quinta-feira, 6 de abril de 2017

A Roda da Eternidade - Neil Gaiman, Michael Reeves, Mallory Reeves | Editora Rocco | Texto por Jonatas T. B.


“(...) O céu era aquele lindo amálgama de cores e galáxias que eu tinha visto na primeira vez em que estivera na Patrulha do Tempo. Era como se houvesse um milhão de céus misturados em um, o sol nascendo e se pondo várias vezes em minutos, em uma centena de lugares diferentes. Havia luas, estrelas, nuvens e névoa, todos compartilhando o mesmo céu.” (p. 244)

“- NoiteGélida – disse Joeb, pós um momento de silêncio. – O que é isso?
Respirei fundo. - Basicamente? Um supercontínuo autoperpetuante que reorganiza todo o tempo e espaço em seu caminho.” (p. 97)




A complexidade simples de A Roda da Eternidade


Finalmente a série EntreMundos (Rocco) chega a sua alucinante conclusão. Neste episódio, o protagonista Joey, já um veterano na agência de vigilância e manutenção da ordem de todas as dimensões, depois de ser arremessado pelo inimigo através da Interzona, depara-se com a responsabilidade de convocar novos recrutas e reativar a nave EntreMundos e resistir ao avanço da NoiteGélida, uma força capaz de reconfigurar dimensões inteiras.

É a primeira vez que leio o último livro de uma trilogia, e como não leitor dos dois primeiros volumes, fiquei satisfeito pela obra conter reiterações suficientes para que não me perdesse da trama. Esteja certo de uma coisa quando começar a ler. A história é rica em detalhes sobre teorias espaço temporais que exigem certa atenção do leitor, e atenção redobrada de leitores que não estão acostumados com ficção científica bem detalhada.

Um dos elementos que achei mais interessantes da história são as muitas versões de Joey. Todos que foram recrutados para atuar na EntreMundos são versões oriundas de outros planos paralelos. Alguns desses mundos muito se assemelham ao universo onde está o planeta Terra, outros são diferentes. Tal variação inclui a possibilidade das outras versões do protagonista serem do sexo feminino, como a ousada Josephine. Podem ser gêmeos, como os desconfiados irmãos Jari e Jarl, ou até centauros, como o inteligente J’r’hoho.

“Eu costumava viver na Base com cerca de quinhentas versões de mim, todas com nomes que começavam pelo som de J. Mesmo que seus nomes estivessem em um idioma diferente, ou uma equação matemática, em geral poderia ser traduzido para um som com J.” (p. 87)

Outro ponto interessante é que os universos paralelos também podem ter relação maior ou menor com a magia e/ou tecnologia. A Terra de Joey, por exemplo, tem pouca relação com magia por estar num ponto neutro da geografia multivérsica. Já os inimigos da EntreMundos pertencem a duas facções opostas: os magos da BRUX, que tem por chefe Lorde Dogknife (sim, ele parece um cachorro com corpo humano, como aqueles deuses egípcios com cabeça de animal), e os Binários, compostos por clones que têm por base o desenvolvimento tecnológico, liderados pelo Professor. Neste capítulo final da saga, ambas as facções se unem para criar a NoiteGélida. Uma força capaz de reiniciar todos os universos, o que teoricamente possibilitaria seu total controle. A NoiteGélida é composta pela alma de outros agentes, companheiros de Joey, capturados em missões ou batalhas. Pouco tempo resta para Joey conter a ameaça, por isso, os poderosos Agentes do Tempo interferem ajudando-o no combate contra o inimigo em comum. Gostei muito dos argumentos que tentam dar conta dos principais paradoxos comumente encontrados em histórias que abordam viagens no tempo e diversas linhas temporais paralelas.

“- Não funciona dessa forma – respondi. Conversar com um Agente do Tempo tinha me dado uma compreensão básica dessas coisas, (...). – Ela ainda está ancorada à sua linha do tempo. Ela pode ficar no passado pelo tempo que quiser, mas o tempo vai continuar passando. Se ela ficar por cinco minutos, vai voltar cinco minutos depois de quando saiu.

- Isso é decepcionante – disse alguém. – Qual é o sentido de viajar no tempo se você não pode voltar para corrigir alguns erros?” (p. 109)


Das personagens, a que achei mais interessante foi Tom, uma criatura da classe fovimal, um monstrinho que habita a Interzona capaz de transitar livremente pelas dimensões e pelo tempo espaço. Apesar de parecer alheio e aleatório, ele está sempre disposto a ajudar Joey nas situações mais críticas.

O enredo se desenvolve de maneira dinâmica, apesar das teorias densas a respeito do multiverso. Questões existenciais sobre a morte, a relação de amizade e amor e tudo que envolve a motivação de Joey e suas versões não são sobrepostas pela ambientação mágico-científica que, na minha opinião, ora permeia o psicodelismo.

“O Ancião tocava os caixões e os fazia desaparecer também, e, até onde eu sabia, ninguém nunca tinha lhe perguntado para onde eles iam. Talvez eles levassem os corpos para casa, onde quer que isso fosse. Talvez nos levassem para um mundo onde pudéssemos nascer de novo, ou para um planeta que contasse como o céu. Talvez fosse para um cemitério ou um buraco negro. Eu não sabia, mas isso não importava. A morte era a morte, e aonde íamos depois era algo que eu descobriria quando a hora chegasse.” (p. 162)

Acredito que o leitor, mesmo que tenha certa dificuldade em imaginar conceitos complexos de física multidimensional, terá a chance de se aventurar em uma história divertida e de ambientação altamente criativa. É difícil até para eu afirmar isso, mas é exatamente assim que descrevo esse livro: como as partículas explicadas pela física quântica, que admitem o sim e o não, existir e não existir simultaneamente: A Roda da Eternidade é uma obra extremamente simples e complexa ao mesmo tempo.

Nota: Uma informação importante para os fãs de Neil Gaiman. Apenas o primeiro volume foi escrito por ele e pelo roteirista Michael Reaves, sendo Mallory Reaves, filha de Michael, que continuou a série escrevendo “Sonho de Prata” e “A Roda da Eternidade”. A pretensão inicial dos autores era para que fosse uma série televisiva, porém, sendo rejeitada.



A Roda da Eternidade

Joey Harker nunca quis ser um líder, mas o destino o levou a este papel. E agora é sua responsabilidade evitar o fim do Entremundos, do Multiverso e tudo mais que existe. A roda da eternidade é a alucinante conclusão da série Entremundos. Imaginada por ninguém menos que Neil Gaiman, e escrita pelo premiado autor Michael Reaves e sua filha Mallory, o livro mostra o destino de Joey Harker e os outros andarilhos.

Joey imaginava que tinha encontrado seu lugar como um agente do Entremundos - organização responsável por manter a paz nos vários universos e dimensões, com sua habilidade de andar entre as dimensões -, mas sua última missão foi um desastre e colocou todo o universo em risco. Agora a Cidade-base, quartel-general do Entremundos, está perdida no fluxo temporal numa corrida contra a Brux. Joey desperta em um futuro devastado, e somente com a ajuda de Tom, um estranho ser de outra dimensão, ele consegue voltar ao seu tempo para tentar consertar o problema.

Machucado e solitário, Joey se recusa a desistir. Com a ameaça da Noite Gélida cada vez mais próxima, Joey começa a recrutar novos andarilhos para ajudar em sua luta. Mas, para variar, as coisas não saem como o planejado. E apesar de não querer estar no comando, assumir o papel do Ancião é uma grande honra e responsabilidade, e ele não pretende deixar seus amigos e todo o universo na mão.

Repleto de ação e aventura, A roda da eternidade leva Joey Harker e Acacia Jones ao confronto definitivo contra Lord Dogknife, Lady Indigo e forças da magia, Brux e ciência, Binários. E fecha com chave de ouro uma série surpreendente, mais um sucesso com a marca de Neil Gaiman.

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