segunda-feira, 27 de junho de 2016

"Os contos completos" de Alberto Mussa | Editora Record


Contos e crônicas carregam no peito o cotidiano e alguma informalidade; ainda hoje, é possível que nas páginas do jornal de sua cidade você encontre alguma história de ares tão ficcionais, porém tão próximas, que seja quase impossível dizer se é verídica história ou sua própria mitologia.

O Rio de Janeiro, assim como muitas capitais, tem em seu passado e literatura um grande punhado de escritores-jornalistas que, em folhetins diários, compartilhavam crônicas de impérios e esquinas, amores, bondes e reformas trabalhistas, e também açoites, decretos e o velório da casa vizinha. Como não lembrar de Machado de Assis, Drummond, Cecília, Nelson Rodrigues e seus retratos de tudo isso...

Esta atenção ao dia-a-dia e suas invenções é certamente uma das heranças de nossos modernos pares literários, e se eu fosse indicar um primeiro autor para esse estudo da cidade e seu cotidiano, seria João do Rio, autor especialmente conhecido por sua obra A Alma Encantadora das Ruas:

"Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia – o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua."

E é com este quinhão sócio-antropológico de humores e história e também urbanidade que Os Contos Completos de Alberto Mussa chegam até nós, em uma edição que reúne obras anteriores do autor, desta vez revisitadas, e de certo modo reescritas, reinventadas. Em entrevista ao Blog da Editora Record, diz o autor sobre este processo de escrita:

Record: Sua obra tem forte relação com os mitos e a ideia de que toda escritura é, na verdade, recriação. O que não abole o inesperado, o extraordinário, o traiçoeiro. Nesse recente mergulho por sua obra completa, o que você próprio encontrou de inesperado?

Alberto: Inesperado é perceber que, a partir de um argumento, eu poderia ter escrito muitas histórias diferentes. Perceber que cada conto permite ser recriado de várias outras formas, ou perspectivas. Perceber que é sempre possível reescrever.

Record: Há algum tempo você tomou a decisão de diminuir consideravelmente a vastíssima biblioteca que mantinha em casa. É verdade que esse processo o aproximou ainda mais das narrativas curtas? Por quê?

Alberto: Talvez porque prefira, antes de tudo, o mito. E o mito se caracteriza por ter o máximo de conteúdo com um mínimo de expressão. Por isso, para mim, o mito é o gênero narrativo por excelência. Na literatura, em sentido estrito, nas manifestações escritas da narrativa, é o conto que faz o papel do mito. O romance, na verdade, é o gênero da redundância e da repetição. Numa limpeza de estantes, é natural que saiam mais romances que coletâneas de contos. É uma questão de fita métrica.



Alberto Mussa com propriedade recria um Brasil de nossos-povos, onde a origem é parda, pirata e indígena, desbravadora e também náufraga, neste encontrar/desencontrar-se pelos trópicos, estilhaços, carnes e febres. Nestes contos, a escrita de Mussa transborda ritual e rítmica, tal como a alma de seus personagens, que desaguam  em tantos séculos de história, e especialmente na sensibilidade de seu tradutor e cronista.

Para uma nova origem de nosso mesmo Brasil, visite o trabalho de Alberto Mussa! Certamente será uma grande descoberta pra você!

Sinopse da Editora: Esta coletânea de contos tem, pelo menos, uma particularidade. Os contos que a compõem são, em sua maioria, retomadas de textos anteriores do autor. Não são simples reedições: são reescrituras, novas versões cujo espectro varia desde a quase literalidade até a completa reformulação, ou a mixagem de textos anteriormente dispersos. Do Brasil recém-descoberto às favelas e bares cariocas, da África profunda aos nossos terreiros de candomblé, da Grécia homérica aos sambas-enredos, do Egito faraônico aos poetas árabes pré-islâmicos, Alberto Mussa recolhe mitos e causos até compor um repertório absolutamente original.


Biografia: Alberto Mussa nasceu no Rio de Janeiro, em 1961. Sua ficção abarca o conto e o romance, com destaque para o “Compêndio Mítico do Rio de Janeiro”, série de cinco novelas policiais, uma para cada século da história carioca. Recriou a mitologia dos antigos tupinambás; traduziu a poesia árabe pré-islâmica; escreveu, com Luiz Antônio Simas, uma história do samba de enredo; e organizou, com Stéphane Chao, o “Atlas universal do conto”. Entre outras distinções, ganhou os prêmios Casa de Las Américas, o de Ficção, da Academia Brasileira de Letras, o Machado de Assis (duas vezes), da Biblioteca Nacional, e o da APCA (também duas vezes). Seu romance mais recente, “A primeira história do mundo”, foi um dos vencedores do Oceanos 2015. Sua obra está hoje publicada em 17 países e 14 idiomas.


sexta-feira, 24 de junho de 2016

Rei Arthur e Os cavaleiros da Távola Redonda | Por Jonatas T.B.


“- São teus os segredos do reino das fadas, Merlim?
- Sim; a maior parte deles, meiga dama do lago. São segredos muito estranhos, e o mais importante jaz debaixo desta lousa.
- Qual é? Dize qual é, Merlim!
- O segredo do descanso eterno – respondeu Merlim, num devaneio -. O segredo cuja posse permite ao homem dormir dia após dia, de mês a mês, de ano a ano. Como eu desejo mergulhar nesse doce sono.”



Sobre as velhas histórias de sempre
 
I
Há histórias que germinam ao ponto de romper as palavras. E dessa fissura, tais histórias sopram, em nossos ouvidos, seus esporos sob o véu do que somos e do que sentimos. Não se sabe ao certo como ou por que, mas acredito que essa espécie de história seja imprescindível para a maneira como sonhamos o mundo. São como vitrais por onde a luz se derrama a fim de iluminar o interior de um castelo. Não é a luz lá fora, nem a construção que providencia forma às sensações. Creio que no fundo de nossas mentes, as histórias, já tão livres das letras, acendem uma chama que sugere sentido ao nome de todas as coisas. São essas histórias como raízes, sementes e vida própria.

“- Ide passar a vida inteira no conforto macio do vosso castelo, comendo e bebendo com vossos cortesãos, em festins suntuosos, divertindo-vos em combates simulados? Não sabeis o que significa uma grande aventura? (...) Não sabeis, podeis experimentar agora, seguindo as fadas caçadoras, grande rei Artur! Que tem que a dama vos tenha pedido só o resgate do seu cãozinho? Que importa que vos pareça magia e loucura tudo o que vistes, e que estejais mais à vontade e mais sossegado em vosso castelo? Tende a coragem de montar a cavalo e seguir Sir Gawaine ao reino das fadas, de tomar o castelo do perigo, de arriscar a vida no enredo tenebroso do vale sem regresso!” (pg. 98)



II

Quando acidentalmente li “Os cavaleiros da Távola Redonda”, uma edição da editora Vecchi publicada em 1958, logo nas primeiras páginas pude ouvir uma voz de Merlim, que me transmitiu algo além do que em geral os magos costumam transmitir. Os encantos do velho sábio aludiam ao tempo de criança, em que eu mesmo me sentia um mago e podia lançar meus próprios feitiços. Assim também ouvia os Cavaleiros da Távola, que pareciam me conduzir por entre um caminho familiar, enfrentando perigos familiares como gigantes e lobos no meio da floresta. Conforme lia a história corria livre pelos bosques povoados por dragões e fadas. A sensação era como se estivesse voltando para casa pela centésima vez depois de um longo tempo, mesmo que em um instante ou outro me perdesse pelo caminho. Tanto participei da história, que creio que poderia até espalhar as páginas amareladas daquele velho livro no chão do quarto e depois lê-las como cartas de baralho. Mesmo assim, não me perderia.

“Disse, pois, que deviam ser três anjos, na esperança de Perceval não tardasse a esquecê-los. Mas o menino empertigou-se, apalpou os músculos dos braços e declarou que, se os três cavaleiros eram anjos, ele pretendia ser como eles.” (pg.181)

Se ao acaso você me perguntar por que uma história contada tantas vezes e de tantas maneiras, como a Demanda do Santo Graal, poderia fazer alguém enferrujado e seco feito eu ser arrebatado para um mundo ao mesmo tempo estranho e familiar; se deseja me questionar como mera coletânea de lendas acerca de uma época em que nem os historiadores afirmam ter existido algum poderoso Arthur e cavaleiros, enquanto estabelecia a paz a unificar a Bretanha - e, se existiu de fato, se seriam seus costumes mais ou menos romanos, menos ou mais bretões; ou se insistir em me perguntar o que teria de especial um círculo de lendas sobre rei e magos, bruxas e fadas, dragões e princesas, tão semelhante a inúmeras lendas espalhadas pelo mundo, não se tratando sequer de uma história original... bem, sinto dizer que eu jamais teria na língua resposta.

Mas se servir de consolo, te aconselharia a inverter a pergunta: por que uma história não apenas sobrevive, mas reaparece como um fantasma escondido debaixo de mil máscaras como acontece com a de rei Arthur? Quais segredos ela guarda para que um número infinito de gerações e de povos queira contá-las, ou, também, o que há em nós a despertar-nos o anseio de ouvi-las?

E se duvidar da existência d’alguma verdade nas respostas que encontrar, não fique triste: as crianças continuarão desejando ouvir as aventuras do mago Merlin e rei Arthur sem se importar, tantos reis Arthur existam e sejam as versões de magos Merlim boas ou más. Haverá sempre, disso tenho certeza, um ouvido novo para ouvir de uma mãe ou um avô uma velha história. As histórias para sempre e sempre provarão, por si só, sua mágica além das palavras.

Fim


Observações:

Como eu havia dito, a versão de “Os cavaleiros da Távola Redonda” que eu tenho em mãos não informa ao menos quem foi seu autor, apenas que fora traduzida por Marina Guaspari. Quem puder me ajudar no conhecimento do autor original, agradeceria profundamente. Além desta, não descobri uma obra propriamente original sobre as lendas arthurianas até o presente momento. Existe o registro reconhecido como mais antigo escrito em latim por Geoffrey Monmouth (s. XII), o Historia Regum Britanniae. É um conjunto de relatos sobre reis da Grã-Bretanha desde sua origem. Além dessa obra, destaca-se a visão do poeta Wace (sec. XII) acerca dos Cavaleiros de Arthur, e também a de Chretien de Troyes (s. XII), que narra diversas aventuras sobre o Santo Graal. Também existe a versão contada pelo britânico Thomas Malory (séc. XV) de nome Le Morte D’Arthur (A Morte de Arthur), tornando-se uma das mais populares. Atualmente foi lançada pela editora Zahar uma edição de Rei Arthur e Os Cavaleiros Da Távola Redonda escrita e ilustrada pelo americano Howard Pyle. (http://www.zahar.com.br/livro/rei-arthur-e-os-cavaleiros-da-tavola-redonda-edicao-comentada-e-ilustrada)

A edição contemporânea de Jacqueline Mirande (sec. XX), baseada nas obras de Troyes, podem lidas no link disponibilizado pela Companhia das Letras (http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/11019.pdf).

Pretendo ler todas as possíveis e comentá-las em algum não tão distante futuro (se PapelPapel não se incomodar com a repetição do tema, claro).

Há, entre as diversas adaptações e inspirações, animações japonesas, histórias em quadrinhos, filmes, séries e outras variações desta lenda que compõem um belo tesselo nas fundações de nossa cultura. 


Creio que seja bem como eu dissera no início: há histórias que germinam ao ponto de romper as palavras.

Que bom que isso nunca termina.

[Recebidos] [Vídeo] A Jornada de Ruth, de Donald McCaig | Editora Record

E um dos recebidos da semana é "A Jornada de Ruth", de Donald McCaig, publicado pela Editora Record (2016). O livro é inspirado na personagem Mammy de "... E o vento levou" (1939), originalmente retratada como a cuidadora de Scarlett O'Hara. 


Nesta releitura de McCaig, Mammy é chamada Ruth, que como o personagem bíblico é também um símbolo de fé e fidelidade.

Para o autor, "A Jornada de Ruth" não é uma continuação de "...E o vento levou", mas uma história que o precede, pois apresenta ao leitor a infância de nossa protagonista, nascida em Saint-Domingue (ex colônia francesa e atual Haiti) e adotada por um casal de franceses após a perda de seus pais.


Em um conturbado cenário de guerra, Ruth e seus pais adotivos mudam-se para Savannah (Georgia), nos Estados Unidos, terra natal de Scarlett, que viria a nascer anos após este episódio.

"A Jornada de Ruth" narra então a história de Ruth-Mammy antes de se dedicar aos cuidados da pequena Scarlett e promete conquistar o leitor nesta emocionante jornada!

E como havíamos comentado no Instagram, agora temos um canal no Youtube, onde compartilharemos resenhas e vídeos não muito convencionais <3 E como o clima é de nostalgia, o vídeo também segue um formato "sessão da tarde na tv de 14 polegadas", risos. 

Confira (e claro, se inscreva em nosso canal <3):



Em São Domingos, colônia francesa consumida pelas chamas da revolução, um ataque cruel deixa um único sobrevivente — uma linda garotinha negra. O capitão Augustin Fornier a encontra, leva-a para casa e fica satisfeito ao ver que sua esposa, Solange, se encanta imediatamente pela menina que decidiram chamar de Ruth. Ao fugirem da ilha, os Forniers levam a criança e começam uma vida nova na cidade americana de Savannah, e Ruth é para Solange companhia, ombro amigo — e escrava. No auge da mocidade, Ruth experimenta o amor, o matrimônio e a maternidade — assim como perdas e traumas indescritíveis. Quando Solange dá à luz uma filha, Ellen, é Ruth — agora Mammy — quem cria, educa e protege a criança, permanecendo a seu lado todo o tempo. Quando Ellen se casa com o irlandês Gerald Ohara, leva Ruth a Tara, uma fazenda de algodão no interior da Geórgia, e a um novo capítulo de sua vida com uma nova geração de meninas Ohara. Todos apreciam a hospitalidade de Tara — especialmente os rapazes locais, quando a filha mais velha e rebelde de Ellen, Scarlett, cresce e se transforma em uma bela jovem.


domingo, 19 de junho de 2016

Central do Textão - Uma comunidade de Blogs



Sabe aquele dia em que a inernet está sem graça, as pessoas no messenger estão entediadas e não há nada na estante (bem, talvez uns 15 livros acumulados, mas não é o caso...) pra ler? Nestes dias, que tal conhecer blogs novos, e quem sabe encontrar o-novo-autor-da-sua-vida?

Central do Textão é um hub de blogs, e nele você encontra links para páginas literárias (inclusive a do Blog Papel Papel <3), diários, coleções de frases e fotos e músicas e... Enfim, imagino que hajam outras iniciativas agregadoras por aí, e a Central do Textão, além do nome divertido, pode também dar aquela animada no seu dia :)

Vamos conhecer alguns blogs então?


Esse é o blog da Val, e o Pedra é o blog que eu quero ser quando crescer :)
Poesia e amor, você encontra ali no caminho; conheça o blog também!


Um blog sobre criatividade, design, vida, empreendedorismo... Vontade de ler tudo!




Um blog literário, e também de variedades e opinião. Curtindo as resenhas o/



Não conheço o autor/autora do blog mas, pela informalidade de suas densas reflexões, já simpatizo!



Blog em tom de diário. Também há postagens de variedades, curti!



E você, já conhecia algum desses blogs? Gostaria de sugerir novas leituras? Deixe nos comentários suas ideias :)

Como eu era antes de você, de Jojo Moyes | Cinema


Esta é a história de Louisa Clark e Will Trainor. Pra quem ainda não leu Como eu era antes de você, recomendo as resenhas dos blogs Entre Aspas, Vida e Letras, Blog da Gih e Palavras Radioativas para uma introdução ao universo de Jojo Moyes <3 Em relação ao filme, de fato é uma honrosa adaptação da obra literária! Thea Sharrock, uma jovem diretora inglesa, conhecida por sua grande atuação no Teatro, foi convidada para trazer a obra de Jojo para os cinemas, e o resultado desta adaptação é simplesmente imperdível! Se você se emocionou com a A Culpa é das Estrelas, certamente reencontrará esta mesma sensibilidade em Como eu era antes de você. Mas vale o aviso: você realmente chorará MUITO ao longo do filme. Leve caixas de lenço para o cinema, sério.


- Oi! Olá! Olá, meu nome é Lou! Oi! Lou, prazer, oi!


Quem nunca se enrolou em um primeiro encontro levanta a mão! (se bem que não era um primeiro encontro de fato, mas...) 


Após umas duas semanas de trabalho na residência dos Traynor, Lou ainda não tem certeza de ter feito a escolha certa (sim, Louisa Clarke é contratada para ser a cuidadora de Will, ainda que as atribuições deste trabalho não estejam muito claras na mente de nossa protagonista...).

Neste momento de reflexão, Lou pode contar apenas com o apoio de sua irmã (que tem uma vida igualmente atarefada, por ser mãe solteira), sua melhor confidente, e eventualmente com Patrick, seu namorado há quase uma década, e que há pelo menos dois anos mantém-se estritamente focado em sua profissão (isto é: esportista + consultor + empreendedor + personal trainer + blah blah blah sem noção, sou genial). Ainda assim, Patrick é fiel e um bom namorado para Lou. E eles conversam. Tentam, pelo menos...


É, nada é para sempre, já dizia aquele filme do Brad Pitt...

Enquanto isso, os dias passam e o trabalho de Lou junto a Will continua. Mas quando o "trabalho" torna-se sinônimo de "vida", é aí que a história realmente começa <3 (e já pode ir separando a caixa de lenço)


Marian Keyes e os enredos em busca da felicidade. É, faz sentido, Jojo...


Aquele momento em que passamos a nos entender. Não somos assim tão diferentes, somos? 


Corações <3


Sim, para não dar spoilers, vamos pular algumas cenas e eventos do filme... (aliás, linda aquela edição da Intrínseca com os dois de smoking e vestido vermelho na capa, né <3)


E o filme segue e perguntamos: de onde vem a (c)alma?


Do coração, claro!
:)


E a partir dessa parte toda a plateia começa a se emocionar e a chorar profundamente. Fim.

Ah, compartilhe nos comentários o seu amor pelo filme!! E o link de sua resenha também <3

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Divagaísmo, de Cláudio Furtado - Editora Jaguatirica


As estações passam
As tristezas passam
Você também vai passar

Que coisa bonita
Riscos coloridos no ar
As estações passam
As tristezas passam
Você também vai passar.

 (Trecho do poema Nuvem)


Chicago, Nova York, anos setenta, noventa, São Paulo, Rio de Janeiro. Quando a história começa na cidade, a primeira imagem é a de Robert de Niro e seu táxi, às três ou em toda a madrugada, percorrendo a estrada e sendo por ela atropelado. Nesta vida que sangra pelas calçadas e por detrás das cortinas, muitos são os seus personagens: gravatas e colarinhos, punks e garçonetes, garrafas e hospitais, cortesãs e o lençol dos pedintes. Talvez esta cidade esteja a muitos quilômetros distante, ou nítida em sua imaginação, desejo ou apatia; ainda assim, o mundo que salta das sombras desenha novas cinzas, e nesta fuligem descobrimos seus corpos, e também algum sentido em tudo isso.

Divagaísmo é uma coletânea de poemas escrita em algum lugar desta juventude, feita de um mundo que transborda dores e segredos, e encontra alguma redenção na fala de filósofos, poetas e boêmios de todas as épocas. Escritos entre os 18 e os 22 anos, os poemas de Cláudio Furtado rimam corpos e cidades, paisagens do amor e amores passageiros, assim como a saudade e o êxtase no dia seguinte. O poema neste livro, assim como a voz do beatnik, é como um pássaro que desdenha os muros da cidade, e alça seu voo, indefinidamente, até o fraquejar de suas asas, que trincam e trancam-se e dobram-se, qual origami, cujos rasgos e vincos tornam-se a certeza de seus novos voos e sentidos. 

O conforto da alergia
Do sofá rasgado
As notícias despencam do jornal
Na viagem da cadeira de balanço
Saudade dos sorrisos esquecidos
Saudades das lágrimas perdidas
Sinto falta do que já tive
Sinto falta do que nunca tive
Beijos e beijos.

(Trecho de Influências do Poema Perdido)


Release: 'Divagaísmo' é essa arte de sair só e lentamente da realidade. Se antes os poetas flanavam para encontrar inspirações nos ares das ruas, hoje eles divagam através do éter, através desse grande espaço mágico, único e interminável que é a existência. Os poemas de Cláudio Furtado, escritos entre os 18 e os 22 anos, vão revelando surpresa, dúvida, deslumbramento, espanto, encontrando um mundo que não precisa ser real e concreto, mas que pode ser ideal e criado com as palavras.

Sobre o autor: Cláudio Furtado, 46, é carioca, nascido e criado em Piedade, bairro do subúrbio do Rio. Trabalha como engenheiro de telecomunicações, mas dedicou quase sua vida inteira à escrita. Divagaísmo é o seu primeiro livro a ser publicado e o autor já se prepara para lançar outros cinco, todos de poesia. Cláudio também já escreveu livros ligados a assuntos espirituais e esotéricos, tema pelo qual tem grande interesse.

Cláudio Furtado. Divagaísmo. RJ: Editora Jaguatirica, 2016.

sábado, 11 de junho de 2016

Soppy, de Philippa Rice - Texto por Jonatas T.B.


Apenas: um dos textos mais bonitos que você já viu neste blog :)
 
Soppy - Os Pequenos Detalhes do Amor, de Philippa Rice. Publicado pela Rocco/Fábrica 231



Soppy


Após fechar a última página do livro Soppy de Philippa Rice, eu te perguntei: lembra da primeira vez que você escolheu a palavra certa e disse no momento exato que ele abriu a boca para falar? Foi nesse dia que você quase soprou aquelas palavras. Seriam como borboletas pelo ar. “te am-” Você ia dizendo, mas ambos dobraram a língua e respiraram fundo como se tropeçassem. “que fo-“ alguém começou a perguntar. Mas você esperou de lábios unidos e olhos em silêncio; as pupilas num eclipse que engolia as cores da íris, sentindo cócegas nas bochechas até germinar um sorriso. Ele sorriu também. E aí está. Depois de ler Soppy até o fim me dei conta: para que precisamos tanto afirmar algo tão óbvio com palavras? Ou ainda: porque tanto de um carinho ensaiado. Nada contra carinho ensaiado. Mentira. Talvez um pouco. Um beijo na testa antes de dormir, mas nada além do necessário. E o que podemos achar ser necessário? Se bem me lembro, e se a história em quadrinhos estiver correta, creio que duas pessoas devem se conhecer em primeiro lugar. Em segundo, se, após pegarem contato, não conseguirem se livrar da vontade de ver o outro, podem trocar mensagens, marcar de sair para um restaurante japonês e se conhecer melhor. Talvez um cinema. No início a gente nunca se importa em escolher o filme. Em Soppy um escolheu ação e na outra vez seria drama. Acabaram vendo drama e, adivinhe: ela comeu pipoca, ele chorou igual criança. E mais uma vez: não disseram nenhuma palavra. Talvez um “amo baunilha”, ou um “Baunilha é versão piorada de chocolate”. Depois um abraço no ponto de ônibus e um sorriso debaixo da chuva. Uma amiga achou que eles começaram a morar juntos cedo demais, logo após um pôr-do-sol na praia. Eles não se importaram. Não disseram nada. No dia seguinte já estavam carregando os móveis para dentro de casa. Teriam bastante tempo para se conhecer agora. Talvez seja isso: em terceiro lugar é necessário simplesmente juntar as tralhas e viver. E ela vai conhecendo de perto o que ele se torna a cada dia. Deve fazer companhia no escritório, jogando Nintendo DS enquanto ele trabalha, ou aprendendo que nem todas as pessoas se importam em usar meias de cores trocadas. Ela descobriu que ele tem o corpo mais frio (curiosamente igual ao meu caso), por isso ele sempre está lá roubando calor quando se aninham debaixo do edredom ou se abraçam na sala. Mas não é motivo para problemas. Em troca ele estará sempre lá para salvá-la se acaso sinta medo do filme de zumbis. E no caso dela, também estará por perto para salvá-lo de usar aquelas camisas com estampas horríveis. Isso eu lembro que foi bem importante na minha vida. Obrigado. 

Confesso que a princípio não levei a sério Soppy, e nunca imaginei que me sentiria tão bem escrevendo para você sobre o quanto a história me tocou, de um jeito que a gente se sente feliz ao tomar sorvete caminhando no parque. E foi ótimo não levar Soppy a sério. É sempre melhor quando conhecemos algo que nos surpreende, ou alguém que nos atraia tão de repente, e o momento não caiba num segundo. E foi nesse um segundo que não parei de ler. É justo afirmar que foi assim comigo: conforme lia, as ilustrações doces e confortáveis cenas cotidianas desenhadas por Rice me diziam: está entendendo agora, bobão? E eu ria. Entendi, entendi sim, senhorita Rice. Entendi que entre os opostos há mais que diferenças. Da oposição se alimenta a verdadeira amizade, - e quem sabe também não se alimente o amor que não se diz em palavras. Um que se revela nos gestos do correr dos dias, e no silêncio do sono profundo à noite. Quem sabe...

Você sabe.


 

Snoopy e o Dia dos Namorados


Então, pra quase-terminar nosso especial-do-amor, nada como um pouco de realidade :D


Lucy - Semana que vem é dia dos namorados... Você vai me dar um cartão de presente?...
Schroeder - Eu nunca te dei antes... Por que você acha que eu lhe daria um nesse ano?
Lucy - COMO?!


Charlie Brown - Não é lindo esse cartão do dia dos namorados? Tá escrito eu te amo. Acho que vou dá-lo pra menininha ruiva...
Sally - Ela vai rir na sua cara.
Charlie Brown - Pelo menos vou estar perto dela...


Charlie Brown - Sim, senhora. Eu quero uma caixa de bombons pra uma menina que nem sabe que eu existo... Não, senhora. Nada que seja muito caro... Eu nunca vou ter coragem de entregar a ela mesmo...


Lucy - Você está sendo ridículo, Charlie Brown.
Charlie Brown - Não dá pra evitar! Eu não posso simplesmente chegar pra menininha ruiva e falar com ela. Ela tem um rosto muito bonito, e rostos bonitos me deixam nervoso!
Lucy - Como é que o meu rosto não deixa você nervoso, ãh?!? Você consegue falar comigo e eu tenho um rosto bonito! Como é que você fala comigo?...


Lucy - Pois não?
Charlie Brown - A senhora cura solidão?
Lucy - Por cinco centavos, curo qualquer coisa!
Charlie Brown - ... pode curar tristeza, falta de luz no fim do túnel, falta de esperança, fim do mundo, nada mais é importante...
Lucy - POR CINCO CENTAVOS?!


Charlie Brown - Bom, eu finalmente consegui coragem pra ligar pra menininha ruiva, só que liguei pra Marcie, por engano, e agora tenho um encontro com a Patty Pimentinha.
Sally - Acho que você está muito indeciso, irmão...
Charlie Brown - Não deixa de ser uma arte...


Outros episódios do amor:

Não há tempo para o amor, Charlie Brown, com destaque para uma bela reflexão da Patty Pimentinha sobre os dramas da vida:

Patty - ... ainda temos mais três meses de aula... Haverá mais estudo, mais teste, mais aula, mais agonia! Como alguém pode se apaixonar com essas coisas chatas acontecendo?! Teste pra fazer, redação pra escrever... coisas bobas! Não há tempo pro amor, Minduim...

Acho que concordamos com você, Patty... 
Ou não?
:)


 
sexta-feira, 10 de junho de 2016

Cadarço, um poema de Raigor Ferreira




Cadarço
Raigor Ferreira

Se eu te amarro, tu não gosta
Se eu me amarro, logo zanga
Se desamarro, ganho um tapa
De brinde, nem o nó da gravata

Um nó na minha cabeça,
outro no meu coração.
O terceiro, ainda á procura
daquilo que contemple
o seu sim, não, sim, não

Por quantas vezes, você desfez o nó
Aquele em que eu havia lhe amarrado
para te ter próxima a mim
nesse fio de lã revolto e desbotado

A indecisão é para os fracos
A certeza para amadores
O talvez é dos espertos
Para os apaixonados, apenas o para sempre

Se para sempre amarrado, feliz eternamente eu sou
Se para sempre desamarrado, tropeçarei até o caminho de volta

Se um nó eterno não for o bastante,
Prometo que ainda lhe trago
Um amontoado de lã
Escreveremos nosso enredo em um cadarço
Eu serei o bandido e você, a mocinha
Ou eu o mocinho e você, a vilã.



Raigor Ferreira é um jovem autor de Goiânia e parceiro do Blog. Seu conto "O Príncipe Congelado" pode ser encontrado no site da Amazon. Para conhecer mais do autor, leia a conversa entre Jonatas e Raigor, publicada no mês de abril.
quinta-feira, 9 de junho de 2016

Tortura e Glória, um conto de Clarice Lispector


Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina 
que era a felicidade.


Das histórias que contamos nos últimos dias, faltou-nos algum relato sobre o ciúme. E pra falar das (im)possibilidades do desejo, pensei em compartilhar uma história de um amor verdadeiro, desses que arrebatam e surpreendem, justamente por se apresentar como um sentimento fora das fronteiras do coração - e também do humano.

E pra traduzir toda essa abstração e pulsar, nada como um texto de Clarice <3 Espero que curtam!

Ps: Aceitam um spoiler? Dessa vez não tem romancinho no post rs



TORTURA E GLÓRIA


Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos. Veio a ter um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de algum livrinho, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima com paisagem de Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como data natalícia e saudade.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes eram a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Bom, mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do dia seguinte ia se repetir com o coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer está precisando que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você não veio, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se formando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Esta devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não entender. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para ela não era essa descoberta. Devia ser a descoberta da filha que tinha. Com certo horror nos espiava: a potência de perversidade de sua filha desconhecida, e a menina em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar agora mesmo As reinações de Narizinho. E para mim disse tudo o que eu jamais poderia aspirar ouvir. “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse é tudo o que uma pessoa, pequena ou grande, pode querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração estarrecido, pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei mais comendo pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.


Clarice Lispector, Tortura e Glória in A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999
Conheça outros livros da autora


quarta-feira, 8 de junho de 2016

Uma Carta de amor sobre trovões ventanias e promessas, por Diego França


Vinicius de Moraes

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


Rio de Janeiro, 1935


24 de setembro de 2005



Uma Carta de amor sobre trovões ventanias e promessas



Mais uma vez cai na tentação e não consegui não ligar para você. Eu acabei de ligar, Pedro, e eu estou me culpando por isso. Como posso ser tão bobo a ponto de fazer isso nesse dia de chuva pensando que, dessa forma, ele traria um pouco da claridade do sol para dentro de mim? Estou realmente satisfeito por ter escutado aquela gravação me dizendo que o telefone se encontra desligado.

Sei que você tem medo de raios e trovões, e de verdade esse foi o real motivo que me fez te ligar hoje. Sabe aquela vontade de te proteger? Era isso que eu gostaria de fazer agora. Liguei porque queria te distrair da chuva e de todo esse barulho que treme o seu mundo, como sempre fiz. E eu juro que por vezes olhei para a porta aqui de casa, imaginando que você entraria por ela correndo, dizendo que não conseguiu ficar em casa sozinho e que precisa dos meus carinhos naquele dia chuvoso. Sinto tanto a falta disso e me decepcionei quando as horas e os segundos foram passando e você não veio. Acho que agora é o meu mundo que balança porque você já tem quem te proteja e estou aqui sozinho, esquecendo de me proteger para não deixar que mal algum te aconteça. Me sinto um tolo por isso.

Mesmo assim eu gostaria de saber, de verdade, Pedro: essa garota cuida bem de você? Ela apoia você nos seus sonhos? Ela aponta uma decisão estúpida que pode te fazer mal futuramente como eu fazia? E na hora do café, ela coloca o açúcar com cuidado para que não haja nenhuma formiguinha que te impeça de bebê-lo?

Eu gostaria de não desejar tudo isso, mas eu só quero que ela esteja cuidando tão bem de você como eu fazia. Você acha, Pedro? Gostaria de saber essas respostas. Não sei porque essa necessidade, mas eu gostaria de saber se você acha que eu cuidava tão bem de você como eu penso ter cuidado. Você acha que cuidei demais a ponto de você rejeitar os meus cuidados um dia?

Eu sei que você certamente me diria que te fiz a pessoa mais feliz do mundo, mas eu não acredito mais nisso. Te acho tão mentiroso agora que suas atitudes são estranhas demais! Ainda que você me diga que não existirá alguém como eu na sua vida, como você me disse tantas vezes, eu não vou acreditar porque você levou embora toda a minha crença em relação a quem você realmente é - na verdade acho que nem você mesmo sabe. E sei que você me responderia com toda a sua ira e diria para eu não me preocupar com você, que eu deveria sentir raiva de você e não querer o seu bem.

Eu posso te dizer que sinto nojo e sinto um ódio terrível de você, mas só às vezes. Eu tenho um sentimento, que se batesse na janela do seu quarto e conseguisse entrar por ela, poderia ferir você de tão forte, porém, não é forte o suficiente para ultrapassar o vidro e te atingir. Então ele enfraquece novamente e eu acredito no ditado que diz que ‘o amor e o ódio andam de mãos dadas’. É por isso que a minha mão ainda reconhece a sua. Não sei até quando porque estou empenhado em soltar as suas mãos de vez, mas ainda não. Não quando você ainda me liga chorando, dizendo que aquela música especial te faz pensar emmim.

Olha, acho que já escrevi demais e essa carta talvez seja uma bobagem ainda maior que a ligação que você não atendeu. Mas espero que você esteja protegido desses clarões e barulhos assustadores que cantam nessa imensidão sobre nossas cabeças. Eu estou aprendendo a me virar por aqui. Fique bem. Corra da chuva. Não quero que fique resfriado. E, por favor, não ande descalço porque a sua alergia pode voltar a qualquer momento por conta do tempo. Proteja-se. Eu estou me protegendo de você também agora.

Até um dia, Pedro.

06 de junho de 2016


terça-feira, 7 de junho de 2016

Voos e Sinos e Misteriosos Destinos, de Emma Trevayne | Editora Seguinte


Quando Jonatas nos disse que poderíamos postar sua resenha no ano que vem, ou em alguma ocasião fora do mês dos namorados, percebi que não importa o mundo literário com o qual estejamos lidando: sempre que um livro nos toca, para o bem ou para a agonia, estaremos sempre falando de alguma espécie de amor - como o envolvimento de nossas lembranças com o inventário de amares do autor, ou com o que supomos que este esteja sentindo, ali, no dizer da página e da esquina.

Bom, pelo menos este tem sido o nosso entendimento (que certamente não é o único, e tampouco o ideal - como se houvesse um ideal) quanto ao que seja uma resenha; afinal, seja o livroautor que for, estaremos falando sempre do que bate aqui dentro, e do que ressoa, explode, paralisa, e também irrita, e deixa vermelha a carne e a pele do texto. Por este motivo, neste mês dos namorados, acordei com o pensamento em um livro de Hemingway, O Velho e o Mar, que talvez um livro à primeira vista não esperançoso, dolorido. E talvez Ernest tenha até sentido tudo isso, não saberemos. O que importa é que em suas páginas encontramos o mar e sua rotina (assim como o trabalho das intempéries e dos dias), e estes igualmente nos falam deste algum sentimento-amor: porque é preciso força pra acordar neste sol que atravessa a espinha, e que como lança ou revés atravessa nossa correnteza e ritmo, e dela pesca o mais rosado peixe, e deixa o coração ficar vazio, ou com um anzol enrolado na espinha.

Hoje, por lembrar desde amor demais, postaremos então uma resenha que fala de mundos atravessados, e sentimentos engasgados, atropelados pelo desejo de partir, bem como o de não mais (des)esperar. Conheça Voos e Sinos e Misteriosos Destinos, de Emma Trevayne, publicado pela Editora Seguinte.
 

Sinopse: Nesta fábula moderna, com gosto das aventuras clássicas que encantam os jovens leitores há tantos anos, conhecemos a história de Jack Foster, um garoto de dez anos que, como qualquer um da sua idade, sonhava viver grandes aventuras. Ele morava em Londres mas estudava em um colégio interno, voltando para casa apenas nas férias, quando ficava completamente entediado.

Mas, um certo dia, Jack atravessa uma porta mágica e, do outro lado, encontra uma cidade ao mesmo tempo muito parecida e muito diferente daquela que conhecia. Em Londinium, apesar de reconhecer as ruas e prédios, ele encontra um cenário steampunk, com engrenagens e fuligem por todos os lados. Por ali era raro encontrar alguém que não tivesse nenhuma parte do corpo feita de metal. E era justamente isso que a Senhora - uma mulher rígida e temperamental que governava a cidade desde sempre - buscava: um filho de carne e osso.

Jack logo descobre que aquele lugar era extremamente perigoso, e que voltar para casa não seria tão fácil quanto tinha sido chegar até ali...



O Império sem Mãe


Se algum dia na sua vida pensou em fugir de casa, certamente há um pouco de “Voos e Sinos e Misteriosos Destinos”, por Emma Trevayne, que tenha a ver com você. Eu mesmo tive minha cota desse tipo de ideia tola. Em torno dos cinco anos, quando era contrariado por minha mãe, costumava choramingar que iria embora e nunca mais a veria novamente. Depois corria pelo quintal e arremessava bonecos de borracha, daqueles que se aperta para fazer um barulho com o apito embutido, e eles sumiam por cima do muro. Esperava ter uma desculpa para escapulir pela porta da frente e desaparecer nas ruas e nunca mais voltar. Porém, diferente de Jack, o genial menino que protagoniza a história de Emma, nunca tive coragem de ir além da calçada.

Jack era bem mais velho do que eu era naquela época, apesar do pensamento de fugir nunca me ter escapado até a idade dele (quase onze anos). Tampouco fui uma criança genial, capaz de desmontar, montar e consertar qualquer engenhoca mecânica, ao passo que ele se mostrava prolífero. Sempre tive talento apenas para quebrar. Todavia, enquanto vivi a breve aventura com o menino Jack, atravessando um portal de Londres para a cópia quase exata chamada Londrinum, senti o gostinho do seu impulso em conhecer e explorar o mundo distante. Não que agora eu tenha perdido esse impulso, mas todos sabemos que, quando ficamos velhos, o desejo de explorar não é a mesmo da primeira vez nessa idade.

Toda a cidade era úmida de óleo e suja de fuligem numa versão excêntrica do século XIX. Conforme caminhava pelas ruas pavimentadas, não houve um instante em que não sentisse o cheiro de carvão e ouvisse o som de enormes fornalhas com esteiras movidas a engrenagens, carregando toneladas de minério para fundir. Ela pulsava e trabalhava sem parar a fim de sustentar o misterioso Império de Senhora. E o mais curioso neste mesmo mundo abarrotado de máquinas e embarcações aladas, é que havia fadas a voar livres pelos cantos arrumando problemas e beliscando canelas de distraídos. E dragões, alguns, autênticos monumentos de engenharia industrial com suas asas afiadas, aterrorizando montanhas, sedentos por uma bela dose de óleo lubrificante.

Senhora deve ser alguém muito poderosa para governar um mundo assim, você deveria se perguntar. E afirmo que eu pensei a mesma coisa, que se tratava daquelas personagens em que se concentra a mais poderosa e antiga forma de magia, uma déspota que submete os demais aos seus caprichos e envia o mais tolo desafeto para a condenação pela forca. Entretanto, creio que ela fosse uma personagem bem mais complicada: Senhora já tinha tudo, isso era óbvio, mas lhe faltava alguma coisa cuja necessidade nascia em sua natureza feminina. Ela desejava ser mãe. Então, sentia-se incompleta, por isso pedira ao fiel Lorcan lhe trazer algum garoto e assim compensasse a falta. A condição de Senhora é uma perspectiva que aprecio numa história pela primeira vez, que me lembre. Você deve se recordar de que Peter Pan e os meninos perdidos tinham Wendy como mãe, e os irmãos de Wendy chegaram a acreditar que ela era sua mãe de verdade. Na história de Trevayne acontece o contrário: ao invés de filhos precisando de mãe, é uma mãe que anseia por um filho, e tal desejo poderia ter um efeito catastrófico, exatamente por ser uma personagem com tamanho poder. Então, Trevayne, desde já te agradeço por ter contado esta história assim.

Eis a aventura de Jack, um menino adotado por Senhora de Londrinum e todo mundo conhecido, habitado por unicórnios, autômatos com alma e magos com braços mecânicos que invocam diabretes para lhes cortar o dedo e praticar a clarividência. Agora, é por sua própria conta e risco acompanhar Jack nessa bem venturosa jornada para longe e de volta à casa. Não posso ir com você além daqui.


P.S. para Noemi:
Quanto à minha própria mãe, espero que não se entristeça se souber que me anima lembrar daquele tempo de criança fujona. Não posso mentir que creio que a vontade de ir para longe seja algo bom, talvez uma virtude. Acho a experiência necessária para que se prospere no coração o valor da saudade. É uma maneira de nós aprendermos que não há lugar melhor do que com nossa família, e se o retorno não for possível, ou se mesmo não houver família que preceda a jornada da vida, que, numa sucessão infinita de tentativas que carregamos desde nossos ancestrais, sigamos adiante e fundemos o nosso próprio lar. É no que acredito.


Por Jonatas T.B.
Junho 2016