Obras Completas de Álvaro de Campos - Edições Tinta da China

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Tinta da China. Foi este o nome que saltou-me à vista. Em uma visita à livraria, descobri que este nome-nanquim pertence a uma casa editorial independente, que nascida em Portugal no ano de 2005. E não poderia ser diferente: Fernando Pessoa e seus outros-eus pertencem ao catálogo desta editora, que nesta rara surpresa encontro aqui no Rio de Janeiro. Abaixo, a sinopse desta bela edição de Álvaro de Campos, um dos literários heterônimos de Pessoa, e também "Acordar", um dos poemas mais incríveis do autor.


Sinopse: Poesia e prosa reunidas pela primeira vez num só volume. Um contributo de peso para a estabilização do cânone pessoano.

A obra de Álvaro de Campos está no âmago das vanguardas históricas, da poesia lírica moderna e da obra pessoana, tomada em conjunto. A Álvaro de Campos estão atribuídas as grandes odes sensacionistas, alguns dos maiores poemas lírico-dramáticos da literatura portuguesa e as «Notas para a recordação do meu mestre Caeiro», que deviam acompanhar o primeiro volume das obras reunidas projectadas por Pessoa: os Poemas Completos de Alberto Caeiro. Paradoxalmente, Pessoa atribuiu aos heterónimos e semi-heterónimos as suas principais obras, dando a Campos a «Ode Triunfal», a «Tabacaria» e a hagiografia laica de Caeiro. Campos escreveu ainda cartas e avisos incendiários, deu entrevistas e respondeu a inquéritos, e infiltrou-se na vida e na obra de Pessoa. É como se Álvaro de Campos tivesse surgido para cumprir um desígnio que Fernando Pessoa anunciara em 1915: «Portugal precisa dum indisciplinador.»




Acordar

 Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,
 Acordar da Rua do Ouro,
 Acordar do Rocio, às portas dos cafés,
 Acordar
 E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,
 Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.

 Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,
 Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo. 
 À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se 
 Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma, 
 E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.

 Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne,
 Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,
 Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom,
 São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,
 Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes,
 Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,
 Seja

 A mulher que chora baixinho
 Entre o ruído da multidão em vivas...
 O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
 Cheio de individualidade para quem repara...
 O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
 Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã,
 Tudo isto tende para o mesmo centro,
 Busca encontrar-se e fundir-se
 Na minha alma.

 Eu adoro todas as coisas
 E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
 Tenho pela vida um interesse ávido
 Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
 Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
 Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
 Para aumentar com isso a minha personalidade.

 Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
 E a minha ambição era trazer o universo ao colo
 Como uma criança a quem a ama beija.
 Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
 Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
 Do que as que vi ou verei.
 Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
 A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
 Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

 Dá-me lírios, lírios
 E rosas também.
 Dá-me rosas, rosas,
 E lírios também,
 Crisântemos, dálias,
 Violetas, e os girassóis
 Acima de todas as flores...

 Deita-me as mancheias,
 Por cima da alma,
 Dá-me rosas, rosas,
 E lírios também...

 Meu coração chora
 Na sombra dos parques,
 Não tem quem o console
 Verdadeiramente,
 Exceto a própria sombra dos parques
 Entrando-me na alma,
 Através do pranto.
 Dá-me rosas, rosas,
 E llrios também...

 Minha dor é velha
 Como um frasco de essência cheio de pó.
 Minha dor é inútil
 Como uma gaiola numa terra onde não há aves,
 E minha dor é silenciosa e triste
 Como a parte da praia onde o mar não chega.
 Chego às janelas
 Dos palácios arruinados
 E cismo de dentro para fora
 Para me consolar do presente.
 Dá-me rosas, rosas,
 E lírios também...

 Mas por mais rosas e lírios que me dês,
 Eu nunca acharei que a vida é bastante.
 Faltar-me-á sempre qualquer coisa,
 Sobrar-me-á sempre de que desejar,
 Como um palco deserto.

 Por isso, não te importes com o que eu penso,
 E muito embora o que eu te peça
 Te pareça que não quer dizer nada,
 Minha pobre criança tísica,
 Dá-me das tuas rosas e dos teus lírios,
 Dá-me rosas, rosas,
 E lírios também..



In Obras Completas - Álvaro de Campos. Portugal: Tinta da China, 2015.

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