sábado, 16 de janeiro de 2016

[Resenha] Dias melhores pra sempre, de Maurício Gomyde


I will be watching over you (Eu cuidarei de você)
I am gonna help you see it through (Eu o ajudarei até o fim)
I will protect you in the night (Eu o protegerei na escuridão)
I am smiling next to you (Eu estarei ao seu lado, sorrindo)

(Queensryche, Silent Lucidity, 1991)



No calendário, a página virada nem sempre corresponde aos nossos próprios capítulos. Enquanto histórias desaparecem no trinta e um de dezembro, outras permanecem em aberto, em um prolongamento de parágrafos, parênteses e linhas. Às margens de um novo ano, um brinde ao hiato ou soluço de nossas vidas.

Havendo páginas, desenhamos planos, contornamos esboços, cultivamos perspectivas. E o traçado por vezes prolonga-se. Em Dias melhores pra sempre, a história de Bruno, Micaela, Dante e Karina é contada em curvas e derivas, e por vezes naufrágios, como se no intervalo entre o mar e a cidade encontrássemos nossa melhor vida - e também seu desvio.

Neste horizonte, os dias transbordam e por vezes se esgotam no próprio amor. Para Bruno, futuro médico e surfista, sobreviver às águas seria o menor de seus desafios: nas primeiras horas de um Reveillon, Bruno se afoga em um parágrafo chamado Ana, restando-lhe um pouco fôlego e um mar de incertezas.

Após a tempestade, foi preciso acreditar que uma nova vida preencheria suas irreversíveis lacunas. Por vezes, Bruno, é preciso perder parte de nosso mundo para encontrar nossa famiglia, e com ela encontrar um novo percurso de vida.

Dias melhores pra sempre é uma história de muitas cicatrizes, e possivelmente um dos enredos mais complexos de Maurício Gomyde. Ainda assim, em meio a tantas adversidades, seus personagens renovam-se em episódios de amizade e esperança, encontrando o amor justamente quando a vida torna-se irreconhecível.

Em dias assim, muito do que foi vivido transforma-se em uma imagem turva, à espera de uma tradução, uma reconquista. Porque a vida, assim como a memória, é uma tecnologia sujeita às mágoas e ao tempo - como uma história gravada em película ou em um caderno empoeirado, onde a densidade de suas cores e ritmo desbotam com o passar dos anos ou com a ruptura de suas superfícies.

Em Dias melhores pra sempre, Gomyde convida-nos então a compreender que a vida que é também feita de sons, vozes, toques e impressões; desta forma, quando o mundo ferir-nos a pele do corpo, encontraremos cura em tudo o que preenche os nossos sentidos. E este otimismo é uma das qualidades da obra de Maurício Gomyde, onde há esperança não só no olhar de seus personagens, mas na intensidade do amor em cada lição de suas vidas.
 


Maurício Gomyde, Dias melhores pra sempre. Porto 71, 2013.


Outras resenhas:
A Máquina de contar histórias
Ainda não te disse nada e Surpreendente

9 comentários on "[Resenha] Dias melhores pra sempre, de Maurício Gomyde"
  1. Você tem um jeito único e autêntico de fazer resenha que eu não sei explicar. Mas foram essas características que despertaram o meu interesse desde quando li o seu blog pela primeira vez. Dá gosto de ver o seu amor pelo universo literário. Que livro bacana, Reb. Preciso ler.
    Mas antes de tudo preciso ler Surpreendente, que ainda nem toquei rsrsrs
    Sucesso com o blog :)

    www.blogdahida.com

    ResponderExcluir
  2. E quem disse que a Reb não sabe fazer poesia???
    Linda resenha, de um jeito que só um amor profundo pela história lida consegue expressar. Obrigada por compartilhar com o restante de nós essa paixão <3
    Beijo, beijo.

    ResponderExcluir
  3. Obrigada, Hida e Gih! <3 Tão bom quando encontramos autores e obras que nos inspiram, né... E o trabalho do Maurício é realmente surpreendente neste sentido :) Não há obra que não emocione <3

    ResponderExcluir
  4. Estou tocada com essa resenha. Você descreveu o livro de uma maneira tão singela e poética, que me parece até desrespeitoso não ir ler nem que seja um parágrafo do livro. Meus parabéns!! Voltarei mais vezes.

    Beijos, Le ;*

    refracaocultural.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  5. Através de resenhas muito amigos e amigas, alguns até de longa data, me convidaram a ler o Mauricio mas essa resenha foi o convite mais contundente! Que resenha linda, que texto carregado de lirismo. Estou emocionada com o seu penúltimo paragrafo, vou compartilha-lo em meu perfil pessoal do face porque me tocou e eu amo ser tocada por palavras e é por isso que leio tanto.

    Parabéns e obrigada!

    Pandora
    O que tem na nossa estante

    ResponderExcluir
  6. Que resenha linda.
    Fiquei tão envolvida que tenho certeza de que preciso ler esse livro.
    E a senhorita bem que poderia escrever um livro teu hein ahah Acho que leva jeito.
    Tá lindo Rebecca!
    Um beijo,

    Paloma
    surewehaveablog.com.br

    ResponderExcluir
  7. Adoro suas resenhas, fazem a diferença. Acho que já disse isso. Adoro a maneira que você escreve.
    Esse livro do Maurício eu ainda não li, mas vou ler em fevereiro. Estou participando de Desafio literário (I Dare You) e uma das opções de leituras do próximo mês é "Um livro que começa com a letra do seu nome", então escolhi Dias melhores para sempre. Te conto o que achei depois.

    Bjux.
    Diego, Blog Vida & Letras
    www.blogvidaeletras.blogspot.com

    ResponderExcluir
  8. Oi, Rebeca! Que resenha linda!
    Esse foi o primeiro livro do Maurício que li e fiquei logo encantada! Tudo se encaixa de um jeito tão bonito...

    Beijos, Entre Aspas

    ResponderExcluir
  9. Olá!
    Adorei a sua resenha! Só vejo elogios a essa obra, quem sabe não leio um dia :)
    Bjs

    EntreLinhas Fantásticas - SORTEIOS NO BLOG! PARTICIPE :)

    ResponderExcluir

Custom Post Signature