quinta-feira, 13 de julho de 2017

A Passagem Secreta - Pedro Braga | Chiado Editora | Texto por Jonatas T. B.


Foi, sem dúvida, de grande sorte o dia em que Lewis Carroll decidiu criar histórias em que Alice viveu suas aventuras, fosse atrás de um Coelho Branco ou atravessando um imenso tabuleiro de xadrez. Ambos os mundos foram capazes de fomentar imensa curiosidade ao longo de gerações, não se limitando ao público infantil, mas também atraindo a atenção de adultos em todo o mundo. Ao final do ano passado, pela segunda vez na vida, tive o prazer de passear através da narrativa repleta de criaturas absurdas e enlouquecidas, e, neste último mês, tive a oportunidade de aprender um pouco mais sobre os detalhes técnicos através do livro A Passagem Secreta – Leitura Política e Filosófica de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, de Pedro Braga. 

Apesar das suas poucas cento e vinte nove páginas, A Passagem Secreta possui informação bem diversa e inúmeras reflexões pessoais interessantíssimas: desde a perspectiva moderna acerca da educação repressiva na era vitoriana a análises dos jogos semântico morfológicos que suscitam os trocadilhos e neologismos freqüentes em Alice. Inicialmente, Braga trata do tempo e do espaço, e como no universo onírico, campo universalmente reconhecido na literatura e mitologia, somos capazes de fazer quase qualquer coisa, daí a possibilidade de, utilizando truques lógicos e sofismas, inverter a ordem de causa e conseqüência, negar proporções da natureza, subverter papéis, tornar o incoerente a base da coerência, enfim, tudo para realizar o absurdo que há num sorriso sem um gato.

Braga também chama a atenção para o fato de a ironia ser um dos elementos fundamentais em Alice, pois é o tom de sarcasmo que, num mundo bagunçado e invertido, trará à luz de seriedade assuntos como o poder absurdo que tem uma rainha, cortando cabeças a bel prazer; ou sobre o tempo humano visto e apreciado de outra maneira, como acontece nos desaniversários; ou ainda a própria noção de existência das coisas que se realizam quando as vemos, da maneira que Braga avalia a cena em que o Rei pergunta à Alice se estava vendo algo, e ele a inveja por não conseguir ver Ninguém. O autor de A Passagem Secreta suspeita que o pensamento moderno do bispo irlandês George Berkeley de alguma influenciou Carroll. Além disso, Braga produz um diálogo analítico entre Alice e outros autores importantes, como Shakespeare e Edgar Allan Poe, através do enigma proposto para Alice pelo Chapeleiro Louco: “o que há de semelhante entre um corvo e uma escrivaninha”.

É evidente que Alice eleve a níveis extremos traquinagens lógicas e linguísticas. A Passagem Secreta trata da influência desses jogos na técnica usada em nada menos que no indecifrável Finnegans Wake, de James Joyce. 

Um ponto bastante positivo foi que, ao escrever A Passagem Secreta, o autor foi bastante cuidadoso recorrendo a diversas traduções e citando partes importantes no original, auxiliando-me no entendimento de trechos que nem ao menos havia percebido em português. Apesar de algumas sugestões sócio-políticas que podem soar anacrônicas, em especial na questão da educação antiga, os dados históricos (por exemplo, o simbolismo do unicórnio e leão, inerentes ao conflito entre Escócia e Inglaterra), ampliarão os horizontes de leitura do leitor. A escrita de Pedro Braga é simples, porém, aviso que será necessário estar preparado para encontrar um livro ao modelo de obra acadêmica, mas que de nenhuma forma diminuirá o prazer de sua leitura.

Por Jonatas T.B.



Lewis Carroll (Charles Lutwidge Dodgson) ficou famoso por suas histórias Alice no País das Maravilhas e Através do País do Espelho. Carroll nasceu em Cheshire, em 27 de janeiro de 1832 e faleceu em 14 de janeiro de 1898, em Guildford. Professor de Matemática em Oxford, era também diácono da Igreja da Inglaterra e fotógrafo amador. Homem quieto e solitário, sofrendo de tartamudez, ficou quase toda sua vida recluso nos muros da Universidade. Nunca se casou e preferia a companhia de crianças, sobretudo meninas, à de adultos.

Em suas duas mais famosas histórias, ele desmistifica o chamado “país das maravilhas”. Seus livros não contêm nenhuma moral, em que todas as personagens, ou quase todas, possuem também defeitos. Algumas de suas personagens são engraçadas, outras flagrantemente desagradáveis, outras ainda rebeldes.

Professor de Matemática e Lógica, Carroll era um gênio inventivo; tudo buscava transformar em jogo, aí compreendida a linguagem, com a qual se divertia com trocadilhos, palíndromos, inversões, nonsense, além de outras figuras de retórica e remissões de natureza cultural e histórica.

Pedro Braga, neste livro, deixa-se contagiar por esse clima lúdico e propõe uma leitura não só política, mas também filosófica, demonstrando possuir o instrumental necessário advindo da Teoria Literária e da literatura comparada. Erudito sem ser pretensioso, ele conduz o leitor a uma caminhada intertextual, muitas vezes por sendas inusitadas, passando por Shakespeare, Edgar Allan Poe, James Joyce e o filósofo George Berkeley. Ele também se diverte ao deslindar certas charadas propostas por Carroll, e alguns enigmas explícitos ou subjacentes nas duas histórias geniais do professor de Oxford. Pedro Braga propõe também ousadas possibilidades de interpretação, com fundamento na lógica e na matemática. Livro sério sem ser sisudo, escrito em um tom de quem faz o (ou participa do) jogo carrolliniano, demonstrando grande rigor em sua abordagem bem fundamentada, ele pretende, destarte, desvendar o que se esconde por trás do espelho do País das Maravilhas.
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