Sanshiro, de Natsume Soseki | Estação Liberdade | Por Bruno Fraga

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

É sempre difícil para nós, ocidentais, falarmos sobre a literatura japonesa e sua cultura em geral, pois normalmente não temos o conhecimento adequado para uma analise profunda em relação ao que influenciou aquela obra. Alguns podem ousar e dizer que Sanshiro, de Natsume Soseki, tem forte influência do romantismo, e talvez tenha, mas isso de modo nenhum removeria a originalidade da obra que tem o poder de, pausadamente, adentrar o íntimo do leitor, mesmo que suas 272 páginas sejam lidas em um dia.

O início do livro conta com uma introdução do próprio Natsume Soseki, que já adianta bem a serenidade cotidiana que ditará o ritmo dessa história. Além de chamar seu próprio romance de "trivial", diz sobre os personagens e locais narrados na história: "Esta obra consiste apenas em soltar tais pessoas nessa atmosfera.".

Na Tokyo do período Meiji (1868-1912), vindo do interior, Sanshiro chega após uma longa viagem de trem para ingressar como aluno na Universidade de Tokyo. Logo tem de lidar com o choque de realidades, a confusão da cidade grande se potencializa devido sua imaturidade e, em seu próprio interior, a sensação é de estar tão perdido quanto  em suas caminhadas pelas confusas ruas da já então metrópole japonesa.

As cartas enviadas por sua mãe são um refugo que momentaneamente o levam de volta para sua pacata vida em Kumamoto. Professores ausentes, alunos desinteressados e tantas características que poderiam descrever uma universidade brasileira nos dias de hoje são alguns dos motivos que abatem a excitação por conhecimento que o jovem pode ter tido ao imaginar a vida no campus.

Yojiro Sasaki é o personagem que faz a história se mover, mesmo que para isso tenha que sempre recorrer a empréstimos financeiros. O estudante é o principal companheiro de Sanshiro e tem papel fundamental de apresentar novas pessoas ao seu amigo interiorano. A atitude de Sanshiro diante dessas novas pessoas muitas vezes assemelha-se com a de um leitor, pois o mesmo fica atônito;  não reage, se escondendo no conforto de sua timidez.

A obra de Soseki consegue abordar temas profundos de uma maneira cotidiana, muitas vezes acompanhada da "fumaça filosófica" do professor Hirota diálogos focados em diversos temas sérios, como o papel da academia, a influência ocidental sobre a cultura japonesa e a relação dessa influência com a independência das mulheres .

No meio de tanta calmaria, surge uma paixão. Sanshiro, que chega a ouvir que "não era lá uma pessoa muito corajosa", se incomoda com sua inépcia, mas saberá ele agir? Teria ele alguma chance? Apaixonar-se pela bela Mineko, que é exatamente o oposto da personalidade insegura de nosso herói seria uma questão de tempo. 

O desfecho dessa paixão pode não ser óbvia para todos, mas para aqueles que lembram dos momentos covardes da juventude, ou os que  ainda os vivem sabem muito bem o caminho que Natsume Sosseki guiará o leitor no desfecho dessa história.

Por Bruno Fraga 


“A mulher passou por ele. Sanshiro, ainda parado, observou atentamente a silhueta que se distanciava. Ela chegou à bifurcação. No instante em que ia dobrar, voltou-se ainda mais uma vez. Sanshiro ficou desconcertado por sentir as faces lhe corarem. A mulher sorriu e fez um gesto com a cabeça como que perguntando se era ali mesmo que devia dobrar. Sanshiro fez que sim. A silhueta da mulher seguiu para a direita, escondendo-se atrás da parede branca.

Sanshiro deixou, absorto, a entrada do prédio. Deu uma dúzia de passos ainda imaginando se ela teria lhe perguntado o número do quarto porque o confundira com um estudante da Faculdade de Medicina, quando se deu conta de que, no momento em que a mulher lhe indagara pelo quarto 15, poderia tê-la acompanhado, mostrando-lhe ele mesmo o caminho. Lamentou sua própria atitude.

Agora não lhe vinha a coragem de voltar lá. Julgando não ter mais o que fazer, caminhou mais um pouco e dessa vez parou por completo. Na cabeça de Sanshiro refletiu-se a cor laço que a mulher usava. Tanto a cor quanto o material eram indênticos ao do laço que Nonomiya comprara na loja Kaneyasu, uma ideia que lhe tornou as pernas pesadas. Passando pela biblioteca como que a rastejar, dirigia-se ao portão principal quando Yojiro chamou-o de algum lugar." 

Sobre o autor: Natsume Soseki nasceu em Tóquio em 5 de janeiro de 1867. Teve infância difícil e solitária. Aos 23 anos, inicia seus estudos de literatura inglesa. Sempre vítima de crises nervosas, viaja à Inglaterra em 1900 como bolsista do Ministério da Educação. Não se adapta à cultura ocidental, entra novamente em depressão e regressa ao Japão em 1903. Seu recorrente estado depressivo o afasta da família. Falece em 9 de dezembro de 1916. Soseki permanece até hoje como um dos escritores mais populares e lidos do Japão. Destacou-se em todos os tipos de escrita, assinando importante obra de teoria literária, totalmente inovadora para a época. Se de um lado foi marcado pela influência ocidental, de outro apregoou a valorização da cultura tradicional nipônica.

Obras: Sanshiro; O portal; Eu sou um gato; E depois; Botchan
Editora Estação Liberdade
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