sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Peter Pan - Edição da Martin Claret | Texto por Gih Medeiros


Quando estava na adolescência, mais especificamente no 1° ano do Ensino Médio, fiz amizade com algumas pessoas da minha turma que eram loucas por livros, assim como eu. Uma delas era a Amália, uma das pessoas mais inteligentes que já conheci. Nossas similaridades paravam por aí, no amor à literatura. Amália era muito branca e muito alta para a nossa idade, enquanto eu era morena café com leite e baixinha (parei de crescer aos 14 anos, com 1,53 cm – riso amarelo). Por algum motivo, Amália cismou em me chamar de Sininh e até os últimos dias de aula que tivemos juntas ela me perguntou como andava meu amigo Peter Pan e a Terra do Nunca. E assim nasceu minha relação com Peter, que culmina no dia de hoje, quando venho contar a vocês minhas impressões recentes sobre a leitura do clássico do escritor J.M. Barrie, em uma edição linda e ilustrada lançada pela Editora Martin Claret.

Acho que todo adulto já se perguntou algum dia como seria se pudéssemos ser crianças para sempre, ou já se queixou da vida adulta e desejou retornar aos tempos infantes, quando tudo parece ter sido bem mais fácil e bonito do que provavelmente foi na verdade (é comum “dourarmos a pílula” do passado para nos sentirmos melhor no presente, quando as coisas ficam um pouquinho mais complexas).

Mas por que esse personagem, um menino que não admite crescer e despreza os adultos, produz tanto fascínio em pessoas de todas as idades e há tanto tempo?



O enredo é de conhecimento universal: A família britânica Darling possui 3 filhos, Wendy, João e Miguel, que passam a maior parte do tempo aos cuidados de Nana, a cadela fiel dos Darling. Apaixonados por histórias, sempre se encantam com os contos de fadas que a mãe lhes conta à noite, sem perceber que são observados de perto por Peter Pan, um menino diferente de todos os outros, que sabe voar e fala com as fadas. Peter adora histórias, e sempre que tem um tempinho livre, fica escondido do lado de fora do quarto das crianças Darling, ouvindo atentamente e os observando pela janela.

Um dia, Peter perde sua sombra, que entra no quarto das crianças e acaba sendo escondida pela sra. Darling. Quando Peter volta para buscá-la, depara-se com Wendy, que, movida por um precoce instinto maternal, o ajuda com a famigerada sombra. E, a partir desse momento, Peter decide que vai levar Wendy para a Terra do Nunca, “uma ilha, com extraordinárias pinceladas de cor aqui e ali, e recifes de coral e embarcações de aspecto arrojado navegando em alto-mar, e selvagens e covis isolados, e gnomos que em sua maioria são alfaiates, e cavernas pelas quais corre um rio...” (páginas 15 e 16).

Seduzidos pelas possibilidades infinitas, principalmente de voar, Wendy, João e Miguel seguem Peter até à ilha onde habitam os meninos perdidos, fadas, peles-vermelhas, animais selvagens e piratas sob o comando de James Gancho, e ali vivenciam diversas aventuras (algumas especialmente sangrentas!), entre elas, a de se tornarem uma família, com Wendy assumindo plenamente o papel de mãe deles, o que ela aceita com prazer. Lá, eles acabam conhecendo a história da rixa entre Peter e o Capitão James Gancho, um pirata cruel e assombrado pela figura de um Crocodilo, que o persegue com tanta persistência.

Muitos são os personagens secundários que dão suporte a essa história, e alguns até poderiam ter sido mais explorados, mas de fato o trio de protagonistas é o que nos conquista, pois são os mais intrigantes e bem elaborados, e merecem destaque nessa nossa conversa:


- Wendy - nossa protagonista é uma jovem precoce, em muitos sentidos. Ao conhecer Peter, ela imediatamente se compadece ao vê-lo chorando e o ajuda com a “saga da sombra”, e mesmo escandalizada com a maneira como ele reagiu, acaba o perdoando: “Para Peter, que era um tanto infantil, as aparências não importavam, e assim ele estava pulando de alegria. E infelizmente se esquecera de que devia sua felicidade a Wendy” (pg.41). Ao chegar na Terra do Nunca, Wendy reage de uma maneira incomum a tudo o que está conhecendo, como se na verdade aquele fosse seu lugar desde sempre, e o que mais lhe importa, acima de qualquer coisa, é a sua obrigação com os Meninos Perdidos, cuidando de cada um deles de maneira impecável como uma verdadeira mãe. Apesar de embarcar de cabeça nessa aventura, Wendy nunca se esquece de seus pais, e está sempre tentando fazer com que os irmãos não se esqueçam também, contando a eles e aos outros garotos, noite após noite, a história da jornada deles e sempre garantindo que serão recompensados por confiarem no amor de sua mãe: “A confiança que eles tinham no amor de mãe era de fato tão grande que eles acharam normal se permitirem ser insensíveis por mais algum tempo” (pg. 144). Essa confiança de Wendy, tanto no amor de mãe quanto na bondade intrínseca dos outros, é o que a torna tão especial. Até o fim, a personagem mantém essa fé inabalável e nos faz acreditar um pouquinho também.

- James Gancho: o Capitão James Gancho possui uma reputação aterradora, mas ao olhar um pouco mais de perto, podemos ver que ao menos um pouco de sua atitude é um pouco de fachada. Com um passado digno de príncipe, muito de sua educação ainda permanece em seus trejeitos atuais: “Quanto aos modos, ele ainda conservava algo de grande senhor, de forma que ao destroçar alguém o fazia com um ar de distinção, e tinha a reputação de ser ótimo contador de histórias. Era nas ocasiões em que se mostrava especialmente cortês que ele se revelava mais sinistro, e isso talvez constitua a suprema prova de educação. A elegância da sua dicção, até quando ele xingava, assim como a distinção do seu porte, demonstravam que ele não era da mesma classe da sua tripulação. Homem de coragem indômita, dizia-se que ele só temia ver o seu próprio sangue, que era espesso e de uma cor insólita” (pg. 73). Mas, ao mesmo tempo sua genialidade para o mal, não o satisfazia como gostaria: “Devia haver alegria no seu coração, mas o rosto não a refletia: sempre um enigma obscuro e solitário, ele se isolou dos seus seguidores em corpo e em espírito” (pg. 157) e por vezes um lado seu, mais suave, acaba aflorando em momentos inesperados: “o homem não era mau por completo: gostava de flores (segundo me disseram) e de música doce (ele próprio era harpista, e não tocava mal)” (pg. 165). Mas, o que afinal de contas, inquietava o Capitão? Ele parecia não temer nada, com exceção de um certo Crocodilo, que havia provado seu sabor com a ajuda de Peter e agora queria saboreá-lo por inteiro, nem ninguém, mesmo que muitos considerem que ele tinha medo do Peter, quando na verdade, ele se incomodava com a atitude atrevida daquele menino que não demonstrava receio diante dele. Esse James Gancho que vemos aqui, nada tem a ver com a figura caricata demonstrada nos filmes, e curiosamente, acabamos simpatizando com ele, pois no fundo, ele é apenas alguém assombrado por seu passado, cujo tormento o leva a um terrível e triste fim. Com certeza, você já deve ter conhecido alguém assim.

- Peter Pan: se houve um personagem capaz de despertar emoções contraditórias durante essa leitura, com certeza foi Peter. Inicialmente, suas atitudes infantis me irritaram profundamente: “É constrangedor ter de confessar que essa presunção de Peter era uma das suas características mais fascinantes. Dito com franqueza brutal: nunca houve um menino mais convencido” (pg. 41), e diferente de Wendy, eu não o perdoava logo em seguida porque ele não tinha uma mãe ou porque era muito esquecido mesmo, ou porque por motivos egoístas resolvia praticar alguma boa ação. Esse perdão só chegou com o tempo, ao conhecer um lado de Peter, que talvez nem ele mesmo se desse conta, pois para ele tudo era muito natural, inclusive esquecer. Mas, quando ele se vê na situação de cumprir com responsabilidade seu papel de anti-vilão, ele mostra o seu verdadeiro caráter, de alguém que luta com justiça por justiça: “O que atordoou Peter não foi a dor do golpe, mas a deslealdade do adversário. Ela o deixou totalmente desarmado. Ficou olhando horrorizado, sem ser capaz de mais nada. Toda criança se sente atingida desse modo na primeira vez que sofre uma injustiça. Quando ela chega até alguém, acredita piamente que é seu direito ser tratada com justiça. Depois que você lhe faz uma  injustiça ela voltará a amá-lo, mas nunca mais será a mesma criança. Ninguém jamais supera a primeira injustiça; ninguém, com exceção de Peter. Ele a experimentou com frequência, mas sempre esqueceu. Imagino que essa era a verdadeira diferença entre ele e todos os outros. Assim, quando ele experimentou a injustiça naquele momento, sentiu como se fosse a primeira” (pg. 121).


É impossível não ter empatia com alguém que sofre esse drama existencial com tanta intensidade, ainda que seja um personagem fictício. Ao terminar de ler essa história, você quer pegar Peter no colo e embalá-lo, tal qual a Wendy fazia quando ele tinha pesadelos ou chorava, mesmo que seu lado mais matreiro e insolente nos desperte um pouco de raiva, como fez com James.

A história é narrada em terceira pessoa, por um observador externo, em um estilo próximo ao dos bardos antigos, com muita ironia, humor e atenção, levando-nos com ele durante toda essa aventura: “É só isso que nós somos, observadores. Ninguém nos quer verdadeiramente. Então observemos e digamos coisas cáusticas, esperando que algumas delas magoem” (pg. 202), o que só torna a leitura mais fluida e divertida.

Eu não costumo falar das edições dos livros, mas sobre esse me sinto na obrigação de ressaltar o capricho da Editora Martin Claret, que nos trouxe uma edição de capa dura linda e ilustrada com muita qualidade, o que só tornou a leitura ainda mais agradável, além do cuidado em acrescentar algumas informações importantes no apêndice, e um guia de estudos que pode ser bem útil aos professores que se utilizarem dessa obra em suas aulas, e uma bibliografia a ser consultada caso tenhamos mais curiosidade ainda sobre essa obra atemporal.

Sim, atemporal. No início desse texto, eu questionei o motivo de após tanto tempo (a obra original data de 1911), esse romance ainda nos instigar e fascinar. Creio que cada leitor vai encontrar a sua própria resposta de acordo com suas próprias experiências de vida.

No meu caso, o que eu percebo é que J. M. Barrie, ao tentar escrever uma história de navegação (que estava na moda na época) a partir das aventuras de personagens jovens (o que também estava na moda), nos trouxe algo muito mais profundo a ser discutido, especialmente nos dias atuais. Peter vê em Wendy a chance de ter alguém que faça parte de seu teatro infantil, alguém que vem somar à aventura que ele vive diariamente, e encontra muito mais, algo que ele jamais esperou encontrar novamente: a sensação de pertencimento. Wendy deu a Peter um lar de verdade, e é por isso que ele fica de coração partido quando ela decide voltar para casa; é por isso que ele arrisca tudo, inclusive a própria vida para libertá-la das mãos dos piratas; é por isso que ele cumpre a promessa de leva-la para casa; é por isso que mesmo se esquecendo de sua promessa de passarem uma semana juntos todos os ano, para a faxina de primavera, ele acaba se perdendo no calendário e voltando anos depois. Porque sua mente de criança aventureira pode ter se esquecido do que foi combinado, mas seu coração sempre se lembra da sensação de ter e fazer parte de uma família, e da confiança que tem que ter no amor de uma mãe, ainda que ela seja apenas de faz de conta.


6 comentários on "Peter Pan - Edição da Martin Claret | Texto por Gih Medeiros"
  1. Essa edição parece ser maravilhosa. Amo Peter Pan e já tenho duas edições diferentes da história. Preciso desta também :D

    www.vivendosentimentos.com.br

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    1. Oi Monique! Essa é uma das mais belas que já vi, para os colecionadores é indispensável!!!
      Bjos!

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  2. eu no caso seria sua amiga amália rsrs sou alta, e tb tinha uma amiga baixinha!!
    http://adeliadanielablog.blogspot.com.br/2017/02/eu-li_24.html

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    1. Pra toda Regiane existe uma Amália, graças aos céus!!! Rs
      Bjoooo

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  3. Uau, adorei essa edição, muito linda.

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    1. Maravilhosa Walvi! Não canso de olhar *_*
      Bjooo

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