de história nos cabe aqui: o cenário escolhido para o conto de Melville é um pequeno escritório em Nova Iorque, onde a rotina (pouco equilibrada, porém funcional) de um advogado e seus três funcionários é subitamente alterada com a chegada de um novo personagem, Bartleby, que respondera um anúncio para uma vaga de escrivão. A princípio, o jovem aprendiz exerceria seu ofício de forma compenetrada e intensa (Bartleby apenas copiava, sem conversar, e tampouco almoçar, ou simplesmente sair do escritório), e esta "presença imóvel" de algum modo conquistaria a confiança de seu empregador:

"Em resposta a um anúncio, um jovem que não se mexia surgiu (...); ainda hoje sou capaz de visualizá-lo - palidamente limpo, tristemente respeitável, incuravelmente pobre! Era Bartleby.

Depois de algumas palavras a respeito de suas qualificações, contratei-o, satisfeito por ter em minha equipe de copistas um homem de aspecto tão singularmente sossegado, que eu acreditei poder ser benéfico ao temperamento excêntrico de Turkey e ao gênio explosivo de Nippers."


Com o passar dos dias e da repetição dos expedientes, de forma também súbita Bartleby respondera a um pedido de seu chefe (no caso, a simples revisão de um dos textos copiados) com uma das frases tornadas icônicas em toda a literatura: "Preferia não". Ou seja, para qualquer tarefa solicitada dali por diante, Bartleby assim responderia: - Prefiro não fazê-la.

E assim a história prossegue, e se repete: uma nova tarefa, a mesma "não-preferência", e um inominado espanto de seu chefe e equipe.

Neste momento do livro, a intransigência de Bartleby (por muitos comentadores entendida como uma "vontade de resistência" às transformações do trabalho e do mundo neste quase início de século 20) chega a ser cômica, tamanho o impulso de habitar o espaço social apenas "existindo" ("Ele permaneceu como sempre, feito um ornamento em meu escritório. Não, ele tornou-se ainda mais um ornamento do que antes (...); ele não fazia nada no escritório (...); ainda assim, eu sentia por ele."), ou melhor, recusando-se a viver.

A história de Bartleby segue nesta aparência de abandono, e encerra seu protagonista em uma preferência pelo impossível: dentre toda coerção e arbítrio, o coração persiste naquilo em que acredita, por mais que esta predileção seja um prelúdio para sua própria dissolução e fim.

Bartleby: definitivamente um dos contos mais intrigantes de nossa literatura.


"... antes de me despedir do leitor, deixe-me dizer que, se esta pequena narrativa interessou-o suficientemente para despertar curiosidade sobre quem era Bartleby e que tipo de vida ele levava antes de o presente narrador conhecê-lo, posso apenas responder que partilho completamente dessa curiosidade, mas sou totalmente incapaz de satisfazê-la."



Em Bartleby, o escrivão (Editora José Olympio), Herman Melville, autor de Moby Dick, traça uma irônica e literária análise da natureza humana. O personagem título é um jovem amanuense judicial que, cansado do trabalho burocrático, decide adotar o “não” como lema e o “nada” como estilo de vida. Publicado originalmente, de forma anônima, numa revista em 1853, Bartleby, o escrivão é mais um lançamento da coleção Sabor Literário, que vem apresentando textos inéditos ou pouco conhecidos de grandes escritores.



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