segunda-feira, 29 de maio de 2017

[Off] Recebendo mimos dos amigos


Houve uma época em que minha própria história era um universo de papel e tinta. Hoje, a comunicação e o afeto assim permanecem, embora em menor quantidade de envelopes e interurbanos, porém, resistente a intervalos de muito-tempo e distâncias.

Neste meio tempo (praticamente dois anos!), o Blog tem sido um lugar de grandes encontros, e de novas possibilidades de escrita. Por exemplo, quem imaginaria que pequenos objetos cotidianos poderiam falar tanto sobre uma pessoa, e sobre nós mesmos? <3 Conversar meio assim em segredo, ouvindo a história do outro através de cada pequena coisa, talvez seja algo assim meio Amélie Poulain, e é realmente encantador passar por uma experiência assim, e eu agradeço MUITO aos amigos que vez por outra enviam estes afetos postais aqui para o Rio de Janeiro :)  Vocês são lindos <3


E por falar em lindeza, a Caixinha de Maravilhas acima veio da querida Luana Souza, do Blog Memorialices <3 Amor demais em cada detalhe, não é mesmo? :)))

E como se o infarto já não fosse grande, hoje o tio dos Correios trouxe mais uma caixinha, desta vez made in São Paulo (a da Luana veio do Mato Grosso do Sul! <3), lá das terras de nossa amiga Regiane, que me encantou com esta papelaria surpresa E COM MARCADORES PERSONALIZADOS DO LIVRO TINDERELA <3 (sim, tem que rolar um caps lock porque tá tudo muito lindo, assim como o livro da amiga - que, aliás, você já leu? Corre lá na Amazon <3) 


Pra completar o amor postal da semana, quem também escreveu pra gente foi o pessoal da UEON Productions, lá do Recife. Na cartinha, recebi a super caprichada edição de A Noiva, em HQ <3 Aliás, o Jonatas já resenhou a história de Thony Silas aqui no blog, dá uma olhada :) E agora vai ser a minha vez de conferir esse trabalho, eba! Aliás, deixo também meu grande obrigada a amiga Rachel, do Blog Histórias e Emoções, que apresentou esse trabalho bacana pra gente! 


Mais uma vez, obrigada a todo mundo que vez por outra dedica seu tempo e carinho a esta jovem senhora blogueira :D Amo vocês! 

Resistência - Affinity Konar | Editora Rocco | Texto de Jonatas T. B.


“E aquele mundo, vibrante de deslumbramento, acabou também. Quase todos os mundos acabam.”(pg. 10)

Inspirado em eventos da Segunda Guerra Mundial, Resistência é o relato de duas irmãs gêmeas tiradas dos laços de seu avô e mãe pelo Dr. Mengele e levadas ao campo de concentração em Auschiwitz, na Polônia tomada pelas forças nazistas. Lá, junto a anões, albinos e outras pessoas portadoras de alguma singularidade genética, são submetidas a testes científicos que vão desde injeção de substâncias químicas à extração de órgãos e o que parece ser lavagem cerebral.

“Ainda bem que ela não esmiuçou nossas diferenças de identificação. Pearl usava um prendedor de cabelo azul. O meu era vermelho. Pearl falava normalmente. Minha fala era apressada, interrompidas às vezes, cheia de pausas. A pele de Pearl era branca como a neve. Eu tinha pele de sol, toda pintada. Pearl era toda feminina. Eu queria ser toda Pearl, mas por mais que me esforçasse, só conseguia ser eu.” (pg. 16)

Stasha é a gêmea sonhadora. Inquieta e inventiva, a pequena tece, entre as fendas duras que sua mente abre na realidade, outra realidade onde abriga aqueles mais próximos que, assim como ela, lutam para sobreviver. Apesar de resistir à fome, frio e morte, ela é capaz de transformar situações das mais terríveis em ambíguos jogos narrativos, ao mesmo tempo cruéis, curiosos. Em um desses jogos imagina-se na trajetória de formação médica. Consegue inclusive um paciente, um menino semi-vivo que chama de Paciente Número Azul, e a quem promete a cura, analisando e anotando todos os dias dados sobre sua doença, planejando com ele a melhor forma de assassinar o “tio” Mengele.

“O homem que esconderia sua relação com a morte em todos esses nomes. Ele nos disse para chamá-lo de “Tio Médico”. Ele nos fez chamá-lo por esse nome uma vez, depois outra, até que nós o reconhecêssemos, sem erro. Quando acabamos de repetir o nome e ele ficou satisfeito, nossa família já tinha desaparecido.” (pg. 17)
 

Desde cedo, Stasha desejou ser exatamente como sua irmã, Pearl, que, além de atraente e habilidosa dançarina, torna-se espécie de âncora, para que esta não flutue longe demais em seus sonhos e permaneça ainda atenta à realidade. Entretanto, os traumas causados pelas experiências e condição desumana pouco a pouco afastam ambas as personalidades, e cada uma é modelada pela percepção particularmente sensível diante de suas experiências no “zoológico” de Mengele, - o que parece apetecer muito os estranhos apetites do “tio”.

“Ela o chamava de cobaia, mas eu sabia que o menino nomeado Paciente Número Azul era mais do que isso. Eu sabia que ela o considerava um irmão, um trigêmeo, outro membro da família que ela não podia perder. Avisei para ela não se apegar. E ela me acusava de ser insensível. Não estava errada, mas eu não podia evitar ficar insensível com o Paciente porque estava muito cansava de ser sensível por nós duas. Meu corpo estava sobrecarregado de sofrimento, não precisava acrescentar o sofrimento de Paciente.” (pg. 71)

Apesar da realidade atroz, a narrativa de Konar permite espaço o suficiente para que floresça um botão de descoberta do amor. Pearl, mesmo tendo os sentidos fragilizados e o corpo perdendo lentamente sua vida, acaba por conhecer Peter, um menino com certos privilégios por parecer descendente de arianos.

“(...) ele se arrastou para frente em seu delírio moribundo, como se quisesse ver se aquele chifre de marfim continha alguma última coisa para ele, uma mensagem, um ruído, um grito... Mas o guarda, ao ver o interesse dele, o derrubou com uma bala nas costas, no momento em que o homem agarrava o objeto. Só então ele se aquietou. Nuvens vermelhas brotaram entre as listras do uniforme dele. Eu vi quando escorreram e viajaram pelo horizonte dos seus ombros." (pg. 90)

Entre ameaças de nunca mais se voltar de um simples banho por ser, na verdade, um passeio para a câmara de gás, ou a morte por febre tifóide devido a uma histórica praga de piolhos, temo dizer que pouca ou nenhuma esperança resta para aqueles que abrirem as páginas de Resistência. Nenhum sonho ou bela lembrança de outrora é capaz de afastar a contundência do contexto terrível de um campo de concentração. No entanto, em contraste, não há um instante que a habilidade poética de Konar não torne a o texto atraente, como se refinasse a matéria cruenta e bruta: uma mancha que brota do buraco feito à bala por um tiro nas costas durante um jogo de futebol contra os guardas de Auschiwitz, aqui, se torna uma nuvem a subir pelo horizonte dos ombros do morto. Neste sentido, é, de fato, inoportuno deleite.


Leia um trecho da obra. Disponível no site da Rocco.
domingo, 28 de maio de 2017

Melodia Mortal - Pedro Bandeira e Guido Carlos Levi | Editora Rocco


"- Há vitórias que se transformam em derrotas, meu caro Watson. A principal dificuldade de um detetive é não poder entregar ao carrasco alguém de quem se pode provar a culpa por não haver lei anterior que a preveja!

Isso me ensinara meu amigo Sherlock Holmes havia anos, mas confesso que na época não compreendi a profundidade da afirmação, pois para mim a infalível justiça britânica sempre tivera a abrangência necessária para proteger a estabilidade de nossa sólida civilização. (...) Esse exemplo me foi apresentado na forma de uma de nossas aventuras mais peculiares, que passou a fazer parte do rol das que fui obrigado a manter no mais absoluto segredo. (...) Ninguém até hoje dela soube, mas, por ser tão importante, preciso relatá-la nem que seu destino venha a ser a escuridão das gavetas." (p. 121-122)

É preciso cumplicidade para que haja um segredo, assim como um cúmplice é necessário para que permaneça o mistério e também o crime. Para desvendar o que permanece em secreto, é preciso reunir provas, traduzir o sigilo, e assim chegar à confissão e ao esconderijo. Seja na literatura ou no cotidiano das capitais, é preciso perspicácia para desarmar o silêncio, e também um pouco de sorte, ou um menor grau de miopia.

Como toda história precisa de uma introdução, foi nas páginas dos jornais e folhetins que o chamado romance policial surgiu, há quase dois séculos, com histórias que despertaram a atenção do leitor para uma realidade nada romanesca, onde episódios de impensável brutalidade confundiam-se com as próprias manchetes dos jornais. Por sua proximidade assim cotidiana, a ficção policial explorava os limites da crueldade humana, criando em sua audiência o anseio de se chegar às páginas finais da história e de seus crimes, bem como de suas sentenças.

Um dos pioneiros nesta escrita foi Edgar Allan Poe, em meados dos anos 1800, com a publicação de The Murders in the Rue Morgue (Assassinatos na Rua Morgue), The Mistery of Marie Rogêt (O Mistério de Mary Roget) (1842-1843) e The Purloined Letter (A Carta Roubada) (1845). Nas décadas seguintes, o alcance literário das obras de Poe permitiu que outros autores, como Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930), trouxessem a investigação para o centro da narrativa, evidenciando não apenas o mistério, mas a perspicácia de seus protagonistas. Imortalizado por Conan Doyle, Sherlock Holmes é um dos nomes-referência neste gênero literário, e sua narrativa viria a influenciar toda uma geração de autores, de Agatha Christie a Pedro Bandeira. Sobre este, é bem possível que algum de seus clássicos infanto-juvenis (como A Droga da Obediência e A Droga do Amor) já tenha passado por sua estante, e quem sabe permanecido como uma lembrança destes tempos que não se distanciam (um exemplo do alcance da obra de Pedro Bandeira é a marca de mais de vinte milhões de exemplares em toda sua carreira!). Caso você ainda não conheça as obras do autor, recomendamos Melodia Mortal, recém publicado pela Editora Rocco, onde Bandeira resgata a atmosfera da Londres do século passado e as investigações e casos que tornaram o endereço da Baker Street 221B um dos mais emblemáticos de todos os tempos.


Assim como nas histórias de Conan Doyle, os personagens de Pedro Bandeira narram seus casos com minuciosa precisão e veracidade (nada como a parceria de Guido Carlos Levi, profissional da área médica - assim como Conan Doyle, inclusive - cuja especialidade possibilitou uma escrita ainda mais próxima da realidade dos laudos e perícias presentes em toda investigação), o que contribui para que o leitor tenha a sensação de estar presente em cada cena de crime, ou, simplesmente, participando de uma conversa regada a charutos e brandy com os imortais Sherlock e Watson.

O diferencial de Melodia Mortal foi a escolha de seus autores em se distanciar das histórias de folhetim e dedicar-se a desvendar os mistérios relacionados às mortes de diversos gênios da música, como Mozart, Chopin, Tchaikovsky e muitos outros. Ao longo de seus capítulos, as biografias criadas por Bandeira e Guido Levi em muito se aproximam do original de Conan Doyle, especialmente por sua menção a episódios "vividos" em textos clássicos, como O signo dos quatro (1890) e O nobre solteirão (1892), por exemplo. Você pode ter certeza: Melodia Mortal será uma leitura que provocará uma experiência muito além da investigação policial, já que o trabalho de seus autores adicionou diversos elementos de história geral e da música, especificidades da medicina e da gastronomia (aliás, um dos destaques do livro são os capítulos dedicados a Confraria dos Médicos Sherlockianos, que consistem em diversos encontros no estilo "clube de leitura" de um grupo formado por 12 especialistas de renome que, munidos das histórias de Holmes e Watson, compartilharão suposições e diagnósticos acerca dos mistérios ainda não completamente solucionados pela medicina de outros séculos), tornando a narrativa muito mais 'saborosa' :)

Para conhecer mais sobre a obra, leia a entrevista com os autores no site da Rocco, e é claro, envolva-se com os mistérios deste encantador universo da Baker Street! 


Algumas das misteriosas mortes desvendadas por Holmes, Watson, Bandeira e Levi:

Vincenzo Bellini (1801-1835)
Morreu aos 33 anos na casa de um casal de amigos, depois de se queixar de dores e sofrer uma convulsão. Os donos do local deram ordens ao jardineiro para impedir a entrada de qualquer pessoa. No último dia da vida de Bellini, ambos viajaram para fora do país. De início, Sherlock questiona: teria sido envenenado? A investigação passa por pesquisas em busca de casos semelhantes baseados em relatos médicos da época.

Fréderic Chopin (1810-1849)
Filho de uma polonesa ex-vizinha de Chopin, um pianista comenta com Sherlock as várias crises pulmonares sofridas pelo compositor e sua fatídica morte em decorrência da tuberculose. Analisando detalhes de sua biografia, no entanto, o detetive britânico contesta a hipótese, mas o caso permanece sem resolução. Somente em 2016, médicos "sherlockianos" chegam ao real motivo da morte do músico: uma doença congênita.


Melodia Mortal - Pedro Bandeira e Guido Carlos Levi

Sinopse: Após mais de 20 milhões de exemplares vendidos de seus livros destinados a crianças e jovens, Pedro Bandeira estreia na ficção adulta em um romance escrito em parceria com o médico Guido Carlos Levi. Melodia mortal combina música, história e ciência em uma narrativa policial que resgata o detetive Sherlock Holmes e seu braço direito John H. Watson – personagens criados por Arthur Conan Doyle em 1887. São eles que acabam por conduzir uma intrincada investigação, à luz dos conhecimentos da medicina contemporânea, sobre as polêmicas e jamais totalmente elucidadas mortes de alguns dos maiores compositores de todos os tempos.

A Confraria dos Médicos Sherlockianos, formada por 12 especialistas de renome, cada um em sua área, se reúne periodicamente para conversar sobre o famoso detetive inglês e suas façanhas. E não é incomum que tantos profissionais de saúde sejam obcecados por Holmes – afinal, o que é um exame clínico senão uma procura minuciosa por pistas que possam levar a um diagnóstico adequado? Mas aquele encontro tinha sabor especial, pois chegara a hora de dar início à análise de um tesouro exclusivo: as aventuras redigidas pelo próprio doutor Watson que, revelando a paixão de Sherlock pela música erudita, foram esquecidas por mais de um século em meio à poeira e ao bolor na Universidade de Londres.

O material inédito em posse do grupo conta com incríveis deduções de Sherlock Holmes, que, aliadas à evolução da medicina, são capazes de finalmente decifrar os últimos dias de Beethoven, gênio tão grande quanto o número de controvérsias relacionadas a seu óbito: envenenamento por chumbo, sífilis, sarcoidose, hepatite infecciosa, cirrose alcoólica, diabetes, pancreatite, necrose papilar renal ou pneumonia? E será que uma simples ameba pôde vitimar Bellini? Mozart teria sido assassinado? Tchaikovsky se suicidou com um copo de água contaminada pela bactéria da cólera? Schumann, que vivia entra a exaltação e a melancolia, poderia ser classificado como bipolar? Seriam os sintomas de Chopin relacionados à tuberculose ou a alguma doença de origem genética?

Com um texto elegante e saboroso, Bandeira é capaz de emular com precisão – tanto em conteúdo quanto em tom e rimo – as clássicas aventuras escritas por Doyle em novos casos com participações especiais de figuras histórias como Sigmund Freud e George Bernard Shaw, enquanto as décadas de experiência de Levi como infectologista conferem realismo e credibilidade científica aos intrigantes encontros da Confraria dos Médicos Sherlockianos. Além de contar com mistérios de primeira linha, Melodia mortal é um livro repleto de diversão e conhecimento para leitores de todas as idades.

Sinto sua falta - Uma crônica de Regiane Medeiros


“E eu andava que andava tão sozinha
Virei de canto
Olhei e segui na minha intenção
Quem vai me julgar”

Na maior parte do tempo, eu me sinto feita de titânio, inabalável, firme, sólida, inquebrantável. Mas, há dias como hoje, em que eu me sinto extremamente desgastada, tensa, frágil.

É madrugada e o fim do mundo parece mais próximo nesses momentos. E aí, eu penso em você. Penso na falta que você me faz... Mas, também penso que quando eu mais preciso, você não está aqui... Eu tento não me sentir frustrada com isso, afinal você não tem obrigação de carregar um peso que cabe a mim... Mas, não consigo parar de pensar no fato de que quando você precisa, eu sempre estou lá por você.

Só que essa é uma característica minha e já fui alertada antes de que esse traço de personalidade me torna mais humana, mas também me torna fraca.

Claro que você não vê dessa forma. Eu sei que pra você isso me torna maravilhosa. Saber que eu sempre estarei lá por você te dá segurança, não é verdade?

Mas e quanto a mim? Até quando vou esperar você se encontrar na mesma vibe que a minha? Até quando vou ter que passar noites insones me sentindo a última opção para ser sua companhia, quando está tudo bem contigo? Me quebra um pouco demais saber que você só me quer por perto quando a sua vida vai mal.

É claro que eu quero estar lá se isso acontecer – embora torça para que algo assim nunca mais se repita na sua vida. Mas também quero fazer parte das suas alegrias, das suas conquistas. E como dói não estar perto agora, quando você está bem, leve, sorridente... Talvez, se eu estivesse aí, não me sentiria tão perdida agora, tão sozinha. Porque a pessoa que eu achava que me entendia melhor do que qualquer um, na verdade parece não saber nada sobre mim.


A reciprocidade entre nós só se dá quando é você que precisa de empatia, solidariedade, amor e conforto. Quando sou eu que preciso dessas coisas, você se torna igual a todos os outros: alguém que já tem compromissos inadiáveis com outras pessoas ou qualquer outra coisa que possa servir de desculpa para não pôr em prática o que já me prometeu tantas e tantas vezes... Que eu poderia contar com você em qualquer momento de nossas vidas.

Provavelmente você nem percebe o quanto me fere com essa atitude. E eu, consciente de que não posso impor nada a você, continuo aqui sentada de madrugada, pensando no quanto sinto sua falta. O que também não é solução nenhuma.

A solução, invariavelmente é a mesma. Eu vou me levantar amanhã, respirar fundo, erguer a cabeça e me reconstruir... Sozinha.

Só para não causar confusão, preciso te dizer mais uma coisa: eu não lhe quero nenhum mal, ao contrário. Só estou deixando você ver o quanto sinto sua falta.

Quando você vai enxergar isso, é uma resposta que só o tempo trará. Só não sei até quando vou esperar.

“Então vou me enganar
Que agora não dá tempo
Que agora tanto faz
Que é hora de esquecer
E de me conformar
O que um dia já foi meu
Agora não é mais”
Mexeu Comigo, Tiê – Single, 2017

quinta-feira, 25 de maio de 2017

#TBT - Dias de Orgulho Nerd aqui no Blog | Editora Arqueiro

Quinta-feira, 25 de maio, dia do Orgulho Nerd, ou, mais especificamente, Dia da Toalha :) E como quinta é dia de #tbt, aproveitamos para relembrar nossas resenhas preferidas sobre o tema: O Guia do Mochileiro das Galáxias e Perdido em Marte, escritas pelo Jonatas e pelo Bruno. Confira!


O Guia do Mochileiro das Galáxias - por Jonatas T. B.

O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, atualmente é considerado uma das obras mais conhecidas do “cânon” nerd. Adams constrói uma visão de mundo onde nem o absurdo é capaz de escapar do discurso pretensamente científico. A história é pontuada por críticas sociais bem humoradas e bastante ácidas, que alfinetam desde a burocracia governamental até a percepção transcendente do mundo, bem ao gosto do que se é considerado, na modernidade, reflexões sobre a vida e o homem diante do universo.

A história começa com uma trágica situação. O jovem Arthur Dent está prestes a ter sua casa destruída para que se construa uma estrada estatal. Desesperado, ele decide se colocar na frente de sua moradia impedindo que o trator avance. É nesse instante que Ford Perfect, um alienígena que ficou preso na terra e se disfarçou de ator desempregado, subitamente aparece e o arrasta para um pub a fim de beber umas cervejas antes do fim do mundo. Sim. É exatamente isso. O planeta Terra está a poucos minutos de ser completamente destruído por extraterrestres chamados vogons a fim de construírem uma estrada espacial.

É importante ressaltar que Ford Perfect pertence a uma classe de viajantes intergalácticos que têm o propósito de catalogar e atualizar um livro eletrônico, uma espécie de enciclopédia editável para viagens bastante prático, ou seja, o próprio Guia do Mochileiro das Galáxias.
 
 
 

Marte: tema de fascínio para a humanidade, ponto de partida de relevantes teorias sobre o nosso universo como os estudos de Copérnico e as observações de Tycho Brahe. Nas artes inspirou clássicos de H.G Wells e Philip K. Dick entre inúmeros exemplos que são só uma parte do poder do planeta vermelho sobre nós.

Após a sonda espacial Mariner 4 fotografar pela primeira vez a superfície de Marte em 1964, passamos a ter uma ideia mais próxima da realidade sobre o planeta e uma perspectiva científica torna-se quase exclusiva nas histórias atuais sobre o assunto. Andy Weir desenvolve sua obra The Martian seguindo essa ambientação realista.

2035, Marte, uma forte tempestade de areia acontece durante a estadia da tripulação da ARES III no planeta. Apesar dos esforços, a tripulação sofre contratempos e é obrigada a retornar à Terra deixando o astronauta Mark Watney para trás.




E você, tem algum livro nerd preferido? Conta pra gente nos comentários <3

[Novos Autores] A Noiva, do ilustrador pernambucano Thony Silas | Texto por Jonatas T. B.


Mediante toda energia empregada em sua mais recente obra, é difícil considerar Thony Silas apenas um bem sucedido desenhista de histórias em quadrinhos. Já consolidado como artista internacional participando em edições da Marvel e DC, Silas lançou o título A Noiva, produzido sob o selo multimidiático UEON Productions, já revelando sua pretensão de não se limitar aos quadrinhos, e estender seu trabalho para o campo das animações.

A história é uma adaptação livre do romance A noiva da revolução, de Paulo Santos de Oliveira. É escrita na forma de diário narrado pelo líder do movimento revolucionário, Domingos Martins, como tantos influenciados pelos ideias iluministas durante a onda de revoluções liberais em todo mundo. A princípio, Domingos é impedido de casar com Maria Teodora, por esta ser de família tradicional portuguesa, mas logo o próprio contexto conturbado da revolução permite que se consolide um romance entre eles.

A obra contará com oito edições que abarcará o Ciclo Pernambucano, percorrendo a história até um cenário futurista, - o que certamente deixará qualquer leitor curioso. Mas pouco ainda se sabe como se sucederá. O autor é bastante misterioso quanto ao desenvolvimento da trama. Já lançada em inglês, português e brevemente em francês, A noiva contou com o próprio Paulo Santos como consultor literário para corrigir e aconselhar na produção.

Então, vamos ficar na torcida pelo sucesso da HQ e que venham ainda venham muitas edições por aí!


RELEASE: Thony Silas apresenta A Noiva, na Livraria Cultura (SP) no dia 26 de maio, às 19h

O talento de Thony Silas, ilustrador pernambucano da Marvel e DC Comics, será apresentado de um jeito diferente do que o grande público está acostumado. Conhecido pelo traço marcante dos super-heróis como Batman, Mulher Maravilha, Super-Homem e Homem-Aranha, Silas decidiu investir em um projeto autoral apresentando ao mundo fatos históricos de sua terra natal adaptados a uma linguagem pop e ao fantástico universo dos quadrinhos. O lançamento nacional da HQ A Noiva será em São Paulo, no dia 26 de maio, às 19h, na Livraria Cultura – Conjunto Nacional.

A HQ é a primeira publicação da UEON Productions, uma produtora de conteúdo multimídia, fundada no Recife, que promove conexão entre várias plataformas de comunicação e a linguagem contemporânea dos quadrinhos. A produtora é fruto de uma parceria entre Thony Silas, Eron Villar e a empresária Verônica Dantas. A publicação tem a parceria da Villa Lux.

A Noiva homenageia o Bicentenário da Revolução Pernambucana e retrata um dos mais significativos períodos de luta e resistência do povo brasileiro na forma de quadrinhos. Livremente inspirado no romance A Noiva da Revolução, de Paulo Santos de Oliveira, a publicação reconta de forma poética, em letras, traços e cores, o que seria o primeiro capítulo de uma série de episódios marcantes do ciclo das revoluções em Pernambuco.

A HQ foi produzida pelo ilustrador Thony Silas (desenhista da Marvel e DC Comics) com roteiro do dramaturgo, roteirista e diretor Eron Villar, ambos pernambucanos. O autor Paulo Oliveira é parceiro e consultor literário e de contexto histórico, tendo acompanhado o roteiro e as ilustrações.

A Revolução de 1817 é considerada o único movimento separatista do período colonial que ultrapassou a fase conspiratória. O enredo aborda o casamento de Maria Teodora, uma filha de português, que virou símbolo da revolução ao chegar em seu próprio casamento rompendo totalmente com os padrões sociais, com os cabelos curtos e sem joias.

“Muita gente questionou como um artista da Marvel parou para produzir um quadrinho autoral sobre 1817? Já tinha outros projetos autorais, mas fui tomado pela importância da história. Temos dificuldade de criar algo a partir do nosso olhar, do nosso cenário. Nesse contexto tem uma historia de amor e luta pela liberdade. Não é apenas uma historinha”, analisa Silas.

Ainda de acordo com ele, esse projeto tem todas as condições de ter uma repercussão mundial muito maior do que tudo que já fez antes. “Originalidade, iniciativa própria e autonomia são coisas que o mercado requer. Pensar-se como marca é a pegada do momento. Nossa ideia é que A Noiva e os conteúdos produzidos a partir daí, sejam multimídias, ou seja, o quadrinho é o ponto de partida para outras mídias como cinema, TV e games”, assegura.

Onde posso encontrar A Noiva?
Amazon

Livraria SBS:
Unidade 1: R. do Príncipe, 526 - Soledade, Recife – PE.
Unidade 2:Av. Conselheiro Rosa e Silva, 1519 - Loja 17 - Aflitos, Recife – PE.

Banca HQ Guararapes - Revistas e Jornais:
Av. Guararapes, 223 - Santana, Recife – PE.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Em águas sombrias - Paula Hawkins | Editora Record | Texto de Regiane Medeiros


“Os homens a amarram de novo para o segundo ordálio. Agora de um jeito diferente: polegar esquerdo com dedão do pé direito, polegar direito com dedão do pé esquerdo. A corda ao redor da cintura. (...)

Ela afunda. Quando a arrastam para fora pela segunda vez, seus lábios estão do roxo de um hematoma e ela já não respira mais” (pg 91/92)

Uma pequena cidade do interior da Inglaterra sofre um abalo: uma jovem mãe solteira é encontrada morta no rio que corta a cidade. Sua irmã caçula, com quem não falava há anos, é obrigada a deixar sua vida em Londres para voltar à cidade natal e fazer o reconhecimento do corpo, além de assumir a guarda da sobrinha, uma adolescente completamente diferente do que ela aguardava.

Esse é o ponto de partida de Em Águas Sombrias, novo livro de Paula Hawkins, a autora que causou frisson com A Garota do Trem, ambos os livros lançados no Brasil pela Editora Record.

Durante anos Jules fugiu de seu passado de sofrimento, perda e violência, mas quando sua irmã Nel é encontrada morta, toda a angústia, humilhação e sofrimento da infância e adolescência emergem de sua alma, atormentando-a. 


“Fiquei pensando no que eu diria para você quando chegasse lá, que sabia que você tinha feito isso para me magoar, para me chatear, para me assustar, para tumultuar minha vida. Para chamar minha atenção, me arrastar de volta para onde você me queria. Muito bem Nel, você conseguiu: aqui estou no lugar para onde eu nunca quis voltar, para cuidar da sua filha, para dar um jeito na confusão que você armou” (pg 13)

As irmãs Abbott tinham uma relação difícil, Jules não amava Nel – ao menos, não sente como se tivesse amado – e Nel, certamente não amava Jules, já que foi uma das maiores causadoras do bullying imposto à irmã caçula, corroborando com atos que quase levaram Jules à morte.

Mas, porque a morte de Nel não se tornou um alívio para Jules? Por que Jules ainda ouve Nel em sua cabeça, rindo dela, fazendo-a de tola?

“Parte de mim queria ter uma conversa com você, mas não antes de você me dizer que sentia muito, não antes de implorar o meu perdão. Mas o seu pedido de desculpas nunca veio, e eu continuo esperando” (pg 65)


Durante a investigação da morte de Nel, vamos conhecendo melhor a história dessa cidade, desse rio, onde outras mulheres também morreram afogadas: algumas acusadas de bruxaria, outras por acidente, outras que se suicidaram... E as que foram jogadas do penhasco. O que tinha em comum entre todas essas mulheres: eram consideradas encrenqueiras.

Nel era uma fotógrafa famosa e tinha uma verdadeira obsessão pela história do rio, especialmente pelas mortes no Poço dos Afogamentos, o que torna sua morte naquele local ainda mais curiosa e bizarra.

“Quando você começa a fazer perguntas e a colocar pequenos anúncios em lojas e em pubs, quando começa a tirar fotos e a conversar com os jornais e a fazer perguntas sobre bruxas, sobre mulheres e almas perdidas, não está atrás de respostas, está atrás de problemas.” (pg. 96)

Afinal de contas, o que aconteceu com Nel Abbott? Alguns, como sua própria filha Lena, afirmam que ela se se suicidou. Outros, como sua irmã Jules e Nickie, a vidente da cidade, tem certeza de que ela foi assassinada. E quem terá razão?


Esse foi meu primeiro contato com livros da Paula Hawkins e preciso confessar que o estilo da narrativa não me agradou, são muitos narradores diferentes e a narração varia muito entre primeiro e terceiro narradores, o que pra mim quebrou um pouco o clima e ritmo da história. Mas, alguns de seus personagens são bem interessantes – particularmente, adorei a boca suja e mal-humorada Erin, uma das policiais envolvidas no caso da morte de Nel e que com seu instinto aguçado colaborou para sua resolução. Jules, a principal narradora do livro, me incomodou um pouco no início, por conta de todo o seu ressentimento pela irmã que acabou de morrer, mas ao longo do livro passei a entendê-la, ao conhecer seu passado, e tudo o que teve que suportar porque não era bela e magra como sua irmã mais velha. Sean, o policial encarregado do caso, foi um completo mistério, mesmo agora depois de terminar o livro, não sei o que pensar a seu respeito.

Com relação ao enredo em sua totalidade, a história realmente é boa e está à altura da expectativa criada – mesmo que eu não tenha devorado o livro, como pensei que faria -, o suspense dura até os últimos capítulos e não há nada de óbvio quando nos deparamos com a solução apresentada para os questionamentos que nos tomam durante a leitura, o que foi o ponto forte para mim com relação à escrita de Paula.

Fazia muito tempo que uma leitura não me deixava tão dividida, mas talvez eu esteja um pouco de ressaca com minha leitura paralela, que é bem pesada: O Livro dos Mortos do Rock – ainda não sei se conseguirei resenhá-lo -, mas recomendo a leitura para os amantes de thrillers e suspenses, vão se surpreender com esse mistério.


Em águas sombrias - Paula Hawkins

Nos dias que antecederam sua morte, Nel ligou para a irmã. Jules não atendeu o telefone e simplesmente ignorou seu apelo por ajuda. Agora Nel está morta. Dizem que ela se suicidou. E Jules foi obrigada a voltar ao único lugar do qual achou que havia escapado para sempre para cuidar da filha adolescente que a irmã deixou para trás.

Mas Jules está com medo. Com um medo visceral. De seu passado há muito enterrado, da velha Casa do Moinho, de saber que Nel jamais teria se jogado para a morte. E, acima de tudo, ela está com medo do rio, e do trecho que todos chamam de Poço dos Afogamentos…

Com a mesma escrita frenética e a mesma noção precisa dos instintos humanos que cativaram milhões de leitores ao redor do mundo em seu explosivo livro de estreia, A garota no trem, Paula Hawkins nos presenteia com uma leitura vigorosa e que supera quaisquer expectativas, partindo das histórias que contamos sobre nosso passado e do poder que elas têm de destruir a vida que levamos no presente.
domingo, 21 de maio de 2017

Sociedade J.M. Barrie - Barbara J. Zitwer | Editora Novo Conceito | Texto de Luana Souza


Estou muito feliz em saber que a Rebeca gostou das minhas resenhas (aqui | aqui), e de estar tendo a oportunidade de escrever de novo para o blog dela.

Depois que o pacotinho cheio de amor chegou aqui em casa trazendo muitas surpresas e dois livros, eu já fui logo embarcando na leitura de Sociedade J.M. Barrie, da Barbara J. Zitwer, e publicado pela Novo Conceito, editora parceria do blog Papel Papel.

Foi uma leitura relativamente rápida (uma semana), e eu estou doida para compartilhar minhas opiniões, pois esse se tornou um daqueles livros com o qual temos uma relação de amor e ódio hehe.


Sinopse: Joey, uma arquiteta nova-iorquina que só pensa em trabalho, está em Cotswolds para supervisionar a restauração da majestosa mansão que inspirou J. M. Barrie a escrever Peter Pan.

Os moradores da região não foram exatamente receptivos e também havia um problema com o zelador da mansão, um homem que parecia determinado a arruinar os planos dela. Com essa situação, Joey logo começa a pensar que não conseguirá fazer nada certo neste projeto e também em sua vida até descobrir a Sociedade de Natação de Senhoras J. M. Barrie e começar a nadar com elas em sua Terra do Nunca particular.

Para Joey, conhecer Aggie, Gala, Meg, Viv e Lilia vai ser uma grande experiência de vida o começo de um relacionamento que vai transformá-la de uma maneira mais que extraordinária...


A vida secreta das senhoras da Terra do Nunca...

Mesmo eu sendo uma grande fã de clássicos, e meu livro favorito de todos ser um clássico da literatura inglesa (Alice no País das Maravilhas *-*), eu nunca li a obra original de Barrie, uma dívida que pretendo cumprir um dia. Mas, como fã assídua de contos de fadas e filmes da Disney, as animações acabam fazendo parte da minha infância, assim como filme de 2003. Tenho toda a história e sua moral como uma grande inspiração para a minha vida.

Ah, também sou uma apreciadora da magia, então sempre acabo buscando por isso nas minhas leituras. Infelizmente, não foi o caso desse livro. Eu teria adorado se a autora tivesse inserido mais referências ao livro original e até mesmo aos filmes, mas tudo isso acaba se perdendo no meio dos problemas emocionais pelo qual a protagonista está passando.


"As personagens engraçadas, briguentas e afetuosas do fabuloso mundo de Zitwer deixam todos nós tentados a pular e nadar num lago gelado. Amei este livro." (Cathy Woodman, escritora)

Quanto as "senhoras da terra do Nunca", assim que li a sinopse fiquei imaginando uma sociedade secreta, que se encontrava secretamente em algum lago afastado... cheguei até imaginar uma atmosfera de magia envolvendo fadas, estrelas e piratas... mas não é bem assim. Vou falar claramente: o livro é um jovem-adulto que trata, principalmente, das dúvidas de uma mulher de uns 30 anos quanto a sentimentos-relações-trabalho-amor-vida. Isso tudo me soou como uma crise de meia idade, e os outros assuntos que deveriam ter mais enfoque ficaram como detalhes.

Ah, eu também li MUITAS resenha negativas no Goodreads de britânicos criticando detalhes da cultura inglesa que estavam totalmente equivocados no livro, alegando que a autora não pesquisou nada direito na hora de escrever. Qual a minha opinião sobre isso? Bem, eu não sou ninguém para criticar um inglês que se sentiu ofendido por seus costumes terem sido "alterados", e nem tenho um conhecimento enorme sobre a cultura britânica, mas talvez tenha sido falta de uma pesquisa mesmo o.O


Mas eu não tenho só críticas. Por se passar na Inglaterra, tem todo um tom gélido e cinza no livro, e isso é algo quer amo! Consegui extrair boas lições envolvendo amizade da história, pois, mesmo que eu esperasse que fosse mais trabalhado, surge uma amizade muito bonita entre a Joey e as senhoras da Terra do Nunca. Posso resumir esse livro em sendo um quase-clichê que nos satisfaz, e deixa nossos corações quentinhos ao terminarmos a leitura.

Ah, uma música que eu acabei escutando bastante enquanto lia foi "Neverland", da Zendaya <3


Quanto a edição, a Novo Conceito fez um trabalho encantador em todos os quesitos. A capa é linda, com uma paleta de cores maravilhosa e uma imagem que me lembrou demais a cena do filme "O Lar das Crianças Peculiares" onde o Jacob e a Emma mergulham no mar. O título é em verniz localizado, e as páginas são amarelas e bem porosas *-*


Gostaram da resenha? E das fotos? Eu adoraria ler a opinião de você aqui no blog Rebeca, e saber se alguém se interessou pela leitura.

Obrigada por tudo, pessoal. {Luana Souza}
quinta-feira, 18 de maio de 2017

[Novidades das Editoras] As Bibliotecas de Maria Bonomi e a Revista LIVRO 6 | Ateliê Editorial


Neste início de maio, a Sala Multiuso da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, localizada no Campus da Universidade de São Paulo, inaugurou a exposição "As bibliotecas de Maria Bonomi", apresentando xilogravuras da artista produzidas ao longo de sua trajetória, assim como ilustrações que a artista produziu para o conhecido livro Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles. A exposição fica em cartaz de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 18h30, até o dia 26 de maio.

Em paralelo a exposição, o Ateliê Editorial publicou a sexta edição da revista Livro, que reúne 23 gravuras de Maria Bonomi feitas especialmente para a publicação do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição da USP. Neste trabalho, a artista realizou um trabalho em gravura a partir de uma seleção de imagens de bibliotecas de diversos países do mundo que a artista visitou e pesquisou.

Para conhecer um pouco mais do trabalho de Maria Bonomi e da gravura como processo artístico, vale assistir o vídeo realizado pelo Instituto Arte na Escola, disponível em seu canal no Youtube:


E claro, não deixe de conhecer os trabalhos da artista publicados na edição nº 6 da Revista Livro :)

Sobre a revista: Ilustrada por gravuras da artista plástica ítalo-brasileira Maria Bonomi ao longo de suas páginas, a nova edição da revista Livro, uma publicação anual do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição da Universidade de São Paulo (NELE/USP), oferece uma "experiência sensorial vibrante", nas palavras de seus editores, Marisa Midori Deaecto e Plinio Martins Filho.

Em seu sexto número, a obra traz texto inédito de Donaldo Schüler, mestre-tradutor de Homero e James Joyce; e artigo de Yann Sodert, ex-diretor da Biblioteca Mazarine (França), que apresenta uma abordagem histórica sobre catalografia e suas curiosidades ao longo dos tempos.

Livro nº 6 reflete, entre outros pontos, a respeito da leitura do jornal, e traz a reconstrução de um importante capítulo da história editorial brasileira: a trajetória de Jorge Zahar e a revolucionária coleção Biblioteca de Ciências Sociais. Esta edição levanta, ainda, questões relacionadas à crise cultural do impresso, ao analisar a função das bibliotecas atualmente.

Resultado do esforço coletivo de professores, pesquisadores e profissionais dedicados ao estudo da palavra, a publicação tem como finalidade conduzir o leitor a uma reflexão sobre a difusão de pesquisas que têm a palavra impressa como seu objeto principal. Desde seu número de estreia, Livro busca cobrir os ciclos de vida do impresso no Brasil e no mundo. A cada número da revista é escolhido um artista gráfico para ilustrá-la.

Os interessados em adquirir a Livro nº6 podem fazê-lo pelo site da editora e ou em grandes livrarias.

A Última Camélia - Sarah Jio | Editora Novo Conceito | Texto de Regiane Medeiros


Uma mansão no interior da Inglaterra. O desaparecimento de várias moças. Uma morte inexplicada em um jardim. Um livro insuspeito com códigos muito, muito suspeitos. Uma empregada idosa que se mantém fiel aos finados patrões. Um amor proibido. Um amor do passado. Duas mulheres que guardam segredos que podem destruir suas vidas... Não, não estou falando de um enredo de Agatha Christie – embora eu seja uma árdua leitora da Rainha do Crime e não tenha conseguido evitar a comparação – e sim de A Última Camélia, o último livro de Sarah Jio, jornalista e blogueira americana, autora de O Bangalô e Neve na Primavera, todos publicados pela Editora Novo Conceito.

Confesso que essa leitura me surpreendeu positivamente. A história é contada em narrativas alternadas entre o presente, pelo ponto de vista de Addison, uma paisagista residente em Nova York, e o passado, quando a jovem americana Flora aceitou um emprego de babá em uma mansão na Inglaterra. Apesar da distância temporal que as separa, ambas tem muito em comum: são apaixonadas por botânica e levam consigo um segredo que pode alterar suas vidas para sempre, bem como a vida das pessoas com quem convivem.

Flora trabalha na padaria com os pais e tem o sonho de estudar Botânica, mas vê seu anseio cada vez mais distante de ser realizado devido às dívidas dos pais. Certo dia é procurada por um homem misterioso que diz ter uma proposta que vai mudar a sua vida e garantir a segurança financeira de seus pais. Apavorada com a proposta, mas ao mesmo tempo sem ver outra opção, Flora embarca em um navio com destino à Inglaterra para trabalhar de babá em uma mansão. Durante a viagem conhece o jovem Desmond, um rapaz bonito e rico que vai despertar na jovem Flora sentimentos aos quais não imaginou conhecer algum dia. Ao chegar na mansão Livingston, Flora se depara com um grupo de crianças carentes e problemáticas, sofrendo a perda da mãe, a governanta misteriosa e rígida e um segredo vinculado ao seu que pode colocar em risco a sua própria vida.

Addison é casada com Rex, um escritor de ficção em busca de uma grande história. Os pais dele compram uma mansão no interior da Inglaterra e como se encontram em uma viagem à China, pedem ao filho e à nora para que fiquem na mansão por um tempo resolvendo pendências burocráticas da compra, viagem essa que Addison só aceita para fugir de alguém que a perturba com segredos do passado, que ela tenta fervorosamente manter longe de seu matrimônio. Ao chegarem na mansão Livingston, conhecem a senhora Dilloway, a governanta idosa que se recusa a parar de trabalhar na mansão aferrada a uma fidelidade sem precedentes pelos falecidos donos da casa. Enquanto explora a casa, nos momentos em que se vê sozinha, Addison se depara com um livro antigo escrito pela própria dona da mansão, lady Anna, cujo conteúdo pode ser a chave de misteriosos desaparecimentos ocorridos na cidade por volta de 1940.


O mistério que une essas duas vidas tão distintas, reside na descoberta de um raro exemplar de Camélia, que aparentemente só existe na mansão Livingston e cuja procura inicial remonta ao ano de 1803. Mas, por que essa flor causa tanta confusão em torno de si? Isso, eu não vou revelar, mas tenham certeza de que a solução para esse mistério está muito além da obviedade quando o descobrimos.

Sarah Jio consegue nos manter em um clima de ansiedade e envolvidos no suspense dessa história, da primeira à última página, sem nos decepcionar ao longo do caminho. O sofrimento pessoal de suas personagens é muito visceral e tocante, não tem como não torcer por elas, mesmo quando elas fazem algo errado – é um terrível paradoxo, eu sei!!! – porque ambas são vítimas de circunstâncias que estão além do seu controle. E a construção dos personagens secundários é brilhante. Não tem como não se apaixonar por Rex, um escritor apaixonado pela esposa e pela escrita, que torna tudo mais leve mesmo quando o assunto é denso. Assim como é impossível resistir às crianças Livingston, mesmo Katherine com toda a sua falsa arrogância e maturidade e ao travesso Abbot, que mesmo tão jovem se vê como o protetor dos irmãos. 

Outro ponto interessante sobre o enredo, é que a Sarah consegue transmitir um grande conhecimento sobre flores ao leitor de uma maneira muito prática e visual, tornando cada cenário um deslumbre para os sentidos, indo muito além no clima de mistério que permeia a história toda ao aliá-lo a tanta beleza natural.

Há muitos segredos nos jardins dessa mansão, especialmente no canto mais afastado, onde ficam as árvores das Camélias. Mas quem será capaz de resolvê-los? E quem será capaz de sobreviver à descoberta de tais segredos? Sugiro que você se acomode em um lugar confortável com uma xícara de café quentinho ao lado e embarque nessa aventura. Vai ser muito difícil de largar antes de chegar ao término de tantos segredos, eu garanto!!!

“A velha senhora não prestara atenção na camélia até aquela manhã, quando uma mancha rosada atraiu seu olhar. A flor do tamanho de um pires era muito mais magnífica do que ela poderia ter imaginado. Mais bonita do que qualquer rosa que ela já tivesse visto. Ela balançava na brisa da manhã com tamanha realeza que a velha senhora sentiu necessidade de fazer uma reverência em sua presença” (pg. 12).



Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, o último espécime de uma camélia rara, a Middlebury Pink, esconde mentiras e segredos em uma afastada propriedade rural inglesa.

Flora, uma jovem americana, é contratada por um misterioso homem para se infiltrar na Mansão Livingston e conseguir a flor cobiçada. Sua busca é iluminada por um amor e ameaçada pela descoberta de uma série de crimes.

Mais de meio século depois, a paisagista Addison passa a morar na mansão, agora de propriedade da família do marido dela. A paixão por mistérios é alimentada por um jardim de encantadoras camélias e um velho livro

No entanto, as páginas desse livro insinuam atos obscuros, engenhosamente escondidos. Se o perigo com o qual uma vez Flora fora confrontada continua vivo, será que Addison vai compartilhar do mesmo destino?

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Wabi-sabi - Francesc Miralles | Editora Record

(Este é um texto de ficção a partir da obra Wabi-sabi, de Francesc Miralles. Ainda assim, por sua proximidade com os fatos expressos no livro, o leitor pode considerar este texto como uma Resenha, e tê-lo como referência em sua leitura da obra. Aliás, não deixe de ler! Este é um dos melhores lançamentos dos últimos tempos da Record <3)


É como se um dia acordássemos e um cartão-postal estivesse sob o bem-vindo do carpete de entrada, em um envelope meio amassado, trazendo uma notícia tão alegre quanto o nosso humor às cinco e quinze ou após ter tropeçado ao sair do chuveiro. Digo isso porque Gabriela me escreveu uma ou três linhas e pediu que eu voltasse pra casa e aguardasse o seu chamado. Talvez Gabriela quisesse apenas me dizer que também tropeçou no chuveiro e que por isso não estaria em condições de continuar sua peregrinação nada espiritual a muitos quilômetros de Barcelona. Ao chegar em casa, no entanto, o suor da ansiedade fez com que eu entendesse que esta seria uma possibilidade ridícula. Ainda assim, com alguma esperança, sentei no sofá e aguardei o telefonema. E fiquei pensando: se compararmos a vida a um longo episódio de peregrinação, digamos, pelo Caminho de Santiago, é bem provável que em algum momento de nossa escalada todo o equipamento escorregue de nossas mãos (no caso, de minhas mãos, não duvidaria disso) e nossa sobrevivência dependa unicamente de um milagre ou de um helicóptero da defesa civil. Bem, esta seria minha versão filosoficamente resumida dos fatos, caso eu sobrevivesse a esta peregrinação, pois é bem certo que Gabriela saberia muito o que fazer para sair de uma emboscada dessas. E sairia sozinha, claro, ela e suas botas trekking e seu equipamento de navegação (no meu tempo isso se chamava bússola) movido à bateria solar. Enfim, sem mais devaneios, pois já são nove e cinquenta e nove e daqui a um minuto receberei uma ligação da Gabriela, minha autoconfiante guerreira das montanhas! Das montanhas, da cidade, do mundo... do mundo longe de mim?

"O mundo é imprevisível, mas os sábios insistem que tudo acontece quando tem de acontecer". Escrevi esta frase um pouco após o telefonema de Gabriela, que durou também uma ou três linhas, e que poderia ter sido dito de um jeito diferente, caso houvesse algum resquício de compaixão em si mesma. Mas... não foi assim que aconteceu (momento autopiedade on). É, eu sei, a vida é mesmo uma sequência de imperfeições e impermanências, então, prefiro acreditar que no coração de Gabriela a mensagem tenha sido escrita mais ou menos assim:

"Preciso falar com você. Porque essa distância de agora não é apenas resultado de um carimbo em meu passaporte. Afinal, toda impermanência tem seus motivos, e mesmo que a gente não saiba definir o instante em que nossos meridianos se desalinharam, o coração da gente já começa a rabiscar novas coordenadas e logo percebe que é hora de partir. Bem, talvez você não perceba, já que seu país é recortado por um passado que não mais compreendemos, que eu não compreendo, mas é bem aí, nesta geografia antiga, que você insiste em viver, e eu não sei mais o que dizer a respeito disso, a não ser: Wabi-sabi.

Há momentos, Samuel, em que o ontem é o nosso melhor destino, mas não acredito que nossos caminhos estejam vivendo isso agora. Bom, eu sei que não estou. Por isso escrevo, às dez da noite de um fuso horário errante, só pra dizer que eu acredito que você deva partir também, sabe. Que tal Japão, Maldivas, Berlin...? Melhor, Quioto! É, no extremo oriente, ali bem próximo ao Monte Fuji. Você pode pegar um trem, fotografar o Monte, perder o medo de escaladas e acreditar um pouco mais em você. Acreditar que tudo é possível, inclusive a dissonância e a imperfeição de nossos sentimentos, que, apesar de tudo, foi o que permitiu que a gente percorresse tantos quilômetros de vida juntos...

Hoje, porém, foi preciso pegar minhas malas e cruzar estes um ou dois países; sei que posso voltar pra Barcelona, mas minha verdade não está tão perto assim. A sua também não, e eu gostaria que você enxergasse um pouco disso.

Cuide bem do gato. E continue escrevendo. Seus livros, e também os de Titus, seu melhor amigo. Fique bem. Que a vida o reencontrará tão logo, ainda que não pareça tão cedo.

Bjs,
Gabriela"

A sensação é a de que a vida parou e eu fiquei em choque nesta cadeira por alguns dias. Mas era apenas madrugada, e as dores e câimbras do corpo não poderiam nunca se comparar ao tapa que recebi disto que chamamos Realidade. Estou mesmo cansado, os dias seguintes foram péssimos, porém, estava disposto a ouvir o conselho de meu sábio vizinho Titus - que, na verdade, meu único amigo - e partir para uma viagem de autoconhecimento, logo ali, no Japão. É claro que Titus gostaria que eu o ajudasse em mais uma de suas pesquisas acerca da sabedoria do oriente, mas a viagem tinha como principal objetivo a resolução de um mistério: o de encontrar o remetente dos cartões postais que chegaram há alguns dias, diretamente do Japão, escritos em bela caligrafia e com uma enigmática mensagem no verso: Wabi-sabi. Embora eu não conhecesse a língua, os costumes e tampouco amigos nipônicos, Titus também achou que este mistério dos postais chegou em boa hora, como se fora um "presente do destino" - ou, dito de forma cética, como uma oportunidade de ocupar minha cabeça e esquecer o pé na bunda que recebi de Gabriela. Mas veja bem, só topei esta viagem porque já se aproximava o período de férias. Afinal, minha carreira como professor universitário (embora não muito bem sucedida) precisava ser mantida, e "matar aulas" seria algo fora de cogitação, sempre. Se bem que, pensando agora no telefonema de Gabriela, este talvez seja um dos motivos porque Gabriela desistiu de mim, porque sou previsível, o que você acha? É, deve ser isso... você está certo. Obrigado.

Mas voltando à viagem: o que foi que eu encontrei no Japão? Além do Monte Fuji, alguns templos e um copo de cerveja a 15 euros? Wabi-sabi, claro! Minha verdade. E que talvez seja bem parecida com a sua. Ainda que você não esteja no Japão; ainda que não tenha conhecido uma Gabriela...

"'O melhor remédio para os amedrontados, solitários ou infelizes é sair, ir ao ar livre encontrar o céu, a natureza e Deus. (...) Enquanto isso existir - e deve existir para sempre -, sei que haverá consolo para a tristeza, para qualquer circunstância que a tenha provocado.' (Anne Frank)

Essas palavras de uma menina de 16 anos que estava prestes a ser levada à câmara de gás me fizeram sentir vergonha de mim mesmo. Não apenas porque escrevia melhor do que eu, mas porque em seu esconderijo era capaz de desfrutar coisas que um homem que tinha toda a liberdade do mundo negava a si mesmo.

Quantas vezes eu havia passado o dia ao ar livre nos últimos anos? (...) Isso para não mencionar outros prazeres da vida, que me causavam dilemas morais próprios de uma espécie que boicota a si mesma para poder continuar se lamentando.

(...) Onde estava o problema? (...) O problema era eu."
(pg. 187-188)



Wabi-sabi - Francesc Miralles

Sinopse: Quando um relacionamento vai mal, nada melhor do que viajar para um mundo distante para repensar a vida. E é exatamente isso que Samuel faz. E é exatamente isso que Samuel faz. Sua namorada, Gabriela, com quem ele mantém um relacionamento há oito anos, parece mais distante a cada dia, e sua vida passa a se dividir entre as aulas de alemão e as pesquisas que faz para os livros de autoajuda de seu vizinho, o escritor Titus. Tudo isso na companhia do gato Mishima. Porém, certa manhã, algo tira Samuel de sua existência monótona: um cartão-postal vindo do Japão com a imagem de um gato de porcelana, o maneki-neko, e os dizeres “Wabi-Sabi”. Dias depois, ele recebe em sua casa um segundo postal com a fotografia de um templo e as mesmas palavras. Intrigado, Samuel decide ir ao Japão para descobrir quem é o remetente das misteriosas mensagens, e sua viagem acaba se transformando em uma verdadeira jornada de autoconhecimento.
terça-feira, 16 de maio de 2017

[Novidades das Editoras] O Soldadinho de Chumbo - Editora Wish | Texto por Jonatas T. B.



"Ela se mantinha na ponta do pé, com as pernas esticadas, tão firmemente quanto ele ficava em uma perna só. Ele jamais tirou os olhos dela, nem por um momento. (...)

- Soldadinho de chumbo, - disse o duende, - não deseje o que não te pertence.

Mas o soldado de chumbo fingiu não ouvir."

Acabei de ter a felicidade de ler a versão original de “O soldadinho de chumbo” e descobri que o conto é apenas uma degustação de uma série de livros que tratam das versões originais de contos de fadas, tanto os mais populares quanto os mais raros. O projeto da Editora Wish, publicado por financiamento coletivo, tem um visual caprichado de histórias de origem celta, russa e nórdica.

“O soldadinho de chumbo”, escrito pelo dinamarquês Hans Christian Andersen, é a história sobre um soldado de brinquedo que, por falta de material, fora fabricado com apenas uma perna. Após se apaixonar por uma bailarina de papel coroada por uma rosa de ouropel, é aconselhado por um duende para que não ‘desejasse o que não lhe pertencia’. Depois de ignorar o conselho do duende, o soldado sofre um misterioso acidente que dá início a suas fatídicas desventuras.

A coleção é uma ótima oportunidade para aqueles que desejam adentrar o universo dos contos de fada originais e descobrir que muitos filmes, animações e livros atuais possuem referências, mesmo que inconscientes, aos clássicos. Em “O soldadinho de chumbo”, por exemplo, notei que havia elementos que poderiam se relacionar com o enredo e personagens de Toy Story. O que vocês acham?

Por fim, quero agradecer a editora Wish por nos dar a oportunidade de conhecer uma literatura maravilhosa, capaz de encantar tantas gerações!

Conheça outros projetos da Editora: Facebook | Site

domingo, 14 de maio de 2017

Desintegrados - Neal Shusterman | Editora Novo Conceito | Texto de Jonatas T. B.


Desintegrando a moral

“Connor ri, pois ninguém jamais fez essa pergunta de forma tão direta. Chega a ser um alívio falar sobre isso. 
- Tinha um cara... um sujeito bem durão. Ele tentou me matar uma vez, mas não conseguiu ir até o fim. De todo jeito, ele foi o último a ser fragmentado no Happy Jack. Eu deveria ser o próximo, mas foi aí que os batedores explodiram o Ferro-Velho. Perdi um braço e acordei com este. Pode acreditar, não foi escolha própria.
Starkey absorve a história e assente, sem julgar.
- Medalha de honra, cara – diz ele. – Exiba com orgulho.”

Nesta última semana, tive a oportunidade de ler Desintegrados, uma ficção científica distópica escrita por Neal Shusterman e publicado pela Editora Novo Conceito, seqüência do best-seller Fragmentados. A história se passa em um futuro próximo, após o final de uma guerra civil americana provocada por conflitos entre pró-vida e pró-abortos. Ambos os lados finalmente entram em um curioso consenso: nenhuma vida seria tirada desde a concepção até a idade de treze anos. Passado o período, haveria a possibilidade de submeter às crianças a um processo clínico bizarro denominado fragmentação (é exatamente isso que você está pensando: separar as partes do corpo e matê-lo ainda vivo).

A lei da fragmentação contém inúmeras condições, mas, basicamente, garante os pais se livrarem dos filhos sem o peso da responsabilidade parental, seja deixando a criança indesejada na porta de outra pessoa (caso denominado “cegonha”), o que tornaria a outra o novo responsável, ou, no caso de adolescentes problemáticos, cujos pais teriam a oportunidade de deixar o filho sob tutela de instituições promotoras de venda de órgãos. No segundo caso, o adolescente não é morto no processo. O fragmentado é mantido vivo nos Campos de Colheita quanto tempo necessário. Segundo a “lógica” da lei, se ele ainda estivesse vivo nos outros corpos, logo, as pessoas favoráveis à vida não teriam do que se queixar. Porém, existe um grupo insurgente denominado denomina RAD (Resistência Antidivisional). A ordem de teor revolucionário acolhe fragmentários desertores para mantê-los a salvo até seus dezoito anos.

A narrativa começa com a fuga de Starkey, um jovem problemático que se alista no grupo de resistência. Sua personalidade impulsiva e capacidade natural de liderança o fazem entrar em conflito com Connor, herói fugitivo de um dos campos de colheita considerado morto, e um dos protagonistas do primeiro livro da série. Enquanto Connor quer confrontar o sistema de fragmentação através de estratégias, Starkey defende uma abordagem agressiva pelo terrorismo. 

Outra personagem que considerei bem interessante da série foi Miracolina. Adolescente preparada desde nascença para ser tributada como dízimo por seus pais, devido a motivos religiosos. Todavia, para mim, Cam é a personagem mais intrigante. É a primeira criatura composta por vários pedaços vivos de seres humanos, incluindo o cérebro, formando assim uma espécie de monstro do livro “Frankenstein”. 

“A escola é enorme, então, mesmo que dízimos não sejam comuns na vizinhança, há outros quatro, todos vestidos de branco como ela. Antes, havia seis, mas os dois mais velhos já se foram. Os dízimos restantes são seus amigos verdadeiros. São aqueles a quem ela sente a necessidade de dizer adeus.”

“- Não – diz Risa. – Não te acho medonho. É só que não consigo te entender. É como olhar para Picasso e tentar decidir se a mulher na pintura é feia ou bonita. Você não sabe, mas não consegue parar de olhar.
Cam sorri.
- Você me vê como arte. Gosto disso.”

Entre os problemas éticos abordados em meio a uma narrativa dinâmica, a história possui variados focos, incluindo personagens não tão importantes para o enredo como pais ou um simples guarda do portão, técnica que Shusterman utiliza muito bem em momentos de suspense. Apesar de eu não ter lido o primeiro livro da série, neste encontrei todas as informações necessárias sem que me perdesse no enredo, e ainda me senti motivado ler os outros. Um elemento que achei bastante criativo são os anúncios do programa de fragmentação ao longo do texto. São fragmentos destacados, sem ligação direta com a narrativa, que reforçam a ambientação, dando a impressão de ironia bastante ácida. 

“Quando perdi meu emprego, as contas e as dividas começaram a se acumular e eu não sabia o que fazer. Não achei que houvesse um jeito de sustentar minha família. Cheguei a pensar em ir até uma unidade de colheita no exterior e me dividir no mercado negro para pagar as despesas da minha família, mas o mercado negro me assustava. Bom, pelo menos há uma proposta em votação para legalizar a fragmentação voluntária de adultos – algo que daria à minha família dinheiro o suficiente para sobreviver. Imagina só! Eu poderia entrar no estado dividido com paz de espírito, sabendo que minha família ficaria confortável – e, ao legalizar isso, seria o fim da linha para os fragmentadores do mercado negro. Vote sim na Proposta 58! Ajude as famílias como a minha e dê um fim à pirataria de órgãos!”

Por fim, Desintegrados me fez pensar bastante nas considerações modernas a respeito da vida. Mediante ao laborioso esforço que foi deixarmos de ser meras bestas, refletir no quanto nossa realidade tem de semelhanças com essa ficção é algo que pode ser aterrador para o leitor mais consciente dos fundamentos originais do direito natural à vida. Assim como no romance de Shusterman, é evidente que no nosso mundo existam grupos políticos que não medem esforços para, através de propagandas e influência de entretenimento artístico, relativizar a vida e reduzi-la ao preço de uma peça vendida no supermercado. Apesar de ser uma ficção, é capaz de chamar a atenção para algo tão sério. A chave de entendimento talvez seja justamente o absurdo, também observado em obras como 1984 e Admirável Mundo Novo. Aconselho veementemente a leitura.




Desintegrados - Neal Shusterman

A Fragmentação tornou-se um grande negócio com poderosos interesses políticos e corporativos em jogo. O governo não quer apenas continuar com ela, como também expandi-la.

Cam foi feito inteiramente com as melhores partes de fragmentados e, tecnicamente, ele é um garoto que não existe. Um verdadeiro
Frankstein do futuro, que luta para encontrar sua identidade e se questiona se um ser como ele pode ter alma.

Quando as ações de um sádico caçador de recompensas ameaçam a causa de Connor, Lev e Risa, o destino de um deles é ligado ao de Cam.

A aguardada sequência de Fragmentados desafia a suposição de onde começa e termina a vida e o que realmente significa viver.
sábado, 13 de maio de 2017

O Gato Preto - Edgar Allan Poe | Editora Martin Claret | Texto por Regiane Medeiros


A literatura fantástica, ainda que não seja um gênero muito apreciado pela elite da Academia Literária, tem sido ao longo do tempo um dos gêneros mais populares entre os leitores de todo o mundo. E quando se trata de fantasia aliada a suspense e terror, o maior difusor do nicho é Edgar Allan Poe, autor americano que teve sua vida marcada pelo alcoolismo e pela depressão, ambos elementos da fragilidade humana muito presentes em sua obra.

Não poderia ser diferente no conto O Gato Preto, uma de suas obras mais conhecidas pelos fãs do autor, agora sendo adaptado para HQ pela Editora Martin Claret em sua primeira experiência com esse tipo de publicação – e antes de qualquer coisa, eu preciso dizer que ficou um arraso!


A narrativa é feita por um homem atormentado que deseja “desabafar” antes de sua pressentida morte ocorrer. Esse homem diz ter sido uma criança dócil e amante de animais. Ao longo da vida teve diversos animais de estimação e teve o privilégio de encontrar alguém com o mesmo amor por animais quanto ele e se casar. Dentre esses animais, um deles era o mais próximo do seu dono, um enorme gato preto de nome Plutão que dedicava todos os seus carinhos e ronronares para o seu senhor. 

Com a passagem do tempo, o homem acabou se perdendo em si mesmo e deixou vir à tona os piores aspectos de sua personalidade. Essa é uma das grandes qualidades do trabalho de Poe, ele sempre expõe os sentimentos humanos, sejam esses sentimentos bons ou maus. O homem acabou se tornando um dependente do álcool e em seus episódios diários de embriaguez, descontava toda a sua aversão ao mundo na esposa e em seus animais a ponto de maltratá-los fisicamente com requintes de crueldade e não sentir remorsos depois quando se encontrava sóbrio, com raras exceções e em troca começou a ser evitado por seus “amados” bichos e pela esposa, que recebia a maior parcela da raiva incontida do esposo e sofria sempre calada.


A frieza do homem alcançou tal nível, que um dia em um acesso de raiva ele arrancou um dos olhos do seu estimado Plutão, o que fez o gato se afastar enquanto se recuperava dos maus tratos do dono. Mas, seu dono não se satisfez em deixar o gato cego, a maldade que crescia naquela alma precisava de mais, precisava de sangue... Assim, o homem matou o famigerado gato.

De acordo com algumas linhas de pensamento da psicologia, atos de crueldade são capazes de provocar uma “cicatriz” em quem os comete, levando essas pessoas a delírios, alucinações, estados psicóticos ou paranoicos. No caso do nosso narrador, ele passou por experiências terríveis após o assassinato de seu gato e até o final da história, não sabia mais distinguir o que era realidade e o que era “coisa da sua cabeça”. 


Gatos pretos são extremamente estigmatizados por sua constante presença em histórias de suspense e terror, que são transmitidas através dos tempos em todas as culturas, povoando o imaginário da população e recebendo de muitas pessoas um tratamento hostil, por serem vinculados a uma imagem de má-sorte ou do próprio mal. Nesse conto de Poe, essa imagem fica muito vívida na imaginação do leitor, especialmente por ter sido tão bem retratado pela equipe dos ilustradores da Editora Martin Claret, nessa edição que em nada deixa a desejar quando comparado à visualização proporcionada pelos filmes baseados nessa obra que já assisti.

Além do visual gótico e dark das ilustrações, somos arrebatados pelo peso psicológico da obra. A exploração das nuances da personalidade do narrador é uma verdadeira aula sobre a alma humana e de como somos capazes de ir do nosso melhor para o nosso pior em questão de pouquíssimo tempo e com tão pouco estímulo para que isso ocorra. 

Recomendo para aqueles que tem coração forte e não se impressionam fácil com o sobrenatural, pois podem sucumbir diante da magistral escrita desse autor atemporal.


O Gato Preto - Edgar Allan Poe

Sinopse: O Gato Preto é um conto de Edgar Allan Poe publicado originalmente em 1843 e adaptado para o cinema na década de 1930. Nesta edição da Martin Claret, a obra de Poe foi adaptada para o formato graphic novel, e conta com prefácio do prof. Dr. Alexandre Huady, apêndice de Lilian Cristina Corrêa e tradução de Eliane Fittipaldi e Kátia Maria Orber.

A história é narrada em primeira pessoa pelo personagem sombrio que desde criança possui uma grande afeição por animais, mas o destino mostra-se assustador quando um gato preto aparece em sua vida... Perseguido pelo fantasma do gato, ele adota outro animal, que, com o passar do tempo, além de despertar a mesma aversão em seu dono, revela, em sua pelagem, a marca da forca. Nesses quadrinhos, desfrutamos um pouco do mistério, do fantástico e da alma do ser humano, que se revela aterrorizadora.


PS: Só gostaria de deixar claro, que nós do Blog Papel Papel não somos do time dos supersticiosos que abominam os gatíneos pretos, ao contrário, amamos todos eles independente da cor de suas penugens! Inclusive, morro de saudades da minha Princesa <3


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