terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A Torre Negra e outras histórias - C. S. Lewis | Editora Planeta de Livros | Por Jonatas Tosta


Sobre viagens no tempo em busca da luz

Ao menos uma vez em nossas vidas, existe o momento em que nos aconchegamos em um canto qualquer, bem na hora de dormir e não escapamos de um olhar furtivo para alguma coisa que nos chama a atenção ao teto. Está escuro. Os olhos se abrem bastante, e depois se fecham. Não vemos nada. Talvez alguma luz insignificante vinda do lado de fora. Mas ainda está escuro. Nossa imaginação sente cócegas ao roçar dos cílios das trevas em nosso rosto. Poderíamos estar no lugar de nossos pais deitados ali, ou no lugar de nossos avós, ou das pessoas que estiveram naquele mesmo lugar há séculos. De súbito, a mente parece atravessar o tempo. Mas o tempo é preciso, comedido, limita nossa imaginação ao manto escuro ao redor, e percebemos o quanto estamos sozinhos. A sensação de infinidade da imaginação existe apenas porque o pensamento está preso em uma silenciosa espiral, como um carrossel de luzes apagadas indo para lugar algum. E adentrar os porões do sono não nos deixa um intervalo perceptível, uma janela de tempo que se possa medir. Então, finalmente você adormece. E o tempo se apaga como farol quebrado. O tempo, por mais que algumas pessoas tendam a dizer que é fenômeno meramente psicológico, uma coisa da nossa cabeça, ele não serve a nós. Nós é que somos servos dele. E mesmo ao despertarmos no dia seguinte, somos capazes de senti-lo apenas como uma companhia intangível e evidente. Tão evidente que não é incomum um sem número de escritores fantasiarem interrompê-lo, dobrá-lo, atravessá-lo como uma estrada em suas histórias, ou simplesmente, como é caso da história “A Torre Negra”, de C. S. Lewis, sentar no escuro e observá-lo ser projetado em uma tela feita de lençol branco.

“- Mesmo se fosse levado lá, o que seria pior do que meramente ver a cópia de alguém ali, isso não seria diferente de outras desgraças. E desgraça não é o inferno, nem de longe. Um homem não pode ser levado ao inferno, ou enviado para lá: só você pode chegar lá por suas próprias forças.”

A viagem no tempo é a premissa de “A Torre Negra”. Um longo conto salvo das chamas por Walter Hoper, amigo de Lewis. Publicado postumamente, narra a história de quatro homens (Orfeu, MacPhee, Ransom e o próprio Lewis) cuja curiosidade do primeiro a respeito da natureza do tempo motiva-o a construir um cronoscópio, junto ao assistente Scadamour. O cronoscópio é um aparelho capaz de captar imagens de tempos remotos. Conforme a teoria que Orfeu descobre em um misterioso livro, a alma, se não fosse submissa às leis da matéria que limita nosso corpo, seria capaz de viajar no tempo. O corpo, continua a tese, é retido no espaço dimensional ao qual ele pertence, impossibilitando o deslocamento para o futuro ou passado.
  
Conforme os cientistas analisam a Torre, se desvelam estranhos povos humanoides de estranha aparência em um mundo aterrador. Todavia, o fato mais estranho foi que, durante a observação da construção da Torre Negra, surge a duplicata exata de Scudamour. O caso aguça ainda mais a curiosidade quando outra duplicata surge para um ritual de mutação. A perfeita cópia de Camilla Bembridge, noiva de Scadamour. O impulso violento de Scadamour é o suficiente para desencadear um pequeno desastre que dá início a uma viagem sem volta para o Outrotempo.

“Eu gostaria muito de acreditar que estava sonhando, mas de algum modo sabia que não estava. Minha real convicção foi de que eu havia morrido. Eu desejei – com um fervor que nenhum outro desejo meu jamais alcançou – que tivesse vivido uma vida melhor.”

Além de “A Torre Negra”, outros quatro contos compõem o livro. “Anjos Ministradores” é uma ficção científica ambientada no espaço sideral e bem humorada. Trata-se da história do envio de acompanhantes nada atraentes para prestar serviços sexuais a astronautas em Marte. Particularmente achei o desfecho bem engraçado. O conto “As formas das coisas desconhecidas” narra a quarta tentativa de viagem à Lua. Não se há menor ideia do que teria interrompido as missões anteriores. É o corajoso tenente John Jenkin que se depara com a causa do fracasso. No espaço cósmico, distante de qualquer amparo, Jenkin descobre que o ser humano não é absolutamente nada diante dos horrores escondidos nos cantos mais recônditos da realidade. “As terras fajutas” trata-se de um homem que subitamente se vê em um lugar muito parecido com o nosso mundo, mas onde as cores, os sons e a textura das coisas ora são estéreis e insossos, ora são ainda mais explícitos e reais, aparentemente rompendo os filtros dos sentidos, possibilitando-o a explorar conscientemente os próprios sonhos.

“Um homem cego tem poucos amigos; um homem cego que recentemente recebeu sua visão, em certo sentido, não tem nenhum. Ele não pertence nem ao mundo dos cegos, nem ao dos que enxergam e ninguém pode compartilhar sua experiência”.

Fiquei em dúvida se o meu favorito foi “Depois de dez anos” ou “O homem que nasceu cego”. O primeiro é sobre o personagem secundário de um épico fundamental na literatura clássica do ocidente. Eu me recuso dizer qual é o nome da história. Leiam “Depois de dez anos” e procure a referência por si. Apesar de incompleto, certamente é um dos melhores contos que já li. Sem dúvida. Procure. Não, não vou dizer qual é. Não se preocupe. Você não irá se arrepender. 

O segundo conto é sobre Robin, um homem que é curado de sua cegueira. Em suas caminhadas matinais, ele descobre que não pode encontrar a luz da forma como imaginou durante toda a vida. Por isso, agora deseja encontrar a luz para além de sua fonte, para além das lâmpadas de filamento ou do astro luminoso no céu. Necessita encontrar a luz em sua forma pura e essencial. Lewis deixa claro (ao menos para mim) que, apesar de o mundo parecer tão óbvio e claro, jamais devemos abandonar a vontade desperta em nosso íntimo, uma vontade mais antiga e profunda que a imaginação.

 

C. S. Lewis - Editora Planeta de Livros

Sinopse: Continuação memorável das fantasias de C. S. Lewis, estas seis histórias revelam mais uma vez o poder e a visão deste importante contador de histórias, um dos nomes centrais da literatura de fantasia universal.

A Torre Negra é um esboço de um quarto volume que daria continuidade à aclamada série de ficção científica de Lewis conhecida como Trilogia cósmica. Uma história cativante que continua as aventuras de personagens como Dr. Elwin Ransom e MacPhee. Na trama, cinco homens se reúnem no escritório de Orfeu, na Universidade de Cambridge, para testemunhar a violação do espaço-tempo por meio do cronoscópio, um telescópio que não olha apenas para um outro mundo, mas para outras dimensões. Ao longo das narrativas, seus personagens travam debates brilhantes sobre a matéria, no tempo e no espaço. Para os fãs de Crônicas de Nárnia e da Trilogia cósmica, este é um livro imprescindível.
Um comentário on "A Torre Negra e outras histórias - C. S. Lewis | Editora Planeta de Livros | Por Jonatas Tosta"
  1. Muito bem escrito. Interessante o plot de "anjos ministradores" por lembrar de algum modo Pantaleão e as Visitadoras, excelente livro de Llosa.

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