[Resenha] Sobre a coragem que apenas surge: A máquina de contar histórias, de Maurício Gomyde

sábado, 24 de outubro de 2015
 
- Tenho medo de perder a espontaneidade.

- Esse idealismo é bonito e é próprio dos jovens, e você está certa em ter medo de perdê-lo. Mas não vai ser por ter consciência plena das suas limitações e potencialidades que isso vai acontecer. Admiro sua perseverança em se entregar ao texto. Se assim for, que seja com a alma. O importante é você colocar fogo entre as palavras, e não nas palavras.

(A máquina de contar histórias, p. 159)


Seja você mesmo. Talvez o conselho que mais ouvimos na vida? Nesta busca pelo que é verdadeiro, conseguimos traduzir a intimidade que gostaríamos ou sentimo-nos intimidados por esta expectativa de sinceridade? 

Contar uma história ou um desejo (ou ainda, o desejo de uma história) pode por vezes ter a voz de uma prece: silenciosa, embora irrequieta, como se estivéssemos à espera da melhor das frases, e não apenas de seu melhor. E qual o vencedor nesta luta entre o não-dito (o fogo entre as palavras) e tudo o que por motivos de timidez ou soluço não conseguimos dizer?

Ainda que em um continuum de coragem e tropeço, acredito que o importante seja dizer. Seria este um conselho menos dolorido? Viver de primeiras palavras, não importando quais ou quão importantes, sem medir o tanto de prazer e danos que causaríamos? Haveriam histórias pra contar, lembranças dessa espontaneidade pra vivermos?

Se a conversa e os encontros de nossos dia-a-dias são assim tão difíceis, no limite da naturalidade e da prudência, penso na dor dos que se propõem a escolher palavras para um poema, uma carta de amor, uma obra literária; no quanto de medo, tropeço, coragem, ousadia que cada corpo de texto desses carrega. Afinal, cabe ao autor demonstrar sua verdade com todas as palavras possíveis? É preciso exaustão para soar verdadeiro? Escrever até a alma cansar seu fôlego? Ou, como um antigo texto nos diz, teu nome no meio da página será sempre a melhor declaração de um poeta?

Seria a escrita então este algum-mundo onde nos sentimos... livres? E sentir-se livre, ainda que preso ao texto, é sentir-se então verdadeiro?

Sei que é preciso vontade. Para o impensado e também o texto escolhido. Para que assim o leitor-confidente ouça nossa precisão e soluço, e quem sabe complete o que ficou pelo caminho.

 
 VS, segundo album do Pearl Jam (1993)

 
O segundo álbum tem a fama de ser um marco e um problema para todo artista. Porque quando uma banda consegue seu melhor trabalho logo no primeiro disco, as expectativas para o segundo costumam ser duvidosas, como se já não houvessem créditos para algo ao mesmo tempo novo e incrivelmente fiel à experiência do primeiro. Talvez a Literatura siga em uma outra lógica e indústria, mas ser diferente com a mesma essência é uma cobrança que assola tanto o escritor como o artista, que nestas horas talvez sofram como um menino à espera de seu segundo encontro, onde por sua essência permanecerão formosos aos olhos da mocinha ou simplesmente ignorados por seus dois ou três diálogos mal ensaiados.

Em A máquina de contar histórias, Maurício Gomyde apresenta-nos Vinícius Becker, um escritor mundialmente famoso que, após um longo processo de dor e segundas chances, reconhece que a fama e o sucesso não o torna um escritor de verdade. Ainda que a verdade percebida por seu público tenha sido o êxito de sua carreira em todos estes anos. Mas no instante em que a vida real confronta a literária, é preciso escolher o caminho que mais importa, e então seguir. No caso de Vinícius, foi preciso este nocaute do real para que sua vida literária recomeçasse no caminho certo.

Aos dezesseis anos Vinícius descobre a escrita, e nela se abriga, sendo este seu melhor ofício e carreira, sua razão de existir. Quando adulto, esta vontade de escrita produziu um, dois, inúmeros bestsellers. E a vida assim continuava, entre milhares de fãs, histórias e clichês de sucesso, até o dia em que uma grande perda confrontou Vinícius com uma dura realidade: valeu a pena conquistar o mundo para deixar-se vencer pela vida?

Esposo de Viviana e pai de duas meninas, por muitos anos Vinícius tratou a literatura 'com a frieza de uma ciência exata' (p. 141), como se a proeza de seu texto (conquistada a duras penas) fosse uma fórmula suficiente para o êxito de seu ofício. Porque anterior ao sucesso está o domínio da escrita, mas para o pequeno-grande mundo que acompanha o artista (sua família e amigos), tal êxito talvez seja sinônimo de apenas isolamento.

Para Vinícius, não é preciso responder se a arte é a expressão de sua verdade (pergunta favorita de todo jornalista) pois suas obras falam por si, e por isso despertam uma inimaginável proximidade com os leitores. E se é verdade que o autor dedica mãos e tempo para escrever, costurar e cortar parágrafos e versos atravessados, seu trabalho será então verdadeiro. Como uma confidência, talvez. Ainda que muito bem estruturada e pouco "espontânea", como dirá Valentina, sua filha adolescente e então comentadora favorita, que não entende como podemos chamar de arte algo que não transparece a verdadeira dor e virtude de todo artista. Porque não pode ser autor aquele que não fala com vigor e autenticidade; afinal, é preciso que sua vida simplesmente pule do coração e se derrame na tela do texto.

E assim prosseguem os personagens de Maurício, neste possível-impossível das relações humanas e da criação artística, apaziguados apenas quando a maior das verdades, o Amor, verdadeiramente ocupa as páginas do coração de Vinícius e suas filhas.

Ainda sobre as segundas chances, lembro de uma entrevista sobre o Pearl Jam (trecho de um documentário na verdade) onde os integrantes comentavam sobre como Eddie Vedder era um cara um tanto introspectivo nos palcos, especialmente no início da banda, e que foi preciso um incidente em um dos shows (no caso, um tumulto entre público e seguranças) para que toda a intensidade da cena reverberasse na voz de Eddie. Este momento foi documentado em vídeo, assim como inúmeros outros de inúmeros shows, mas foi esta explosão de voz e expressão específica que a banda decidiu tornar inesquecível. Porque quando parte de nossa vida é de certa forma assim eternizada, importa guardar a lembrança que queiramos como mais verdadeira, talvez porque não seja possível compartilhar a lembrança mais importante de nossas vidas com todo o mundo. No caso do Pearl Jam, parece mesmo haver algum 'romantismo' nesta imagem de um cantor que descobriu sua voz apenas quando confrontou as forças que o policiavam (o que não deixa de fazer sentido); mas se esta imagem é de todo verdadeira ou não, não saberemos, e não importa. Afinal, para que haja história, seja a da literatura ou da música ou de nós mesmos, é importante que haja voz, ainda que fraca, como um prenúncio de uma coragem que em algum momento apenas surge, e vive.


- As palavras de um de seus favoritos, Jack Kerouac, vieram à mente: 'A página é comprida, está em branco, cheia de verdades. Quando eu acabar com ela, provavelmente estará comprida, cheia - e vazia com palavras'. Pois ele sentia que o branco da página era o mais sincero a dizer a Viviana.  
(p. 54)



Maurício Gomyde, A máquina de contar histórias. SP: Novo Conceito, 2014.

4 comentários on "[Resenha] Sobre a coragem que apenas surge: A máquina de contar histórias, de Maurício Gomyde"
  1. Olá!
    Adorei o post. O livro parece ser bem legal!
    Seu blog é lindo.
    Beijos.
    sonhardevaneios.blogspot.com.br

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  2. Oi, Receba! Tudo bem?
    Vi que você curtiu uma foto minha no Instagram, fui na sua BIO e vi o link do seu blog.
    Em primeiro lugar, adorei o template da sua página. Tudo muito lindo. Dá vontade de ficar aqui horas e horas.
    Em segundo, você escreve muito bem e adorei a maneira como passou a emoção de escrever um livro ou produzir alguma obra.
    Parabéns pelo blog.
    Te desejo sucesso.

    www.blogdahida.com

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  3. Obrigada pelo carinho, Anne e HIdaiana <3
    Fico feliz de vocês também se identificarem com esse tanto de livros que me emocionaram neste ano! :) Aliás, daqui a pouco 2015 acaba e precisamos pensar no "Top 2015" de preferidos, né? :D
    Beijos, Rebeca

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  4. Gosto desse paralelo que você faz com os textos.
    A máquina de contar histórias é um texto inspirador. O problema familiar abordado e o poder de buscar outros caminhos para recomeçar é uma mensagem de esperança para o leitor. E eu me senti mais esperançoso e encantado quando terminei de ler.

    Diego, Blog Vida & Letras
    www.blogvidaeletras.blogspot.com

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