segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Jane Austen - Parte 3 | Por Regiane Medeiros


Continuando nossa jornada pelo mundo literário de Jane Austen (leia também os posta anteriores: parte 1 e parte 2), vamos falar sobre seu último romance completo publicado e algumas histórias inacabadas, mas que foram resgatadas para nosso deleite.

Persuasão foi o último romance que Jane concluiu antes de iniciarem os sintomas do mal que a levaria a óbito em 1817, e foi publicado postumamente em 1818... Confesso que o acho o texto mais triste da autora, dentre os que li e também o mais maduro, com uma escrita mais afiada, mais fluida e também mais passional. 

Como em suas histórias anteriores, Jane nos mostra os aspectos da sociedade britânica, agora pelo ponto de vista de uma família aristocrática que acabou perdendo suas posses. Anne Elliot é de uma família nobre, com títulos impressionantes, mas que passam por dificuldades financeiras devido à falta de bom senso do pai e da irmã mais velha, ambos extremamente vaidosos e egoístas. Anne é diferente, e em grande parte devido aos sofrimentos causados por suas escolhas do passado. Ela é doce e aceita seu destino com certa calma. Já está com 27 anos e não tem nenhuma perspectiva de casamento, além de o sofrimento dos últimos anos terem lhe roubado uma parte do seu brilho e juventude.

Sete anos antes, Anne se apaixonou por Frederick, um jovem pobre que apesar de inteligente e ambicioso, não tinha muitas perspectivas de futuro. Com toda a família contra o matrimônio deles, Anne foi persuadida pela madrinha a romper o noivado, o que partiu o coração de ambos. Frederick partiu para trabalhar em um navio e Anne se viu sozinha, ignorada pelo pai e pela irmã mais velha, e se submetendo a ajudar a irmã caçula que sofre de uma certa hipocondria.

Diante da perda financeira, o pai de Anne tem de alugar a casa deles para obter alguma renda, e para a surpresa de todos, o inquilino é cunhado de Frederick, que reaparece, agora como Capitão da Marinha, tendo prosperado e adquirido riquezas ao longo dos anos. O pai de Anne se indigna, pois acha que os homens do mar não levam uma vida digna nem saudável, mas tem de ceder já que não há outros interessados em alugar sua residência.

O reencontro de Anne e Frederick é tenso e dolorido. Anne mal consegue conter sua agitação, enquanto Frederick assume uma máscara de frieza e indiferença. Ao reencontrar o único amor de sua vida, Anne se resigna a aceitar com gratidão todo gesto de bondade que ele lhe oferece, sem esperar que ele a perdoe por ter lhe tratado tão mal no passado. Mas, apesar das aparências, Frederick não deixa de observar Anne, buscando informações sobre sua vida enquanto ele estava longe e descobre, junto com nós leitores, que ela não é a pessoa que ele imaginou durante todos esses anos. Ao longo da história, nós percebemos como sua bondade é verdadeira, ela tenta ser útil a todos ao seu redor, sem com isso esperar qualquer compensação ou tentativa de bajulação. Sua alma é boa. E o reencontro com Frederick reaviva não só seus sentimentos como também o brilho que lhe foi tirado. 

Para mim, foi muito especial acompanhar todo o sofrimento de Anne pelo que achou ter perdido, o bom senso com que lida com o pai e as irmãs, sua determinação em aceitar que Frederick seja feliz, mesmo que não seja com ela e o reencontro de duas almas tão afins: “Não poderia ter havido um par de corações tão aberto, nem gostos tão similares, sentimentos tão harmoniosos, comportamentos tão amados”.

Ao mesmo tempo, foi importante observar como Jane valorizou a construção do homem que ascende socialmente por mérito próprio, ao invés de herdar o legado dos antepassados, o que caracterizava a mudança real de padrões sociais que acontecia na sociedade britânica naquele momento da história, inclusive em sua própria família, já que dois de seus irmãos foram oficiais na Marinha Real e obtiveram sucesso.

Também li Novelas Inacabadas da autora, publicado pela Nova Fronteira, duas obras que tiveram de ser interrompidas pela fragilidade da saúde e por fim, óbito de Jane. Os Watsons ficou curtinho, mas deu pra ver a marca de Jane nele, sua escrita fluida e leve, mais direta. A protagonista já se mostrava diferente das anteriores, o que costuma ser uma característica de sua obra. Sabe-se que ela abandonou essa história propositalmente (por circunstâncias pessoais), mas ficou um gostinho de "quero mais".

Já em Sanditon, posso dizer que me diverti muito com seus 12 capítulos!!! Eis que Jane surpreende com um texto mais mordaz e cínico, abordando como tema as manias de doenças de algumas pessoas e a contradição que as envolve, através da rotina de uma vilarejo de águas termais, onde as pessoas iam para “se tratar”. Tenho certeza de que seria um sucesso total!!! Enfim, uma pena que não teve tempo de continuar a escrevê-las, mas sua obra fica marcada em nossa história através de personagens e enredos inesquecíveis, e que apesar de retratarem o período em que viveu e a sociedade em que estava inserida, ainda hoje são atuais e falam conosco de forma íntima e singular.


(continua)
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