sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A vida no interior de uma palavra | Por Jonatas T. B.




A vida no interior de uma palavra



A água está quente. Os grãos de areia que grudaram com o suor no meu rosto abrasam minha pele. Meus olhos estão fechados enquanto ensabôo minha cabeça. Mas penso que nem tudo é feito de grãos. Nem tudo desintegra feito pó. Às vezes, palavras montam um muro alto e móvel como um cubo mágico na nossa mente. Um labirinto de imagens que nós mesmos construímos a partir de um desejo como talvez seja o amor. Talvez eu arrisque um mapa. Represar o labirinto sem nome para não me perder. Mas, no fim, não importa. As palavras me cercam com seu grande muro alto e móvel. Eu não seria capaz de encaixar o momento em que comecei a pensar nessas coisas. O sol estava quente, creio. O trabalho foi duro. Foi. Os tijolos estão todos empilhados. Mas parece que carrego torres deles nos meus ombros. Não. Estou limpo. A espuma branca já se foi com a água. Agora, só resta o perfume no rosto. Em uma palavra cabe minha vida, creio, mas minha vida jamais conseguirá tomar forma de uma palavra. Não enquanto estiver vivo. Por enquanto, a palavra se torna ela mesma. E, talvez, minha vida continue assim, um pouco minha.



Jonatas T. B. 
Janeiro 2018
quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

TAG: Criando hábitos de leitura - parte 2 | Por Bruno Fraga


Continuando a conversa do post anterior, apresento agora meu ponto de vista. Acho o assunto interessante, e realmente, às vezes pressionar-se para terminar certo livro torna a experiência menos agradável, vide leitura de escola/faculdade, raramente você vai ver algum aluno gostando do livro indicado pelo professor - não por uma questão das indicações não serem boas, mas pelo ato de ler sobre pressão estragar tudo.

Minha dica é a leitura fracionada, porém contínua. Todos sabemos que esse pode não ser o melhor método para a atenção, entretanto, há algo que particularmente me ajuda muito: ao retornar a leitura, faça a si mesmo questões acerca do livro, tente buscar na sua própria mente o que te enriqueceu até ali, e para onde você acha que o desfecho daquele livro se encaminha.

Logo, se você acorda cedo e tem um livro por perto o dia todo, ao fim do dia vai se surpreender o quanto avançou lendo duas, ou três páginas por vez. Lógico que há métodos mais técnicos e outras maneiras de desenvolver a leitura, mas é assim que eu consigo, trabalhando todo dia e, ainda assim, lendo bastante.

Respondendo a TAG do post anterior:

1. Quando e onde você lê? (exemplos: no ônibus indo para o trabalho; no intervalo entre uma aula e outra na faculdade; quando o bebê dorme e eu consigo um tempo pra mim; etc etc)
- Além dos óbvios, no trabalho e na hora do almoço.

2. Você consegue ler mais de um livro simultaneamente?
- Sim, mas eu acredito que é melhor não ler duas ficções juntas, ou seja, se um é ficção o outro provavelmente é filosofia, história, política, etc.

3. Você faz anotações e resumos?
- Tiro fotos dos trechos mais intessantes, pura preguiça.

4. Qual formato de livro você prefere (audiobook, ebook ou livro físico)? Algum desses formatos torna a leitura "mais fácil" pra você?
- Só fisíco, sempre.

5. Alguma dica para incentivar quem está com as leituras acumuladas ou estressado com as pendências?
- Crie o hábito de maneira progressiva e esteja com o livro sempre, mesmo estando em locais incomuns ou em uma situação que você não prevê que conseguirá ler. Ainda assim, leve-o. Minha leitura atual: Pensadores da nova esquerda, de Roger Scruton, publicado pela Editora É Realizações.

Sinopse: Neste livro, o filósofo britânico Roger Scruton analisa a obra de catorze intelectuais da chamada Nova Esquerda. São eles: E. P. Thompson, Ronald Dworkin, Michel Foucault, R. D. Laing, Raymond Williams, Rudolf Bahro, Antonio Gramsci, Louis Althusser, Immanuel Wallerstein, Jürgen Habermas, Perry Anderson, György Lukács, J. K. Galbraith e Jean-Paul Sartre. Antes de tratar destes autores individualmente, Scruton procura esclarecer o que é a esquerda e por que escolheu abordar estes autores. Ao final, ele também explicita a perspectiva subjacente a suas análises, de maneira a deixar claro de que ponto de vista partem as críticas feitas.


Trecho: "Publicado em 1986, (...) este livro é um ataque contundente aos teóricos marxistas cujas especulações referendam ditaduras (o caso cubano é paradigmático) e regimes, como o da Venezuela chavista, que usam eleições aparentemente democráticas para assegurar a perpetuação do despotismo. (...) Mais uma vez, é necessário demonstrar o tamanho da fraude perpetrada em nome da 'correção teórica' e da 'superioridade moral' do socialismo."


E vocês, também aproveitam os intervalos do almoço e do café para ler e postar nas redes sociais? O o que estão lendo atualmente?

Até a próxima,
Bruno Fraga.
segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

TAG: Criando hábitos de leitura | Qual a sua rotina?


Como a leitura pode melhorar o nosso dia? É possível criar um hábito de leitura mesmo quando a rotina casa-trabalho-estudo parece ocupar todo o nosso tempo? Como conseguir tempo para ler?

Começar um Blog/Instagram literário pode ser um bom passo para criar e atingir metas de leitura - ou, pelo menos, para compartilhar inspirações e wishlists. Aqui no Papel Papel, tem sido bem positivo o contato com os hábitos de diversos leitores e com as novidades editoriais que surgem a cada semana e mês. Tudo isso acaba sendo uma grande inspiração e faz com que a vontade de conhecer novos títulos só aumente!

Se há um lado negativo nessa interação, no entanto, é o fato de que nem sempre teremos tempo suficiente pra ler o que gostaríamos.

Sim, porque não apenas nossa percepção do tempo muda com o passar dos anos, mas também nossas prioridades e agenda - afinal, como encontrar um momento especial para a leitura quando, por exemplo, todas as etapas da vida adulta acontecem de uma só vez? Ou seja, quando você tem uma casa, um gato, um filho, uma companhia, muito trânsito, muito trabalho, quem sabe um doutorado, e de vez em quando um freela... É complicado, não?).

Afinal, tempo é também sinônimo de prioridade, e a vida diária é repleta de escolhas, principalmente no que diz respeito ao nosso lazer, cultura e entretenimento.

Daí que é preciso falar deste tema com alguma sinceridade para, quem sabe, encontrarmos um incentivo através do incentivo dos amigos. Queria saber de você então, caro leitor: como você consegue organizar seu tempo para se dedicar aos livros?

Afinal, boa parte da vida advém de escolhas, e acho que nossa "culpa literária" seria bem menor se conseguíssemos falar abertamente sobre isso, sobre esta organização do tempo e de como lidar com as metas de leitura, tanto as possíveis como as impossíveis (à primeira vista).

Vamos compartilhar ideias? :)


Sobre hábitos e metas de leitura, eis o depoimento da nossa colunista Mich Fraga:

- Para mim, ano novo é sinônimo de vida nova. E minha grande meta para 2018 é dar vida a livros que estão parados na minha estante esperando há tempos para serem lidos. Eu já tinha a grande maioria desses livros pegando poeira nas minhas prateleiras e, sinceramente, não os li ainda por pura preguiça. Mas eu prometi para mim mesma na passagem do ano que deixaria essa preguiça de lado em 2018 hahaha, e como as promessas não se cumprem sozinhas, cabe a mim fazer o meu melhor.

Eu, como boa indecisa que sou, não consegui escolher quais livros ler primeiro, então resolvi sortear os títulos em vídeo e, assim, descobri junto com vocês quais seriam as minhas leituras. E já adianto que a leitura de janeiro está avançando bem e em breve sairá resenha para vocês.


A Mich já colocou em prática seu plano de leitura para 2018 (aliás, um primeiro plano, já que o ano só está começando e as comprinhas e recebidos também! rs), que inclui 12 leituras que estavam há um tempo paradas nas prateleiras.

E você, também já fez alguma listinha para 2018?

Eu sei que há momentos em que a gente lê e escreve sob pressão, e isso acontece tanto na vida offline como na rotina dos Blogs; no entanto, a gente precisa lembrar de uma coisa: 


A leitura não deveria ser uma atividade estressante em nossa vida. 


Afinal, de que adianta ler uma quantidade enorme livros e não ter uma experiência de leitura de qualidade?

(Em tempo: certamente é de grande inspiração o trabalho de todo mundo que se esforça para superar metas e, com isso, compartilhar muito conteúdo com seus leitores; este post, no entanto, é dedicado pra você que: 1. Está começando a criar uma rotina de leitura; 2. Está reavaliando suas metas pessoais e reorganizando hábitos de leitura).

Ainda sobre o stress, deixo uma citação do autor Christian Barbosa, autor dos livros Mais tempo, Mais dinheiro, em parceria com Gustavo Cerbasi, e Equilíbrio e Resultado, ambos publicados pela Sextante:

Faça diferente – De nada adianta saber que está estressado e continuar insistindo naquilo que está minando sua resistência. É necessário fazer alguma mudança, pode ser na alimentação, no seu estilo de vida ou no trabalho. A regra é óbvia, se você fizer as coisas do mesmo jeito, seu estresse permanecerá. Defina as suas áreas de mudança e comece algo novo. (conheça outros textos do autor)

E já que estamos falando de hábitos, stress e rotina, vamos deixar algumas perguntinhas pra vocês refletirem com a gente. E fiquem à vontade pra trocar ideias aqui nos comentários e lá no Instagram também :)


Criando hábitos de leitura



1. Quando e onde você lê? (exemplos: no ônibus indo para o trabalho; no intervalo entre uma aula e outra na faculdade; quando o bebê dorme e eu consigo um tempo pra mim; etc etc)
2. Você consegue ler mais de um livro simultaneamente?
3. Você faz anotações e resumos?
4. Qual formato de livro você prefere (audiobook, ebook ou livro físico)? Algum desses formatos torna a leitura "mais fácil" pra você?
5. Alguma dica para incentivar quem está com as leituras acumuladas ou estressado com as pendências? 


Por enquanto é só, pessoal! Em breve teremos mais posts assim "reflexivos" por aqui :) Espero que tenham gostado, e que essa prosa possa desmitificar a leitura e torná-la um hábito saudável em nossas vidas.

Até a próxima!
Rebeca C.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Unboxing TAG - caixa de Janeiro [2018]


Ano novo, caixa nova! Primeiro unboxing de 2018 e a caixinha da TAG Experiências Literárias está totalmente repaginada!!!

E a edição desse mês está cheia de capricho, com um calendário especial totalmente elaborado pela TAG para seus associados e com um livro indicado por ninguém menos que Luís Fernando Veríssimo!



Retorno a Brideshead - Evelyn Waugh

Sinopse: O retorno de Charles Ryder a Brideshead - a elegante mansão de Lord Marchmain, agora convertida em um quartel - traz à memória aqueles tempos, antes da guerra, quando caminhava por seus belos jardins e salões e deixava-se sucumbir ao feitiço seus habitantes singulares. Na verdade, Charles nunca poderia livrar-se de sua amizade ambígua com o inquieto Sebastian, nem de seu amor obsessivo por sua irmã, Lady Julia, nem a obscura fatalidade que marcou para sempre a vida de Marchmain. Retorno a Brideshead, uma das novelas mais importantes do aclamado escritor inglês, foi o tema de uma série de televisão que foi um grande sucesso mundial.
segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Matthew Quick - Conhecendo a obra do autor


"Todos nós temos opiniões radicais. Mas dificilmente verbalizamos a maior parte do que pensamos, pois fomos ensinados a conviver com uma espécie de autocensura. David Granger (em The reason you're alive) é um personagem audacioso, que diz o que pensa, e que teve esta característica acentuada após uma cirurgia no cérebro. No entanto, por sempre dizer a verdade, podemos enxergar a humanidade de seu caráter. Afinal, ao mesmo tempo em que revela o pior de si, David nos faz acreditar na bondade de seu coração através das boas ações realizadas ao longo da trama. De forma irreversível, vivemos em uma cultura que pune todo aquele que não abre mão de suas verdades pessoais. Eu particularmente penso que viveríamos melhor se convivêssemos com a diversidade de opiniões ao invés de fomentarmos o impulso de silenciá-las. O discurso de David é formado por diversos ideais que eu pessoalmente não concordo, mas foi libertador apresentar ao leitor as razões de todo este pensamento.

(...) Muitas pessoas estão apenas interessadas em histórias que confirmam aquilo que elas já acreditam ou que apresentam uma narrativa política com a qual simpatizam. Eu certamente já fui uma dessas pessoas, no passado, porque é muito mais fácil ser assim do que ser solidário à inconsolável dor de um veterano de guerra, por exemplo." (Trecho de entrevista de M. Quick)



Matthew Quick é um autor norte-americano conhecido por suas histórias dedicadas ao público young e new adult. Seu primeiro livro, O lado bom da vida (The Silver Linings Playbook), foi publicado em 2008 e adaptado para o cinema em 2012. No Brasil, a Editora Intrínseca adquiriu os direitos de quatro de suas obras: O lado bom da vida (lançado apenas em 2013), Perdão, Leonard Peacock (2013), Quase uma rockstar (2015), A Sorte do Agora (2015) e Garoto 21 (2016). Outros títulos ainda não lançados no Brasil: Love may fail (2015), Every exquisite thing (2016) e The reason you're alive (2017).

Uma característica comum às obras de Quick é a predominância de personagens cuja vida presente é diretamente afetada por um acontecimento passado, que tanto pode ser condição de trauma emocional e/ou físico ou ainda genético. No entanto, é possível encontrar instantes de superação, coragem e otimismo em quase todas as tramas (exceto em Perdão, Leonard Peacock). Mesmo diante de toda adversidade, Matthew Quick cria narrativas onde somos convidados a refletir sobre a forma com que lidamos com nosso próprio cotidiano e como podemos nos tornar (ou não) melhores a cada dia. Sobrevivência e esperança também são palavras-chave em seus livros.

Nosso desejo é que o leitor possa também nutrir grande empatia por estas histórias! Vamos conhecer então a bibliografia do autor?


O lado bom da vida

Sinopse: Pat Peoples, um ex-professor na casa dos 30 anos, acaba de sair de uma instituição psiquiátrica. Convencido de que passou apenas alguns meses naquele "lugar ruim", Pat não se lembra do que o fez ir para lá. O que sabe é que Nikki, sua esposa, quis que ficassem um "tempo separados".

Tentando recompor o quebra-cabeça de sua memória, agora repleta de lapsos, ele ainda precisa enfrentar uma realidade que não parece muito promissora. Com o pai se recusando a falar com ele, a esposa negando-se a aceitar revê-lo e os amigos evitando comentar o que aconteceu antes de sua internação, Pat, agora viciado em exercícios físicos, está determinado a reorganizar as coisas e reconquistar sua mulher, porque acredita em finais felizes e no lado bom da vida.

Opinião: Acredito que todo mundo tenha já assistido O lado bom da vida nos cinemas e, como esperado, já deve saber que o livro é capaz de nos surpreender bem mais que o filme (que é uma boa adaptação, sem dúvida), principalmente em seus capítulos finais, onde Pat Peoples torna-se mais consciente acerca de sua saúde emocional e, inclusive, considera possível reconciliar-se com o seu passado e criar alguma expectativa de futuro e sobrevida.


Perdão, Leonard Peacock

Sinopse: Hoje é o aniversário de Leonard Peacock. Também é o dia em que ele saiu de casa com uma arma na mochila. Porque é hoje que ele vai matar o ex-melhor amigo e depois se suicidar com a P-38 que foi do avô, a pistola do Reich.

Mas antes ele quer encontrar e se despedir das quatro pessoas mais importantes de sua vida: Walt, o vizinho, fumante inveterado e obcecado por filmes de Humphrey Bogart; Baback, iraquiano que estuda na mesma escola que ele e é um virtuose do violino; Lauren, a garota cristã de quem ele gosta, e Herr Silverman, o professor de alemão que está agora ensinando à turma sobre o Holocausto e que desempenha um papel crucial na vida de Leonard quando o jovem se aproxima do seu ato final.

Encontro após encontro, conversando com cada uma dessas pessoas, o jovem ao poucos revela seus segredos, mas o relógio não para: até o fim do dia Leonard estará morto.

Opinião: De todos, o enredo mais "pesado" de Matthew Quick, pois é uma história narrada em "tempo real", que segue a ordem dos fatos e considerações de Leonard a respeito de uma iminente morte e suicídio. Pode ser considerado um livro "sem final", ou um livro com um "final em aberto", o que o diferencia de todos os outros títulos de Quick.


Quase uma rockstar

Sinopse: Amber Appleton tem dezessete anos, está no ensino médio e mora em um ônibus. Desde que o namorado da mãe as expulsou de casa, Amber, a mãe e Bobby Big Boy, o leal vira-lata da adolescente, estão acampados no Amarelão, o transporte escolar que a mãe de Amber dirige. Apesar de as coisas não estarem boas para o seu lado, Amber, que se autoproclama Princesa da Esperança, se recusa a desistir.

Em vez disso, ela foca todas as energias em ajudar as pessoas à sua volta: incluem-se aí a mãe alcóolatra, os amigos estranhos e excluídos, o Padre Chee e as Divas Coreanas por Cristo, uma octogenária cega e pessimista e um veterano de guerra solitário que escreve haicais. Mas quando uma tragédia faz seu mundo desabar por completo, Amber não consegue mais enxergar a vida com os mesmos olhos. Será que no meio de tanta tristeza e sofrimento ela vai recuperar a esperança?

Opinião: Amber Appleton é de todas a personagem que mais sofre nas histórias de Quick. Impossível não chorar a cada episódio extremamente trágico por que passa nossa protagonista (Amber lembra um pouco Eleanor, de Eleanor & Park, principalmente pela precariedade de suas relações familiares). No entanto, o autor nos surpreende com uma personagem de força inimaginável, que consegue resistir aos absurdos da existência e ainda trazer um pouco de esperança aos poucos amigos que encontra pelo caminho. Quase uma rockstar tem ainda um dos finais mais surpreendentes e bonitos de toda a bibliografia M. Quick. 


A sorte do agora

Sinopse: Bartholomew Neil passou todos os seus quase 40 anos de vida morando com a mãe. Depois que ela adoece e morre, ele não faz ideia de como viver sozinho. Até que um dia, ele encontra, na gaveta de calcinhas da mãe, uma carta de Richard Gere. Convencido de que isso só poderia ser um sinal cósmico, Batholomew passa a escrever uma série de cartas íntimas ao ator, acreditando que ele vai ajudar. De Jung a Dalai Lama, de filosofia a fé, de abdução alienígena a telepatia com gatos, tudo é explorado nessas cartas que não só expõem a alma de Bartholomew, como, acima de tudo, revelam sua tentativa dolorosamente sincera de se integrar à sociedade.

Considerado por diversos veículos um dos melhores livros de 2014, entre eles a Entertainment Weekly, a Publishers Weekly e a Cosmopolitan, o novo livro do autor de O lado bom da vida é original, arrebatador e espirituoso. Uma história comovente e engraçada sobre família, amizade, luto, aceitação e Richard Gere.

Opinião: Bartholomew Neil é um personagem de uma empatia que beira à ingenuidade, especialmente em ocasiões relacionadas ao amor e à amizade. Apesar das adversidades, este "bom sentimento", aliado a uma crença na Boa Sorte, será a força necessária para Bartholomew recomeçar a sua vida e, junto a novos e inesperados amigos, finalmente encontrar seu lugar e voz no mundo.


Love may fail

Sinopse: Portia Kane está em um momento de crise. Após uma traição em seu casamento, Portia desistiu de sua luxuosa vida na Flórida e voltou para South Jersey, um lugar que parece não ter mudado com o tempo e que a faz lembrar de uma infância nada feliz. Sozinha e sem rumo, porém  acreditando que o Bem inda possa existir neste mundo, Portia decide reencontrar a única pessoa que um dia a encorajou: Mr. Venon, seu querido professor de inglês, que foi forçado a abandonar sua carreira após um incidente em sala de aula, vivendo hoje em um lugar isolado, só e sem dinheiro.

Poderá uma freira "descolada", um ex-viciado em heroína, um jovem metaleiro e uma mãe nada convencional consolar (ou magoar de vez) o coração de Portia e ajudá-la nesta missão de ajudar Mr. Venon e, com isto, recuperar a esperança na humanidade? Love may fail é uma história que revela os altos e baixos de toda existência: ou seja, a dor e a ousadia de se tornar aquela pessoa que, lá no fundo, você sempre quis (e foi destinada a) ser.

Opinião: Um dos pontos mais interessantes da história é a consciência de que muitas vezes chegamos à vida adulta já sabendo que dificilmente realizaremos os sonhos de nossa juventude (no caso de Portia Kane e Mr. Venon, havia o sonho de se tornarem escritores "de verdade"). Dividido em quatro partes, a história é narrada por Portia Kane, Nate Vernon, Sister Maeve Smith e Chuck Bass. Há uma conexão entre todos os personagens e a amizade e o apoio emocional compartilhado pelos quatro é o que faz com que hajam motivos para continuar vivendo. Mr. Venon é o personagem que sofreu mais injúrias em seu passado, e é em torno de sua memória e sobrevivência que a trama de M. Quick dedica a maior parte de seus capítulos. O livro tem ainda atmosfera que se aproxima de Quase uma rockstar, principalmente por ter esta memória do ambiente escolar e personagens que, no desfecho da história, encontram motivos para reconstruir suas vidas. Não é meu livro preferido mas é impossível não sentir empatia por Portia Kane e seus sonhos, confusões e confissões.


Every exquisite thing

Sinopse: Nanette O'Hare é uma jovem retraída que mantém o seu papel de filha obediente, estudiosa e exímia atleta. Mas, ao receber de um estimado professor um exemplar usado de The Bubblegum Reaper - uma misteriosa obra cult já fora de catálogo, a rebeldia que poderia haver em Nanette desperta.

Ao iniciar uma amizade com o recluso autor, Nanette se apaixona por um jovem e problemático poeta que também se tornou aficcionado por The Bubblegum Reaper. Ao encontrar no amor e na literatura a força necessária para confrontar o mundo, Nanette descobrirá sua verdadeira vocação, e igualmente entenderá que é preciso pagar um alto preço para viver o melhor de sua vida.

Opinião: Uma história que nos faz lembrar a angústia existencial de Leonard Peacock em seu cotidiano familiar e escolar. No caso de Every exquisite thing, ainda que sua protagonista viva em um contexto social menos traumático, Nanette superará suas angústias apenas após dedicar-se à literatura, muito embora esta proximidade com a escrita se apresente como um sinônimo tanto para a vivência de um grande amor como para o testemunho de uma impensada tragédia. O desfecho da trama, no entanto, tem na superação uma de suas principais características, e mantém a crença na criação e na arte como possibilidade de sobrevivermos ao vazio.


The reason you're alive

Sinopse: Matthew conta a história de David Granger, um soldado veterano da Guerra do Vietnan. Aos 68 anos, além das memórias e chagas de seus tempos de combate, David sofre um acidente de carro e, após inúmeras cirurgias, passa a conviver com uma nova cicatriz: um tumor cerebral, possivelmente fruto de sua exposição às armas químicas do passado.

Em algum momento da recuperação, David passa a repetir nomes e eventos desconexos para os de seu convívio, porém, para nosso protagonista, esta profusão de lembranças será a chave para solucionar os fatos e feridas remanescentes de seu passado, tanto como os de sua atual relação com Hank (o filho distante), Ella (sua neta) e Sue (o melhor amigo).

Nas palavras do autor, The Reason You're Alive afirma o quanto nossos segredos e dívidas do passado podem definir o nosso presente, assim como também nos desafiar a enxergar além de nossas limitações e buscar ser uma versão melhor de nós mesmos a cada dia.

Opinião: Eu apenas torço para que a opinião pública norte-americana não esteja considerando o autor como uma "persona non grata" após a publicação de The reason you're alive. Nestes tempos onde não se pode manter uma opinião ou gosto sem que hajam induções adequações à norma coletiva, Matthew Quick nos apresenta a história de David Granger, um veterano de guerra que, à primeira vista, pode ser percebido como apenas um personagem "politicamente incorreto" (aliás, esta característica "no filter", de dizer o que se pensa, de algum modo o aproxima da personalidade de Pat Peoples em O lado bom da vida); no entanto, ao longo da narrativa, e com a adição de episódios do passado de Granger, percebemos que até mesmo os traumas e consequências da guerra não podem destruir o caráter de um homem, e é com essa imagem de "herói imperfeito" que a história de Granger conquista a nossa atenção e nos desperta a empatia.


E você, conhece (e coleciona) os livros de Matthew Quick? Conta pra gente sua experiência :)

Até a próxima!
Rebeca C.

East of Eden | À Leste do Éden - John Steinbeck | Por Bruno Fraga


Dentre os excelentes romances escritos por John Steinbeck, um destaca-se por sua audácia: East of Eden. Publicado em 1952, o livro evidencia uma excelente geração de escritores americanos, pois é o mesmo ano de publicação de outro clássico: The Old Man And The Sea, de Hemighway,  reforçando a importância da literatura americana para o mundo, assim como foram os autores vitorianos no Reino Unido um século antes. Apesar de sua narrativa lembrar a de um romance comum, podemos considerar East of Eden como tendo o papel similar aos épicos nas culturas clássicas, por exercer influência na fundamentação das artes, cultura, nação e idioma.

Em suma, podemos dizer que East of Eden relata a história sobre duas famílias distintas: os Trasks e os Hamilton. Seus membros, durante sete décadas, protagonizam uma saga que percorre décadas, de Conneticut à California. À primeira vista seria natural apontar a trajetória das famílias como opostas, entretanto, após a influência que o patriarca dos Hamiltons, Samuel, terá no futuro dos Trasks, elas deixarão de ser distintas, e o desenvolvimento do enredo, antes separado por capítulos entre as famílias em diferentes partes dos Estados Unidos será canalizado no oeste americano.

O romance que conduz a história é o do casal Adam Trask e Cathy James. Suas vidas serão as mais detalhadas no desenvolvimento do livro, acompanharemos os dois em sua infância até seus últimos dias na terra. Sendo personificações de opostos do ser humano, se em um dos dois há ingenuidade, pureza e bondade, o inverso aparece no outro, com perversas atitudes que surpreenderão o leitor.

"I believe there are monsters born in the world to human parents. . . . The face and body may be perfect, but if a twisted gene or a malformed egg canproduce physical monsters, may not the same process produce a malformed soul?" 


O principal tema abordado pelo escritor é a aceitação e a rejeição do amor, discorrendo sobre a não correspondência do sentimento tanto em âmbito familiar como na paixão. Muitas vezes o assunto é abordado através de rica argumentação dos personagens sobre a natureza e os motivos de tal afeição e recusa. O mordomo chinês dos Trasks, Li, por exemplo, traz ao longo da história, de forma muito inteligente, uma perspectiva oriental sobre as tragédias particulares de seu chefe: 

"It seemed to Samuel that Adam might be pleasuring himself with sadness." 


As referências bíblicas, como a de Abel e Cain enriquecem a obra desde o título, mas não espere por isso alguma obviedade no andamento ou desfecho das histórias apresentadas. Há de se ressaltar o conflito de personagens nos expressivos diálogos que nos fazem parar, fechar o livro e refletir por alguns segundos sobre a distinta profundidade que existe ali.

Setenta anos passarão, o leitor será um espectador, como o próprio John Steinbeck, que se apresenta nesse livro como uma criança, misturando à sua ficção elementos da própria infância no vale californiano. Enquanto a história transcorre, conseguiremos ainda sentir saudades de certos personagens, desejar desfechos para alguns e ficar na curiosidade de outros. Para quem é recomendado?  Todos que em algum momento tiveram um sentimento rejeitado devem ler este livro e, se nada disso aconteceu com você, esse é o principal motivo para East of Eden ser sua próxima leitura:

“A great and lasting story is about everyone or it will not last.”

East of Eden também foi adaptado para o cinema em 1955 sob a direção de Elia Kazan e estrelado por James Dean. No Brasil, uma das últimas edições da obra literária foi publicada na década de 1990 pela Editora Record.

Até a próxima resenha!
Bruno Fraga

John Steinbeck
Editora Record, edição de 2015

Considerado um dos melhores livros do autor, abrange a história dos Estados Unidos desde a Guerra Civil até a Primeira Guerra Mundial. Publicado em 1952, relata a saga dos Hamilton (com base nos parentes maternos de Steinbeck, representando a “família universal”), e dos Traks, clã ficcional que mimetizaria os “vizinhos universais”, focalizando três gerações. A inspiração veio da Bíblia, pois recria o confronto entre Caim e Abel no cenário do vale de Salinas, na Califórnia, terra natal do autor.