quarta-feira, 20 de julho de 2016

Não diga adeus - Uma crônica de Gih Medeiros

All your eyes have ever seen | Todas as coisas que viveu
All you've ever heard |
Tudo o que conheceu
Is etched upon my memory | Está marcado na memória
Is spoken through my words | e presente em minhas palavras
 
All that I take with me |
Carrego comigo
Is all you've left behind | tudo o que deixou para trás
We're sharing one eternity | Compartilhamos a eternidade
Living in two minds | Habitando em duas mentes
Linked by an endless thread | E unidos por um fio infinito
Impossible to break | que não romperá jamais

Dream Theater, Through my words
(tradução livre)




Não diga adeus


Nos últimos tempos muito se fala em desapego, na autovalorização, no “deixar ir” o que não queremos mais. Mas, ao praticarmos esse tal desapego, devemos tomar cuidado para não deixarmos de lado pessoas ou coisas que realmente importam.

Digo isso porque as relações interpessoais estão cada vez mais superficiais e frágeis. Qualquer coisa é motivo para nunca mais mandar um “oi” no Whatsapp para aquela pessoa com quem você falava diariamente. A tão famosa afirmação “quem muito se ausenta, uma hora deixa de fazer falta” virou quase um mantra para justificar o rompimento de relações e círculos que mal se iniciaram, ou que já perduram nessa corda bamba há muito tempo.

Mas, já parou para pensar que talvez, se a pessoa se ausentou um pouco, foi porque tinha um bom motivo? De repente, essa pessoa está passando por um momento difícil e tudo o que ela precisa (e não encontra) é de uma mão que a auxilie, uma palavra de conforto, ou até mesmo uma oração em seu favor. 

O contrário também acontece. Para algumas pessoas é difícil abrir mão das pessoas, das coisas, das lembranças. Eu já fui uma dessas pessoas. Sempre tive muita dificuldade em abrir mão de qualquer coisa na minha vida. Talvez seja um trauma causado por tantas mudanças de residência quando eu era criança e adolescente, e cada vez que isso acontecia, era muito difícil mesmo, sair daquele lugar, deixar os meus amigos... 

Ao longo do tempo, tive que me habituar a essas perdas e hoje em dia, não sofro tanto ao sair de um lugar e ir morar em outro, pois a tecnologia contribui para a manutenção de quem realmente quer permanecer na minha vida.

Mas nem todas as perdas são fáceis de aceitar. Despedir-se de alguém que nos é querido é uma das maiores dores que se pode imaginar. No dia a dia no trabalho, infelizmente faz parte perder um ou outro paciente, principalmente na área em que atuo, pois as pessoas com déficit neurológico, na maioria das vezes, desenvolvem muitas complicações associadas. Quando acontece, é sempre um choque, mesmo que a gente saiba que a pessoa está mal, internada, sofrendo, e que talvez o melhor para ela seja justamente deixar o corpo terreno. Não estou fazendo apologia a nenhuma religião, cada um que acredite no que quiser, mas eu gosto de pensar que existe algum lugar onde podemos reencontrar todos aqueles que se foram antes de nós.

Desculpem se o papo está muito deprê. Essa semana perdi um paciente. Uma criança de quem eu tratava desde os 3 meses de vida. O estado dele era grave, não se sintam mal por ele não ter aguentado ficar por aqui. Mas, a sua partida levou embora consigo um pedaço do meu coração já tão quebrantado. Só quem já perdeu alguém que se ama, sabe como é difícil lidar com essas partidas e eu não parei de pensar no sofrimento dessa família que girava em torno da vida dessa criança.

Então, eu me pergunto, como eles vão seguir em frente agora? O mundo, infelizmente, não para de girar, para que possamos recolher nossos caquinhos e ir adiante. Mas, de algum jeito a gente levanta a cabeça e enfrenta, um dia de cada vez. E a cada dia, a dor vai sendo acompanhada por um sentimento mais bonito, o da saudade. E que bom se você sente saudade de alguém ou de alguma época da sua vida. Significa que você viveu, se envolveu, se entregou. 

Torça para que você também faça parte das lembranças de alguém que está distante, torça para que a sua melhor amiga desde os 11 anos de idade, lhe diga ao menos uma vez no ano que toda vez que toca Bon Jovi, ela se recorda da época em que vocês ficavam sentadas na calçada, escutando a declaração de amor em Bed of Roses ou os acordes de Miracle, imaginando um futuro onde se pudesse ter um amor como os descritos nas canções. Torça para que sua amiga da faculdade em um reencontro, haja com você como se a tivesse visto ontem, mesmo que tenham se passado alguns anos desde que vocês se falaram pela última vez. Torça para que alguém se recorde de você quando precisar de um conselho sobre uma decisão que pode mudar completamente a sua vida.

E não reaja mal se depois disso houver um hiato de contato entre vocês. Não significa que a amizade morreu ou ficou em segundo plano. Pode ser apenas uma reação normal das pessoas em um mundo onde mal temos tempo para olhar para dentro de nós mesmos e reavaliarmos nossas próprias decisões. Não é por mal. Ao menos, não sempre.

E se um dia perder alguém especial para a inexorável finitude de nossa vida terrena, não esqueça  daqueles que um dia foram importantes para você nem do tempo que tiveram juntos. Guarde as boas lembranças e torça para um reencontro. Fique com o que foi bom.

É o que eu faço, já que não acredito em adeus. Por isso, àqueles que passaram por minha vida e se foram, de um jeito ou de outro, desejo apenas um até breve, pois acredito que a gente se encontra por aí. De um jeito ou de outro.


“Só que você foi embora cedo demais
Eu continuo aqui
Meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você
Dias assim, dias de chuva, dia de sol
E o que sinto não sei dizer
Vai com os anjos, vai em paz
Era assim todo dia de tarde
A descoberta da amizade, até a próxima vez
É tão estranho
Os bons morrem antes
E lembro de você e de tanta gente que se foi cedo demais
E cedo demais, eu aprendi a ter tudo que sempre quis
Só não aprendi a perder”

Os bons morrem jovens, O descobrimento do Brasil. Legião Urbana, 1993.
sexta-feira, 15 de julho de 2016

Lya Luft | Editora Record



Convite

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.


(Extraído do livro Perdas & Ganhos)


Na falta de (saúde respiratória para peregrinar por) sebos aqui no Rio de Janeiro, tenho há algum tempo procurado nas livrarias por reedições de autores hoje considerados clássicos, como Drummond, Cecília Meireles, Raquel de Queiroz, Marina Colasanti, Vinicius de Moraes... E fico feliz de ver que a Record, a Global, a Alfaguara e a Companhia das Letras permanecem como exemplos de casas publicadoras que resgatam esta memória de nosso país e nos surpreendem com o esmero de suas reedições.

Meu achado-amor mais recente foi uma edição de Exílio (1987), de Lya Luft, publicado pela Record, e que permanece como uma das mais belas (e trágicas) publicações sobre o passado e suas perdas, e da reminiscência de tudo isso. Porque o que permanece é uma voz de saudade, mas também um abraço da melancolia.

Exílio nos faz pensar em nosso diário de fatalidades e escolhas; na voz de sua protagonista, uma personagem que cresceu à sombra do suicídio de sua mãe, e também do cuidado e dívida do que restou de sua família, Lya Luft nos conta da família que se desfaz em um gesto ou em um crime, e do amor que se desfaz em pequenos passos, e também junto aos grandes desvios. Porque o desafeto e o abandono não silenciam, e o que nos resta é aquietar o coração, e apegar-se ao grão de vida que escapa às ruínas e quedas de nossos dias...


"Fiquei fora. Mas posso me aninhar num regaço transitório entre essas raízes cúmplices, no chão eterno. Auscultar o coração emaranhado das coisas, que empurra as torrentes da vida e da morte que nos levam. Talvez eu não consiga chegar em casa. Talvez, chegando, eu não possa ficar. Quem sabe? Mas eu vou seguir em frente."




Tão sutilmente em tantos breves anos


Tão sutilmente em tantos breves anos
foram se trocando sobre os muros
mais que desigualdades, semelhanças,
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
o filho que se faz, uma árvore plantada,
o tempo gotejando do telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
o pó de um cotidiano desencanto.

Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
que uma em outra pode se trocar,
sem que alguém de fora o percebesse nunca.


(Extraído do livro Secreta Mirada)




Biografia:

Lya Luft começou sua carreira literária em 1980, aos 41 anos, com a publicação do romance As parceiras, seguido por A asa esquerda do anjo (1981), Reunião de família (1982), Mulher no palco (1984), O quarto fechado (1984), Exílio (1987), O lado fatal (1988), A sentinela (1994), O rio do meio (1996, Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes), Secreta mirada (1997), O ponto cego (1999), Histórias do tempo (2000), Mar de dentro (2002), Perdas & Ganhos (2003), Pensar é transgredir (2004) e, no mesmo ano, Histórias de Bruxa Boa, sua estréia na literatura infantil, tema que retornaria em 2007 com A volta da Bruxa Boa.

Em 2005, publicou o volume de poesias Para não dizer adeus e, em 2006, a reunião de crônicas Em outras palavras. Em 2008, após quase uma década afastada da ficção, Lya retorna ao gênero com O silêncio dos amantes.

Formada em letras anglo-germânicas e com mestrados em Literatura Brasileira e Lingüística Aplicada, Lya trabalha desde os 20 anos como tradutora de alemão e inglês, e já verteu para o português obras de autores consagrados, como Virginia Woolf, Günter Grass, Thomas Mann e Doris Lessing, além de ter recebido o prêmio União Latina de melhor tradução técnica e científica em 2001 pela tradução de Lete: Arte e crítica do esquecimento, de Harald Weinrich. Desde 2004, assina a coluna Ponto de vista, da revista Veja.


Conheça outros livros da autora publicados pela Record:


 
quinta-feira, 14 de julho de 2016

O museu-casa de Jane Austen

Para formar minhas ideias e meus sentimentos
Eu sou a soma de tudo que vejo
E minha casa é um espelho
Onde a noite eu me deito e sonho com as coisas mais loucas
Sem saber porque

É porque trago tudo de fora
Violência , dúvida, dinheiro e fé
Trago a imagem de todas as ruas por onde passo
E de alguém que nem sei quem é
E que provavelmente eu não vou mais ver
Mas mesmo assim ela sorriu para mim
Ela sorriu e ficou na minha casa que é meu reino

(...) Lembranças perdidas, sem sentido
Juntas pra mim, parecem música

(Biquini Cavadão, Meu Reino)


Versos de uma canção antiga nos dizem do conforto que é a saudade, e também a pausa, a respiração longa, o descanso em um canto escolhido; porque o espaço da casa é um memorial de nós mesmos, e na correria dos dias nem sempre organizamos nossos passos e o criado mudo, ou a caixa de fotos e as lembranças intraduzíveis; mas é preciso tempo pra cuidar de nossas coisas, e de sermos cuidados por tudo o que nos cerca, seja no cantinho-conjugado, no quatro quartos ou no sofá do amigo; é preciso aquietar a alma, e entender que nem sempre haverá o melhor dos cantos, porém por perto encontrar seus encantos e rimas, especialmente a sós, quando com nossos livros e alegrias e discos estivermos. Pode soar mera fantasia, mas se para o escritor há um conforto em seu caderno e lamparina, como poderíamos deixar de nos encantar com tudo isso?

Nesta postagem, em imagens e citações recriamos as histórias de uma de nossas autoras favoritas, Jane Austen. Situada na pequena localidade de Chawton, a cerca de 80 quilômetros a sudoeste de Londres, a Casa-Museu de Jane Austen foi a última morada da escritora, que ali viveu entre 1809 e 1817 com sua mãe e irmã Cassandra. Das obras produzidas no período, destacamos "Mansfield Park", "Emma" e "Persuasão".

Conheça então o Jane Austen Museum e se apaixone ainda mais pela autora!




"Em tais momentos de angústia preciosa, incalculável, ela exultou em lágrimas de agonia por estar em Cleveland; e, quando voltava por um caminho diferente para a casa, sentindo todo o feliz privilégio da liberdade no campo, de perambular de um lugar para o outro na solidão mais livre e luxuriante, decidiu que passaria quase todas as horas do tempo que ficasse com os Palmer no abandono daqueles passeios solitários." (Jane Austen, Razão e Sensibilidade)


"Talvez, Elinor, tenha sido mesmo imprudente de minha parte ir até Allenham; mas o senhor Willoughby queria me mostrar o lugar; e posso lhe garantir que é uma casa encantadora. - Tem uma sala lindíssima no andar de cima; de um tamanho bem confortável para uso diário, e com móveis mais modernos ficará deliciosa. É uma sala de canto e tem janelas dos dois lados. (...) Coincide exatamente com minha ideia de uma bela região campestre, pois alia beleza e praticidade - e, arriscaria dizer, também o pitoresco, pois se pode admirar a paisagem..." (In: Razão e Sensibilidade)



"A atenção da senhorita Bingley se dedicava, na mesma medida, a seu livro e a observar o progresso do senhor Darcy na leitura do livro dele; e estava sempre fazendo uma pergunta ou vendo a página em que ele estava. Não conseguia conquistá-lo, contudo, com nenhuma conversa; e ele simplesmente respondia a suas perguntas e tornava a ler." (In: Orgulho e Preconceito)

 (Todas as imagens foram retiradas do site Tripadvisor)


Outros exemplos de Museu-Casa pelo Brasil e pelo mundo:

Fundação Casa de Rui Barbosa (RJ)
Museu Casa de Santos Dumont (Petrópolis/RJ)
Museu Casa de Portinari (SP)
Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura (SP)
Instituto Hilda Hilst (Campinas/SP)
Museu Casa de Guimarães Rosa (MG)
American Writers Museum (Chicago/IL, USA)
Casa de Edgar Allan Poe (Philadelphia/PA, USA)
Museu Charles Dickens (Londres/Inglaterra)
Museu Sherlock Holmes (Londres/Inglaterra)
Casa de Virgina e Leonard Woolf (Sussex/Inglaterra)


E você, já teve a oportunidade de visitar algum desses museus? :)
segunda-feira, 11 de julho de 2016

Every Exquisite Thing, de Matthew Quick

- We can't know for sure.
- Why?
- The story ends.
- But you could write more!
- No, I can't. There's no more to write.
- Why?
- Just the way it is. The story ends where it ends.

- Não dá pra saber.
- Por quê?
- A história acaba?
- Mas você poderia ter escrito mais!
- Não, não poderia. Não há mais nada para escrever.
- Por quê?
- Simples assim. A história acaba onde precisa acabar.

(p. 17)


Todas as coisas permanecem. Todas as coisas bonitas, tão bonitas como você, permanecem, neste algum momento em que percebemos o extraordinário em algo simples. Assim é a delicadeza; assim é Every exquisite thing, o novo livro de Matthew Quick.

Nanette O'Hare é a nossa protagonista, cuja adolescência divide-se em silenciosas conversas com Mr. Graves, seu melhor amigo e professor, e também junto ao time de futebol da escola, onde ocupa o posto de exímia artilheira, ainda que contra a sua vontade. "Não é porque você é boa em algo que precisa continuar executando essa coisa", dirá Booker, seu novo amigo, em um ponto futuro da história.

Era quase Natal quando Nanette recebeu do senhor Graves um pequeno pacote e uma dedicatória: "Just a little something from one cafeteria avoider to another" (Uma lembrança de um solitário-do-refeitório para outro). Dentro do pacote havia um livro, The Bubblegum Reaper, há décadas esgotado, porém vivo no coração do professor, e agora dedicado a sua aprendiz: "I promised myself that I'd pass my copy on to the right student whenever he or she came along, (...) and I have a feeling that it might be the perfect read for you. Maybe even a rite of passage for people like us". (Prometi que daria a minha cópia para o estudante certo, quando ele ou ela aparecesse, (...) e eu sinto que esta seria uma leitura perfeita pra você. E talvez um rito de passagem para pessoas como nós). Não preciso dizer que Nanette leu toda a história em uma noite e que seu mundo não seria mais o mesmo depois de suas páginas, certo?

A identificação com The Bubblegum Reaper fez com que Nanette conhecesse pessoalmente seu autor, Nigel Booker, hoje um senhor dividido entre uma vida solitária e a solidão da literatura. E a proximidade com uma obra literária propicia todo um encontro de mundos, e também um tanto de incertezas: The Bubblegum Reaper era como 'manifesto' para jovens como Nanette, e amizade com Booker uma bússola (ainda que meio fora de rumo) para as dores da adolescência. Neste momento da história, as narrativas pessoais de Nigel Booker (inclusive as descritas em The Bubblegum Reaper - que aqui não comentaremos, por motivos de "seria spoiler") se aproximam de todo o punhado de pessoas que passa a acompanhá-lo; afinal, tudo o que nos move não apenas permanece, mas ilumina este percurso (por vezes silencioso) chamado vida.


"There are a lot of lonely kids in this world, but the problem is that they don't know about each other. If the lonely kids could just team up, a lot of good things would happen, but the world is incredibly afraid of lonely people teaming up, and so does its best to the keep them apart.
Why?
Because lonely people often have great ideas but no support. People with support too often have bad ideas but power. And you don't give up power. (...) (And) I think you should meet this kid who's been sending me poetry. (...) He calls himself Little Lex."

"Existem muitos jovens solitários neste mundo, mas o problema é que eles não se conhecem. Se todos os solitários pudessem se unir, coisas incríveis poderiam acontecer, mas o mundo teme esse encontro, e faz o possível para mantê-los distantes.
Por quê?
Porque os solitários geralmente têm grandes ideias, mas nenhum apoio. E pessoas que tiveram oportunidades geralmente possuem ideias péssimas, e muito poder. E não se abandona o poder... (...) Eu acho então que você deveria conhecer esse garoto que tem me enviado alguma poesia. Ele gosta de ser chamado de Pequeno Alex."


E o que acontece após o encontro de Nanette com Booker e o livro The Bubblegum Reaper? Matthew Quick primeiramente dedica toda uma importância ao papel que uma obra literária (ou musical ou artística, ou até uma simples carta, como em A Sorte do Agora, onde seu protagonista, Bartholomew Neil, encontra nas palavras de Richard Gere - sim, o ator - uma espécie de porto seguro para os dias difíceis, e também uma forma de encontrar a si mesmo ao escrever uma carta-reposta - na verdade, mais de uma - para o senhor Gere) pode exercer em nossa vida, especialmente nos dias de desamparo e insegurança (lembram da referência ao "Uma Aflição Imperial" em A Culpa é das Estrelas? É por aí.). Em seguida, o autor apresenta-nos Little Alex, personagem fundamental neste novo mundo a ser descoberto por Nanette, e também essencial para a vida de outros personagens que aparecerão ao longo da história.

Every Exquisite Thing é um livro de interrogações e descobertas, e finais nem sempre felizes - afinal, a alegria estará sempre nas pequenas lições e vitórias de nossa vida, e também no entendimento de seus acidentes e desvios...

Can love win? (Pode o amor vencer?) Se não tentarmos, bem, não saberemos.


Release de lançamento: Every Exquisite Thing. Little, Brown & Company (May 2016)

Nanette O’Hare is an unassuming teen who has played the role of dutiful daughter, hard-working student, and star athlete for as long as she can remember. But when a beloved teacher gives her his worn copy of The Bubblegum Reaper—the mysterious, out-of-print cult-classic—the rebel within Nanette awakens. (Nanette O'Hare é uma jovem retraída que desde sempre mantém o seu papel de filha obediente, estudiosa e atleta. Mas ao receber de um estimado professor um exemplar usado de The Bubblegum Reaper - uma misteriosa obra clássico-cult já fora de catálogo, a rebeldia que há em Nanette desperta.)

As she befriends the reclusive author, falls in love with a young troubled poet, and attempts to insert her true self into the world with wild abandon, Nanette learns the hard way that sometimes rebellion comes at a high price. (Quando inicia uma amizade com um autor recluso, e se apaixona por um jovem e problemático poeta, e decide confrontar o mundo com o seu verdadeiro eu, será nessa hora que Nanette entenderá que é preciso pagar um alto preço para viver o melhor de sua vida).


Ps: Querida Intrínseca, será que rola de adicionar este Matthew Quick à lista dos para-ser-traduzido? <3
sexta-feira, 8 de julho de 2016

Novidades Global Editora - Ignácio de Loyola Brandão | "O beijo não vem da boca" e "Se for pra chorar, que seja de alegria"


Se for pra chorar, que seja de alegria é o título da recém-lançada publicação do autor Ignácio de Loyola Brandão, que aos 80 anos recebe o prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. Com lançamento pela Global Editora, o autor reúne nesta publicação 41 crônicas escritas durante a sua carreira no Caderno 2, do jornal O Estado de São Paulo, e na Tribuna de Araraquara. No dia 27 de julho, a partir das 18h30, na livraria Martins Fontes (Av. Paulista, 509) em São Paulo, o autor participará de um evento de lançamento da obra. 

Como estamos no Rio de Janeiro (assim como muitos de vocês, também fora de São Paulo), e do autor conhecemos crônicas de outros tempos, nesta postagem compartilhamos alguns de seus saudosos textos, e também o release de mais este lançamento literário.



80 perguntas sem resposta. Se fossem 1.000 seria igual


1.

Foi por causa de uma frase, um olhar, um cheiro, um barulho incômodo, um gesto brusco, uma comida que deixei queimar, um livro que desmarquei, o tubo de pasta que apertei demais, um brinco de sua avó que estava em meu bolso e perdi, um elevador que encrencou, um carinho que não fiz num dia de carência, ter usado o horrível pijama de bolinha, uma carta a que me esqueci de responder (quase impossível comigo), um filme vagabundo que te levei a ver, uma mancada sem identificação, a falta de sol, a escolha de uma cor de mau gosto, uma flor que não trouxe, um peido inconveniente, o relógio que parou, uma trepada não dada por cansaço, um copo de cerveja derramado em seu colo, a meia que não combinava, um número de telefone que não soube explicar, um erro no saldo do canhoto de cheque, um ônibus atrasado, um jornal de ontem, um cigarro mal apagado no cinzeiro, os cabelos que deixei no sabonete, uma troca de nomes, um lençol mal dobrado na cama, o silêncio depois de uma reportagem suada, o não ter pego em sua mão no teatro, o olhar inadvertido que lancei àquela mulher, a brincadeira com o avião (acredita que eu ia te matar?), uma fotografia velada, as férias goradas por excesso de trabalho, um programa de tevê que não deixei você ver por causa do meu futebol, uma troca de letras, o tanque de gasolina vazio num domingo, uma resposta brusca, uma dormida no seu travesseiro de paina, o não ter acreditado nos carocinhos dos teus seios, um palavrão grosseiro, um sabor errado de sorvete, o suco de abacaxi de garrafa, em vez do  natural, na mistura com Steinhagen, um assobio agudo nos seus ouvidos, um sapato que rangia, um tropeção no seu pé, uma barata que não matei, os quadros que não pendurei, o ter contado o fim do romance policial, uma tesoura sem corte, as bobagens que comprei no supermercado, esquecendo o essencial, o não saber dirigir um balão, a mola do colchão que estourou cutucando sua costela, um embrulho para presente muito malfeito, um bilhete que não deixei, o gás que faltou, ter manchado de porra a tua saia nova, ter pedido para maneirar na velocidade por causa das minhas filhas que iam atrás, a geladeira vazia quando você chegou de viagem, não ter gritado saúde quando você espirrou, um susto incidental, o ter demorado para abrir a porta, o vinho que não trouxe, o recado que esqueci de dar, um lápis sem ponta, a falta de água num dia de calor, um vestido de que não gostei, ter ficado demais lendo no banheiro, uma gozação inoportuna, uma gargalhada escandalosa em momento solene, uma planta que secou, os óculos embaçados, uma rua que errei, a cara emburrada num dia de mau humor ou um beijo que só veio da boca?


2.

Agora, você me odeia? 



(Publicado em: O beijo não vem da boca, 1999)





(Trecho de crônica publicada em Se for pra chorar, que seja de alegria)


Release: Prestes a completar 80 anos de idade, Ignácio de Loyola Brandão ainda é um verdadeiro contador de histórias. Não há quem não se envolva por completo ao ouvir suas palestras por Brasil afora. E quem conta boas histórias, escreve boas crônicas. Em Se for pra chorar que seja de alegria, o autor reúne 41 crônicas escritas durante a sua carreira no Caderno 2, do jornal O Estado de São Paulo, e na Tribuna de Araraquara.

Gestada na linha tênue entre o que foi e o que poderia ter sido, a crônica é tocada pelo calor do momento e, mesmo que seu autor não se dedique a radiografar um acontecimento naquele instante, lá está o tempo a tingi-la com suas cores, sabores e odores. Mas para que a crônica fique no coração de quem a lê e se torne uma manifestação perene, consagrando-se, assim, como uma espécie de tradução universal e eterna da condição humana, é preciso ainda mais. É preciso que ela envolva o leitor, como uma serpente envolve sua presa, e que ela o conduza a situações inusitadamente atraentes, algumas delas cheias de riscos e, mesmo assim, fascinantes. Como não poderia deixar de ser, esse é o timbre das crônicas deste livro.  São olhares e percepções impressos em textos que retratam as viagens que Loyola fez pelo Brasil inteiro.

Segundo o próprio autor, essa obra é uma de suas seleções mais gostosas, mais felizes e mais divertidas. Algumas dramáticas, porque é preciso um pouco de drama. Um livro direto para o coração do leitor, um presente de 80 anos para toda a gente que o acompanha há tantos anos.




(Trecho publicado em Crônicas para Jovens)



Sobre o autor: Ignácio de Loyola Brandão nasceu em Araraquara (SP), em 31 de julho de 1936. Jornalista e escritor, Brandão publicou dezenas de livros, entre romances, contos, crônicas e viagens, além de ter participado de várias antologias. Filho de um ferroviário, tornou-se crítico de cinema aos 16 anos, quando soube que crítico não pagava entrada em cinema. Assim enveredou pelo jornalismo. Em 1957, mudou-se para São Paulo e foi trabalhar no jornal Última Hora como repórter. Estreou com um livro de contos sobre a noite paulistana, Depois do Sol. Seu primeiro romance, Bebel que a Cidade Comeu, foi publicado em 1968. Em 1974, foi lançado na Itália o romance Zero, sua obra mais conhecida. Editado no Brasil no ano seguinte, o livro foi proibido em 1976 pelo Ministério da Justiça do governo Geisel. A obra só seria liberada em 1979. Em 1993, iniciou colaboração semanal no jornal O Estado de S.Paulo. Em 1996, submeteu-se a uma cirurgia para a retirada de um aneurisma cerebral e registrou a experiência no livro Veia Bailarina, em 1997. Tendo como cenário a ditadura militar e o exílio, sua obra romanesca faz uma crítica amarga da sociedade brasileira, mas também fala de amor e solidão. Em julho de 2001, por ocasião de seu aniversário, foi homenageado pelo Instituto Moreira Salles, com a publicação de sua vida e obra no volume 11 da série Cadernos de Literatura Brasileira. Em 2008 o romance O Menino que Vendia Palavras ganhou o Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção do ano. Em suas crônicas, são frequentes as referências à infância em Araraquara, aos colegas de geração e ao cotidiano da cidade de São Paulo.


quarta-feira, 6 de julho de 2016

[Resenha] The Kiss of Deception - Crônicas de Amor e Ódio - Volume 1 | Darkside Books | Por Jonatas T.B.

Não faço ideia de que hora são. Fechei há pouco a bonita capa de “The Kiss of Deception”, escrito por Mary E. Pearson e caprichosamente publicado pela editora Darkside, e me guardei em silêncio. Não sei se você compartilha desse hábito, mas eu costumo olhar por um longo tempo o teto deixando os fragmentos do que li tilintando atrás dos olhos. De repente, percebo a música, que geralmente escuto para abafar os ruídos da rua, - ela parou de tocar. Está bem tarde, quase dia. Deveria dormir. Mas não vou. Não posso guardar isso comigo. Preciso contar para você o que senti nestes últimos dias de leitura.


A protagonista se chama Lia, princesa do grande reinado de Morrighan, prometida em casamento contra sua vontade ao príncipe de Dalbreck por motivos políticos, sem nem ao menos conhecê-lo. A história, em primeira pessoa, começa com sua fuga para a região sudeste, onde consegue trabalho servindo em uma estalagem. Decide que ali será início de uma nova vida de liberdade. Mas não demora muito até conhecer dois belos forasteiros: Kaden e Rafe. Desse contato, a trama se desenvolve num triângulo amoroso, culminando na descoberta de que um deles é o príncipe de Dalbreck, e o outro é um assassino enviado pelo Reino de Venda para matá-la.

A jornada de Lia é uma transição da ingenuidade juvenil para a experiência e entendimento sobre um mundo violento, muito diferente de seus ideais. O ponto de partida é fuga para longe da segurança do castelo, rumo ao próprio sonho. Aos poucos, o sonho se vai se diluindo como espuma. A jovem sente na pele a brutalidade natural que habita no coração humano. Tal hostilidade é a mesma que fizera da muralha e da espada entes necessários para a proteção de seu reino. E foi no percorrer das ruínas deixadas pelas antigas civilizações do continente que percebi tal amadurecimento.

Os restos de torres e construções de pedra que pontuavam a paisagem me sugeriam duas verdades: a primeira, sobre a inexorabilidade e apatia do tempo, de como qualquer esforço humano, mesmo que direcionado à consciência eterna dos deuses, quando materializado, irá sempre cair, se destroçar, e retornará à estaca zero; e, a segunda, sobre o triunfo familiar da vontade. Não apenas pelas ruínas serem testemunho concreto e resistente da passagem de uma civilização grandiosa, mas pela capacidade que a própria miragem colossal possui de despertar o nosso espírito. Eu, ao adentrar os bosques e desertos dos três grandes reinos junto de Lia, quando avistei as dorsais de muralhas corroídas pela umidade, fossos escondidos sob vegetação densa, ou estruturas tombadas pelo vento abrasivo, pude ouvir um ruído soando nos porões da eternidade, e aproximando-se, até ecoar nos ouvidos do meu espírito. A descrição caprichada de Pearson me permite qualquer aparente exagero. Acredite.

Observando os anseios interiores da princesa, posso afirmar que não se trata de mais uma jornada em busca da liberdade. A envergadura épica que dá profundidade a história não se limita a problematizações acerca de sonhos sufocados por obrigações sociais da nobreza - e, pessoalmente, considerei diferencial dentre muitas histórias sobre autodescobrimento. E, quanto ao coração de Lia, neste tomo de “Crônicas de amor e ódio”, a narrativa, como um todo, estende-se além da procura pela verdadeira face do amor (que, devido ao triângulo amoroso, imaginei reduzir-se a esse tema). “The Kiss of Deception” é uma história que partilha a necessidade de compreender-se as crenças e tradições que sustentam uma sociedade em perigo, e, o mais importante, como a cultura e os ouvidos atentos ao sagrado e ancestral refletem no sentido que damos ao mundo, e, por consequência, como o enxergaremos em nós mesmos.

Bem. Acho que é isso que precisava dizer. Agora preciso atravessar minhas próprias ruínas entre os travesseiros e encontrar meu sono. Espero que aprecie tanto quanto eu apreciei esta primeira parte da jornada de Lia. Só tenha cuidado. Mantenha os olhos abertos. Reúna todas as forças necessárias. E não pare. Mesmo se ver os próprios rastros que for deixando para trás sendo engolidos pelo deserto.


sábado, 2 de julho de 2016

Nuvens que não couberam no céu - Poemas de Adalgisa Nery | Editora José Olympio



“Ela não era simpática, nem educada. Mas era bonita. Muito bonita... Embora se achasse mais bonita do que era. Era pobre e ambiciosa [...] Eu não a considerava elegante; era extravagante nas roupas. [...] Ela queria ser a deusa: a deusa da poesia, a deusa da beleza...”.  Esta é uma fala de Rachel de Queiroz sobre Adalgisa Nery. Embora contemporâneas, Adalgisa conquista sua voz como poeta, jornalista e também deputada, em uma ousadia rara à sua época. 

Seus traços fortes eram um fascínio para os artistas (ganhou versos de Drummond, retratos de Portinari, declarações de amor de Murilo Mendes), mas se há alguma certeza em sua biografia, é a de que a pele de seus escritos transparecia tudo o que seu olhar escondia.

Adalgisa viveu as dores da infância e as do casamento, e também as de seu País; entre os muros da casa e os do Estado Novo nasceram seus poemas, assim como por entre as fronteiras da sedução e as da fragilidade.

Nesta postagem, selecionamos alguns de seus textos; quanto a reedições, a José Olympio disponibiliza os romances A Imaginária e Neblina. Vale conhecer :)



Cemitério Agaldisa

Moram em mim
Fundos de mares, estrelas-d'alva,
Ilhas, esqueletos de animais,
Nuvens que não couberam no céu,
Razões mortas, perdões, condenações,
Gestos de amparo incompleto,
O desejo do meu sexo
E a vontade de atingir a perfeição.
Adolescências cortadas, velhices demoradas,
Os braços de Abel e as pernas de Caim.
Sinto que não moro.
Sou morada pelas coisas como a terra das sepulturas
É habitada pelos corpos.
Moram em mim
Gerações, alegrias em embrião,
Vagos pensamentos de perdão.
Como na terra das sepulturas
Mora em mim o fruto podre,
Que a semente fecunda repetindo a vida
No sereno ritmo da Origem.
Vida e morte,
Terra e céu,
Podridão, germinação,
Destruição e criação.

In: Poemas, 1937



Poema ao Farol da Ilha Rasa

O aviso da vida
Passa a noite inteira dentro do meu quarto
Piscando o olho.
Diz que vigia o meu sono
Lá da escuridão dos mares
E que me pajeia até o sol chegar.
Por isso grita em cores
Sobre meu corpo adormecido ou
Dividindo em compassos coloridos
As minhas longas insônias.
Branco
Vermelho
Branco
Vermelho
O farol é como a vida
Nunca me disse: Verde.

In: Poemas, 1937

Retrato de Adalgisa Nery. Pintura a óleo por Cândido Portinari, 1937


Poema Natural

Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece.
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Ontem com aquele calor
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e cairei.
Abro os olhos, vejo um mar,
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tomarei.
Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo,
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

In: Poemas, 1937


A razão de eu me gostar

Eu gosto da minha forma no mundo
Porque representa uma fagulha,
Porque mostra um instante doce e perverso
Da ideia, do gesto e da realização
De Deus no Universo.
Eu gosto dos erros que pratico
Porque vejo a pureza colocada na minha essência
Desde o Início
Lutar contra todo o mal que em mim existe
E ser tão maior, que sobre a minha miséria
Ela ainda persiste
Eu gosto de espiar
O meu olho direito
Ver o esquerdo chorar,
De sentir a minha garganta se enrolar de dor
Porque em troca de tanta cousa dolorosa
Ele construiu em mim uma cousa gloriosa,
Que é o amor.

In: A Mulher Ausente, 1946
   
A Mulher Ausente. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1940


Mistério

Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome

E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome 
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência
Na ânsia de saber quem grita.

In: Cantos da Angústia, 1948



 Vivência

Começamos a viver
Quando saímos do sono da existência,
Quando as distâncias se alongam nas partículas do corpo.
Começamos a viver
Quando confusos e sem consolo
Não sentimos os traços do irmão perdido.
Quando antes da força
Surge a sombra do insignificante.
Quando o sono é transformado em sonhos superados,
Quando o existir não é contradição.
Começamos a viver
Quando percebemos a mutação das células,
Quando fugimos de dentro de nós mesmos
E escondemos a nossa carne num caramujo oco.
Quando o espírito falsificado esquece
As tortuosas estradas
E quando deixamos de ser escaravelhos laboriosos.
Começamos a viver
Quando velamos além do sono
A vida irreal dos nossos passos.

In: Erosão, 1973
sexta-feira, 1 de julho de 2016

Ficando com o que é bom, belo, bonito - Uma crônica de Gih Medeiros

 

Durante alguns anos, usei bastante uma determinada rede social (desde a época em que não era tão divulgada e muito mais legal), mas terminei desativando meu perfil por motivos pessoais. Acabei voltando através de um novo user, só para poder divulgar meus textos, porque senti que estava perdendo oportunidades e fui chamada a atenção por conta disso (minha friend/beta-reader me passava o sermão, típico dos capricornianos empreendedores, toda vez que eu enviava um texto para ela).

Nesse retorno, tomei a decisão de me manter afastada de algumas pessoas do passado, mas nem sempre isso é possível, já que a própria rede social te sugere pessoas para criar vínculos. Uma dessas sugestões acabou sendo um ex-namorado, com quem não tenho contato há mais de 10 anos. Inclusive estranhei quando vi a sua foto e nome, porque ele não gostava de redes sociais e sempre criticava quem as usava (o ser humano é um paradoxo em si, eu sei rs).

Ao olhar sua foto o reconhecimento foi instantâneo, pois ele não mudou nada. Mas assim como o reconhecimento, o desconforto também foi imediato ao vê-lo acompanhado na foto. Não foi ciúmes, já não sinto isso por ele há muito tempo. Só bateu aquele estalo sabe, do tipo, “ele seguiu em frente sem mim”.

Essa sensação durou muito pouco, porque o que predominou em seguida foi uma saudosa melancolia, uma familiar sensação de “eu me lembro de você”. Eu me lembro do seu riso fácil e escandaloso quando eu pedi desculpas por ter chorado no nosso primeiro encontro – nunca convide alguém em quem está interessado, para ir ao cinema assistir um filme que já desperta lágrimas só pelo pôster como em A Paixão de Cristo, dirigido pelo Mel Gibson. Eu me lembro da sua teimosia quando achava que estava certo sobre determinado assunto, mesmo que eu provasse o contrário. Eu me lembro de como ficava nervosa ao preparar alguma comida para ele, porque sabia o quanto era sincero com relação a isso.

Eu me lembro de como me senti especial e querida, ao ver uma faixa de Dia dos Namorados em frente ao local onde trabalhava, mesmo tendo lhe dito que não gostava dessas demonstrações públicas de afeto. Eu lembro de como era gostoso passear pelos parques de Santo André e São Caetano do Sul segurando sua mão, tão maior que a minha, porque não tínhamos dinheiro para ir a nenhum outro lugar e de como usávamos a tampinha do iogurte como colher, porque só dava para comprar o iogurte mesmo.

Eu lembro de como a gente falava sobre música, especialmente música brasileira. E de como algumas músicas marcaram para sempre nosso tempo juntos. Lembro de não poder ouvir Equalize da Pitty durante algum tempo, porque imediatamente me recordava de você cantando-a para mim: “Às vezes se eu me distraio, se eu não me vigio um instante, me transporto pra perto de você. Já vi que não posso ficar tão solta, que vem logo aquele cheiro que passa de você pra mim, num fluxo perfeito”. Lembro de como o ritmo entre nós rolava fácil, “parece que foi ensaiado” e de como a gente se orgulhava de dizer “eu acho que eu gosto mesmo de você, bem do jeito que você é”.

Claro que nem tudo foi tão bom e tão bonito o tempo todo. Se fosse o caso, eu não estaria escrevendo essas linhas agora. Mas, assim como na famigerada rede social que promoveu esse breve reencontro, eu prefiro ficar com as coisas boas, as bonitas. E antes de fechar a janela do navegador, olho para sua foto mais uma vez e relembro o som gostoso da sua risada. Sem remorsos ou mágoas. Apenas uma bela lembrança, como “um filme todo em câmera lenta”.


Por: Gih Medeiros


Custom Post Signature