sábado, 31 de dezembro de 2016

Um bom ano que termina em gratidão | Texto de Jonatas Tosta

 
Um salto na fenda entre o fim e o início

Não é incomum ouvir pessoas ranzinzas resmungarem por causa da comoção costumeira de fim de ano, e tenho certeza de que você sabe como é. Chiam ao menor sinal de roupas brancas e novas desfilando na rua. “Pra que isso tudo?” elas pensam. Torcem o nariz para as promessas feitas na proporção de cada grão de lentilha, arqueiam as sobrancelhas para os pulos nas ondas e o monte de sal dos velhos costumes. Estufam o peito e dizem que não se comovem com datas comemorativas e que não passa de oportunismo comercial. Confesso que já fui como um desses sujeitos mal humorados. Não media o olhar empenado nem para um súbito estouro de champanhe. Talvez fosse uma versão menos exagerada de um Ebenezer Scrooge para o Ano Novo, mas eu era um sujeito certamente afetado. Apesar disso, era contraditório. Não gostava de comemorações, mas havia alguma coisa em especial nos ciclos estacionais, algo que através do tempo sempre me fascinou. Hoje em dia acho que deixei de ser aquele cara ranzinza. Gosto desse espaço que somos capazes de abrir no tempo, entre o fim e o início de um ano. Assim, todos nós damos um sentido humano a nossa própria passagem por esta terra. Creio, desde a primeira fagulha que deu origem a este mundo tem o sentido do renascimento, de novas oportunidades. Aquela sementinha que deve deixar a casca seca para dar luz a uma imensa árvore. Espero que juntos, naquela pequena e infinita fresta que fica entre o último segundo antes da meia-noite, possamos sair de energias renovadas para dar continuidade a essa longa marcha que é a vida. Temos uma longa e próspera vida pela frente ainda.


Um bom ano que termina em gratidão

Eu não sei exatamente onde as coisas começam, e isso me dá a impressão de elas terem sido sempre do jeito que são. Eu lembro ter começado a escrever no Papel Papel, mas não lembro exatamente por que. Foi um texto em que me diverti bastante sobre o romance Tom Sawyer. Também escrevi sobre Peter PanO mágico de Oz. E acho que foi a resenha sobre O Pequeno Príncipe que chamou a atenção do Rodrigo e Raquel. Em consequência me convidaram para escrever para o Nerd Geek Feelings. Logo em seguida, meus amigos de faculdade que compunham um grupo de produção textual (Pedro, Gabriel, Lucas e Luciano) e eu decidimos publicar virtualmente nossas histórias. Nasceu assim o blog Poligrafia.

Enfim, em meio, a acidentes, lágrimas e um monte de sorrisos bobos por motivos que não convêm aqui, além de um trevo de cartolina caído na calçada no dia de São Patrício que inusitadamente me deu fôlego para continuar “Histórias de um Entregador de Sonhos”.

Este também foi o ano em que finalmente terminei meu segundo livro (o primeiro sumiu misteriosamente de cima da mesinha do computador). Um pouco mais tarde do que pensei, mas da maneira mais apropriada possível. Falo de todas essas coisas porque creio que este blog é parte do núcleo das maravilhas que me aconteceram. Acho que é isso. A arte literária é para mim tão importante quanto respirar ou despertar, e ter que escrever resenhas, contos e um monte de textos com prazo foi providencial. Não há outra palavra melhor. Por isso, agradeço a todos os meus amigos, sejam leitores, sempre comentando e nos motivando, ou editores, dando uns ajustes aqui e ali para tudo sair perfeito. Acreditem. Gostaria de agradecer pessoalmente com um aperto de mão e dois abraços a todos que nos acompanharam ao longo deste ano no blog Papel Papel. Agradeço especialmente a Rebeca pela oportunidade, confiança e principalmente pela liberdade de me permitir ser o máximo de mim mesmo por aqui. Outra vez. Sou grato. E o ano que virá nos espera com o dobro de nosso melhor.
 

O Menino Feito de Blocos - Keith Stuart | Editora Record

"Dan vai sair. (...) Ele sempre tem alguma boate para ir e o gerente é sempre amigo dele. Não é a primeira vez que me pergunto: como ele faz isso? Dan é dois anos mais novo que eu, mas não é só isso. Sua vida meio que segue no piloto automático; coisas boas acontecem com ele quer queira, quer não.
(...)  Eu já fui cool também, por muitos anos. Bem, talvez quatro. Durante a faculdade, acabei sendo o líder de uma comunidade de música alternativa chamada Oblivion, em que tocávamos pós-rock e uma música eletrônica estranha em lugares minúsculos e cheios de músicos profissionais coçando o queixo. (...) Dan aparecia e nos ajudava enquanto cursava design em Bristol; ele criava nossos cartazes e até montou um site para nós. Ele ainda faz essas coisas, mas para mim perdeu a graça.
A vida entrou no caminho.
- Acho que vou ficar em casa. Mas valeu, obrigado, Dan.
- Não esquenta, cara.


Última resenha do ano, um dos melhores livros de 2016. Porque a vida não segue por atalhos, e a história do Menino nos diz que é preciso caminhar, ainda que a estrada pareça não ter fim.

Keith Stuart é editor de games e tecnologia do jornal britânico The Guardian. Em O Menino feito de blocos, Keith apresenta a história do pequeno Sam, personagem baseado em seu próprio filho, Zac, que percebe a realidade como um quebra-cabeça cujas peças mal se conectam.

Nesta quase autobiografia, os episódios são narrados sob a perspectiva de Alex, um pai que abdicou de suas ambições e juventude para se dedicar a criação de Sam, esta criança que com muita dificuldade se adapta ao cotidiano que o cerca. É possível que o leitor interprete a sinceridade de Alex como um sinônimo de indiferença; eu diria que é apenas um desabafo de quem entendeu que a vida não é doce, e que a exaustão é um fato presente no coração de toda a gente. Afinal, por mais que haja amor, uma hora o casamento entra em crise, a criança chora por dias seguidos, e a única coisa a fazer é lutar ou desistir de seu próprio mundo.

Neste ponto da história, Alex está fora de casa, sua esposa não encontra mais motivos para sua presença. Ao refugiar-se no apartamento de seu melhor amigo, os dias de Alex se arrastam, como se à espera de uma solução para esta realidade familiar há anos incompreensível. A cada capítulo, no entanto, conhecemos um pouco mais do passado de Alex, e juntos revivemos inúmeros episódios de dedicação e amor pelo Menino.

Os dias seguem, novas decepções o interceptam pelo caminho, porém, a cada reencontro com sua esposa e filho, o coração de Alex se enche de esperança, ainda mais ao perceber que Sam encontrou na realidade dos games, especialmente Minecraft, um novo ponto de contato com a sociedade que sempre o amedrontara.

Este episódio dos games é, inclusive, um dos mais importantes na biografia do autor: "Eu acho que o tema principal da história é que, enquanto pais, nossa tarefa é encontrar nossos filhos nos lugares em que eles se sintam confortáveis, e só assim poderemos entender uns aos outros - o que acontece é que esses lugares às vezes existem através de uma tela, e o que precisamos fazer é deixar a preocupação de lado e fazer com que esse encontro simplesmente aconteça". (no Blog da Record você encontra outros trechos, cujo original, em inglês, está no jornal The Guardian).

Ao longo da história então, o Menino encontra sua voz, e, com a ajuda de Minecraft, passa a compartilhar com o mundo este seu novo vocabulário. Se eu pudesse compartilhar um spoiler, diria que os capítulos finais são de uma doçura e emoção surpreendentes! Aliás, assim como Suzy e as Águas-vivas e Achados e Perdidos, O menino feito de blocos é uma história onde a cada página compreendemos os porquês de todo reencontro e ausência, assim como de toda vulnerabilidade e força que no peito se refugia. Afinal, quando a vida retira algumas peças de nosso quebra-cabeça, este talvez seja um convite para construirmos uma nova paisagem, especialmente quando temos à disposição alguns blocos, um pouco de amor e uma família.

"- Papai, o que você está fazendo? Eu acho que você está empacado.
- Como assim?
- Às vezes eu fico empacado num pensamento e não consigo me livrar dele, não por um bom tempo. Ele fica e fica. Você está empacado em um pensamento.
Paro de andar.
- Ei - digo. - É, acho que você está certo. Está totalmente certo. Eu estou empacado num pensamento. (...) Caramba, você é muito esperto.

E isso me vem como um choque e uma surpresa (...); os vislumbres do interior de Sam são tão raros e fugazes que, quando aparecem, eu os considero verdadeiras joias. (...)
- Obrigado por pensar em mim - digo. - Obrigado, Sam.

Ele desvia rapidamente o rosto, seus olhos vasculhando a calçada, evitando meu olhar e minha gratidão. (...) Eu desisto e (...) fico (...) achando que o momento passou totalmente, essa pequena janela de intimidade. Mas, quando paramos numa rua, ele tira a mão da minha por um instante, e então bate de leve nas minhas costas.
 - Meu papai - diz ele.

E a cena é tão perfeita que sinto que estrelas vão cair sobre nós."


Keith Stuart 
Editora Record

Alex ama sua família, mas tem dificuldade em se conectar com Sam, o filho autista de oito anos. A tensão crescente da rotina leva seu casamento ao ponto de ruptura. Jody não aguenta mais o marido ausente e que pouco participa da vida do filho. Então Alex vai morar com o melhor amigo, e passa a dormir no colchão inflável mais desconfortável do mundo. Enquanto Alex enfrenta a vida de homem separado e cumpre a função de pai em meio-expediente, seu filho começa a jogar Minecraft. E, surpreendentemente, o jogo vai mudar para sempre a relação entre pai e filho. “O menino feito de blocos” é inspirado no relacionamento do autor com seu filho autista.




sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Desejos de Ano Novo - Uma crônica de Gih Medeiros




Desejos de Ano Novo

“Desejo que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor pra recomeçar
Pra recomeçar”

Somos movidos a ciclos. Mais um aniversário, mais uma primavera, mais um ano que começa. E por mais que a gente tente controlar esse impulso de criar esperanças com a chegada do início de um novo ano, é difícil resistir ao apelo do calendário, que parece nos dar mais uma chance de fazer diferente, de tentar mais uma vez, de recomeçar, ainda que não saibamos exatamente como.

Considerando que 2016 está sendo um ano difícil (ainda não acabou amigos! Cuidado!), acho que estabelecer metas e buscar um novo começo é até saudável, talvez nos ajude a lidar com as perdas irreparáveis em nossas vidas, e com a tristeza que abate quem se sensibiliza com a crueldade do ser humano, que anda tão à flor da pele ultimamente, sendo demonstrada através de atos brutais contra aqueles que apenas tentam defender quem é alvo de violência e hostilidade, enquanto a indiferença dos que estão ao redor cega seus olhos e os impede de sentir qualquer tipo de incômodo diante de cenas que antes só víamos em filmes.

Como alguém que sente tudo tão intensamente, me sinto um pouco oprimida com o rumo que estamos tomando, pra dizer o mínimo. Então, resolvi que vou aderir à força do pensamento positivo e desejar com todo o meu ser somente coisas boas, para vocês e para mim.

“Eu te desejo não parar tão cedo
Pois toda idade tem prazer e medo
E com os que erram feio e bastante
Que você consiga ser tolerante”

Desejo que nós tenhamos bom ânimo diante dos percalços que nos aguardam em 2017 e que saibamos reter somente o que for bom de cada situação, por mais complicada que ela seja. E que saibamos ser pacientes com o próximo; ninguém tem a obrigação de atingir nossas expectativas, ainda que nós as criemos assim mesmo. Que a gente não se sinta decepcionado demais quando as pessoas não agirem conosco com a mesma consideração, com a qual nós agimos para com eles.

“Quando você ficar triste
Que seja por um dia, e não o ano inteiro
E que você descubra que rir é bom,
mas que rir de tudo é desespero”

Desejo que o equilíbrio tão almejado ao menos comece a dar as caras, já que não estamos ficando mais jovens (mesmo que a nossa genética seja maravilhosa e a nossa aparência nos favoreça), e que saibamos administrar melhor os nossos sentimentos. Podemos não escolher o que vamos sentir, mas é nossa obrigação ter controle sobre a forma como eles nos afetam e sobre nossas atitudes em relação a eles.

“Eu te desejo, muitos amigos
Mas que em um você possa confiar
E que tenha até inimigos
Pra você não deixar de duvidar”

Desejo que permaneçam em nossas vidas somente os verdadeiros, aqueles que estão conosco em todos os momentos, mesmo que distantes fisicamente. E que saibamos escolher melhor quem vai ter acesso ao nosso eu mais puro, aquela parte preciosa de nós mesmos que pertence somente a nós e que raros são os que merecem ter um vislumbre dela.

“Eu desejo que você ganhe dinheiro
Pois é preciso viver também
E que você diga a ele, pelo menos uma vez,
Quem é mesmo o dono de quem”

Desejo que os nossos sonhos, idealizados há tanto tempo, finalmente saiam das gavetas e ganhem o mundo. Não devemos temer o julgamento alheio se amamos o que criamos/realizamos. É preciso coragem para fazer as coisas acontecerem, para dar o primeiro passo. Que tal aproveitar a virada do ano e usar toda a energia de que somos alvos para fazer algo produtivo por nós mesmos?

“Desejo que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor pra recomeçar
Pra recomeçar
Pra recomeçar”

(Amor pra recomeçar, 2002)

E o meu maior desejo é que a gente se transforme num canal que recebe e transmite amor: da família que nos abraça e acolhe quando o coração fica apertadinho e o mundo parece grande demais perto da gente; dos amigos verdadeiros que estão sempre dispostos a uma prosa de boteco, um devaneio sobre a vida ou para nos contar o que não conseguem a mais ninguém; daquela pessoa que acelera nosso coração com um simples sorriso, que faz as nossas borboletas internas colidirem umas com as outras com um olhar e que desperta todas as nossas terminações nervosas com sua voz.

Mas também desejo amor daqueles semi-conhecidos que encontramos no caminho para o trabalho e que sempre nos desejam um “bom dia” quando passamos por eles. Daqueles que estão do outro lado do mundo, e se lembram de orar pelo povo brasileiro, mesmo sem saber quase nada sobre nós. Dos desconhecidos que chegam e tem potencial para se tornarem parte da família, dos amigos, do coração. 

Que sejamos amor, mesmo quando acordar cedo é difícil e sorrir pro mundo antes das 9 da manhã parece missão impossível. Que sejamos amor, quando os amigos perdem a medida de seus temperamentos durante uma discussão sobre política, filosofia ou futebol. Que sejamos amor quando o mundo parece que vai desabar sobre nossos ombros, ainda que não sejamos nem de longe tão fortes quanto Atlas. Que sejamos amor quando alguém estiver passando por apuros em nossa frente, e que esse amor nos mova a fazer o que é certo. Que sejamos amor quando alguém nos pedir colo. Que sejamos amor, a partir de agora, com tudo o que somos.


Feliz 2017! Feliz Ano Novo!


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A Torre Negra e outras histórias - C. S. Lewis | Editora Planeta de Livros | Por Jonatas Tosta


Sobre viagens no tempo em busca da luz

Ao menos uma vez em nossas vidas, existe o momento em que nos aconchegamos em um canto qualquer, bem na hora de dormir e não escapamos de um olhar furtivo para alguma coisa que nos chama a atenção ao teto. Está escuro. Os olhos se abrem bastante, e depois se fecham. Não vemos nada. Talvez alguma luz insignificante vinda do lado de fora. Mas ainda está escuro. Nossa imaginação sente cócegas ao roçar dos cílios das trevas em nosso rosto. Poderíamos estar no lugar de nossos pais deitados ali, ou no lugar de nossos avós, ou das pessoas que estiveram naquele mesmo lugar há séculos. De súbito, a mente parece atravessar o tempo. Mas o tempo é preciso, comedido, limita nossa imaginação ao manto escuro ao redor, e percebemos o quanto estamos sozinhos. A sensação de infinidade da imaginação existe apenas porque o pensamento está preso em uma silenciosa espiral, como um carrossel de luzes apagadas indo para lugar algum. E adentrar os porões do sono não nos deixa um intervalo perceptível, uma janela de tempo que se possa medir. Então, finalmente você adormece. E o tempo se apaga como farol quebrado. O tempo, por mais que algumas pessoas tendam a dizer que é fenômeno meramente psicológico, uma coisa da nossa cabeça, ele não serve a nós. Nós é que somos servos dele. E mesmo ao despertarmos no dia seguinte, somos capazes de senti-lo apenas como uma companhia intangível e evidente. Tão evidente que não é incomum um sem número de escritores fantasiarem interrompê-lo, dobrá-lo, atravessá-lo como uma estrada em suas histórias, ou simplesmente, como é caso da história “A Torre Negra”, de C. S. Lewis, sentar no escuro e observá-lo ser projetado em uma tela feita de lençol branco.

“- Mesmo se fosse levado lá, o que seria pior do que meramente ver a cópia de alguém ali, isso não seria diferente de outras desgraças. E desgraça não é o inferno, nem de longe. Um homem não pode ser levado ao inferno, ou enviado para lá: só você pode chegar lá por suas próprias forças.”

A viagem no tempo é a premissa de “A Torre Negra”. Um longo conto salvo das chamas por Walter Hoper, amigo de Lewis. Publicado postumamente, narra a história de quatro homens (Orfeu, MacPhee, Ransom e o próprio Lewis) cuja curiosidade do primeiro a respeito da natureza do tempo motiva-o a construir um cronoscópio, junto ao assistente Scadamour. O cronoscópio é um aparelho capaz de captar imagens de tempos remotos. Conforme a teoria que Orfeu descobre em um misterioso livro, a alma, se não fosse submissa às leis da matéria que limita nosso corpo, seria capaz de viajar no tempo. O corpo, continua a tese, é retido no espaço dimensional ao qual ele pertence, impossibilitando o deslocamento para o futuro ou passado.
  
Conforme os cientistas analisam a Torre, se desvelam estranhos povos humanoides de estranha aparência em um mundo aterrador. Todavia, o fato mais estranho foi que, durante a observação da construção da Torre Negra, surge a duplicata exata de Scudamour. O caso aguça ainda mais a curiosidade quando outra duplicata surge para um ritual de mutação. A perfeita cópia de Camilla Bembridge, noiva de Scadamour. O impulso violento de Scadamour é o suficiente para desencadear um pequeno desastre que dá início a uma viagem sem volta para o Outrotempo.

“Eu gostaria muito de acreditar que estava sonhando, mas de algum modo sabia que não estava. Minha real convicção foi de que eu havia morrido. Eu desejei – com um fervor que nenhum outro desejo meu jamais alcançou – que tivesse vivido uma vida melhor.”

Além de “A Torre Negra”, outros quatro contos compõem o livro. “Anjos Ministradores” é uma ficção científica ambientada no espaço sideral e bem humorada. Trata-se da história do envio de acompanhantes nada atraentes para prestar serviços sexuais a astronautas em Marte. Particularmente achei o desfecho bem engraçado. O conto “As formas das coisas desconhecidas” narra a quarta tentativa de viagem à Lua. Não se há menor ideia do que teria interrompido as missões anteriores. É o corajoso tenente John Jenkin que se depara com a causa do fracasso. No espaço cósmico, distante de qualquer amparo, Jenkin descobre que o ser humano não é absolutamente nada diante dos horrores escondidos nos cantos mais recônditos da realidade. “As terras fajutas” trata-se de um homem que subitamente se vê em um lugar muito parecido com o nosso mundo, mas onde as cores, os sons e a textura das coisas ora são estéreis e insossos, ora são ainda mais explícitos e reais, aparentemente rompendo os filtros dos sentidos, possibilitando-o a explorar conscientemente os próprios sonhos.

“Um homem cego tem poucos amigos; um homem cego que recentemente recebeu sua visão, em certo sentido, não tem nenhum. Ele não pertence nem ao mundo dos cegos, nem ao dos que enxergam e ninguém pode compartilhar sua experiência”.

Fiquei em dúvida se o meu favorito foi “Depois de dez anos” ou “O homem que nasceu cego”. O primeiro é sobre o personagem secundário de um épico fundamental na literatura clássica do ocidente. Eu me recuso dizer qual é o nome da história. Leiam “Depois de dez anos” e procure a referência por si. Apesar de incompleto, certamente é um dos melhores contos que já li. Sem dúvida. Procure. Não, não vou dizer qual é. Não se preocupe. Você não irá se arrepender. 

O segundo conto é sobre Robin, um homem que é curado de sua cegueira. Em suas caminhadas matinais, ele descobre que não pode encontrar a luz da forma como imaginou durante toda a vida. Por isso, agora deseja encontrar a luz para além de sua fonte, para além das lâmpadas de filamento ou do astro luminoso no céu. Necessita encontrar a luz em sua forma pura e essencial. Lewis deixa claro (ao menos para mim) que, apesar de o mundo parecer tão óbvio e claro, jamais devemos abandonar a vontade desperta em nosso íntimo, uma vontade mais antiga e profunda que a imaginação.

 

C. S. Lewis - Editora Planeta de Livros

Sinopse: Continuação memorável das fantasias de C. S. Lewis, estas seis histórias revelam mais uma vez o poder e a visão deste importante contador de histórias, um dos nomes centrais da literatura de fantasia universal.

A Torre Negra é um esboço de um quarto volume que daria continuidade à aclamada série de ficção científica de Lewis conhecida como Trilogia cósmica. Uma história cativante que continua as aventuras de personagens como Dr. Elwin Ransom e MacPhee. Na trama, cinco homens se reúnem no escritório de Orfeu, na Universidade de Cambridge, para testemunhar a violação do espaço-tempo por meio do cronoscópio, um telescópio que não olha apenas para um outro mundo, mas para outras dimensões. Ao longo das narrativas, seus personagens travam debates brilhantes sobre a matéria, no tempo e no espaço. Para os fãs de Crônicas de Nárnia e da Trilogia cósmica, este é um livro imprescindível.
domingo, 25 de dezembro de 2016

Sou fã! E agora? - Frini Georgakopoulos | Editora Seguinte



Se você já teve a oportunidade de participar de algum clube de leitura ou de acompanhar os debates com autores durante as bienais e feiras, certamente já conheceu o trabalho da escritora e jornalista Frini Georgakopoulos, que também compartilha sua paixão pela leitura no Blog Cheiro de Livro e em uma coluna literária na Rádio Roquette Pinto.

Foi num desses encontros na Livraria Saraiva aqui no Rio (conversa com Bianca Briones!) que conheci de perto a carismática Frini, que neste segundo semestre lançou pela Editora Seguinte o livro Sou Fã! E agora?, que poderia, inclusive, ter como título alternativo "Sou fã de Young Adult! E agora?", já que a autora é uma grande entusiasta gênero (e também de Harry Potter. Principalmente!).

E como esta "literatura (para o) jovem" tem ocupado um grande espaço aqui no blog, não poderia deixar de conhecer O Livro da Frini, e claro, compartilhar alguns 'spoilers' com vocês :)

Mas vamos à sinopse primeiro:

SOU FÃ! E AGORA? - Um livro para quem é apaixonado por histórias

"Fã que é fã adora conversar, discutir, interagir. Mas nem sempre temos por perto um amigo tão fanático quanto a gente para desabafar. Foi pensando nisso que Frini Georgakopoulos, uma fã de carteirinha, escreveu este livro: um manual de sobrevivência voltado para quem é apaixonado por livros, filmes, séries de TV…

Com uma linguagem rápida e divertida, Sou fã! E agora? é uma mistura de artigos breves e atividades interativas que convidam a refletir sobre os motivos para curtirmos tanto as histórias, além de ajudar a descobrir o que fazer com todo esse amor: criar seu próprio cosplay, escrever uma fanfic, organizar um evento, começar um blog ou canal e muito mais!"

Dividido em quatro partes, o livro começa com uma reflexão sobre a literatura Young Adult e o fascínio desses textos em seus leitores. Afinal, não importa se você é um jovem de 13 ou 38, a literatura jovem é um "estado de espírito", e em algum momento você se identificará com algum autor ou história, especialmente quando se tratar de algum romance ou angústia próprios de toda juventude.

O livro tem um texto bem coloquial, como se a Frini estivesse realmente batendo um papo com o leitor! E esse é um diferencial não apenas do livro, mas da própria autora, que, nos capítulos finais compartilha diversos episódios de sua vida, tanto como entrevistadora de nossos autores favoritos e também como fã de (Harry Potter e) inúmeras histórias que já transformaram a vida de muita gente.

Uma parte muito bacana do livro é o incentivo a criação de clubes de leitura e eventos literários. Ao compartilhar dicas e roteiros de suas atividades no Clube do Livro da Saraiva, a autora sugere: "busque o que te moveu no livro e traga para o seu contexto, para o contexto de cada leitor. Isso ajuda a refletir sobre o livro e a criar esse hábito sempre que começamos uma nova leitura. Tendo um propósito, um projeto e muito conteúdo, você está pronto para realizar um evento? Quase! Existem mais duas coisas que todos precisam ter na hora de apresentar qualquer evento: credibilidade e respeito". Mas se você acha que não leva muito jeito para organizar eventos (aliás, se quiser algumas dicas de blogueiros que participam de clubes de leitura, recomendo trocar uma ideia e se inspirar com o trabalho da Fernanda, do Maranhão, e do Diego, lá de Salvador), Frini também incentiva o leitor a compartilhar seus pensamentos em um blog ou Youtube ou até em uma fanfiction ou livro: "se você estiver muito inspirado, saia escrevendo! Depois se preocupe em tornar o que escreveu coerente e com um fluxo narrativo legal. Coloque para fora primeiro e depois organize".

Bacana, não é mesmo? Ah, faltou dizer que a cada capítulo o leitor encontra algumas atividades relacionadas a prosa das páginas anteriores; afinal, nada melhor que um livro interativo onde realmente temos a sensação de "conversar" com o autor, principalmente quando todos compartilham do mesmo amor pela literatura.

Então é isso! Vamos colocar na wishlist de início de ano este manual de sobrevivência literário? Com certeza você chegará à última página com vontade de ler muitos young adults, e, quem sabe, escrever o seu próprio livro :)


Eba, um espaço para inúmeros blogs! <3 Aqui no Papel Papel temos uma pequena Biblioteca com links de páginas literárias de todos os tipos! Mas precisamos da sua ajuda pra aumentar essa lista, sempre! Indica um blog pra gente? :)

Feliz Natal! | Por Jonatas Tosta



De todos os estilos musicais que apreciei ao longo da vida, apenas um persistiu até os dias de hoje: a música composta por coro de vozes. E como não poderia deixar passar esta oportunidade, queria mostrar a minha canção favorita de Natal.

“Carol of the Bells” é uma canção composta pelo ucraniano Mykola Leontovyc (1877 – 1921), e que, apesar das pretensões folclóricas tanto da letra quanto da melodia, nos Estados Unidos foi associada quase que exclusivamente com a festividade natalina. Alguns de vocês devem se lembrar da versão de John Williams da música tocada no filme Esqueceram de Mim nos momentos decisivos da história.

Deixo aqui a primorosa versão do grupo musical britânico Libera para vocês ouvirem.


Ao leitor: Ademais, desejo que nossas vidas realizem de fato a lição de dois mil e tantos anos atrás, (não importante se fora 25 de dezembro ou 1 de abril). E que de fato se enuncie a esperança de um novo tempo neste fim de ciclo. Acredito que no seu coração se perceba este dia como certa dança suave, uma ciranda dos anos a renovar o sentido de nossa própria vida. Imagine comigo. São dias, dias e dias de mãos dadas, e não deixando se perder aquele instante mais importante.

De todas as formas possíveis e impossíveis, desejo a ti um feliz Natal.
sábado, 24 de dezembro de 2016

Uma semana e(m) um dia # 10 | Especial de Natal


Rebeca: Sim, você ainda pode gostar do Natal, assim como da procissão que passa pelo bairro e do Coral que se apresenta no shopping, no coreto e na Igreja perto de casa. Talvez as pessoas nos achassem mais legais (tanto nós-do-blog como você que se identifica com o memorial de hoje) se ao invés de cultivarmos tradições escolhêssemos falar de alguma bandeira contemporânea, mas... como chegamos ao vinte e cinco de dezembro, vamos conversar um pouquinho sobre a data sim.

Mas ok, entendo quem diz que "não há datas comemorativas que atendam a todos os grupos de crença deste país"; no entanto, entendo também que, enquanto carioca, não há a menor chance de minha aversão ao calor e aos blocos ter algum valor durante o tradicional verão carnavalesco do Rio. Ou seja: não dá pra simplesmente comparar o Brasil com a Suécia ("queremos ser laicos, ricos e lindos em 3, 2...") e muito menos acreditar que tradições irão para a lata do lixo com uma revolução no Facebook.

Uma coisa que podemos ter certeza é: o ser humano sempre irá discordar e se aborrecer com a política local, a arbitrariedade dos feriados e o gosto e crença dos familiares e amiguinhos. Não tem muito jeito, e não é só no Natal que acontece isso.

Uma segunda coisa que podemos ter certeza também: não nos tornamos mais legais ou menos chatos por gostarmos ou não de celebrações antigas. Continuamos sendo apenas pessoas que escolheram gostar ou não de tradições, não importa se a da ceia em família ou a daquela folga no feriadão pra curtir um netflix sozinho. Até porque, a fragilidade de nossas relações não é culpa de Deus, é nossa mesmo. Então, neste décimo post da série Uma semana e(m) um dia, vamos celebrar o panetone, a árvore de Natal, o Papai Noel, Jesus e, principalmente, a caridade. E ao invés de postarmos comentários sobre a nossa semana, resolvemos compartilhar alguns links de instituições e projetos que precisam muito de nossa colaboração e voluntariado. Vamos ajudar? <3

Ah! E claro, não poderíamos fechar esse post sem nossos melhores votos de Mais Amor e Mais Chocotones, pra todos nós, pra todo mundo, por favor :)



Bruno: Não me importo muito se a data é em homenagem ao deus Mitra ou se parte do simbolismo vem da cultura nórdica, o que importa é que o Natal reforça (ou ao menos deveria) nossas tradições cristãs. Sendo assim, nada mais cristão do que ajudar o próximo, e é com essa ideia que eu sempre que posso ajudo algumas instituições ou pessoas que necessitam de suporte; sempre acho que a igreja próxima, a vizinha desempregada, algum idoso que precisa de um ombro amigo, sendo parente ou não, devem ser os primeiros a receber nossa atenção. Porém, vou aqui falar de causas que qualquer um pode conhecer e ajudar, e estas foram as instituições que eu ajudei nesse fim de ano:

Associação dos Pintores com a Boca e os Pés

O trabalho dessa associação é maravilhoso, produzindo excelentes artistas que só podem pintar com a boca ou os pés devido a alguma deficiência. Você pode, inclusive, adquirir cartões muito bonitos com as obras desses pintores. Vale a pena conferir o site e ajudar!

 


Sobre: A Associação dos Pintores com a Boca e os Pés, fundada em 1956 por Erich Stegmann, tem proporcionado uma condição de vida independente para os seus membros, verdadeiros artistas, que não podem fazer o uso de suas mãos para a prática da pintura. Todos os artistas membros dessa Associação Internacional se beneficiam da venda da reprodução de suas pinturas transformadas em cartões de Natal, calendários e outras peças de grande expressão artística.


Suipa


Mesmo sendo uma instituição de causa animal, não tenho como deixar de falar da instituição que eu (tento) ajudar todo mês. Acho que todo mundo conhece o trabalho deles pela mídia, mas quem é do Rio e já conheceu a realidade da Suipa de perto sabe o quanto eles necessitam de ajuda para esse trabalho maravilhoso.

Sobre: Com 73 anos de existência, completados em Abril de 2016, a SUIPA permanece viva, como uma entidade particular, não eutanásica, sem fins lucrativos, e de utilidade pública. Além do abrigo, a SUIPA mantém em sua sede uma Assistência Veterinária, com preços populares, para que todas as pessoas possam cuidar de seus animais de estimação, de segunda a domingo e também nos feriados. A receita arrecadada, na Assistência Veterinária, é direcionada para cobrir diversas despesas da Entidade.



A Arte Salva

Rebeca: Encontrei recentemente no Instagram a iniciativa social A Arte Salva, idealizada pela atriz Karina Duarte, cujo projeto ampara crianças da favela 4 Rodas, localizada no antigo maior lixão da América Latina, em Jardim Gramacho, no bairro de Duque de Caxias aqui no Rio. Através do amor pela arte, o grupo promove aulas para as crianças da comunidade, sempre com a esperança de que a arte pode curar e transformar vidas.

Até 20 de janeiro você pode contribuir com o projeto A Arte Salva através do site vakinha.com, ou entrar em contato pelo e-mail contato@aartesalva.com para saber a melhor forma de realizar sua doação.
 


Lar Betânia

Regiane: Aqui em Ferraz de Vasconcelos / SP uma instituição muito conhecida é o Lar Betânia, uma organização não governamental (ONG) sem fins lucrativos que há 45 anos acolhe crianças e adolescentes vítimas de abandono, maus tratos físicos e psíquicos, em situação de exploração e do trabalho infantil, encaminhados tanto pelo Fórum como pelo Conselho Tutelar da cidade de Ferraz de Vasconcelos. 

Você pode entrar em contato com a instituição pelo email faleconosco@larbetania.com.br ou realizar uma doação pelo Banco Bradesco - Agencia: 0165-1 - Conta Corrente: 60830-0
 


E você, gostaria de indicar alguma instituição pra gente? Compartilha o link nos comentários :)

Um Milagre de Natal - um conto de Regiane Medeiros


Um Milagre de Natal

Daniel respira fundo ao parar diante do Hospital, encarando a fachada com a tintura já um pouco desbotada. Estranha o pouco movimento na entrada, mas pensando bem, como é Natal, talvez as pessoas saudáveis não queiram frequentar um ambiente tão deprimente como um Hospital Infantil. Ele certamente não queria estar ali, mas está preso a uma promessa da qual não pode se esquivar.

Depois de se identificar na recepção, pega o elevador para o 5° andar. Ao caminhar pelo corredor, sente as pernas vacilarem um pouco. É a primeira vez que faz esse trajeto sozinho. Durante 10 anos, ele acompanhou a esposa Rosana, nas visitas que ela fazia como voluntária, às crianças do 5° andar, o andar dos “doentes terminais”, como algumas pessoas se referiam. Ali, dezenas de crianças com doenças em estágio terminal, ficavam internadas até que a vida se esvaísse de seus corpos. 

Rosana gostava de visitar essas crianças, ler para elas, brincar com elas, arrancar-lhes um esboço de sorriso que fosse. Quando lhe perguntavam por que ela se dava ao trabalho de passar um domingo inteiro na companhia de crianças que talvez ela não visse na próxima visita, ela dava um sorriso misterioso, como alguém que sabe de um segredo que mais ninguém conhece. Mas, para Daniel, ela respondeu uma vez, dizendo que a vida dessas crianças já era triste demais para que as pessoas ficassem apenas sentindo pena delas, que se ela pudesse tornar o dia dessa criança melhor, era sua obrigação fazer isso. 

Desde esse dia, Daniel a acompanhava todos os domingos em sua jornada para fazer uma pequena diferença na vida daqueles seres que tão cedo, já conheciam as agruras da vida. Exceto pelo último domingo, onde nenhum dos dois compareceu ao Hospital. Rosana havia falecido no sábado anterior, enquanto dormia, numa passagem tão tranquila quanto sua personalidade, e o domingo havia sido dedicado em sua homenagem, num processo mais lento e doloroso do que Daniel esperara. Muitas pessoas haviam ido ao cemitério lhe prestar suas condolências, num desfile quase interminável de hipocrisia, enquanto internamente ele lutava para não gritar toda a dor que estava sentindo. Nenhuma daquelas pessoas sabia quem Rosana era de verdade. 

Após finalizado o enterro, ele voltou para casa e junto com as filhas separaram todas as coisas de Rosana entre o que seria mantido com eles e o que seria doado. Foi um momento sublime, tantas doces lembranças suscitadas... Aquela era a verdadeira homenagem à Rosana, sua família unida, lembrando de todas as coisas boas que ela havia ensinado a cada um deles. No meio das coisas pessoais de Rosana, encontraram cartas endereçadas a cada um deles. Daniel pegou a sua nas mãos como se fosse um tesouro precioso e ao mesmo tempo temível. Só abriu à noite, quando se encontrava sozinho na casa que eles compartilharam durante 40 anos. 

Na carta, Rosana declarava todo o amor que sentia pelo homem que havia dado o melhor de si para ela, exaltava alguns dos momentos mais memoráveis que passaram juntos e lhe fazia um pedido especial para quando ela não estivesse mais com ele: Daniel deveria continuar o trabalho que ela havia começado com aquelas crianças. Era um presente que ela lhe deixava. Ele não entendia como isso poderia ser um presente de início rejeitou completamente a ideia. Mas, com o passar dos dias, a ausência dela foi se intensificando e ele percebeu que se fosse ao Hospital, como eles faziam todos os domingos, talvez a saudade não doesse tanto.

Agora que chegara ao seu destino, tinha por consolo apenas a lembrança do cheiro dela, quando caminhava ao seu lado pelos quartos. Pensou em desistir e voltar para casa. Parecia-lhe muito cedo voltar à rotina, uma rotina que era dela. Mas, antes de conseguir se virar, viu uma cabecinha espiar por uma das portas. Um garotinho careca parecia brincar de esconde-esconde, pois toda vez que Daniel olhava em sua direção, ele sumia, e quando Daniel virava o olhar em outra direção, ele voltava a aparecer. 

Daniel caminhou na direção do quarto do garoto, como se um fio invisível o puxasse naquela direção. Quando entrou no quarto, o menino estava deitado com o cobertor cobrindo seu corpo até acima do nariz e soltava risinhos divertidos. Daniel sentou-se na beirada da cama e sorriu para o menino que por fim, descobriu o rosto e sorriu abertamente para ele, um dos dentes da frente lhe faltando, mas deixando seu sorriso mais gracioso com isso. Num gesto surpreendente até para si mesmo, Daniel retirou a prótese dentária que usava e mostrou ao garoto que ele também era banguela. Ambos riram tão alto que a enfermeira veio à porta ver o que acontecia, enquanto eles tentavam controlar o riso.

Daniel sentiu seu peito se aquecer aos poucos, enquanto a tarde passava e ele se dedicava a arrancar cada vez mais risos daquele menino. Quando a enfermeira anunciou que o horário da visita havia terminado, Daniel sentiu seu interior se esfriar um pouco. O garoto impulsivamente abraçou Daniel, que demorou um pouco a retribuir por puro espanto, mas quando envolveu aquele pequeno em seus braços, entendeu qual era o presente a que Rosana havia citado em sua carta de despedida.

“Tio, eu te amo!”, disse o menino, mais uma vez surpreendendo Daniel, que do alto de seus 75 anos, percebeu que ainda tinha muito a aprender. Mas, ele estava satisfeito com a lição aprendida naquele dia, naquele Natal. Quando dedicamos nosso tempo para tornar o próximo feliz, aquela gota de alegria gerada retorna para nós em um mar que nos transborda e transforma, como só um verdadeiro milagre consegue realizar.

Feliz Natal!!!!!  
sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Recebidos de Dezembro | Harper Collins, Global Editora e Rocco

Se você trabalha ou conhece alguém que tem uma rotina de escritório, já deve ter reparado que é costume das empresas oferecer para seus colaboradores e parceiros alguns mimos em datas comemorativas, especialmente no fim de ano. Canetas, ímãs, garrafinhas, bloquinhos e outros "inhos" costumam ser um tipo de brinde típico de tais ocasiões. E ainda que a gaveta e a porta da geladeira esteja repleta de marcas, toda mãe/vó/criança e até nós mesmos adoramos ganhar mais um presentinho, não é mesmo?

Neste fim de 2016, onde completamos um pouco mais de um ano de atividades aqui no Blog, queremos agradecer muitíssimo o carinho de todos vocês, parceiros e leitores!! Obrigada mesmo por apoiar o nosso trabalho <3 Esperamos sempre estar com vocês, seja na alegria ou na doença, na fofura de um romance ou na resenha de um sick-lit :) Aliás, quando quiserem trocar uma ideia, é só chamar lá no Instagram ou no email! #tamojuntosempre

Bom, pra continuar no clima de fim de ano, mais especificamente o natalino, preciso compartilhar a alegria de ter recebido estes tão criativos mimos de nossos parceiros <3 Meus parabéns ao pessoal do Marketing da Harper Collins, Global Editora e Rocco, adoramos tudo!!

Aliás, cabe aqui um parêntese-reflexão: sem citar nomes, claro, queria em algum momento conversar com vocês sobre este relacionamento com marcas, editoras e parceiros. No caso, tanto o da Editora ou Autor com o leitor/blogueiro como também nossa contrapartida nesta relação. Porque acho que é um tipo de assunto que todo mundo que faz parte deste mundo literário tem curiosidade, e, por não sabermos bem os limites do "até onde podemos comentar ou reclamar", estas relações podem ficar assim meio turvas mesmo...

Outro dia comentei com uma amiga blogueira sobre o feedback que o leitor/blogueiro recebe da galera social media das marcas e editoras (ou traduzindo: a equipe que responde os leitores nas redes sociais). Porque muita gente tem comentado sobre a quantidade de emails não respondidos, assim como um tanto de encomendas e cartinhas que não chegam ao seu destino. É claro que o oposto também acontece, e infelizmente o leitor/blogueiro acaba não cumprindo suas demandas por aí. Enfim, assunto longo e delicado, e por isso não apropriado a este algum otimismo de toda virada de ano. Mas anotem na agenda, acho importante trocarmos uma ideia sobre isso :)

Mas voltando: meu muito obrigada aos lindos da Harper Collins, Global Editora e Rocco! Olha só quanta coisa diferente chegou por aqui:


Don't worry, be Harper. GENIAL!! <3


Eu que não terei férias de fim de ano (minhas saudações a galera do comércio, saúde, comunicação, concurseiros e afins que também compartilham o #tamojunto neste operariado de dezembro... foco, força e muito café nessa hora!) ganhei da Harper Collins um par de sandálias da marca Ipanema que certamente serão minhas companheiras de caminhada (seja do quarto para a geladeira como da casa para as comprinhas de verão no fim de semana) <3 Obrigada pelos votos de sombra de água fresca, pessoal! Estou realmente precisando rs
 

Gente, e eu que tava no impasse de comprar ou não uma agenda (porque afinal, são tantas as lojinhas artesanais e lindas que não dá pra escolher um só modelo!) acabei recebendo uma dos amigos da Global <3 Adorei essa ilustração de capa! Até porque, como dizia Gullar, "se não há espanto, não escrevo", e de algum modo essa agenda me faz lembrar disso :)


Aliás, como um parênteses ao assunto de parcerias lá de cima, quero dizer que a Global é uma editora muito séria e sempre muito solícita em todas as nossas comunicações. Deixo aqui meu grande abraço para a Carla e sua equipe! <3 Espero que todo mundo tenha um dia a oportunidade de encontrar os títulos da Global em sua cidade (aliás, leiam Cecília Meireles, gente! 'Bora começar 2017 com poesia!) e claro, também fazer parte desta rede de parceiros-amigos! Relacionamento é tudo, mesmo <3


E pra completar as surpresas de nossa semana natalina, quero agradecer ao Alexandre da Rocco por ter enviado este mimo tão wishlist de todo blogueiro <3 Pode deixar que vai rolar apresentação da obra por aqui! Só que como nossa amiga Regiane é a potterhead oficial do Blog, ela é que fará a resenha, claro rs <3


Então é isso, pessoal! Até o próximo post :)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Jane Austen - parte 2 | Por Regiane Medeiros


Ao longo do tempo, a obra de Jane Austen tem sido amplamente discutida e a cada novo trabalho a respeito de sua obra, vemos as opiniões dos críticos mudarem. Ela já foi considerada genial, previsível, irônica, moralista, elitista, racional e muitos outros adjetivos contraditórios entre si.

O que todos esses críticos concordam é que ela escrevia histórias com as quais o leitor dito “comum” da época, se identificaria. Bom, pelo número de vendas de suas obras na atualidade, podemos dizer que não importa o que os críticos possam dizer, sua obra mexe com os leitores.

Dando continuidade ao nosso especial para homenagear a autora, vamos falar de mais duas obras de sua autoria, lidas por essa que vos escreve:

http://www.saramaese.com/Jane-Austen-NovelsMansfield Park foi publicado pela primeira vez em 1814, e é a terceira obra de Jane a vir a púbico. Nesse livro, escrito em uma fase mais madura da escrita de Jane, temos a jovem de origem humilde Fanny Price, que mora de favor com os tios ricos, os Bertram, em Mansfield Park para onde foi levada quando ainda era criança. Criada com a prerrogativa imposta por uma das tias, a Sra. Norris, de que ela deveria ser grata pela situação em que se encontra, Fanny se mantem durante muito tempo em uma situação de subserviência, que a coloca em termos de importância para alguns familiares, no mesmo patamar que os empregados da casa. Dividindo-se entre os sentimentos de gratidão e ao mesmo tempo inferioridade, ela aceita com grande sofrimento e confusão, o abuso psicológico que a tia a submete.

Conforme, vai crescendo, a situação muda um pouco, já que os tios e Edmund, um primo em especial, começam a tratar-lhe com maior consideração e gentileza, cedendo-lhe um lugar de fato na família, ao qual ela tem dificuldade em entender e aceitar, já que toda sua vida sentiu e foi ensinada que isso não era a realidade dela. Não se engane em pensar que ela é uma mocinha boba e "coitadinha". Apesar da aparência frágil e da extrema timidez e modéstia, Fanny concentra em si diversos conflitos da alma humana, mostrando-se uma personagem forte e profunda e muito mais sensata e inteligente que os primos e as próprias tias. E apesar de seu coração gentil e grato por tudo que a vida lhe proporcionou através de pequenos momentos de alegria, ela é firme em não permitir que outros decidam seu destino, quando o momento decisivo de sua jornada chega. 

O enredo se baseia na jornada da própria Fanny e da família que a acolheu, além de suas relações com uma família que habita no mesmo local e frequenta os mesmos círculos sociais dos habitantes de Mansfield Park. Os personagens dessa história cheia de elementos conflitantes como contratos sociais, preconceitos, escravidão, autoconhecimento, riqueza e amor, são muito bem elaborados e suas verdadeiras essências, boas ou más, não são tão estereotipadas como vemos em outras obras de Jane Austen, mostrando que mesmo alguém de má índole, pode sim ter momentos de redenção, ou alguém de bom coração e de inteligência superior, pode ser ludibriado pelo encantamento superficial com a beleza de outrem.

E se há algo nessa obra que a diferencia das demais, é que Jane conseguiu criar um personagem principal masculino, que eu considero detestável, por sua estupidez em se deixar envolver por pessoas que desdenham de sua condição e escolhas pra vida, mas ainda assim com a esperança de que haja uma mudança de paradigmas, coisa que pessoas apaixonadas infelizmente fazem na vida real também. Ao mesmo tempo é admirável que ele não desista de seus propósitos e plano de vida para satisfazer um comportamento na pessoa amada que ele julga supérfluo e mesquinho.

Mais uma vez, Jane mostrou que estava a frente de seu tempo, falando de temas tão atuais que me parecia uma história contemporânea ao invés de um clássico da literatura inglesa.

http://www.martinclaret.com.br/?s=jane+austen

Em Abadia de Northanger, publicado postumamente (1817), podemos ver uma face mais leve da escrita de Jane em uma paródia dos romances góticos que estavam na moda naquele período. A heroína Catherine Morland, é uma jovem de imaginação fértil que adora romances repletos de aventuras sombrias que se passam em antigos castelos ou mosteiros de arquitetura gótica e seu maior desejo é viver uma dessas aventuras.

De temperamento dócil e até ingênuo, Catherine se vê rodeada de pessoas da alta sociedade inglesa, e chama a atenção de alguns jovens de melhor situação financeira que a sua. Podemos acompanhar através dessa narrativa, como era a vida social dos jovens naquela época, com seus bailes quase que diários, o despertar do interesse pelo sexo oposto, a maledicência com que os adultos julgavam os jovens de que tanto se gabavam na frente uns dos outros, e a doçura de uma protagonista que não vê maldade em ninguém.

Catherine encontra sua própria aventura quando é convidada a passar alguns dias na Abadia de Northanger, residência de um Coronel e seus dois filhos, com quem ela estreita laços de amizade e acaba sendo alvo da própria imaginação romântica ao perambular pelos cômodos da Abadia. 

http://www.saramaese.com/Jane-Austen-NovelsNesse romance mais jovial de Jane, nos divertimos e somos pegos de surpresa (como a própria Catherine) com os fatos. Alguns personagens são quase transparentes aos olhos do leitor, pois enxergamos logo a índole dos intrinsecamente maus. Mas, há outros personagens que não são o que aparentam, o que nos provoca uma maravilhosa sensação de deleite ao nos depararmos com suas verdadeiras personalidades. Jane soube dosar de maneira equilibrada o que era óbvio para nós compreendermos e adentrarmos a história, e o que estava subliminarmente presente na personalidade de cada figura desse enredo.

Como nas demais histórias escritas por Jane, vemos nossa heroína crescendo com as situações a que é submetida, sem deixar de lado seus próprios conceitos e sentimentos. Trate-se de uma leitura mais rápida, mais afiada, pois apesar de ter sido publicada posteriormente à morte de Jane, ela o escreveu entre 1798 e 1799, sendo um de seus primeiros textos a serem finalizados, e é considerado por alguns estudiosos um romance de aprendizagem, onde ela sutilmente critica os romances góticos e defende os romances em geral, que na época eram escritos principalmente por mulheres e considerados de segunda categoria, mesmo que o enredo não se foque nisso.

Uma curiosidade a respeito desse livro, é que foi o primeiro em que Jane foi apresentada como autora. Até então, seus livros haviam sido publicados anonimamente, (apesar de a família não conseguir esconder completamente a autoria dos romances), mas seu irmão Henry escreveu uma nota biográfica em Abadia de Northanger para sua publicação, onde trouxe a público informações sobre a vida e últimos momentos de Jane, além da maneira como ela via sua obras, mesmo que seu nome não constasse na capa.

Aguardo vocês para continuar essa deliciosa discussão sobre as obras dessa autora atemporal. <3


Ps: As ilustrações deste post são da artista Sara Maese e as edições consultadas são as da Martin Claret que tanto amamos!

Ps 2: Você pode conferir a primeira parte deste especial Jane Austen aqui.

Sorteio de Fim de Ano do Blog Papel Papel!

Atualização em 30/12: quem levou pra casa o kit do amor com Paçoquita foi a leitora @anna_doy! :) Parabéns, Anna! E muito obrigada a todo mundo que participou <3 Ano que vem tem mais, com certeza!!




Hohoho! E chegou o momento de realizarmos o Sorteio de Fim de Ano do Blog Papel Papel!! Ao participar, você concorre a um kit com 6 livros (Sing, Isla e o Final Feliz, Miniaturista, Louca por Você, Melancia e O Pequeno Príncipe) + marcadores diversos (esqueci de fotografá-los, sorry rs) + 1 pote de Paçoquita Zero e Balas de Paçoquita <3


Para participar, é muito fácil: basta preencher o formulário abaixo com seu nome, email e contato de Blog/Instagram. Caso não consiga visualizar o formulário, tente acessar pelo link :)

O resultado do sorteio será divulgado no dia 30 de dezembro aqui no Blog e no Instagram. O sorteado receberá o kit completo! <3



Boa sorte!! :))

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

[Unboxing] Media Kit PAÇOQUITA | Santa Helena



Não é fácil desenvolver um bom trabalho nas redes sociais, especialmente quando você é uma grande marca e tem um produto que, mesmo sendo de consumo e preferência nacional, pode não causar tanto engajamento de público assim. Não é o que acontece com a Santa Helena, uma tradicional indústria alimentícia de Ribeirão Preto/SP conhecida por sua extensa linha de produtos à base de amendoim, sendo a Paçoquita o mais famoso deles. Ao longo das décadas, a marca tem investido em novos sabores e versões de seus doces mais conhecidos (quem diria que um dia encontraríamos paçoca diet por aí!), criando inclusive a tão desejada Paçoquita Cremosa, que chegou ao mercado em julho de 2014 e, em apenas seis meses, alcançou a marca de 2.4 milhões de potes vendidos.

Com estas inovações de produto, aliadas a um processo de humanização de sua marca, a Santa Helena tem alcançado um espaço quase onipresente no segmento, engajando em seus canais de comunicação inúmeros fãs nostálgicos da iguaria, assim como novos adeptos desta doce cultura do amendoim.

Para conhecer mais da história da Santa Helena, vale conferir a matéria feita pelo site Mundo das Marcas. E claro, acompanhar suas divertidas postagens no Instagram e no Facebook.

Mas... você deve estar se perguntando: por que falar de paçoca aqui no Blog?

Bom, primeiro, porque a gente é #pacoquitalover e adora uma gordice! #minhavidanadafit é isso aí <3 E segundo, porque não tem como não ser fã de uma marca que promove um vídeo desses (risos):


E terceiro... bem, não dá pra terminar o ano sem falar pra vocês que eu quase infartei quando recebi uma caixa repleta de paçoquitas! <3 <3 <3


Um dos presentes mais inusitados e inesperados que eu já recebi, fato! Nossa, meus parabéns a equipe de Marketing da Santa Helena, vocês são incríveis!


Sério, Paçoquita Cremosa é bom demais, e a Zero é puro amor!! <3


Bom... e como estamos no fim de ano e a gente sabe que fazer post de comida é maldade rs, pensei em adicionar ao Sorteio de Fim de Ano (que ainda vai entrar no ar nos próximos dias) um pouquinho deste amor em forma de doce de amendoim <3 Afinal, nada melhor que uma leiturinha acompanhada por um bom café e um docinho, não é mesmo? Fiquem ligados no sorteio! E claro, nas promoções e dicas e vídeos e delícias mil que a Santa Helena compartilha por aí! :)

 

Sanshiro, de Natsume Soseki | Estação Liberdade | Por Bruno Fraga


É sempre difícil para nós, ocidentais, falarmos sobre a literatura japonesa e sua cultura em geral, pois normalmente não temos o conhecimento adequado para uma analise profunda em relação ao que influenciou aquela obra. Alguns podem ousar e dizer que Sanshiro, de Natsume Soseki, tem forte influência do romantismo, e talvez tenha, mas isso de modo nenhum removeria a originalidade da obra que tem o poder de, pausadamente, adentrar o íntimo do leitor, mesmo que suas 272 páginas sejam lidas em um dia.

O início do livro conta com uma introdução do próprio Natsume Soseki, que já adianta bem a serenidade cotidiana que ditará o ritmo dessa história. Além de chamar seu próprio romance de "trivial", diz sobre os personagens e locais narrados na história: "Esta obra consiste apenas em soltar tais pessoas nessa atmosfera.".

Na Tokyo do período Meiji (1868-1912), vindo do interior, Sanshiro chega após uma longa viagem de trem para ingressar como aluno na Universidade de Tokyo. Logo tem de lidar com o choque de realidades, a confusão da cidade grande se potencializa devido sua imaturidade e, em seu próprio interior, a sensação é de estar tão perdido quanto  em suas caminhadas pelas confusas ruas da já então metrópole japonesa.

As cartas enviadas por sua mãe são um refugo que momentaneamente o levam de volta para sua pacata vida em Kumamoto. Professores ausentes, alunos desinteressados e tantas características que poderiam descrever uma universidade brasileira nos dias de hoje são alguns dos motivos que abatem a excitação por conhecimento que o jovem pode ter tido ao imaginar a vida no campus.

Yojiro Sasaki é o personagem que faz a história se mover, mesmo que para isso tenha que sempre recorrer a empréstimos financeiros. O estudante é o principal companheiro de Sanshiro e tem papel fundamental de apresentar novas pessoas ao seu amigo interiorano. A atitude de Sanshiro diante dessas novas pessoas muitas vezes assemelha-se com a de um leitor, pois o mesmo fica atônito;  não reage, se escondendo no conforto de sua timidez.

A obra de Soseki consegue abordar temas profundos de uma maneira cotidiana, muitas vezes acompanhada da "fumaça filosófica" do professor Hirota diálogos focados em diversos temas sérios, como o papel da academia, a influência ocidental sobre a cultura japonesa e a relação dessa influência com a independência das mulheres .

No meio de tanta calmaria, surge uma paixão. Sanshiro, que chega a ouvir que "não era lá uma pessoa muito corajosa", se incomoda com sua inépcia, mas saberá ele agir? Teria ele alguma chance? Apaixonar-se pela bela Mineko, que é exatamente o oposto da personalidade insegura de nosso herói seria uma questão de tempo. 

O desfecho dessa paixão pode não ser óbvia para todos, mas para aqueles que lembram dos momentos covardes da juventude, ou os que  ainda os vivem sabem muito bem o caminho que Natsume Sosseki guiará o leitor no desfecho dessa história.

Por Bruno Fraga 


“A mulher passou por ele. Sanshiro, ainda parado, observou atentamente a silhueta que se distanciava. Ela chegou à bifurcação. No instante em que ia dobrar, voltou-se ainda mais uma vez. Sanshiro ficou desconcertado por sentir as faces lhe corarem. A mulher sorriu e fez um gesto com a cabeça como que perguntando se era ali mesmo que devia dobrar. Sanshiro fez que sim. A silhueta da mulher seguiu para a direita, escondendo-se atrás da parede branca.

Sanshiro deixou, absorto, a entrada do prédio. Deu uma dúzia de passos ainda imaginando se ela teria lhe perguntado o número do quarto porque o confundira com um estudante da Faculdade de Medicina, quando se deu conta de que, no momento em que a mulher lhe indagara pelo quarto 15, poderia tê-la acompanhado, mostrando-lhe ele mesmo o caminho. Lamentou sua própria atitude.

Agora não lhe vinha a coragem de voltar lá. Julgando não ter mais o que fazer, caminhou mais um pouco e dessa vez parou por completo. Na cabeça de Sanshiro refletiu-se a cor laço que a mulher usava. Tanto a cor quanto o material eram indênticos ao do laço que Nonomiya comprara na loja Kaneyasu, uma ideia que lhe tornou as pernas pesadas. Passando pela biblioteca como que a rastejar, dirigia-se ao portão principal quando Yojiro chamou-o de algum lugar." 

Sobre o autor: Natsume Soseki nasceu em Tóquio em 5 de janeiro de 1867. Teve infância difícil e solitária. Aos 23 anos, inicia seus estudos de literatura inglesa. Sempre vítima de crises nervosas, viaja à Inglaterra em 1900 como bolsista do Ministério da Educação. Não se adapta à cultura ocidental, entra novamente em depressão e regressa ao Japão em 1903. Seu recorrente estado depressivo o afasta da família. Falece em 9 de dezembro de 1916. Soseki permanece até hoje como um dos escritores mais populares e lidos do Japão. Destacou-se em todos os tipos de escrita, assinando importante obra de teoria literária, totalmente inovadora para a época. Se de um lado foi marcado pela influência ocidental, de outro apregoou a valorização da cultura tradicional nipônica.

Obras: Sanshiro; O portal; Eu sou um gato; E depois; Botchan
Editora Estação Liberdade

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