terça-feira, 8 de novembro de 2016

Of Mice and Men / Ratos e Homens - Por Bruno Fraga

"O pôr-do-sol flamejante abandonou o topo das montanhas e o crepúsculo desceu sobre o vale, enquanto uma semi-obscuridade engolia os salgueiros e sicômoros. Uma grande carpa surgiu à superfície do lago, engoliu o ar e afundou de novo misteriosamente na água escura, produzindo círculos concêntricos. No alto, as folhas sussurraram mais uma vez e pequenos flocos de algodão soltaram-se dos salgueiros, pousando na superfície do lago.

— Você não vai buscar a lenha? — perguntou George. — Tem muita lenha bem atrás daquele sicômoro. Foi a enchente que trouxe. Vai buscar logo.

Lennie desapareceu atrás de uma árvore e surgiu com uma braçada de gravetos e folhas secas. Jogou-a no antigo monte de cinzas e voltou várias vezes para pegar mais. Era quase noite. As asas de uma pomba sibilaram sobre a água. George andou até a pilha seca e acendeu-a. A chama crepitou entre os gravetos, incendiando-os. George tirou da mochila três latas de feijão e colocou-as bem junto ao fogo, mas sem que este as tocasse.

— Esse feijão dá pra quatro homens — disse George. Lennie observou-o por cima do fogo.
— Gosto dele com molho de tomate — disse, paciente.
— Não tem molho de tomate nenhum!"



Of Mice and Men

Quantas páginas são necessárias para se contar uma história que nos toque por sua ternura e beleza? E quantas outras são necessárias para alertar-nos que a vida também é rigorosa e áspera? Menos de 100 foram suficientes para John Steinback em "Of Mice and Men", e de forma magistral.  

Em meio a grande depressão americana, somos apresentados a George, Lennie e seu grande sonho, o de terem um rancho só para si, rodeados de coelhos e talvez outros animais dóceis. Para tal façanha, no entanto, não há outro caminho senão através do suor do trabalho.

A história é contada de forma bem direta, característica do autor,  e se inicia com a dupla alcançando um riacho após uma longa viagem. Há sede, fome e até um pouco de tempo para afagar um pobre rato encontrado no caminho.
 
O bruto, porém puro, Lennie sempre encontra uma maneira de testar a paciência do sagaz George, líder da dupla, que consegue um razoável trabalho para eles em uma fazenda. Lá, a esperança da dupla soma-se a do velho Candy e do rabugento, porém caridoso, Crooks, que passam a partilhar do mesmo objetivo de um rancho próprio. Somando-se mais duas economias, talvez o desejado pedaço de terra não estivesse tão distante assim. 

O ritmo da labuta é desgastante, mas os laços criados ali se tornam cada vez mais fortes. Todos parecem estar sempre ao lado de George e Lennie, nem mesmo Curley,  filho do "chefe", que sempre procura uma briga, parece ser capaz de abalar as novas amizades.

Steinbeck, porém, é um escritor realista. Sabemos que a vida não é feita só de esperança. Por vezes temos dificuldades de administrar nossas ações. Situações que pareciam simples saem de nosso controle. Logo, a única coisa que resta é fugir carregando os sonhos até o próximo riacho para uma pausa, ou para sempre. Quem sabe.

Em "Of mice and Men" a próxima página pode significar algo que o leitor não queira ler. A objetividade que nos carrega através de uma bela história pode ser a maneira mais cruel de nos transportar para um ponto de colisão do livro onde existe dor e sangue. Mas, ainda nesses momentos adversos não é difícil entender que a esperança daquele sereno pedaço de terra para chamar de "seu" é imortal, mesmo que não sejamos.


Bruno Fraga


PS: Caso não encontre a edição da Penguin, há uma edição de bolso de "Ratos e Homens" publicada pela Editora LP&M.


Ratos e Homens / Of Mice and Men
John Steinbeck
Tradução de Ana Ban

Ratos e homens, publicado originalmente em 1937, é um dos mais belos textos de John Steinbeck (1902-1968) – um dos maiores romancistas do século XX – e até hoje um dos livros mais lidos do autor.

George e Lennie são dois amigos bem diferentes entre si. George é baixo e franzino, porém astuto, e Lennie é grandalhão, uma verdadeira fortaleza humana, mas com a inteligência de uma criança. Só o que os une é a amizade e a posição de marginalizados pelo sistema, o fato de serem homens sem nada na vida, sequer família, que trabalham fazendo bicos em fazendas da Califórnia durante a recessão econômica americana da década de 30. Ganham pouco mais do que comida e moradia. No caminho, encontram outros sujeitos pobres e explorados, mas também situações que colocam em risco a sua miserável e humilde existência.

Em Ratos e homens, Steinbeck levou à maestria sua capacidade de compor personagens tão cativantes quanto realistas e de, ao contar uma história específica, falar de sentimentos comuns a todos seres humanos, como a solidão e a ânsia por uma vida digna.

Um clássico sobre o doloroso período da Grande Depressão americana. Uma peça de ficção para ser lida e relida.
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