domingo, 21 de maio de 2017

Sociedade J.M. Barrie - Barbara J. Zitwer | Editora Novo Conceito | Texto de Luana Souza


Estou muito feliz em saber que a Rebeca gostou das minhas resenhas (aqui | aqui), e de estar tendo a oportunidade de escrever de novo para o blog dela.

Depois que o pacotinho cheio de amor chegou aqui em casa trazendo muitas surpresas e dois livros, eu já fui logo embarcando na leitura de Sociedade J.M. Barrie, da Barbara J. Zitwer, e publicado pela Novo Conceito, editora parceria do blog Papel Papel.

Foi uma leitura relativamente rápida (uma semana), e eu estou doida para compartilhar minhas opiniões, pois esse se tornou um daqueles livros com o qual temos uma relação de amor e ódio hehe.


Sinopse: Joey, uma arquiteta nova-iorquina que só pensa em trabalho, está em Cotswolds para supervisionar a restauração da majestosa mansão que inspirou J. M. Barrie a escrever Peter Pan.

Os moradores da região não foram exatamente receptivos e também havia um problema com o zelador da mansão, um homem que parecia determinado a arruinar os planos dela. Com essa situação, Joey logo começa a pensar que não conseguirá fazer nada certo neste projeto e também em sua vida até descobrir a Sociedade de Natação de Senhoras J. M. Barrie e começar a nadar com elas em sua Terra do Nunca particular.

Para Joey, conhecer Aggie, Gala, Meg, Viv e Lilia vai ser uma grande experiência de vida o começo de um relacionamento que vai transformá-la de uma maneira mais que extraordinária...


A vida secreta das senhoras da Terra do Nunca...

Mesmo eu sendo uma grande fã de clássicos, e meu livro favorito de todos ser um clássico da literatura inglesa (Alice no País das Maravilhas *-*), eu nunca li a obra original de Barrie, uma dívida que pretendo cumprir um dia. Mas, como fã assídua de contos de fadas e filmes da Disney, as animações acabam fazendo parte da minha infância, assim como filme de 2003. Tenho toda a história e sua moral como uma grande inspiração para a minha vida.

Ah, também sou uma apreciadora da magia, então sempre acabo buscando por isso nas minhas leituras. Infelizmente, não foi o caso desse livro. Eu teria adorado se a autora tivesse inserido mais referências ao livro original e até mesmo aos filmes, mas tudo isso acaba se perdendo no meio dos problemas emocionais pelo qual a protagonista está passando.


"As personagens engraçadas, briguentas e afetuosas do fabuloso mundo de Zitwer deixam todos nós tentados a pular e nadar num lago gelado. Amei este livro." (Cathy Woodman, escritora)

Quanto as "senhoras da terra do Nunca", assim que li a sinopse fiquei imaginando uma sociedade secreta, que se encontrava secretamente em algum lago afastado... cheguei até imaginar uma atmosfera de magia envolvendo fadas, estrelas e piratas... mas não é bem assim. Vou falar claramente: o livro é um jovem-adulto que trata, principalmente, das dúvidas de uma mulher de uns 30 anos quanto a sentimentos-relações-trabalho-amor-vida. Isso tudo me soou como uma crise de meia idade, e os outros assuntos que deveriam ter mais enfoque ficaram como detalhes.

Ah, eu também li MUITAS resenha negativas no Goodreads de britânicos criticando detalhes da cultura inglesa que estavam totalmente equivocados no livro, alegando que a autora não pesquisou nada direito na hora de escrever. Qual a minha opinião sobre isso? Bem, eu não sou ninguém para criticar um inglês que se sentiu ofendido por seus costumes terem sido "alterados", e nem tenho um conhecimento enorme sobre a cultura britânica, mas talvez tenha sido falta de uma pesquisa mesmo o.O


Mas eu não tenho só críticas. Por se passar na Inglaterra, tem todo um tom gélido e cinza no livro, e isso é algo quer amo! Consegui extrair boas lições envolvendo amizade da história, pois, mesmo que eu esperasse que fosse mais trabalhado, surge uma amizade muito bonita entre a Joey e as senhoras da Terra do Nunca. Posso resumir esse livro em sendo um quase-clichê que nos satisfaz, e deixa nossos corações quentinhos ao terminarmos a leitura.

Ah, uma música que eu acabei escutando bastante enquanto lia foi "Neverland", da Zendaya <3


Quanto a edição, a Novo Conceito fez um trabalho encantador em todos os quesitos. A capa é linda, com uma paleta de cores maravilhosa e uma imagem que me lembrou demais a cena do filme "O Lar das Crianças Peculiares" onde o Jacob e a Emma mergulham no mar. O título é em verniz localizado, e as páginas são amarelas e bem porosas *-*


Gostaram da resenha? E das fotos? Eu adoraria ler a opinião de você aqui no blog Rebeca, e saber se alguém se interessou pela leitura.

Obrigada por tudo, pessoal. {Luana Souza}
quinta-feira, 18 de maio de 2017

[Novidades das Editoras] As Bibliotecas de Maria Bonomi e a Revista LIVRO 6 | Ateliê Editorial


Neste início de maio, a Sala Multiuso da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, localizada no Campus da Universidade de São Paulo, inaugurou a exposição "As bibliotecas de Maria Bonomi", apresentando xilogravuras da artista produzidas ao longo de sua trajetória, assim como ilustrações que a artista produziu para o conhecido livro Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles. A exposição fica em cartaz de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 18h30, até o dia 26 de maio.

Em paralelo a exposição, o Ateliê Editorial publicou a sexta edição da revista Livro, que reúne 23 gravuras de Maria Bonomi feitas especialmente para a publicação do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição da USP. Neste trabalho, a artista realizou um trabalho em gravura a partir de uma seleção de imagens de bibliotecas de diversos países do mundo que a artista visitou e pesquisou.

Para conhecer um pouco mais do trabalho de Maria Bonomi e da gravura como processo artístico, vale assistir o vídeo realizado pelo Instituto Arte na Escola, disponível em seu canal no Youtube:


E claro, não deixe de conhecer os trabalhos da artista publicados na edição nº 6 da Revista Livro :)

Sobre a revista: Ilustrada por gravuras da artista plástica ítalo-brasileira Maria Bonomi ao longo de suas páginas, a nova edição da revista Livro, uma publicação anual do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição da Universidade de São Paulo (NELE/USP), oferece uma "experiência sensorial vibrante", nas palavras de seus editores, Marisa Midori Deaecto e Plinio Martins Filho.

Em seu sexto número, a obra traz texto inédito de Donaldo Schüler, mestre-tradutor de Homero e James Joyce; e artigo de Yann Sodert, ex-diretor da Biblioteca Mazarine (França), que apresenta uma abordagem histórica sobre catalografia e suas curiosidades ao longo dos tempos.

Livro nº 6 reflete, entre outros pontos, a respeito da leitura do jornal, e traz a reconstrução de um importante capítulo da história editorial brasileira: a trajetória de Jorge Zahar e a revolucionária coleção Biblioteca de Ciências Sociais. Esta edição levanta, ainda, questões relacionadas à crise cultural do impresso, ao analisar a função das bibliotecas atualmente.

Resultado do esforço coletivo de professores, pesquisadores e profissionais dedicados ao estudo da palavra, a publicação tem como finalidade conduzir o leitor a uma reflexão sobre a difusão de pesquisas que têm a palavra impressa como seu objeto principal. Desde seu número de estreia, Livro busca cobrir os ciclos de vida do impresso no Brasil e no mundo. A cada número da revista é escolhido um artista gráfico para ilustrá-la.

Os interessados em adquirir a Livro nº6 podem fazê-lo pelo site da editora e ou em grandes livrarias.

A Última Camélia - Sarah Jio | Editora Novo Conceito | Texto de Regiane Medeiros


Uma mansão no interior da Inglaterra. O desaparecimento de várias moças. Uma morte inexplicada em um jardim. Um livro insuspeito com códigos muito, muito suspeitos. Uma empregada idosa que se mantém fiel aos finados patrões. Um amor proibido. Um amor do passado. Duas mulheres que guardam segredos que podem destruir suas vidas... Não, não estou falando de um enredo de Agatha Christie – embora eu seja uma árdua leitora da Rainha do Crime e não tenha conseguido evitar a comparação – e sim de A Última Camélia, o último livro de Sarah Jio, jornalista e blogueira americana, autora de O Bangalô e Neve na Primavera, todos publicados pela Editora Novo Conceito.

Confesso que essa leitura me surpreendeu positivamente. A história é contada em narrativas alternadas entre o presente, pelo ponto de vista de Addison, uma paisagista residente em Nova York, e o passado, quando a jovem americana Flora aceitou um emprego de babá em uma mansão na Inglaterra. Apesar da distância temporal que as separa, ambas tem muito em comum: são apaixonadas por botânica e levam consigo um segredo que pode alterar suas vidas para sempre, bem como a vida das pessoas com quem convivem.

Flora trabalha na padaria com os pais e tem o sonho de estudar Botânica, mas vê seu anseio cada vez mais distante de ser realizado devido às dívidas dos pais. Certo dia é procurada por um homem misterioso que diz ter uma proposta que vai mudar a sua vida e garantir a segurança financeira de seus pais. Apavorada com a proposta, mas ao mesmo tempo sem ver outra opção, Flora embarca em um navio com destino à Inglaterra para trabalhar de babá em uma mansão. Durante a viagem conhece o jovem Desmond, um rapaz bonito e rico que vai despertar na jovem Flora sentimentos aos quais não imaginou conhecer algum dia. Ao chegar na mansão Livingston, Flora se depara com um grupo de crianças carentes e problemáticas, sofrendo a perda da mãe, a governanta misteriosa e rígida e um segredo vinculado ao seu que pode colocar em risco a sua própria vida.

Addison é casada com Rex, um escritor de ficção em busca de uma grande história. Os pais dele compram uma mansão no interior da Inglaterra e como se encontram em uma viagem à China, pedem ao filho e à nora para que fiquem na mansão por um tempo resolvendo pendências burocráticas da compra, viagem essa que Addison só aceita para fugir de alguém que a perturba com segredos do passado, que ela tenta fervorosamente manter longe de seu matrimônio. Ao chegarem na mansão Livingston, conhecem a senhora Dilloway, a governanta idosa que se recusa a parar de trabalhar na mansão aferrada a uma fidelidade sem precedentes pelos falecidos donos da casa. Enquanto explora a casa, nos momentos em que se vê sozinha, Addison se depara com um livro antigo escrito pela própria dona da mansão, lady Anna, cujo conteúdo pode ser a chave de misteriosos desaparecimentos ocorridos na cidade por volta de 1940.


O mistério que une essas duas vidas tão distintas, reside na descoberta de um raro exemplar de Camélia, que aparentemente só existe na mansão Livingston e cuja procura inicial remonta ao ano de 1803. Mas, por que essa flor causa tanta confusão em torno de si? Isso, eu não vou revelar, mas tenham certeza de que a solução para esse mistério está muito além da obviedade quando o descobrimos.

Sarah Jio consegue nos manter em um clima de ansiedade e envolvidos no suspense dessa história, da primeira à última página, sem nos decepcionar ao longo do caminho. O sofrimento pessoal de suas personagens é muito visceral e tocante, não tem como não torcer por elas, mesmo quando elas fazem algo errado – é um terrível paradoxo, eu sei!!! – porque ambas são vítimas de circunstâncias que estão além do seu controle. E a construção dos personagens secundários é brilhante. Não tem como não se apaixonar por Rex, um escritor apaixonado pela esposa e pela escrita, que torna tudo mais leve mesmo quando o assunto é denso. Assim como é impossível resistir às crianças Livingston, mesmo Katherine com toda a sua falsa arrogância e maturidade e ao travesso Abbot, que mesmo tão jovem se vê como o protetor dos irmãos. 

Outro ponto interessante sobre o enredo, é que a Sarah consegue transmitir um grande conhecimento sobre flores ao leitor de uma maneira muito prática e visual, tornando cada cenário um deslumbre para os sentidos, indo muito além no clima de mistério que permeia a história toda ao aliá-lo a tanta beleza natural.

Há muitos segredos nos jardins dessa mansão, especialmente no canto mais afastado, onde ficam as árvores das Camélias. Mas quem será capaz de resolvê-los? E quem será capaz de sobreviver à descoberta de tais segredos? Sugiro que você se acomode em um lugar confortável com uma xícara de café quentinho ao lado e embarque nessa aventura. Vai ser muito difícil de largar antes de chegar ao término de tantos segredos, eu garanto!!!

“A velha senhora não prestara atenção na camélia até aquela manhã, quando uma mancha rosada atraiu seu olhar. A flor do tamanho de um pires era muito mais magnífica do que ela poderia ter imaginado. Mais bonita do que qualquer rosa que ela já tivesse visto. Ela balançava na brisa da manhã com tamanha realeza que a velha senhora sentiu necessidade de fazer uma reverência em sua presença” (pg. 12).



Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, o último espécime de uma camélia rara, a Middlebury Pink, esconde mentiras e segredos em uma afastada propriedade rural inglesa.

Flora, uma jovem americana, é contratada por um misterioso homem para se infiltrar na Mansão Livingston e conseguir a flor cobiçada. Sua busca é iluminada por um amor e ameaçada pela descoberta de uma série de crimes.

Mais de meio século depois, a paisagista Addison passa a morar na mansão, agora de propriedade da família do marido dela. A paixão por mistérios é alimentada por um jardim de encantadoras camélias e um velho livro

No entanto, as páginas desse livro insinuam atos obscuros, engenhosamente escondidos. Se o perigo com o qual uma vez Flora fora confrontada continua vivo, será que Addison vai compartilhar do mesmo destino?

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Wabi-sabi - Francesc Miralles | Editora Record

(Este é um texto de ficção a partir da obra Wabi-sabi, de Francesc Miralles. Ainda assim, por sua proximidade com os fatos expressos no livro, o leitor pode considerar este texto como uma Resenha, e tê-lo como referência em sua leitura da obra. Aliás, não deixe de ler! Este é um dos melhores lançamentos dos últimos tempos da Record <3)


É como se um dia acordássemos e um cartão-postal estivesse sob o bem-vindo do carpete de entrada, em um envelope meio amassado, trazendo uma notícia tão alegre quanto o nosso humor às cinco e quinze ou após ter tropeçado ao sair do chuveiro. Digo isso porque Gabriela me escreveu uma ou três linhas e pediu que eu voltasse pra casa e aguardasse o seu chamado. Talvez Gabriela quisesse apenas me dizer que também tropeçou no chuveiro e que por isso não estaria em condições de continuar sua peregrinação nada espiritual a muitos quilômetros de Barcelona. Ao chegar em casa, no entanto, o suor da ansiedade fez com que eu entendesse que esta seria uma possibilidade ridícula. Ainda assim, com alguma esperança, sentei no sofá e aguardei o telefonema. E fiquei pensando: se compararmos a vida a um longo episódio de peregrinação, digamos, pelo Caminho de Santiago, é bem provável que em algum momento de nossa escalada todo o equipamento escorregue de nossas mãos (no caso, de minhas mãos, não duvidaria disso) e nossa sobrevivência dependa unicamente de um milagre ou de um helicóptero da defesa civil. Bem, esta seria minha versão filosoficamente resumida dos fatos, caso eu sobrevivesse a esta peregrinação, pois é bem certo que Gabriela saberia muito o que fazer para sair de uma emboscada dessas. E sairia sozinha, claro, ela e suas botas trekking e seu equipamento de navegação (no meu tempo isso se chamava bússola) movido à bateria solar. Enfim, sem mais devaneios, pois já são nove e cinquenta e nove e daqui a um minuto receberei uma ligação da Gabriela, minha autoconfiante guerreira das montanhas! Das montanhas, da cidade, do mundo... do mundo longe de mim?

"O mundo é imprevisível, mas os sábios insistem que tudo acontece quando tem de acontecer". Escrevi esta frase um pouco após o telefonema de Gabriela, que durou também uma ou três linhas, e que poderia ter sido dito de um jeito diferente, caso houvesse algum resquício de compaixão em si mesma. Mas... não foi assim que aconteceu (momento autopiedade on). É, eu sei, a vida é mesmo uma sequência de imperfeições e impermanências, então, prefiro acreditar que no coração de Gabriela a mensagem tenha sido escrita mais ou menos assim:

"Preciso falar com você. Porque essa distância de agora não é apenas resultado de um carimbo em meu passaporte. Afinal, toda impermanência tem seus motivos, e mesmo que a gente não saiba definir o instante em que nossos meridianos se desalinharam, o coração da gente já começa a rabiscar novas coordenadas e logo percebe que é hora de partir. Bem, talvez você não perceba, já que seu país é recortado por um passado que não mais compreendemos, que eu não compreendo, mas é bem aí, nesta geografia antiga, que você insiste em viver, e eu não sei mais o que dizer a respeito disso, a não ser: Wabi-sabi.

Há momentos, Samuel, em que o ontem é o nosso melhor destino, mas não acredito que nossos caminhos estejam vivendo isso agora. Bom, eu sei que não estou. Por isso escrevo, às dez da noite de um fuso horário errante, só pra dizer que eu acredito que você deva partir também, sabe. Que tal Japão, Maldivas, Berlin...? Melhor, Quioto! É, no extremo oriente, ali bem próximo ao Monte Fuji. Você pode pegar um trem, fotografar o Monte, perder o medo de escaladas e acreditar um pouco mais em você. Acreditar que tudo é possível, inclusive a dissonância e a imperfeição de nossos sentimentos, que, apesar de tudo, foi o que permitiu que a gente percorresse tantos quilômetros de vida juntos...

Hoje, porém, foi preciso pegar minhas malas e cruzar estes um ou dois países; sei que posso voltar pra Barcelona, mas minha verdade não está tão perto assim. A sua também não, e eu gostaria que você enxergasse um pouco disso.

Cuide bem do gato. E continue escrevendo. Seus livros, e também os de Titus, seu melhor amigo. Fique bem. Que a vida o reencontrará tão logo, ainda que não pareça tão cedo.

Bjs,
Gabriela"

A sensação é a de que a vida parou e eu fiquei em choque nesta cadeira por alguns dias. Mas era apenas madrugada, e as dores e câimbras do corpo não poderiam nunca se comparar ao tapa que recebi disto que chamamos Realidade. Estou mesmo cansado, os dias seguintes foram péssimos, porém, estava disposto a ouvir o conselho de meu sábio vizinho Titus - que, na verdade, meu único amigo - e partir para uma viagem de autoconhecimento, logo ali, no Japão. É claro que Titus gostaria que eu o ajudasse em mais uma de suas pesquisas acerca da sabedoria do oriente, mas a viagem tinha como principal objetivo a resolução de um mistério: o de encontrar o remetente dos cartões postais que chegaram há alguns dias, diretamente do Japão, escritos em bela caligrafia e com uma enigmática mensagem no verso: Wabi-sabi. Embora eu não conhecesse a língua, os costumes e tampouco amigos nipônicos, Titus também achou que este mistério dos postais chegou em boa hora, como se fora um "presente do destino" - ou, dito de forma cética, como uma oportunidade de ocupar minha cabeça e esquecer o pé na bunda que recebi de Gabriela. Mas veja bem, só topei esta viagem porque já se aproximava o período de férias. Afinal, minha carreira como professor universitário (embora não muito bem sucedida) precisava ser mantida, e "matar aulas" seria algo fora de cogitação, sempre. Se bem que, pensando agora no telefonema de Gabriela, este talvez seja um dos motivos porque Gabriela desistiu de mim, porque sou previsível, o que você acha? É, deve ser isso... você está certo. Obrigado.

Mas voltando à viagem: o que foi que eu encontrei no Japão? Além do Monte Fuji, alguns templos e um copo de cerveja a 15 euros? Wabi-sabi, claro! Minha verdade. E que talvez seja bem parecida com a sua. Ainda que você não esteja no Japão; ainda que não tenha conhecido uma Gabriela...

"'O melhor remédio para os amedrontados, solitários ou infelizes é sair, ir ao ar livre encontrar o céu, a natureza e Deus. (...) Enquanto isso existir - e deve existir para sempre -, sei que haverá consolo para a tristeza, para qualquer circunstância que a tenha provocado.' (Anne Frank)

Essas palavras de uma menina de 16 anos que estava prestes a ser levada à câmara de gás me fizeram sentir vergonha de mim mesmo. Não apenas porque escrevia melhor do que eu, mas porque em seu esconderijo era capaz de desfrutar coisas que um homem que tinha toda a liberdade do mundo negava a si mesmo.

Quantas vezes eu havia passado o dia ao ar livre nos últimos anos? (...) Isso para não mencionar outros prazeres da vida, que me causavam dilemas morais próprios de uma espécie que boicota a si mesma para poder continuar se lamentando.

(...) Onde estava o problema? (...) O problema era eu."
(pg. 187-188)



Wabi-sabi - Francesc Miralles

Sinopse: Quando um relacionamento vai mal, nada melhor do que viajar para um mundo distante para repensar a vida. E é exatamente isso que Samuel faz. E é exatamente isso que Samuel faz. Sua namorada, Gabriela, com quem ele mantém um relacionamento há oito anos, parece mais distante a cada dia, e sua vida passa a se dividir entre as aulas de alemão e as pesquisas que faz para os livros de autoajuda de seu vizinho, o escritor Titus. Tudo isso na companhia do gato Mishima. Porém, certa manhã, algo tira Samuel de sua existência monótona: um cartão-postal vindo do Japão com a imagem de um gato de porcelana, o maneki-neko, e os dizeres “Wabi-Sabi”. Dias depois, ele recebe em sua casa um segundo postal com a fotografia de um templo e as mesmas palavras. Intrigado, Samuel decide ir ao Japão para descobrir quem é o remetente das misteriosas mensagens, e sua viagem acaba se transformando em uma verdadeira jornada de autoconhecimento.
terça-feira, 16 de maio de 2017

[Novidades das Editoras] O Soldadinho de Chumbo - Editora Wish | Texto por Jonatas T. B.



"Ela se mantinha na ponta do pé, com as pernas esticadas, tão firmemente quanto ele ficava em uma perna só. Ele jamais tirou os olhos dela, nem por um momento. (...)

- Soldadinho de chumbo, - disse o duende, - não deseje o que não te pertence.

Mas o soldado de chumbo fingiu não ouvir."

Acabei de ter a felicidade de ler a versão original de “O soldadinho de chumbo” e descobri que o conto é apenas uma degustação de uma série de livros que tratam das versões originais de contos de fadas, tanto os mais populares quanto os mais raros. O projeto da Editora Wish, publicado por financiamento coletivo, tem um visual caprichado de histórias de origem celta, russa e nórdica.

“O soldadinho de chumbo”, escrito pelo dinamarquês Hans Christian Andersen, é a história sobre um soldado de brinquedo que, por falta de material, fora fabricado com apenas uma perna. Após se apaixonar por uma bailarina de papel coroada por uma rosa de ouropel, é aconselhado por um duende para que não ‘desejasse o que não lhe pertencia’. Depois de ignorar o conselho do duende, o soldado sofre um misterioso acidente que dá início a suas fatídicas desventuras.

A coleção é uma ótima oportunidade para aqueles que desejam adentrar o universo dos contos de fada originais e descobrir que muitos filmes, animações e livros atuais possuem referências, mesmo que inconscientes, aos clássicos. Em “O soldadinho de chumbo”, por exemplo, notei que havia elementos que poderiam se relacionar com o enredo e personagens de Toy Story. O que vocês acham?

Por fim, quero agradecer a editora Wish por nos dar a oportunidade de conhecer uma literatura maravilhosa, capaz de encantar tantas gerações!

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