sexta-feira, 14 de julho de 2017

Anatomia de Julho | Por Jonatas T. B.


Faz alguns meses que escrevi um livreto curto para presentear uma pessoa. Chamei-o imediatamente de "Anatomia de Julho". Se tivesse que explicar sobre o que é, diria tratar-se de breves capítulos ou versículos consequentes do choque tênue, confuso e violento entre dois universos, dois pedaços de vida. Durante a escrita, não procurei ser claro, tampouco obscuro: simplesmente escrevi algo com a pretensão de ser um texto belo e terrível.

Nada mais.


P. S.: Agradeço a todos que dão vida ao que escrevo com suas fagulhas inomináveis dançando por trás de seus olhos.

Jonatas T. B.

(Fotografias: Rebeca C.)




I

Não posso considerar nada a respeito de um mês sem ter vivido seus dias, ou mesmo ditar algo sobre seu sabor sem ao menos o ter imaginado passear na minha língua.

II

Jamais saberei se trata-se apenas de mim e não de ti, ou dos nós nos fios de cabelo que acordam unidos em coro de quando adormecemos à noite.

III

As tramas desejam ser ouvidas, enquanto ainda podemos nos ouvir respirar.

IV




     A caneta desliza entre os dedos e se perde na banheira. E afunda. Até encostar a pele entre as coxas submersas. Em verdade, agora o mundo está todo escrito. As folhas de papel se soltam das mãos e molham como plumas. Morde a maçã. As gotas de suco desenham o queixo e caem no seio. Afunda, a cabeça retorna ao primeiro batismo. Não se ouve nenhum choro ou lamento. Volta a face para cima. O mundo é surdo sob a d'água. Não se vê formas, apenas vagos nós de luzes serpeantes.

    O mundo é cego debaixo do espelho.



* * *



O Sol se encerra no ventre da noite. Não restam direções, trilhas ou estradas. Apenas o pulso de meu sangue. Abraço o sorriso escorrendo à boca. Escondo meu espírito nos vincos de uma pirâmide. Está submersa no fundo do Atlântico. Meu derradeiro monumento. Então, agora, inevitavelmente agora, meu corpo descansa. Estou por fim em casa, acolhido pelos ângulos permeados por água negra. O dia não nascerá. Meu espírito segue o fluxo: como barco em silêncio sobre o Nilo. Singro entre flores brancas. Elas me observam sem desabrochar sua seda. Testemunho o nascimento de meus pais, e dos pais de meus pais, em hieróglifos gravados nas ondas. Sigo o labirinto. As teias me elevam ao topo. Não há círculo que não se rompa num ponto. Até hoje não saberia responder para onde estava indo todo este tempo. Todavia, me habita, hoje, a certeza da origem da primeira semente.
2 comentários on "Anatomia de Julho | Por Jonatas T. B. "
  1. Achei maravilhoso! Parabéns! É visível seu crescimento com a escrita.

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    1. Fico muito feliz emesmo saber que tem acompanhado! Na próxima semana tem mais. :)

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