sábado, 27 de fevereiro de 2016

[Novos autores] O primeiro namorado, uma crônica de Regiane Medeiros

 
  
Primeiro Namorado

Dia desses, em uma conversa informal com uma amiga, estávamos relembrando alguns sucessos musicais do início dos anos 90, e foi impossível não retornar ao ano de 1994, quando eu tinha apenas 10 aninhos e morava em Ariquemes, Rondônia.

Uma época muito conturbada na vida familiar, mas, eu como criança, apenas seguia meus pais para onde iam, e não me preocupava muito com coisas de adultos. 

Nesse período, na região, o que se ouvia muito eram os sucessos sertanejos de Leandro e Leonardo e de Zezé Di Camargo e Luciano, inclusive sendo a trilha sonora dos bailinhos na escola.

Também foi a trilha sonora da minha precoce vida amorosa. Eu estava na época de começar a reparar em meninos, mas ainda apegada a meus hábitos de menina que só quer brincar, e como para brincar acabamos fazendo amizades, nosso vizinho da frente começou a brincar comigo e com meus irmãos. 

“Como um anjo
Você apareceu na minha vida”


Jefferson era lindo. Loiro de olhos muito azuis, mais alto que eu e meus irmãos, pois era uns 3 anos mais velho, com a voz naquela fase de transição entre o agudo e o grave, e com um sorriso iluminado. Apesar de sua família ter uma situação financeira melhor que a minha (eles moravam em uma casa de alvenaria, enquanto a maioria das casas da rua eram feitas de madeira), ele nunca se portou como se isso fosse relevante e sempre nos convidava para lanchar na sua casa.

“Como um anjo
Repleto de ternura e de paixão”


Um belo dia, quando fomos a uma cachoeira para brincar, meus irmãos e outras crianças que estavam conosco, logo estavam escorregando no limo das pedras, num tobogã natural, enquanto Jefferson me pediu para lhe fazer companhia, pois não queria entrar na água ainda.

Ficamos ali, sentados lado a lado, observando as outras crianças brincarem, quando ele de repente se virou e me disse que gostava de mim, e que queria namorar comigo. Minha surpresa foi imensa!!! Isso nunca tinha passado pela minha cabeça infantil, que só queria saber quando poderíamos sair à rua para pular corda, ou ir para a cachoeira.

“Como um anjo
Encanto e sedução doce aventura”


Mas, aquele lado que já se interessava por garotos se envaideceu, afinal, ele era muito bonito mesmo e mais velho. E, bom, pra ser honesta, eu não era nem um pouco bonita, com meu cabelo revolto e repicado e meus dentes da frente tortos. E movida pela vaidade, aceitei e ele pegou na minha mão, o que fez todo o meu sangue fluir para minhas bochechas.

Nosso namoro não passou disso, ficarmos sentados lado a lado de mãos dadas, olhando os menores brincarem, como se nós fôssemos muito maduros e responsáveis.

“Humm que loucura
Você desabrochando no meu coração”


Não contei a ninguém da minha família sobre meu primeiro namorado, e dois dias depois tive de dizer a ele que não poderíamos mais namorar. Meus pais haviam decidido voltar para São Paulo o quanto antes, e achei que o certo era não prolongar a situação. Ele pareceu entender e ficou triste por irmos embora.

“Anjo,
A luz do sol tá me acordando
Não vá embora
Estou te amando
Por favor, não me deixe só”


Nunca mais vi ou tive notícias do Jefferson depois de voltar a São Paulo. Naquela época, não havia celulares ou internet disponíveis a crianças, e namorar por cartas estava longe de ser uma boa ideia.

Depois que amadureci, nunca fui do tipo namoradeira, tive poucos relacionamentos em minha vida de adolescente e jovem adulta, e por algum motivo desconhecido isso não me incomoda. Ao contrário, incomoda mais aos outros, que por consequência me incomodam. Mas, eu relevo.

Só que eu nunca deixei de pensar no que teria acontecido se eu continuasse morando lá, e continuasse namorando o Jefferson, nem em como ele estaria hoje. Não estou presa ao passado, nada disso. Mas, sempre tive uma certa invejinha das pessoas que passam a vida toda com o primeiro namorado. Não foi o meu caso, mas tudo bem. Esse romance inocente e infantil me proporciona boas lembranças e fé, de que algum dia voltarei a me sentir assim de novo, lisonjeada e feliz por alguém gostar de mim do jeito que eu sou.

“Anjo,
Não quero abrir meus olhos
Quero seguir vivendo um sonho
De sermos só você e eu”

Como um Anjo – Zezé di Camargo e Luciano, Salva meu coração, 1994


8 comentários on "[Novos autores] O primeiro namorado, uma crônica de Regiane Medeiros"
  1. Que lindeza de história. O primeiro amor é algo marcante. No meu caso, até tenho contato com o menino, mas ele virou um ogrinho hahahahaha Adorei a história! Texto maravilhoso!

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    1. É Hida, talvez o destino tenha me poupado disso, de ver meu primeiro namorado se transformar em um ogro huahuauahuahu.
      Beijo, beijo
      <3

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  2. Ahh que crônica fofa! O primeiro namorado a gente nunca esquece né? rsrsrs

    Bjs, Michele

    O que tem na nossa estante

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  3. Que coisa linda, Reb!
    Uma crônica leve, inocente, cheia de sensibilidade e pureza. E com uma canção muito conhecida e cantada por mim também (rs.).
    A Regiane escreve muito bem, viu! Por mais crônicas assim.
    Ela me fez lembrar um filme que assistia na Sessão da tarde, Meu primeiro Amor.

    Bjão.
    Diego, Blog Vida & Letras
    www.blogvidaeletras.blogspot.com

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    1. Ai que lindo que você conhece a música <3
      Obrigada pelos elogios!
      Beijo, beijo!

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  4. Ai São Paulo sempre acaba com a alegria das pessoas!

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