Suzy e as águas-vivas, de Ali Benjamin | Editora Verus

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"Eu não sei nenhuma das coisas certas. Sei sobre morcegos e vagalumes. Sei que xixi e suor são estéreis e que, antes de o universo existir, não havia cores, nem sons, nem luz, nem ar.

Mas essas coisas são inúteis.

Eu deveria saber outras coisas. Por exemplo, como prender uma presilha na frente do cabelo para parecer fofo-mas-não-infantil. Ou como andar em grupo (...) e como ficar perto de meninos com o quadril inclinado para o lado." (p.107)


Ser transparente, porém inteira. Como um corpo em permanente ausência e ainda resiliente, Suzy aos doze anos conheceu a fúria do mar, assim como a violência de nossos gestos. Nos corredores da escola, em uma pequena vizinhança em Massachusetts, Suzy percebeu a indiferença do mundo, assim como o naufrágio de seu cotidiano: não seria fácil atravessar o fim da infância, e tampouco sobreviver aos dias que gostaríamos de esquecer: - Às vezes as coisas simplesmente acontecem, filha, e era difícil acreditar em tudo isso.

Pelas janelas de um grande aquário, em meio a gritaria de um passeio escolar, Suzy percebeu a grandeza deste mundo encapsulado pelo homem: como vírgulas colocadas em uma sentença, a vida-do-mar era como um gemido, e talvez por isso maior que a frivolidade de nossos sentidos:

"Fazia exatamente um mês que a Pior Coisa tinha acontecido, e quase esse mesmo tempo que eu tinha começado a adotar o não-falar. O que não é recusar-se a falar, como todo mundo acha que é. É só decidir não encher o mundo de palavras se não for necessário. (...) 

- Fiquem com as mãos estendidas - dizia o funcionário do aquário para ninguém em particular, o que não fazia diferença, porque ninguém estava ouvindo mesmo. - Esses animais podem sentir até os batimentos cardíacos na sala. Vocês não precisam mexer os dedos. 

(...) Justin enfiou a mão no tanque com tanta rapidez que espirrou um monte de água em cima de Sarah Johnston, a menina nova. (...) 

Fechei os olhos com força. (...) Às vezes a gente quer com tanta força que as coisas mudem que não suporta nem sequer estar na mesma sala com as coisas do jeito que realmente são." (p.12-13)

Ao escolher palavras, Suzy constrói um inventário de silêncios (quase uma fortaleza); no enredo de Ali Benjamin, cada capítulo revela uma antiga (porém viva) lembrança desta Pior Coisa, assim como um inadequado ritual de uma diária volta às aulas. Suzy também compartilha os porquês desta paixão pelas criaturas do mar, especialmente as águas-vivas, cuja invisibilidade e leveza são como um sinônimo para esta criança de poucas vitórias e muitas estrofes de guerra.

Enquanto obra do gênero relato das batalhas que (sobre)vivemos, há na história de Ali Benjamin uma exausta força, já conhecida nos diários de jovens como Eleanor, Leonard e Millie, cujo fardo foi ter conhecido cedo demais este sentimento de impotência, e ter escrito o capítulo de sua adolescência sob o olhar de uma crueldade que sequer imaginaríamos.

Crescer é um exercício. Ou um salto em um mar de águas-vivas. Quanto a Suzy, sua história recomeça quando o fôlego cessa, as luzes se acendem e a realidade deixa de ser assim meio indistinta. Por vezes, é preciso velejar por horizontes próximos, e encontrar abrigo em dois ou três sorrisos, e quem sabe dois ou três novos amigos...

- Como uma pessoa recomeça, especialmente depois de tudo o que tinha acontecido?
- Como qualquer outra criança.


"(...) eu poderia ter contado a meu pai sobre essas coisas, mas não contei. Em vez disso, ouvi os sons à minha volta. (...) Eu gostava desses sons. Eram melhores que palavras bobas.

Palavras bobas não significam nada.
Palavras bobas que ocupam espaço demais.
Palavras bobas que às vezes destroem amizades para sempre.

(...) Foi quando pensei: E se eu resolvesse nunca mais falar à toa? Parecia uma boa ideia: ou dizer algo importante, ou não dizer nada." (p. 49)


"Há tantas coisas que nos dão medo neste mundo. Blooms de águas-vivas. Uma sexta extinção. Um baile escolar do fundamental II. Mas talvez possamos parar de nos sentir tão assustados. Talvez, em vez de nos sentirmos como um grão de poeira, possamos lembrar que todas as criaturas nesta Terra são feitas de pó de estrelas.
 

(...) Podemos ser muito frágeis. Mas também somos os únicos que podem decidir mudar." (p. 204)



Sinopse: Suzy Swanson está quase certa do real motivo da morte de Franny Jackson. Todos dizem que não há como ter certeza, que algumas coisas simplesmente acontecem. Mas Suzy sabe que deve haver uma explicação — uma explicação científica — para que Franny tenha se afogado. Assombrada pela perda de sua ex-melhor amiga — e pelo momento final e terrível entre elas —, Suzy se refugia no mundo silencioso de sua imaginação. Convencida de que a morte de Franny foi causada pela ferroada de uma água-viva, ela cria um plano para provar a verdade, mesmo que isso signifique viajar ao outro lado do mundo... sozinha. Enquanto se prepara, Suzy descobre coisas surpreendentes sobre o universo — e encontra amor e esperança bem mais perto do que ela imaginava. Este romance dolorosamente sensível explora o momento crucial na vida de cada um de nós, quando percebemos pela primeira vez que nem todas as histórias têm final feliz... mas que novas aventuras estão esperando para florescer, às vezes bem à nossa frente.

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5 comentários

  1. Sinceramente, confesso que tenho uma relação de dualidade com obras que abordam esse tema. Quero lê-las, mas sempre sofro por antecedência e durante essas leituras, o que me faz prometer a mim mesma, que será o último livro do gênero por um tempo... O que esqueço e logo já estou com outra obra torturadora de mentes em mãos. É provável que esteja me identificando demais com essas obras, os títulos com desenrolar e finais felizes não me aprazem mais, prefiro aqueles que retratam mais fielmente o nosso dia a dia e Suzy com suas águas vivas vão para minha lista interminável de obras que mostram como somos capazes ou não de lidar com os desafios de viver.
    Ótima resenha, como sempre!
    Beijo!!!!

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    1. Gih, guarde para posteridade esta breve confissão: obras young adult de finais fofinhos amolecem meu cético coração, admito.

      Sem mais,
      R.


      (risos risos risos)

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    2. Hummmmmmm seu coração não é tão negrinho então! Hahuahuuahua nesse ponto, sou mais cínica, admito! Obras cor de rosa, só da Meyer mesmo hahahah. Ces't la vie ;)

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  2. Uau, adorei a resenha. Só pelos excertos do livro já dá para perceber que tem uma linguagem muito sublime e uma temática meio dramática.

    Ansiosa para ler.

    Beijos, Hel

    leiturasegatices.blogspot.com.br

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  3. Esperando o meu ja queridinho Suzy e as águas-vivas chegar... ansiosa!

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