domingo, 30 de abril de 2017

Angus - O Primeiro Guerreiro, de Orlando Paes Filho | Novo Conceito | Texto por Jonatas T.B.


Angus - Da Barbárie à virtude

“Os bretões vieram para a Bretanha na terceira era do mundo; e na quarta, os escotos se apoderaram da Irlanda. Os bretões, que, por não contarem com eventuais hostilidades, estavam desprovidos dos meios de defesa, foram atacados hostil e incessantemente tanto escotos do oeste como pelos pictos do norte.
- Como assim? Eles nunca resistiram?
- Tentavam resistir, mas a ferocidade dos pictos e escotos era sem igual.
No entanto, e preciso lembrar que também houve a fase de dominação de um povo muito poderoso, os romanos, de que tu com certeza já ouvistes falar.”

Há certo tipo de história cuja intensidade do enredo e a solidez afiada de ideias emergem feito iluminuras vítreas por trás de nossos olhos, como se de algum modo sempre estivessem escondidas por lá. De repente, a lâmina escapa desse prisma e simplesmente nos corta. No lugar do ferimento se abre uma trilha íngreme que nos eleva à compreensão de coisas tão essenciais, como, por exemplo, a brutalidade do mundo natural, nossas raízes familiares e até as virtudes necessárias para que deixemos de ser meras individualidades a mercê no cosmos ou animais sociais cuja existência se sedimenta no tempo. Para além de toda margem da dúvida, posso finalmente aqui afirmar que “Angus, O Primeiro Guerreiro”, de Orlando Paes Filho, é uma bela iluminura de sangue, aço e espírito. Assim, comparo cada palavra escrita com as pinturas feitas pelo próprio autor para esta edição: a narrativa ambientada durante a Alta Idade Média pulsa feito ferro sob marteladas em uma forja.

Pelo ano de 545 D.C., Columba, um monge eremita, atravessa belas e perigosas paragens bretãs para reunir-se com sete mais importantes druidas. Diante de todos, as cortinas do inferno se abrem e desvelam a profecia que lançaria o mundo ao seu fim através das forças “do-olho-que-tudo-vê. E para se evitar o triunfo do mal, na mesma visão pulula em meio a névoa uma espada a ser forjada por aqueles druidas conhecedores da nobre arte. Após o prólogo, somos arremessados diretamente no olho do tornado das invasões vikings que atormentaram a Europa, no ano de 865 D.C. Sob o olhar do jovem Angus, de apenas 16 anos, testemunhamos a voracidade e violência de povos nórdicos, cujo sustentáculos do seu governo são a guerra, a pilhagem e a comercialização de escravos com povos de tradição escravagista, como os médio orientais.

“Era muito bom ver o contentamento daquela gente. Mães reencontrando filhos, pais quebrando grilhões de crianças e jovens, antes nuas em pêlo, agora vestidas por seus companheiros. E todos, felizes em seus trapos, em um farrapo de vida recuperada, apesar de sua existência ter sido transformada em frangalhos por Ivar e seu filho bastardo, choravam copiosamente de alegria. Sim, eles estavam felizes, pois os barcos que aquelas famílias agora terminavam de construir e os outros que tinham conseguido recuperar eram os mesmos que os iriam levar, dentro de alguns meses, num futuro próximo e até havia pouco inevitável, para os mercados mouros e hebreus, onde seriam vendidos como animais, onde as mulheres seriam prostituídas, onde as crianças seriam açoitadas e onde os homens competiriam com os cavalos, executando trabalhos pesados até a morte.”


Nesta história, o sangue não nutre apenas as sensações do leitor ávido por batalhas mortais, mas nos conduz também por uma dura trilha de elevação espiritual. Seawulf, pai de Angus, tomara como esposa uma mulher cristã pertencente ao povo picto, consagrando o jovem à dupla herança familiar. É de Seawulf que ele aprende as primeiras lições sobre vida e morte, honra e sensatez. A prova de maturidade de Angus será a guerra. Seawulf e sua tribo foram convocados à conquista da ilha bretã, conduzidos por Ivar, apelidado de “o sem ossos”, cujo pai fora jogado em um poço com serpentes. A estratégia do guerreiro de sangue de gelo se afirma como contraponto às ações impulsivas e desordenadas dos berserkers e outros jarls (líderes guerreiros). Suas decisões precisas o tornam essencial na conquista de cada cidade.

“Mas Ivar estava no auge de sua ferocidade. Ou crueldade, eu diria. Seus berserkers pareciam tomados pelo efeito de cogumelos. Aquelas "camisas de urso", assim chamados por que costumavam se vestir com a pele desses animais, devoravam os habitantes da cidade como se fossem relva. Crianças eram arrancadas do seio das mães e seus corpos atirados contra as rochas que se transformavam em suas sepulturas, enquanto as mães eram massacradas e lançadas sobre os corpos ainda trêmulos dos filhos.”

O comportamento de Seawulf e seus subordinados, aos poucos, se distingue dos demais, como água em gordura. Enquanto os primeiros atentam a um primitivo bom senso, a cada conquista dos povoados e castelos, os outros bárbaros espalham o horror por pura vontade. Crianças e mulheres, todas mortas sem distinção. Uma trilha de corpos fatiados e catapultados para atemorizar o inimigo. Para mim, o cume da violência se deu em um ritual chamado águia de sangue, descrito de forma magnífica, mas que, de tão viva a cena, não ouso transcrever aqui. Então, por impor-se explicitamente contra os métodos de Ivar, é considerado como ameaça pelos próprios pares.

“Crianças choravam perdidas no meio dos destroços carbonizados daquilo que tinha sido seus lares. Corpos mutilados espalhavam-se pelo chão. A maioria não tinha tempo de se defender, e os que tentaram foram todos retalhados. Agora, os lobos humanos buscavam mulheres. Os gritos e choros deles enchiam o ar, me inundando de apreensão.”

Angus descobre que o mundo governado sob a égide das forças naturais é tão frio e cortante quanto o aço, e a única forma de resistir e ordenar tais forças é elevando o espírito em direção à virtude. Às portas da morte, o jovem guerreiro é salvo pelo monge Nennius. Ele é o responsável pelo ensino de cada virtude, em oposição às fraquezas que amaldiçoam o homem. Pessoalmente, o capítulo seis (A Abadia de Nennius) é o espírito de toda obra. Ali, um velho monge leva um jovem bárbaro à reflexão profunda acerca do propósito de sua vida, munindo-o com sabedoria necessária para tornar-se de fato um nobre guerreiro.


“Depois de dizer essas palavras, que, mais do que um ensinamento, pareciam uma ordem ou uma sentença, Nennius retirou-se calmamente. Era como se tudo ao redor, a pacífica capela, os monges com seu andar simples, os pássaros, o vento que soprava assobiando e acariciando os galhos das árvores, as montanhas firmes e longínquas, como se tudo tivesse ficado envolvido por suas palavras. E não só a natureza ficou. Eu também me vi tomado por toda aquela sabedoria.”

Por fim, confesso que nunca imaginaria me ver a considerar Angus uma obra original. Não no sentido de novidade, obra nunca vista, inventiva, ou algum ponto de partida germinal. Há nesta história evidente esforço em contar algo mais importante. Uma história que haverá de ser contada mesmo se for esquecida, como se a escrita escavasse a terra à procura da raiz mais profunda da árvore mais antiga. Tal qual Robert Ervin Howard, ao salientar o inequívoco conflito entre civilização e barbárie em sua série Conan, Orlando Paes Filho, a meu ver, demonstra de forma patente a transformação da brutalidade natural para a nobreza excelsa em que homem toma sua responsabilidade de guerreiro.

Orlando Paes Filho certamente é um autor de respeito, não só pela consistência histórica, fruto de evidente longa pesquisa, ou pelas belíssimas ilustrações feitas pelo próprio autor, mas também pela ousadia e crueza com que nos conta. Reitero que a narrativa flui com o vigor de um martelo modelando o metal bruto a torná-lo uma espada.

P. S.: Além da série Angus e spin-offs, os leitores poderão encontrar jogos de RPG e a trilha sonora para ambientação da série, produzida pelo próprio autor. 


Angus - O Primeiro Guerreiro
Orlando Paes Filho


Bretanha, ano de Nosso Senhor de 863. Cidades e monastérios são deitados ao chão. Os invasores fazem frente aos maiores reis da Bretanha, tudo se torna árido pela devastação. A morte se espalha por toda parte. Mas há um guerreiro de nome Angus MacLachlan, que não

parece tombar diante dos ataques daneses. Ele não se curva aos dominadores nórdicos. Parece abençoado, luminoso, assim como luminosa é sua espada a espalhar cadáveres dos invasores.
Ele parece libertar os cativos e propor uma nova resistência. Ele parece unifi car reis. Um oponente terrível contra a invasão, que tenta destruir a Bretanha e seus reinos para sempre

Angus - O Primeiro Guerreiro é o início de uma trilogia medieval ricamente ilustrada, que mistura literatura fantástica com importantes fatos históricos da humanidade.

sábado, 29 de abril de 2017

No Coração da Floresta - Emily Murdoch | Editora Agir Now - Nova Fronteira


A minha vida toda fui elogiada por ter sido tão madura, mesmo com pouca idade, o que me envaidecia quando eu era mais jovem. Hoje, eu vejo quanto perdi da minha adolescência por ser tão “madura”. Claro, eu não tive opção, então não me recrimino tanto e compenso comprando milhares de coisas do Mickey, pelúcias, pegando lembrancinhas em festa de crianças e rolando no chão com minhas sobrinhas. Algo muito maduro para meus trinta e poucos anos, sabe – gargalhadas!

Não estou dizendo que não é louvável ser considerado maduro ainda que jovem, pelo contrário, no mundo em que vivemos é uma coisa boa ter atitudes que são sempre relegadas a adultos. Mas, todo amadurecimento tem um custo. Às vezes, alto demais. E é sobre isso que se trata o Young Adult No Coração da Floresta, livro de estreia de Emily Murdoch e publicado no Brasil pelo selo Agir Now da Editora Nova Fronteira.

O livro conta a história de Carey Blackburn e sua irmã Jenessa, a partir do momento em que são encontradas no meio de uma floresta no Tenessee por uma assistente social e um homem, o pai de Carey. Narrado pela própria Carey, somos levados a uma jornada de sofrimento, privações e redescobertas.

Carey foi levada pela mãe quando ainda era uma criança, e ambas se esconderam na floresta por dez anos. A mãe de Carey alegava que tinha feito isso para protegê-las, já que o pai de Carey batia em ambas. Mas a mãe de Carey, uma ex-violinista que amava a música, não fez nada diferente nesse sentido. Pelo contrário, conforme Carey vai tentando se adaptar a sua nova vida, com uma família, teto, roupas limpas e quentes, comida e água quente à vontade, ela compara sua vida atual com o passado violento vivido junto da mãe, uma mulher desequilibrada e viciada em drogas, que usava a própria Carey como forma de pagamento a homens inescrupulosos e doentes que pagavam algumas moedas para poder tocar em uma criança indefesa que não faz a mínima ideia do quão errado era o que estava acontecendo.


Só que Carey deixou de ser indefesa quando a mãe engravidou pela segunda vez e a menina que mal dava conta de si, teve que cuidar da sobrevivência de um bebê, já que sua mãe estava sempre fora e quando voltava não se importava com as filhas, somente quando lhe convinha. Essa responsabilidade pela vida de outra pessoa, transformou Carey em uma adulta rapidamente, que cuidava de uma criança provendo refeições à base de animais que ela mesma caçava, lavando as roupas de ambas no riacho, aquecendo o corpo da irmã no frio arrebatador do inverno na floresta, e provendo educação para si e para Jenessa através da leitura de livros que a mãe eventualmente trazia quando os encontrava no lixo. O maior consolo dessa existência precária, era o violino que a mãe a ensinou a tocar e com o qual Carey tem uma conexão tão profunda, que a mantém sã diante de todas as preocupações diárias.

Mas a Carey da floresta, responsável e forte, não sabe como agir agora que tem que viver na casa do pai, do qual ela nem se lembra e do qual tem uma imagem dura e triste formada pelas palavras da mãe, junto de Melissa, a adorável esposa de seu pai e sua filha Delly, uma jovem adolescente que não deixa nada a desejar quando se trata de ser o estereótipo da “loira patricinha americana que não gosta de concorrência”. Carey ainda tem que se preocupar com o fato de que precisa frequentar uma escola regularmente, não pode mais receber “educação em casa” e o ajuste social após tantos anos vivendo na floresta, tendo por companhia a irmã caçula, as árvores e os animais.

“Eu ainda pareço exatamente a mesma garota que morava no mato (...). Ainda pareço ter olhos de coruja, queixo pontudo e ser séria. Ainda pareço saber mais do que deveria, o que é verdade” – pág. 113

Com coragem e resiliência Carey tenta se ajustar, não por si mesma, mas por Jenessa, que está adorando cada novidade e vivendo intensamente cada momento dessa nova vida, como se aquele tivesse sido o seu lugar desde sempre. Carey sabe disso porque Jenessa é muito expressiva, ainda que não fale em voz alta há mais de um ano. E o motivo da mudez seletiva de sua irmã, é o pior pesadelo de Carey. Porque pode leva-la a perder tudo o que conseguiu nessa nova vida, inclusive perder a própria irmã. E nada mais importa para Carey do que manter sua irmã segura.

“Palavras são armas. Armas são poderosas. Assim como palavras não ditas. Assim como armas não usadas” – pág. 36.

Essa foi uma leitura muito difícil de ser feita, ainda que eu tenha devorado o livro. O ritmo da escrita de Emily é muito fluido, muito limpo. E mesmo que o tema seja aterrador, violento, doloroso, Emily consegue fazer a narrativa de todos os eventos de uma maneira sutil, sem chocar demais o leitor. Afinal, estamos na cabeça de uma jovem muito sensata e madura, que optou por manter o melhor de sua existência precária dentro de si, em meio a uma vida cheia de provações e privações e que vai descobrindo aos poucos, que muito de sua vida passada não passou de mentiras e que em meio às diversidades é muito fácil justificar os atos hediondos de alguém que supostamente nos ama, quando essa pessoa é a única que temos. 

Carey, como qualquer pessoa no lugar dela, vai sendo destruída e reconstruída, conforme a luz da verdade vai clareando os fatos que ela julgava conhecer. E acima de tudo, ela descobre que a verdade é realmente libertadora, ainda que dolorosa.

“Ninguém me avisou que ficar próxima das pessoas, às vezes, significava magoar, tanto a elas quanto a mim” – pág. 180.

Recomendo para aqueles que tem o coração forte... Porque não é uma leitura fácil, nem para entreter. É para transformar.   



Algumas coisas são impossíveis de deixar para trás...

Um trailer abandonado. escondido em meio a uma reserva florestal. é o único lar de que Carey se lembra. Aos 15 anos. as árvores são as guardiãs de sua vida mal-afortunada. e o único ponto positivo é sua irmã mais nova. Jenessa. que depende de Carey para sobreviver. Elas só têm uma a outra. considerando que a mãe das meninas. mentalmente instável. muitas vezes desaparece por dias sem fim. Até que um dia. após um sumiço mais longo do que o habitual. dois estranhos aparecem. De repente. as meninas são tiradas da floresta e levadas a um mundo novo e surpreendente de roupas. meninos e aulas.

Agora Carey precisa enfrentar a verdade escondida por trás do seu sequestro. dez anos antes. assombrada por um passado que não a deixa seguir em frente... Um passado sombrio e misterioso. em que jaz o motivo de Jenessa não falar uma palavra há mais de um ano. Carey sabe que precisa proteger a irmã. assim como seus segredos. ou se não pode colocar em risco toda essa nova vida que criou para si. 
domingo, 23 de abril de 2017

Melhor e Mais Rápido - Jeremy Gutsche | Editora Rocco



"Se você levar apenas uma mensagem deste livro, espero que seja a de que a única certeza real na vida é a mudança."

O que há de comum entre uma boa história, um saboroso vinho e um caríssimo smartphone? Pesquisa, muita pesquisa. Afinal, para obtermos êxito - e quem sabe longevidade - em nossos projetos, é preciso conhecer as características e demandas de nosso público, e claro, do mercado, para assim desenvolvermos produtos, serviços e experiências satisfatórias para todo aquele que se identificar com nossas criações.

Chamamos trendhunter ("caçador de tendências") o profissional que se utiliza do conhecimento de áreas como a antropologia do consumo, a sociologia, o marketing e muitas outras para construir e entender o seu público, e com isso ajudar empreendedores no desenvolvimento de novos produtos e serviços. Jeremy Gutsche é um profissional considerado um dos pioneiros neste segmento, e seu livro Melhor e Mais Rápido tem como objetivo ajudar o leitor a colocar em prática seus projetos e a encontrar no exemplo de empresas inovadoras aquela força necessária para gerar ideias e estimular o seu potencial criativo.

Mas por que deveríamos conhecer uma obra técnica que fala de pesquisa, inovação e mercado? Primeiro, porque "todo mundo cultiva" (p.17), e esta metáfora "agrícola" é apresentada no livro para demonstrar que diariamente o ser humano estabelece relações e negócios, e cria raízes, e tenta a todo custo proteger aquilo que foi conquistado. Tendo em vista esta necessidade de estabilidade e equilíbrio, o livro de Jeremy Gutsche nos diz que, em um mundo bombardeado por informações incessantes e transformações contínuas, é preciso também cultivar um "espírito de caçador" em nossa personalidade e cotidiano, para que assim possamos entender as mudanças ao nosso redor e a criar oportunidades de uma melhor sobrevivência e crescimento.  


O livro é dividido em três partes: Desperte, Cace e Capture, e ainda possui um apêndice com estudos de caso ("Como abrir um restaurante em trinta dias" e "Como educar o mundo") e desafios para o leitor-empreendedor.

"Se você quer encontrar uma ótima ideia que pode revolucionar sua carreira ou o seu negócio - e talvez até mudar sua vida -, despertar seu caçador interior é um bom começo. Mas como encontrar oportunidades melhores com mais rapidez? Como você pode ser regularmente mais inteligente, mais adaptável e mais hábil do que seus concorrentes? Para vencer, você precisa saber onde caçar e onde alavancar o impulso do seu ambiente." (p. 61)

Esta citação aparece no início do capítulo quatro, onde Jeremy apresenta os Seis padrões de oportunidade, que consistem em um conjunto de conceitos, tais como convergência, divergência, ciclicidade, redireção, redução e aceleração, que, ao serem identificados, permitirão que empreendedores e indústrias de todos os setores possam entender "como ideias de negócios vitoriosas são criadas" (p. 64), e, consequentemente, ter em mente os fatores que nos tornarão um "melhor inovador, tomador de decisões e até investidor".

Para o leitor, fica o desafio de descobrir como ser "melhor e mais rápido" em seus projetos, assim como o de encontrar estratégias para não ser "esmagado" pelas transformações de nosso cotidiano. Como realizar tudo isso? Um bom começo é aprender com os erros e acertos daqueles que nos antecederam e, quem sabe, ter este livro como uma boa referência e companhia.



Jeremy Gutsche

A velocidade das transformações no mundo dos negócios parece crescer de forma exponencial. Gigantes como Kodak e Lehman Brothers foram atropelados pela inovação, ou pela falta dela. Novas corporações como Netflix e Uber alteram o consumo de mercados tradicionais a partir de suas plataformas online. No meio de um redemoinho de incertezas, Jeremy Gutsche encontrou sua bússola caçando tendências e as utilizando como um caminho para as oportunidades de bons negócios. Criador do site TrendHunter, a maior comunidade do mundo sobre inovação, Gutshe agora compartilha sua experiência no livro Melhor e mais rápido – O caminho inovador para ideias imbatíveis, registro que é fruto do seu trabalho com mais de 300 marcas e das discussões no site que contabiliza 60 milhões de visitas por mês.

Abordando tanto casos de sucesso, como os da Zara e da autora de Harry Potter, J.K. Rowlling, quanto os de estagnação, como os das empresas Blockbuster e Blackberry, Gutsche indica ao leitor a análise dos padrões que estão na estrutura das ideias que conquistam mercados e renovam marcas. Histórias deliciosas como a Microsoft engolindo as enciclopédias da Britannica com seus CD-ROMs para depois ser devorada pela Wikipedia são parábolas de orientação sobre a inovação como forma de sobrevivência de carreiras e produtos. Os casos são apresentados com rigor nos detalhes que diferenciam trajetórias bem-sucedidas, tornando o livro um guia instigante, não só para quem busca inovação, mas também para os que procuram aperfeiçoamento constante em suas carreiras ou empreendimentos. 

O próprio percurso profissional de Jeremy é emblemático em relação aos casos apresentados no livro quando o assunto é perseguir uma boa ideia. Depois de ter experimentado o sucesso como empreendedor na faculdade e o fracasso como investidor de seu próprio dinheiro, o autor abandonou uma ascendente carreira em um grande banco para tocar seu projeto de website. A aposta deu certo. Dois bilhões de visualizações e centenas de clientes depois, ele conta no livro como criou uma enorme e valiosa rede de influenciadores digitais e desenvolveu um método comprovado para identificar ideias melhores com mais rapidez.

Os seis padrões de oportunidade burilados por Jeremy Gutsche e a comunidade do TrendHunter mostram como avaliar as chances de uma iniciativa florescer, apontam segredos para buscar oportunidades na esteira de outros projetos de sucesso (um caso simbólico nesse sentido são grandes ideias como Twitter, Instagram e Snapchat, que nasceram a partir do êxito do Facebook) e indicam de forma didática como aperfeiçoar o faro para bons negócios, tomando sempre como referência a inovação constante. Conhecer um pouco mais sobre o trabalho e a visão de Gutsche é uma boa chance de entender melhor o atual momento dos negócios em rede e de refletir sobre o padrão que existe nas oportunidades que surgem diariamente.

Mais sobre o autor:

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Tô querendo te encontrar - Uma crônica de Gih Medeiros




Tô querendo te encontrar

Esperar por você, não tem sido fácil e nem de longe tranquilo. Mas tenho que acreditar que tudo o que tenho vivido só está servindo para me transformar numa pessoa melhor, que vai combinar mais com a pessoa que você está se tornando, enquanto a vida não nos coloca na mesma trilha.

Enquanto aguardo, penso no que eu quero de você, de nós dois... Sem utopias ou fantasias. Essa fase de sonhos açucarados eu já deixei para trás há um bom tempo. O que eu quero hoje é palpável, é realizável, é construível. E quero muito que seja com você.

Eu desejo abraço durante a chuva, enquanto a água que cai espanta todo mundo, fazendo-os correr, mas nós seguimos devagar, se aquecendo no calor um do outro.

Quero ouvir seu riso espontâneo de manhã, ainda que seja da minha cara amassada e mal-humorada, bem diferente de ti, que já está cheio de energia e alegria para começar o dia.

Quero sentir seus dedos entre meus cabelos, num carinho despretensioso enquanto assiste a uma partida de tênis entre dois jogadores com nomes impronunciáveis, só porque gosta do esporte, e eu tento não cair no sono durante mais uma leitura, com a cabeça recostada no teu colo, só porque é bom estar com você, independente do que fazemos.

Quero me sentir segura ao falar sobre assuntos que não ouso discutir com mais ninguém, porque sei que você não vai me deixar sentir uma boba, pois só quer que eu me sinta à vontade para ser eu mesma, sempre.

Desejo que a gente alcance logo aquele patamar no convívio, onde nos entendemos instintivamente, sem necessidades de demasiadas explicações ou explanações sobre o que sentimos.

Anseio pelos momentos em que com uma simples mensagem, você consiga me deixar alerta e com um sorriso idiota na cara.

Mas, acima de todos esses desejos para nós, eu espero que você não demore a chegar e que a gente se encontre em breve, numa esquina qualquer da vida, num relance de um olhar... Onde for para vigorar.

“Fico pensando onde está você
E se você está pensando em me encontrar
Como sou, onde estou e onde quero chegar
Como sou, como é que vai ser
E onde vou te levar
Mas se você me ver pode acenar pra mim
Já pensou que louco te encontrar assim?
Eu vou na boa, eu vou na fé
Eu sei que vou te encontrar
E quando eu te encontrar nós vamos comemorar

Me encontra ou deixa eu te encontrar
Me encontra ou deixa eu te encontrar”

Me encontra, Capital Inicial 
Acústico NY ao vivo, 2015


quarta-feira, 19 de abril de 2017

The catcher in the rye / O apanhador no campo de centeio - J. D. Salinger | Texto por Bruno Fraga


"Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso. Em primeiro lugar, esse negócio me chateia e, além disso, meus pais teriam um troço se eu contasse qualquer coisa íntima sobre eles." 

Um livro que infelizmente é mais lembrado pelas controvérsias do que por sua qualidade literária, The Catcher in the Rye, publicado em Julho de 1951, tornou-se instantaneamente um clássico pela maneira que  J.D Salinger captou a essência da inquietude juvenil.

"Among other things, you'll find that you're not the first person who was ever confused and frightened and even sickened by human behavior. " (Nota do Autor )

Certos acontecimentos na vida de Holden Caulfield serão narrados por ele, mas somos advertidos: não espere um extenso desenvolvimento como visto em livros como David Copperfield, de Charles Dickens. Ao invés de focar em vários episódios sobre sua vida, Holden deseja contar sobre um "negócio doido" que aconteceu nas datas próximas ao último Natal.

O relato do protagonista é exatamente o que se espera quando um adolescente escreve: lotada de observações contraditórias, pensamentos confusos e palavrões, mas a doçura e inocência vista através das atitudes do jovem tornam a obra harmônica. 

Após uma série de reprovações, Holden é expulso da escola poucos dias antes do recesso de Natal. Com receio de encarar seus pais com a verdade, o jovem decide ficar em um hotel por uns dias e gastar seu tempo livre em uma jornada reflexiva sobre sua curta vida.  Acompanharemos então um fumante crônico, mentiroso compulsivo de 17 anos que passará por agressões, bebedeiras, encontros, arrependimentos, planos para fuga e questionamentos sobre paradeiros de patos no inverno. 

Mais interessante do que os acontecimentos por si só, é tudo que ocorre dentro da cabeça do protagonista. Por mais que a origem dos pensamentos do rapaz possa ser fútil e a conclusão simplista, os dramas existenciais a brotarem em sua mente são perspicazes. A maneira rápida com que os raciocínios são apresentado por Holden facilmente trazem alguma identificação ao leitor mais jovem, que poderá se surpreender por não esperar tamanho dinamismo em um livro dos anos 50.

Ao Tentar decifrar Holden Caulfield é natural remeter-se ao acontecimento negativo mais marcante na vida do jovem: a morte de seu irmão mais novo, Allie. As constantes lembranças fornecem combustível para tentar compreender a origem dos problemas do jovem. Apesar do principal motivo de sua fuga ser evitar seus pais, Holden revela que gostaria de estar naqueles dias próximos ao natal com sua irmã caçula. Phoebe, mesmo nova demonstra uma inteligência incrível e já enxerga os exageros nas dramatizações de seu irmão. 

O livro propositalmente permite uma série de interpretações. As questões começam desde o início, momento em que existe uma imprecisão do local onde Holden está narrando sua história. Tudo inserido sem apelar para um terreno vago de ideias que deixaria o leitor com a sensação de que ficou faltando algo. Acharemos centenas de análises do comportamento de Holden internet a fora, o que torna a experiência da leitura, mesmo após finalizada, incrível, oferecendo um exercício de infinita reflexão.

Salinger criou um personagem de fácil reconhecimento para todos aqueles que já se sentiram de alguma maneira deslocados, sem remover um calculado espaço para possibilitar uma visão mais pessoal do leitor. O fato de ser um dos escritores mais reclusos da história só aumenta o mito sobre suas obras, para a sorte de nosso imaginário.

“What really knocks me out is a book that, when you're all done reading it, you wish the author that wrote it was a terrific friend of yours and you could call him up on the phone whenever you felt like it. That doesn't happen much, though.” (Holden Caulfield)



terça-feira, 18 de abril de 2017

Lançamentos de Abril - Global Editora (parte 2)

Segundo post com os lançamentos literários da Global Editora. A parte 1 você encontra neste link :) Abaixo as novidades de Abril da editora:


Poemas italianos - Cecília Meireles

Em Poemas italianos, Cecília Meireles constrói um mosaico de versos alicerçado na rica herança histórico-imagética que a Itália legou à humanidade. A autora apresenta não só uma realidade contemplada, mas permite também as diversas possibilidades de reviver cada um desses versos. Somos convidados pela autora a contemplar a beleza e o mistério de recantos da Itália: a sólida grandeza do Coliseu, a encantadora Fontana di Trevi, os impressionantes seres petrificados em Pompeia e tantos outros. Ao mesmo tempo que os poemas de Cecília estão permeados pela presença destes simbólicos cenários remanescentes de um passado distante, ela os recria em toda a sua vivacidade, intuindo como o passado sempre opera subterraneamente no presente.
 

Cartas provincianas: correspondência entre Gilberto Freyre e Manuel Bandeira

Seleção: Silvana Moreli Vicente Dias

Os diálogos fraternos entre um dos maiores intérpretes do Brasil e um de nossos grandes escritores. Isto é o que traz este Cartas provincianas: correspondência entre Gilberto Freyre e Manuel Bandeira.

Nascidos no Recife, Pernambuco, Gilberto Freyre e Manuel Bandeira, duas figuras luminares da intelectualidade brasileira do século XX, trocaram cartas, postais e telegramas ao longo da terna amizade que cultivaram. Nelas, partilharam angústias e planos e também discorreram sobre os desafios e os encantos que o Brasil os proporcionava. A correspondência coligida nesta edição encontra-se minuciosamente anotada e analisada por Silvana Moreli Vicente Dias.


A cabeça de Medusa e outras lendas gregas - Orígenes Lessa
Ilustrações: Cláudia Scatamacchia

A rica mitologia grega, com seus deuses e heróis, é referência até os dias atuais, em várias áreas de estudo. Em A cabeça de Medusa e outras lendas gregas, Orígenes Lessa, baseado na obra do escritor norte-americano Nathaniel Hawthorne, reconta seis narrativas maravilhosas.

Nessa obra estão presentes algumas das mais famosas lendas gregas, como: A cabeça de Medusa, A caixa de Pandora, O toque de ouro, O cântaro milagroso, A quimera e As três maçãs de ouro. A linguagem ágil de Orígenes nos transporta à história da civilização da Grécia Antiga e à origem de mitos importantes e significativos presentes até hoje na cultura ocidental.

O livro conta com as belíssimas ilustrações de Cláudia Scatamacchia. É leve, divertido e atual como todo clássico. Um livro para ser lido com a imaginação.


Algumas assombrações do Recife Velho - Gilberto Freyre

Para este Algumas assombrações do Recife Velho foram selecionados sete contos do livro Assombrações do Recife Velho para serem adaptados para os quadrinhos. A HQ traz as seguintes histórias: “O Boca-de-Ouro”, “Um Lobisomem Doutor”, “O Papa-Figo”, “Um Barão Perseguido pelo Diabo”, “O Visconde Encantado”, “Visita de Amigo Moribundo” e “O Sobrado da Rua de São José”. A adaptação foi conduzida por André Balaio e Roberto Beltrão, que possuem larga experiência na produção de histórias em quadrinhos e estão à frente do projeto O Recife assombrado. Mais informações no site.

Gilberto Freyre sempre se interessou pelo universo das assombrações e do sobrenatural. Numa de suas incursões no campo da ficção, o sociólogo escreveu Assombrações do Recife Velho, uma reunião de histórias de assombração que tem como cenário sua cidade natal, Recife. O livro publicado por Freyre em 1955 foi o resultado de um longo trabalho iniciado por ele em 1929, quando esteve à frente do jornal recifense A Província.


Introdução à literatura infantil e juvenil atual - Teresa Colomer

Introdução à literatura infantil e juvenil atual busca refletir sobre quatro perguntas fundamentais sobre a literatura infantil e juvenil: para que servem os livros dirigidos às crianças e jovens; como facilitar essa leitura; como se caracteriza a literatura infantil e juvenil, tanto a clássica como a atual; e como definir os livros mais adequados entre tantas publicações existentes?

Com diversas ilustrações e atividades didáticas sobre as questões abordadas, a obra é dividida em capítulos, e traz ao final uma série de referências bibliográficas, tanto das obras mencionadas como de outras para consulta.

Estudantes de literatura e pedagogia, professores, bibliotecários, educadores em geral, autores e pais, encontram informação útil para iniciar as novas gerações no diálogo cultural que a literatura proporciona.


Apontamentos - Bartolomeu Campos de Queirós
Ilustrações: Mauricio Negro

Bartolomeu Campos de Queirós sempre nos surpreende com sua prosa poética, construída com maestria. Em Apontamentos não poderia ser diferente. Nesse livro, o autor propõe uma reflexão sobre a importância de todo cidadão conhecer e pôr em prática a nossa Constituição, denominada também de Carta ou Carta Maior.

A narrativa, entremeada de diálogos, é um convite ao jovem leitor para que fique atento às necessidades de seu país e aproprie-se das leis e das normas que regem uma nação.





Novidade para os leitores: o site da Livraria Martins Fontes está com uma promoção de até 50% de desconto nos títulos da Global Editora!  Conheça alguns dos títulos em promoção:


Cecília Meireles - Amor em Leonoreta
Cecília Meireles - Crônicas para Jovens
Manuel Bandeira - Antologia Poética
Manuel Bandeira - A Cinza das Horas
Marina Colasanti - Do seu coração partido


Bartleby, o escrivão - Herman Melville | Editora José Olympio


"Bartleby era um desses seres sobre os quais nada pode se dizer com certeza (...). Em uma resposta ao meu anúncio, um jovem imóvel surgiu uma manhã à porta do escritório. (...) À princípio, Bartleby escrevia numa quantidade espantosa. (...) Mas escrevia em silêncio, apaticamente, mecanicamente.

Creio que foi no terceiro dia de sua presença no escritório (...) quando eu o chamei, explicando rapidamente para que o desejava: conferir junto comigo um pequeno documento. Imaginem minha surpresa... mais do que isso, minha consternação, quando Bartleby respondeu, sem deixar sua privacidade, em voz singularmente suave e firme:

- Preferia não fazê-lo.

Fiquei em silêncio total por um momento, recompondo minhas faculdades atordoadas (...).

- Preferia não fazê-lo?

- Preferia não fazê-lo."


Bartleby, o escrivão, é um personagem lembrado por sua resignação e apatia. Publicado em 1853, Bartleby é uma espécie de comentário de seu próprio autor, Herman Melville, cuja vida fora igualmente marcada pela reprovação e esquecimento. Em sua meia idade, já na década de 1860, era constante o pessimismo de Melville em relação a escrita, e tamanha ausência de perspectiva fez com que abandonasse o ofício literário para, assim como Bartleby, ocupar o restante de seus dias em um cargo meramente burocrático.

Sobre este icônico personagem, pouco sabemos de suas origens (a não ser no prólogo, onde o narrador - um advogado razoavelmente bem sucedido - encerra com um suposto indício biográfico, de poucas linhas, porém capaz de despertar no leitor uma nova empatia por Bartleby, e uma espécie de justificação por seu excêntrico comportamento). Na opinião de muitos comentadores, como Enrique Vila-Matas, o enredo de Bartleby é o fundamento para a chamada "Literatura do Não", ou da Negação, onde a apatia de seus personagens é ao mesmo tempo um não sujeitar-se ao mundo, como também uma espécie de insolente permanência (em si, e em tudo aquilo que não se deseja modificar):

"- Agora, uma das duas coisas precisa ocorrer: ou você faz alguma coisa, ou algo será feito a você. Então, a que tipo de trabalho você gostaria de se dedicar? Você gostaria de voltar a fazer cópias para alguém?

- Não. Eu prefiro não fazer qualquer mudança."


Um pouco de história nos cabe aqui: o cenário escolhido para o conto de Melville é um pequeno escritório em Nova Iorque, onde a rotina (pouco equilibrada, porém funcional) de um advogado e seus três funcionários é subitamente alterada com a chegada de um novo personagem, Bartleby, que respondera um anúncio para uma vaga de escrivão. A princípio, o jovem aprendiz exerceria seu ofício de forma compenetrada e intensa (Bartleby apenas copiava, sem conversar, e tampouco almoçar, ou simplesmente sair do escritório), e esta "presença imóvel" de algum modo conquistaria a confiança de seu empregador:

"Em resposta a um anúncio, um jovem que não se mexia surgiu (...); ainda hoje sou capaz de visualizá-lo - palidamente limpo, tristemente respeitável, incuravelmente pobre! Era Bartleby.

Depois de algumas palavras a respeito de suas qualificações, contratei-o, satisfeito por ter em minha equipe de copistas um homem de aspecto tão singularmente sossegado, que eu acreditei poder ser benéfico ao temperamento excêntrico de Turkey e ao gênio explosivo de Nippers."


Com o passar dos dias e da repetição dos expedientes, de forma também súbita Bartleby respondera a um pedido de seu chefe (no caso, a simples revisão de um dos textos copiados) com uma das frases tornadas icônicas em toda a literatura: "Preferia não". Ou seja, para qualquer tarefa solicitada dali por diante, Bartleby assim responderia: - Prefiro não fazê-la.

E assim a história prossegue, e se repete: uma nova tarefa, a mesma "não-preferência", e um inominado espanto de seu chefe e equipe.

Neste momento do livro, a intransigência de Bartleby (por muitos comentadores entendida como uma "vontade de resistência" às transformações do trabalho e do mundo neste quase início de século 20) chega a ser cômica, tamanho o impulso de habitar o espaço social apenas "existindo" ("Ele permaneceu como sempre, feito um ornamento em meu escritório. Não, ele tornou-se ainda mais um ornamento do que antes (...); ele não fazia nada no escritório (...); ainda assim, eu sentia por ele."), ou melhor, recusando-se a viver.

A história de Bartleby segue nesta aparência de abandono, e encerra seu protagonista em uma preferência pelo impossível: dentre toda coerção e arbítrio, o coração persiste naquilo em que acredita, por mais que esta predileção seja um prelúdio para sua própria dissolução e fim.

Bartleby: definitivamente um dos contos mais intrigantes de nossa literatura.


"... antes de me despedir do leitor, deixe-me dizer que, se esta pequena narrativa interessou-o suficientemente para despertar curiosidade sobre quem era Bartleby e que tipo de vida ele levava antes de o presente narrador conhecê-lo, posso apenas responder que partilho completamente dessa curiosidade, mas sou totalmente incapaz de satisfazê-la."



Em Bartleby, o escrivão (Editora José Olympio), Herman Melville, autor de Moby Dick, traça uma irônica e literária análise da natureza humana. O personagem título é um jovem amanuense judicial que, cansado do trabalho burocrático, decide adotar o “não” como lema e o “nada” como estilo de vida. Publicado originalmente, de forma anônima, numa revista em 1853, Bartleby, o escrivão é mais um lançamento da coleção Sabor Literário, que vem apresentando textos inéditos ou pouco conhecidos de grandes escritores.



sábado, 15 de abril de 2017

[Conversando com Rafa] Sobre a série 13 Reasons Why



Oi gente, ando sumida, trabalhando demais, estou mesmo cansada... Mas encontrei um tempinho pra falar sobre a série 13 Reasons Why da Netflix <3 Sei que já postei lá no Instagram, mas gostaria de falar mais um pouco sobre a série e sobre a minha experiencia com o bullying.

Sempre fui uma menina meio antissocial, que prefere ler e desenhar a ter que interagir com pessoas, que, de algum modo, acabam sempre me colocando em situações de medo. Estudei por 8 anos em um mesmo colégio, e a minha esquisitice nessa época ficou mais evidente do que nunca, e claro, isso foi motivo pra minha vida escolar ser um inferno total.

E o pessoal da escola? Bom, se recusavam a ver o que estava acontecendo, diziam que era só uma fase, brincadeira de criança e coisas do tipo... Mas aí eu pergunto pra vocês: Como pode ser brincadeira ou uma fase o fato de todos os dias ameaçarem quebrar os meus óculos, me excluírem de tudo e ainda tentarem me jogar da escada? Como pode ser uma brincadeira o fato de chutarem uma bola com toda a força nas minhas costas e ficarem rindo enquanto eu perdia todo o ar? Claro que não era fase ou brincadeira.

Assistindo a série da Netflix, eu fiquei chocada com a forma com que as pessoas podem ser cruéis umas com as outras, e como uma vida pode ser interrompida por influência da maldade humana. Assistindo a série, eu voltei no tempo, quando eu tinha 12 anos, e chorei, chorei porque eu poderia ter sim me suicidado, chorei porque até hoje não consigo entender qual a lógica de ferir ou debochar de uma pessoa porque ela não se enquadra nos padrões ridículos que a sociedade inventou. Chorei porque eu imagino quantas famílias perdem seus filhos para o bullying, enquanto os pais dos agressores não fazem nada para educar seus filhos ou corrigi-los. E a escola, pelo amor de Deus, o que essas escolas têm na sua filosofia? Deixam os alunos se matarem e, desde que não caia no colo da Administração, está tudo numa boa? Os educadores fecham os olhos e negam que o bullying exista, e repetem frases feitas para os pais que realmente estão preocupados com seus filhos, mas aí, quando acontece o pior, diretores e professores negam tudo e dizem que não sabiam de agressão nenhuma. 

Eu digo isso porque foi isso que a minha escola falou pra minha mãe, e no quê resultou? Ataques de ansiedade, tentativa de suicídio, e um medo de interagir com pessoas que me acompanha até hoje... 

Tenho 21 anos, trabalho e mudei muito, mas as marcas do bullying ainda me acompanham... sou nervosa e ainda choro todas as noites lembrando de tudo o que me fizeram. Mas tiro uma lição disso tudo: hoje eu sou mais forte, e aprendi que não vamos ser desajeitados ou estranhos pro resto da vida, porque nós mudamos e nos transformamos em pessoas melhores, que correm atrás de seus sonhos, e que aprenderam na marra o que é enfrentar tudo e todos para se manter vivo e de uma certa forma feliz.... Então, se passamos por tudo isso, enfrentaremos qualquer coisa daqui pra frente. 

E quanto a essas pessoas q fazem mal a outras? Olha, vou dizer baseada no  meus "agressores", pois encontrei com vários desde o ensino fundamental, seja na rua, no mercado ou em outro lugar, e o que eu posso dizer é que eles continuam vazios e infelizes consigo mesmos. Já me olharam cabisbaixos, e perceberam que apesar do incrível esforço pra me machucar, eu ainda estou de pé, e sim, realizada. 

Não deixe que um grupo de pessoas que você mal conhece defina o que você é e onde se encaixa, porque você é o que é, e pode se encaixar onde quiser, e pode ser o que quiser, é só acreditar! Não destrua a sua vida porque no momento está tudo ruim; tente sim ver o lado bom, e siga por ele. É difícil? É, e é muito, mas não tenha pressa, e vá aos poucos se erguendo, afinal, uma fortaleza não é construída em um único dia, certo? 

Essa foi a opinião de hoje. Simples, mas sincera. 

Abraços,
Rafa Vieira


13 Reasons Why - A série é uma adaptação da obra de Jay Asher e acompanha Clay Jensen, adolescente que recebe uma caixa com treze fitas de áudio gravadas por Hannah Baker, sua antiga paixão de escola que cometeu suicídio duas semanas antes.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

[Dica de Leitura] Siga os Balões - Daniel Duarte | Editora Best Seller | Texto por Gih Medeiros


 

Siga os Balões, Daniel Duarte


Tem muita bobagem atualmente na internet. É preciso paciência para filtrar tanta coisa aleatória e sem noção que tem sido postada nos últimos tempos e uma boa dose de coragem enquanto se realiza tal tarefa. Mas, vez ou outra, o acaso ou o destino mesmo (para quem como eu, acredita nele – é sério!), nos presenteia com páginas repletas de um conteúdo bonito, bem trabalhado e acima de tudo, que se torna um alento diante de tanta poluição visual e escrita com as quais somos bombardeados diariamente.

Numa dessas viagens na terra de ninguém da internet, me deparei com a página Siga os Balões no Instagram. Imediatamente fiquei encantada com o formato dos posts e a leveza das mensagens que o ilustrador Daniel Duarte publicava. E desde então, não parei de acompanhar e de diversas compartilhar tais mensagens, em todas as redes sociais possíveis. No ano passado, Daniel reuniu diversas crônicas e algumas das mensagens da página, e os transformou em Siga os Balões – o livro, publicado pela Editora Best Seller, e eu fui agraciada com um exemplar por ocasião do meu mais recente aniversário – por favor, sempre que possível me presenteiem com livros (risos, mas tô falando sério!) – um presente vindo diretamente das terras cariocas, que o Daniel ama, enviado pela Reb ❤ - #gratidãodefine.

Acho complexo escrever uma resenha sobre um livro assim, tão colorido e vivo, cheio de palavras de alguém que é como você e eu, que sente, chora, ri, cai e levanta quantas vezes forem necessárias. Daniel escreve com alma, é possível sentir verdade em cada texto seu que nos faz transbordar de sentimentos e soltar um sorriso gostoso ou um suspiro de resignação por aquilo que não podemos mudar, ou ainda um suspiro de anseio por dias melhores, amores melhores e maiores. Mas, tudo isso que descrevo é pouco, é pequeno perto da realidade de ler esse livro. Por isso, vou deixar alguns trechos e imagens para que possam ter um vislumbre dele, e que corram para lê-lo o quanto antes. Vão se encantar, não tenham dúvidas!!!


“Sou forte porque conheço minhas fraquezas e minhas fragilidades. Não as escondo, mesmo assim não me entendo na maior parte do tempo” – pág. 33.

“Quando o amor vai embora, abraçamos com calma um velho moletom. Deitamos de lado para ver o fim da tarde e tomar um café sem pensar em nada. Quando o amor vai embora, temos que reaprender que a nossa própria companhia será suficiente, até ela realmente voltar a ser” – pág. 44.


“Tempo. O tempo não cura nada. O tempo dá tempo para a gente aprender a se curar, para a gente aprender a pegar os cacos no chão do quarto e limpar a bagunça sozinho, porque o começo é sempre a dois, mas o final é cada um para o seu canto” – pág. 62.

“É possível que meu vazio seja falta de um bom brigadeiro, ou de um abraço sincero” – pág. 68.

“Chega um momento em nossas vidas em que precisamos parar de respirar fundo e começar a agir para fazer as coisas acontecerem, organizar as engrenagens com as próprias mãos, correr atrás até as pernas bambearem” – pág. 86.


“Para cada lágrima que cai e para cada dia ruim que surge, precisamos lembrar de que somos os nossos próprios heróis” – pág. 118.

“Levantar depois de um tombo sempre é alguma coisa. Sorrir em meio a uma catástrofe é alguma coisa. Catar os cacos de nós mesmos, de alguma forma, é alguma coisa” – pág. 137.


“Você não consegue ver o amor, mas pode senti-lo se abrir os olhos do coração. Quando não se manifesta visível, você pode sempre encontrá-lo nas entrelinhas” – pág. 143.
segunda-feira, 10 de abril de 2017

Lançamentos de Abril - Global Editora (Parte 1) | Reedições


Ainda em semana de lançamentos editoriais, compartilhamos uma seleção clássicos da literatura brasileira publicados - e reeditados - pela Global Editora. E como a obra de Marina Colasanti sempre está em nossas listas de leitura, escolhemos três títulos para indicar aqui no blog: Mais de 100 Histórias Maravilhosas; Melhores crônicas; Hora de alimentar serpentes. Aliás, se você estiver no Rio de Janeiro no mês de maio, poderá conhecer um pouco mais da obra de Marina na terceira edição do Clube do Livro Livraria Da Vinci! Aguardamos vocês para uma ótima conversa <3

Abaixo, mais algumas sugestões de clássicos publicados pela Global:


Melhores Contos Lygia Fagundes Telles
(Pocket)

Um dos nomes mais importantes da literatura brasileira, romancista notável, é no conto que Lygia Fagundes Telles encontra o seu mais autêntico meio de expressão e de renovação. As suas histórias, onde a mulher ocupa quase sempre o primeiro plano, desvendam com mão de mestre o íntimo do ser humano, suas dúvidas e perplexidades.

"As histórias apavorantes das noites na escada. Eu fechava os olhos-ouvidos nos piores pedaços e o pior de todos era mesmo aquele, quando os ossos da alma penada iam caindo diante do viajante que se abrigou no casarão abandonado. Noite de tempestade, vinha o vento uivante e apagava a vela e a alma penada ameaçando cair, Eu caio! Eu caio! — gemia a Maricota com a voz fanhosa das caveiras. Pode cair! ordenava o valente viajante olhando para o teto. Então caía um pé ou uma perna descarnada, ossos cadentes pulando e se buscando no chão até formar o esqueleto. Em redor, a cachorrada latindo, Quer parar com isso? gritava a Maricota sacudindo e jogando longe o cachorro mais exaltado. Nessas horas sempre aparecia um dos grandes na janela (tia Laura, tio Garibaldi?) para impor o respeito.

Quando Maricota fugiu com o trapezista eu chorei tanto que minha mãe ficou preocupada: Menina mais ingrata aquela! Acho cachorro muito melhor do que gente, ela disse ao meu pai enquanto ia arrancando os carrapichos do pêlo do Volpi que já chegava gemendo, ele sofria com antecedência a dor da retirada de carrapichos e bernes."

(Lygia Fagundes Telles, Que se chama solidão)


Antologia poética - Cecília Meireles
4ª edição

Antologia poética Cecília Meireles, coletânea publicada pela primeira vez em 1963, um ano antes de sua morte, é a única cujos textos foram escolhidos pela própria poeta. Composta por poemas retirados de diversos livros seus, inclusive alguns textos inéditos – a obra revela, assim, um precioso autorretrato da escritora. Uma obra sobre as pequenas maravilhas da vida até os questionamentos sobre o destino do mundo e da humanidade.

A autora no prefácio comenta: "Há muita maneira de fazer-se uma antologia e não se sabe qual seja a melhor. Pode-se usar um critério estético, ou didático, ou outros, conforme o objetivo que se tenha em vista. Para o leitor, a melhor antologia é a que ele mesmo organiza, ao eleger, na obra completa de um escritor, aquilo que mais lhe agrada, embora com o passar do tempo se possa ver como o gosto pessoal varia, e o que nos agrada numa época já não nos agrada igualmente noutra, tão volúveis somos em nossas preferências e tão diferentes as perspectivas, no caminho a nossa evolução."


Antologia poética - Manuel Bandeira

Antologia poética Manuel Bandeira, coletânea organizada pelo próprio autor em 1961, reúne poemas publicados em diversos livros. No prefácio o autor comenta: A antologia atual é mais completa que as anteriores por incluir também poemas de circunstâncias, constantes do livro Mafuá do malungo, e traduções que fiz de poetas estrangeiros, tiradas do livro Poemas traduzidos. Além disso, recolhem-se nela alguns poemas recentes ainda não coligidos em livro. Como nas duas primeiras, aqui o critério foi marcar a evolução da minha poesia, aproveitando de cada livro o que me parecia representar melhor a minha sensibilidade e a minha técnica.

Nesta obra é possível perceber o conflito, inteligentemente resolvido, entre o moderno e o canônico, as brincadeiras com os temas da vida e da morte e a sua extrema sensibilidade aliada a um domínio técnico apurado. Segundo os estudiosos, Manuel Bandeira, em sua poesia, abandonou o tom retórico de seus predecessores e usou a fala coloquial para tratar, com objetividade e humor, de temas triviais e eventos do dia a dia. Apesar de sua refinada sensibilidade, que remonta aos clássicos portugueses, o autor era capaz, também, de se fascinar com o insólito e o corriqueiro.


Melhores crônicas - Lima Barreto

As crônicas de Lima Barreto, escritas em sua maioria entre 1918 e 1922, revelam a sua revolta e insatisfação com as instituições políticas e sociais. Sem se exaltar, em tom de conversa familiar, ele denuncia aspectos cruéis da sociedade brasileira como o racismo e as injustiças sociais, o que mantém esses textos extremamente atuais.

"Um amigo, muito meu amigo mesmo, paga atualmente, nos confins dos subúrbios, o avantajado aluguel de duzentos e cinco mil-réis por uma casa que, há dois anos, não lhe custava mais de cento e cinqüenta mil-réis. Para melhorar um tão doloroso estado de coisas, a prefeitura põe abaixo o Castelo e adjacências, demolindo alguns milhares de prédios, cujos moradores vão aumentar a procura e encarecer, portanto, ainda mais, as rendas das habitações mercenárias.

A municipalidade desta cidade tem dessas medidas paradoxais, para as quais chamo a atenção dos governos das grandes cidades do mundo. Fala-se, por exemplo, na vergonha que é a Favela, ali, numa das portas de entrada da cidade - o que faz a nossa edilidade? Nada mais, nada menos do que isto: gasta cinco mil contos para construir uma avenida nas areias de Copacabana. (...) De forma que a nossa municipalidade não procura prover as necessidades imediatas dos seus munícipes, mas as suas superfluidades.

(...) A casa, como ia dizendo, é nos dias que correm, um pesadelo atroz. (...) O Governo Federal - não há negar - tem sido paternal. A sua política, a respeito, é de uma bondade de São Francisco de Assis: aumenta os vencimentos e, concomitantemente, os impostos, isto é, dá com uma mão e tira com a outra."

(Lima Barreto, Marginália, 14-1-1922)

domingo, 9 de abril de 2017

A solidão do quase - Uma crônica de Gih Medeiros



A solidão do quase


“Pode estar no ponto
Ponto de interrogação
Pode ser encontro ou separação
Pode correr risco
Arriscado sempre é
Só não pode o medo te paralisar”


Rolando de um lado para o outro na cama, ela tenta encontrar uma posição confortável, mas o colchão insiste em não acomodar seu corpo cansado.

Olha o visor do celular: são duas horas da manhã e ela não consegue conciliar o sono mais uma noite. Pergunta-se amargamente quanto tempo mais vai suportar as noites insones antes de ter um colapso. Ri do próprio excesso de sua dramaticidade e se levanta para beber água, já que o sono não vem mesmo. Enquanto sorve o líquido vagarosamente, olha pela janela e observa a escuridão do lado de fora sendo pontilhada por uma ou outra luz acesa nas ruas.

O silêncio da madrugada contrasta fortemente com a barulheira dentro de si. Sente o martelar constante na cabeça e no peito, de sentimentos aos quais não quer se render, mas dos quais não pode fugir.

Ela nunca soube lidar bem com a rejeição. Com os términos sim. Se as coisas não estão caminhando bem e o relacionamento acaba, por mais difícil e doloroso que seja, ela se levanta, bloqueia o cara de todas as redes sociais, apaga todos os e-mails e mensagens e deleta o número do telefone de sua agenda do celular, seguindo em frente, um dia de cada vez. Mas, não sabe o que fazer os “quases” da vida.

Não consegue assimilar porque alguém despende tanta energia e tempo tentando conquista-la, para desaparecer como fumaça no ar quando ela finalmente se rende à possibilidade. Será que se trata de algum tipo de prazer sórdido que os homens sentem em lutar para conquistar e depois, quando conseguem, o sabor dessa “vitória” não tem tanta graça e o jeito é partir para a próxima conquista? Entre um suspiro e outro, tenta em vão entender.

Nunca foi ensinada sobre os jogos amorosos. Para ela, o que faz sentido é ser honesta consigo mesma e com o outro, e talvez por isso, por nunca ter sido iniciada nesses jogos de conquista, não saiba distinguir quando estão sendo sinceros ou não... A menos que sejam muito óbvios. E obviedade parece não fazer parte da catequese dos relacionamentos. Sente-se perdida quando é sincera e isso provoca afastamentos, quando ela pensa que uma conversa franca e aberta deveria aproximar, sempre. 

Ter empatia, sempre foi um de seus pontos fortes, mas aparentemente isso só se aplica quando se trata de dor, perda e sofrimento, situações que ela reconhece de sua própria jornada. A superficialidade do querer, o banalismo das conquistas, a indecisão das vontades, são sentimentos estranhos, que ela não experimentou e por isso não os compreende.

E assim, ela volta para a cama e continua a se virar de um lado para o outro, até o dia amanhecer, enquanto segue sem respostas para as questões que a atormentam todas as noites, desde que você se foi sem deixar pegadas ou sinais, apenas um rastro de confusão na mente e aquele gostinho melancólico na alma, de algo que “quase aconteceu”. 

“Tá faltando peça no quebra-cabeça
Eu não tenho pressa
O meu tempo é todo teu
É tudo que eu posso oferecer (é pouco)
Mas é tudo que eu posso oferecer (é quase nada)
Mas é tudo que eu posso oferecer (é pouco)
Mas é tudo que eu tenho
Tudo que eu posso oferecer”

Novos Horizontes, 2007.


sábado, 8 de abril de 2017

Branco como a Neve, de Salla Simukka – Trilogia da Branca de Neve, volume 2 | Novo Conceito | Texto por Gih Medeiros



Engraçado como o nome de um livro e sua capa podem nos enganar sobre o seu conteúdo não é mesmo? Quando Branco como a Neve, da autora finlandesa Salla Simukka, publicado no Brasil pela Editora Novo Conceito chegou, olhando apenas para a capa, pensei que se tratava de uma história de vampiros (é, a imaginação aqui é fértil – risos). Depois, ao olhar a contracapa e ver escrito no alto “A trilogia da Branca de Neve”, pensei que era uma adaptação moderna do clássico conto da garota mais bonita do reino que precisa fugir para uma escura floresta antes que seja morta a mando da madrasta, que tem muita inveja de sua beleza natural – vamos combinar que os contos de fadas não são tão legais depois que a gente cresce e deixa de prestar atenção somente nas partes musicais e no felizes para sempre!!! Nenhuma dessas impressões se confirmou!

Ao pesquisar sobre o primeiro livro, já que não o li anteriormente, descobri que a Branca de Neve dessa história, é a jovem Lumikki – que em finlandês significa Branca de Neve! Surpresa!!! – uma garota com um passado de sofrimento devido a segredos familiares, bullying na escola e o terror vivido nas mãos de um grupo mafioso. Após a resolução da situação em que ela se envolveu por pura falta de sorte e muita curiosidade, Lumikki só quer ser uma garota comum e se misturar aos turistas que invadem a cidade de Praga no verão, enquanto tenta driblar as tentativas da família de aproximação, agora que ela está de férias e não há empecilhos para que ela os visite.

Mas, Lumikki é uma dessas pessoas que atraem problemas, por mais que tente fugir deles. Durante um passeio, a jovem é abordada por uma moça alguns anos mais velha que ela, lhe dizendo em sueco que é sua irmã. Assim como Lumikki, nós leitores ficamos, “tipo, oi?”. Só que a história da garota desperta lembranças antigas em Lumikki, lembranças essas um tanto sombrias (no melhor estilo pesadelo mesmo!!!), ainda que sua atitude seja extremamente suspeita – afinal, quem te convida pra uma conversa e de repente sai correndo? Quem te convida a ir à sua casa e quando chega no portão diz que você não é bem vindo naquele momento?


Confuso? Sim. Antes que se dê conta do que realmente está acontecendo, Lumikki se vê envolvida em uma seita religiosa perigosa, e se une a um jornalista de caráter duvidoso que está em busca de um grande furo de reportagem para alavancar sua carreira. Muitos são os perigos que a dupla vai enfrentar, mas Lumikki não teme o perigo nem a morte... Teme não ter respostas a perguntas que não podem ser feitas em voz alta. Teme a opressão de não conseguir esquecer o toque de alguém que partiu seu coração há muito tempo. Teme não conseguir se sentir em casa, em lugar algum.

“Saudade era um sentimento com o qual era difícil viver em paz. Ela não pedia permissão. Não se importava com hora nem lugar. Era desmedida e exigente, gananciosa e egoísta. Ela turvava os pensamentos ou os tornava demasiadamente claros, demasiadamente nítidos. A saudade queria que Lumikki se submetesse incondicionalmente” (p. 59)

O tema dessa história parece ser bem interessante, mas o achei pouco desenvolvido. Acostumada com os detalhes que Dan Brown nos fornece em seus suspenses similares a esse, foi difícil não fazer um comparativo. Há uma grande falta de informações mais concretas, já que o desenrolar da história é rápido e dinâmico, o que para os leitores que não gostam de enredos muito descritivos, é favorável, a leitura é bem rápida e limpa. Mas, achei que faltou um pouco mais de desenvolvimento nos acontecimentos e um link maior entre eles. O ponto mais forte do livro a meu ver, foi o gancho para o próximo volume, Preto como o Ébano, que ainda não foi lançado, e que promete responder muitas das nossas dúvidas e das de Lumikki também. Aguardemos o final da jornada dessa Branca de Neve, que de princesa não tem nada, mas que já passou por situações tão cruéis quanto a sua xará do mundo de contos de fadas.

 


Recuperando-se do terror que vivenciou nas mãos da máfia, Lumikki tem a chance de deixar a Finlândia, se livrando das roupas pesadas, das lembranças sombrias... e do perigo. Ela só quer ser uma garota normal, misturar-se à multidão de turistas e aproveitar as férias.

Quando Lumikki conhece Zelenka, uma jovem misteriosa que alega ter o mesmo sangue que ela, as coincidências são inquietantes. Rapidamente ela se vê envolvida no mundo triste daquela mulher, descobrindo peças de um mistério que irá conduzi-la a uma seita secreta e aos mais altos escalões do poder corporativo.

Para escapar dessa trama asfixiante, Lumikki não poderá fazer tudo sozinha. Não desta vez.

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