terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Poemas de Chuva e Dias Frios


Em 1986 foi lançado pela Columbia Records o álbum Raised on Radio, da banda Journey, que integra o top 5 de bandas favoritas da minha vida, e que você provavelmente até conhece pois não há filme,  seriado (lembra do tema de Glee?) ou The Voice onde a música Don't stop believin' não apareça. Pois bem, como nasci em uma época marcada pelo Rádio e pelos programas de calouros, minha relação com a música sempre foi bem 'associativa', de modo que se me perguntarem alguma música que tenha por exemplo a palavra everyday ou lembrança, é capaz de eu conseguir citar algumas referências.

Nerdices à parte, o Rio amanheceu com chuva e dia cinza, e apesar de hoje não ser segunda, pensei em compartilhar com vocês alguns links de textos aquáticos, nesta associação de palavras de chuva e poesia, de autores também favoritos, mas não em letras de músicas, que já estão em número suficiente nos links aqui do texto.

Se você lembrar de mais algum livro ou autor que também admire os dias sem sol, compartilhe com a gente nos comentários :)


Vista do litoral de minha cidade, Niterói, para a capital do Rio de Janeiro. 
Era dezembro, a câmera analógica, e os pés nas poças de chuva e neblina.






A voz da chuva

E quem és tu? Disse eu para a chuva que caía suavemente,
E ela, é estranho narrar, deu-me uma resposta, esta que aqui traduzo:
Sou o Poema da Terra, disse a voz da chuva,
Eterna, ergo-me imponderável para além da terra e do mar sem fundo,
Subo ao céu, de onde, vagamente formada, sou transformada inteiramente e, contudo, permaneço igual,
Desço para lavar as secas, os átomos, as camadas de poeira do globo,
E tudo aquilo nesses elementos sem mim seria apenas sementes, potenciais, não nascidas;
E para sempre, dia e noite, devolvo a vida à minha própria origem, e a faço pura e a embelezo;
(Pois a canção, emitida de seu lugar de nascimento, depois de realizada, divaga,
E, importando-se ou não, regressa oportunamente com amor.)


(in Folhas de Relva - Martin Claret





I. O Enterro dos Mortos

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
O verão nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos
E ao sol caminhamos pelas aléias do Hofgarten,
Tomamos café, e por uma hora conversamos.
Bin gar keine Russin, stamm' aus Litauen, echt deutsch.
Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,
Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.
E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,
Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizamos.
Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.
Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.


(Trecho de A Terra Desolada, 1922)






“Aquários recortados na uniforme escuridão encerram regiões de imortalidade, mundos de luz solar constante onde não há chuva nem nuvens. Seus habitantes fazem, sem parar, evoluções cuja complexidade, por não ter nenhuma razão, parece ainda mais sublime. Exércitos azuis e prateados, mantendo uma distância perfeita apesar de serem rápidos como flecha, disparam primeiro para um lado, depois para o outro. A disciplina é perfeita, o controle, absoluto; a razão, nenhuma. A mais majestosa das evoluções humanas parece fraca e incerta comparada com a dos peixes.”

O Sol e o Peixe - Prosas Poéticas (Ed. Autêntica)






Ode descontínua e remota para flauta e oboé. De Ariana para Dionísio

IV

Porque te amo
Deverias ao menos te deter
Um instante

Como as pessoas fazem
Quando vêem a petúnia
Ou a chuva de granizo.

Porque te amo
Deveria a teus olhos parecer
Uma outra Ariana

Não essa que te louva

A cada verso
Mas outra

Reverso de sua própria placidez
Escudo e crueldade a cada gesto.

Porque te amo, Dionísio,
é que me faço assim tão simultânea
Madura, adolescente

E por isso talvez
Te aborreças de mim.

(...)


(trecho de Júbilo memória noviciado da paixão, 1974)





José Ernesto, entrou no quarto, foi pôr devagar o castiçal sobre a mesa: – e ficou, encostado à beira da cama, perdido em pensamentos vagos, com os olhos na luz. A solidão da sua existência voltava de novo a aparecer-lhe, muito nítida, com uma forma quase material, dum grande descampado, onde era sempre crepúsculo. E ao mesmo tempo sentia um desejo vago de ficar ali, muito tempo, naquela aldeia, onde todavia a solidão lhe seria mais profunda e real. Quando se deitou, suspirava, sem razão com um vago enternecimento. E antes de adormecer, na escuridão do quarto, via passar, fugir, o brilho duns cabelos de ouro que corriam num jardim.
Às sete horas, o caseiro bateu à porta do quarto.
Ele, gritou de dentro, estremunhado:
– Então?
– Sabia Vossa Excelência que está chovendo, e a valer...


in Um dia de chuva (Cosac Naify)






Lua Depois da Chuva

Olha a chuva:
molha a luva.

Cada gota de água
como um bago de uva.

A chuva lava a rua.
A viúva leva
o guarda-chuva
e a luva.

Olha a chuva:
molha a luva
e o guarda-chuva
da viúva.

Vai a chuva
e chega a lua:
lua de chuva.


in Ou isto ou aquilo (Global Editora)



8 comentários on "Poemas de Chuva e Dias Frios"
  1. Eu amo os dias chuvosos, e amo mais ainda poesia <3
    Você conseguiu juntar tantas coisas lidas num post só que isso aqui ficou só amor!

    Só lindeza Rebeca!
    Um beijo,
    Paloma
    surewehaveablog.com.br

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  2. Amiga, qual a chance da gente ter não apenas uma, mas duas bandas favoritas de todos os tempos em comum???? E apesar de meu amor por dias frios, eu os prefiro sem chuvas rsrs algo sobre meias molhadas hahahaha.
    Belo post, arrasando como sempre <3

    *Don't stop believin'
    Hold on to that feelin'
    Streetlight, people*

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  3. Nossa, toda vez que venho aqui fico impressionada com sua criatividade, Rebeca. Amei a coletânea de poemas com melhor tema e minha coisa favorita: dias chuvosos.

    Beijos, Le.

    refracaocultural.blogspot.com.br

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  4. Oi Rebeca :)
    É uma linda combinação chuva e poesia.
    São lindos e poéticos os dias em que amanhece chovendo, mas só se eu não tiver que sair, pegar ônibus, RS
    Maravilhosa a seleção que você fez, principalmente por estar Hilda Hist, Virgínia Woolf e Cecilia Meireles <3
    Abraços.

    Minhas Impressões

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  5. Ai ai Rebeca ♥
    Apesar de ser a pessoa mais frienta do mundo, e odiar sentir os meus
    pezinhos gelados e molhados, eu amo dias frios e chuvosos!
    Como diz Djavan: "Um dia frio, um bom lugar pra ler um livro..."

    Seu post ficou maravilhoso, tanta coisa linda em um lugar só ♥

    (Ah, amei os detalhes novos do layout, amo coral ♥)

    Beijos,
    Ana | Blog Entre Páginas
    www.entrepaginasblog.blogspot.com.br

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  6. UAU! Tudo novo por aqui :) Amei esse novo layout ;) Tudo tão organizadinho. O seu blog é um sucesso constante.
    Beijos,

    www.blogdahida.com

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  7. Oi Rebeca!
    Adorei os poemas! Aqui está nublado e com cara que vai chover, post ficou perfeito para hoje.

    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

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  8. Oi gurias! Que bom que curtiram este formato novo de postagem! <3
    Espero postar mais algumas coleções de poemas por aqui sim! Só não sei se terei a sorte de me inspirar em mais um dia frio, já que o calor voltou aos trópicos aqui neste fim de janeiro :/

    Beijocas! :)

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