The catcher in the rye / O apanhador no campo de centeio - J. D. Salinger | Texto por Bruno Fraga

quarta-feira, 19 de abril de 2017

"Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso. Em primeiro lugar, esse negócio me chateia e, além disso, meus pais teriam um troço se eu contasse qualquer coisa íntima sobre eles." 

Um livro que infelizmente é mais lembrado pelas controvérsias do que por sua qualidade literária, The Catcher in the Rye, publicado em Julho de 1951, tornou-se instantaneamente um clássico pela maneira que  J.D Salinger captou a essência da inquietude juvenil.

"Among other things, you'll find that you're not the first person who was ever confused and frightened and even sickened by human behavior. " (Nota do Autor )

Certos acontecimentos na vida de Holden Caulfield serão narrados por ele, mas somos advertidos: não espere um extenso desenvolvimento como visto em livros como David Copperfield, de Charles Dickens. Ao invés de focar em vários episódios sobre sua vida, Holden deseja contar sobre um "negócio doido" que aconteceu nas datas próximas ao último Natal.

O relato do protagonista é exatamente o que se espera quando um adolescente escreve: lotada de observações contraditórias, pensamentos confusos e palavrões, mas a doçura e inocência vista através das atitudes do jovem tornam a obra harmônica. 

Após uma série de reprovações, Holden é expulso da escola poucos dias antes do recesso de Natal. Com receio de encarar seus pais com a verdade, o jovem decide ficar em um hotel por uns dias e gastar seu tempo livre em uma jornada reflexiva sobre sua curta vida.  Acompanharemos então um fumante crônico, mentiroso compulsivo de 17 anos que passará por agressões, bebedeiras, encontros, arrependimentos, planos para fuga e questionamentos sobre paradeiros de patos no inverno. 

Mais interessante do que os acontecimentos por si só, é tudo que ocorre dentro da cabeça do protagonista. Por mais que a origem dos pensamentos do rapaz possa ser fútil e a conclusão simplista, os dramas existenciais a brotarem em sua mente são perspicazes. A maneira rápida com que os raciocínios são apresentado por Holden facilmente trazem alguma identificação ao leitor mais jovem, que poderá se surpreender por não esperar tamanho dinamismo em um livro dos anos 50.

Ao Tentar decifrar Holden Caulfield é natural remeter-se ao acontecimento negativo mais marcante na vida do jovem: a morte de seu irmão mais novo, Allie. As constantes lembranças fornecem combustível para tentar compreender a origem dos problemas do jovem. Apesar do principal motivo de sua fuga ser evitar seus pais, Holden revela que gostaria de estar naqueles dias próximos ao natal com sua irmã caçula. Phoebe, mesmo nova demonstra uma inteligência incrível e já enxerga os exageros nas dramatizações de seu irmão. 

O livro propositalmente permite uma série de interpretações. As questões começam desde o início, momento em que existe uma imprecisão do local onde Holden está narrando sua história. Tudo inserido sem apelar para um terreno vago de ideias que deixaria o leitor com a sensação de que ficou faltando algo. Acharemos centenas de análises do comportamento de Holden internet a fora, o que torna a experiência da leitura, mesmo após finalizada, incrível, oferecendo um exercício de infinita reflexão.

Salinger criou um personagem de fácil reconhecimento para todos aqueles que já se sentiram de alguma maneira deslocados, sem remover um calculado espaço para possibilitar uma visão mais pessoal do leitor. O fato de ser um dos escritores mais reclusos da história só aumenta o mito sobre suas obras, para a sorte de nosso imaginário.

“What really knocks me out is a book that, when you're all done reading it, you wish the author that wrote it was a terrific friend of yours and you could call him up on the phone whenever you felt like it. That doesn't happen much, though.” (Holden Caulfield)



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