Gostar de ostras - Bernardo Ajzenberg | Editora Rocco

março 12, 2018

Gostar de ostras - Bernardo Ajzenberg
Editora Rocco

"Mas, até onde sei, e hoje concordo com Marcel e Rachelyne, realmente ninguém apaga o passado, não há como, mesmo que se esforce para fazê-lo, mesmo que se trema de corpo inteiro ao lembrar dele, mesmo que os olhos fiquem doloridos de tanta esfregação. Ou serei eu, na verdade, que me recuso a juntar os cacos, como se diz, que me recuso a tirar do fundo de minha mente essa história, preferindo jogar nos outros a culpa por esse vazio, pelo meu vazio?" (p. 77-78)

A solidão do homem é uma cidade, ou uma espécie trincheira. Por faltar-nos um melhor otimismo, a joie de vivre é um habitat idílico, a alguns quilômetros de nossa melhor subsistência. Neste mapa de fronteiras pálidas, há um pouco de sol na baixada santista, e toda uma escuridão entre o trabalho e a geladeira vazia. Não há beleza ou desalinho em uma vida assim: um cigarro quando a reunião perde o sentido; um corpo qualquer em um sábado vazio; um feriado ensimesmado em nossa própria estranheza. Prazer, meu nome é Jorge, sobrenome Melancolia.

A alegria de viver, segundo Marcel e Rachelyne, os vizinhos, é uma espécie de refúgio; entre álbuns e memórias da juventude, dançar conforme o tropeço dos dias é ao mesmo tempo troça e alegria: rir de si mesmo e também Jorge, o melancólico vizinho, pode ser um novo tesouro, principalmente quando as estrofes finais de uma partitura se aproximam, embora resilientes ao improviso de todo chorinho.

Gostar de Ostras tem início nos corredores de um edifício. Entre gargalhadas e ingratidões, um sotaque embolado, meio França meio Alzheimer, despertou Jorge de seu nada matinal. Embora os relatos da última feira e os da trágica Noite dos Cristais permaneçam como um eco cruelmente nítido, Jorge pouco quis saber de seus novos vizinhos: pegou o seu nada, o cigarro e a chave do carro e seguiu para mais um dia de trabalho.

Quando foi que nos tornamos insensíveis? Sob o olhar anônimo da grande São Paulo, Jorge tinha apenas a certeza de sua própria mediocridade (amanhã será diferente - mas, se não for, tudo bem); como se para desordenar este roteiro, Marcel atravessa a campainha do vizinho, oferece um vinho e uma dúzia de incidentes que ainda o fazem sorrir. Talvez pelo tamanho de nossa metrópole (não existe amor em...) e pelo cinza de nossas barricadas, não seja um costume partilharmos trivialidades; ainda assim, Jorge encontrou graça (e uma menor solidão) na companhia deste senhor de velhas histórias e novos convívios (você já conversou com o barbeiro? o armazém é de 1915, você sabia? compramos ostras, Rachelyne o convida para jantar).

Cada experiência é um registro de nossa desaparição. Em São Paulo ou onde não mais nos encontramos (casa de infância ou ferida dos Campos), a vida do homem é seu cárcere, e também um sopro de liberdade. Embora sozinhos, haverá sempre uma foto desbotada, um relacionamento morno, uma roupa amarrotada, um romance de cavalaria, um filho. Quando se perde o cuidado de si, a vida se perde em repetição; para sair da trincheia, é preciso assumir os riscos, encarar estilhaços, expor a pele ao sol de cada relacionamento, não importa se na metrópole ou na lembrança de 1945. Gostar de ostras é um livro sobre nós mesmos - apesar de você; apesar do que escrevemos em nossos poucos dias.



Sinopse: Ao fim de mais um dia de trabalho regado a tédio e inércia, Jorge, alheio a qualquer vizinho, caminha pelos corredores do condomínio onde mora para enfim se atirar no sofá ilhado entre as paredes nuas de seu apartamento e ouvir a habitual trilha sonora: as gargalhadas dos Durcan no andar de cima. Fosse ele rabugento, teria todos os motivos para pegar uma vassoura e bater forte no teto da sala. Mas quem em sã consciência, por mais sensível que seja a ruídos externos, teria coragem de protestar contra aqueles espalhafatosos octogenários franceses? A história desse pacato repórter de 30 e poucos anos, cuja rotina é tomada pela exuberância do casal Marcel e Rachelyne, conduz a narrativa de Gostar de ostras, novo romance do escritor, jornalista e tradutor Bernardo Ajzenberg, que, após o aclamado Minha vida sem banho, volta a conjugar o coletivo e o individual para produzir uma literatura ao mesmo tempo delicada e urgente.

Aquela sensação é uma velha conhecida de Jorge. Sempre que ouve uma das erupções dos Durcan, se dá conta do contraste entre a fúria feliz dos vizinhos e a precariedade de seus dias carregados de melancolia. Chegou a fazer os cálculos: descontadas as sete horas diárias de sono (uma de suas raríssimas conquistas ainda intocadas, salvo nas noites em que os franceses aprontavam das suas), uma semana tem 119 “horas úteis”. Como cerca de 105 se dividem entre o que chama de “momentos neutros” e “momentos melancólicos”, sobram, em média, duas horas diárias para os “momentos de bem-estar”. E, já que tempo para esse tipo de pensamento não costuma faltar, ele constatou também que quase 100% de seus 33 mil genes reproduzem o temperamento de seus pais, cujo projeto de vida mais ambicioso sempre foi a manutenção do dia a dia.

Certa noite, após repetidos encontros entre a portaria e o elevador, Jorge recebe um convite para jantar com os Durcan e descobre que o refúgio do casal é o exato oposto do espaço que ele ocupa imediatamente abaixo. Repleto de quadros, fotos, mesinhas, cinzeiros, cumbucas, estatuetas e lustres, remetendo a uma loja de antiguidades, parece uma caverna estranha e extremamente aconchegante que, construída pelo acúmulo de dezenas de anos e histórias, projeta uma viagem subliminar por lugares e tempos. Como a trepadeira no jardim do prédio – que insiste em crescer desordenadamente, muitas vezes em direção ao nada, mas gera uma flor de um roxo claro e ao mesmo tempo profundo, inegavelmente belo –, uma amizade improvável vai nascer naquele apartamento, revirando memórias e semeando mudanças.

Com delicadeza e completo domínio sobre a narrativa, Bernardo Ajzenberg aborda em Gostar de ostras temas como solidão, alienação e resiliência, enquanto discute a relação entre passado, presente e futuro. Se para Jorge o que já aconteceu parece algo abstrato demais, um amontoado de cenas que ele preferia manter encaixotadas atrás de um biombo, Marcel e Rachelyne não têm dúvidas de que são os tesouros de ontem que se reconstituem dentro de cada pessoa para formar o hoje – ainda que só quem vive intensamente o presente pode ser capaz de arquitetar um passado. Mesmo porque, como bem nos lembra W.B. Yeats na frase da epígrafe, “a vida é uma longa preparação para algo que nunca acontece”.


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