[Resenha] O leitor do trem das 6h27

domingo, 15 de novembro de 2015

Segunda-feira. Ele não vira o domingo passar. Levantou-se muito tarde, deitou-se muito cedo. Um dia sem. Sem vontade, sem fome, sem sede, sem nem sequer uma lembrança. Rouget e ele haviam ocupado o dia andando em círculos, o peixe em seu aquário, ele em seu conjugado, já à espera dessa segunda-feira que ele detestava. (p.69)


A Sobra


Em cores de lápis e tinta, diários e cartas abrigam sonhos e vida. Em cada página, traços e vestígios do que já vivemos, como se no hábito e na confissão um qualquer momento pudesse mesmo ser infinito. Porque é preciso conservar para não perecer, e nesta voluntária escrita permanecemos de algum modo vivos.

Mas há momentos em que o arquivo não é possível. Talvez por náusea ou melancolia, ou quando o hábito torna-se ressonância e a lembrança mero átimo de vida. Em dias assim, as horas se arrastam, o desejo se esvai e a repetição é tudo o que possuímos.

Guylain Vignolles acorda e conta seus passos, os carros estacionados, a quantidade de postes e o bom dia ao velho e seu cachorro, que diariamente retribuem o cumprimento, como se a manhã só começasse com esta passagem de Guylain, que do número quarenta e oito da alameda de Charmilles caminha até a estação rumo ao trem das 6h27. E esta rotina de transporte e cidade tem há anos sido a primeira página de seu diário.

Dentro do vagão, incontáveis anônimos e algum pouco sorriso. Como se na escrita de seu melhor parágrafo, Guylain senta-se no banco retrátil, retira da pasta algumas páginas e em voz por vezes alta inicia uma nova leitura. Ao som dos trilhos e das histórias, os vinte minutos da viagem são como uma canção para os ouvidos apáticos das quase sete.

Ao chegar ao trabalho, o brilho da leitura esmaece e uma jornada de destruição se inicia: sob a ignorância de seus colegas e chefe, Guylain desperta a Zerstor 500, esta máquina-Coisa cujas mandíbulas trituram matérias e sonhos ao longo de cada dia. O cotidiano na Usina poderia apenas conter as dores de um trabalho qualquer, mas Guylain se importava demais, de modo que a destruição dos materiais era ao mesmo tempo o triturar de seu coração. O que era de certo modo uma realidade.

Ao voltar para casa, Guylain não compartilhava suas páginas; ele que um dia sonhou em tornar-se Editor, hoje apenas deseja voltar ao seu conjugado, onde Rouget de Lisle o saudará com bolhas de ar e incontáveis voltas em seu aquário. E após algum sono o dia seguinte igualmente recomeçaria.


"É nas cicatrizes dos gueules cassés, os militares sobreviventes da Primeira Guerra Mundial com sequelas de combate, sobretudo deformações no rosto, que é possível ler as guerras, Julie, não nas fotos dos generais em seus uniformes engomados e recém passados", disse-me um dia minha tia enquanto nós lustrávamos vigorosamente com flanelas os ladrilhos para dar-lhes o brilho de outrora. (p.95)


E o sobressalto


O amor acontece quando menos esperamos. Até num trajeto das 6h27. Ainda sob o tremor deste encontro, Guylain Vignolles desejará sobreviver a este dia e outros mais, até que a possibilidade de amar torne-se mesmo realidade. E será sob este sonho de uma vida junto a alguém de igual simplicidade, bom gosto e existência que os dias de Guylain serão descritos como algo mais que o aquário da casa e também o do peixe.

O leitor do trem das 6h27 é uma história onde o melhor dos destinos pode ser encontrado até nas mãos dos corações mais abatidos. E o livro torna-se perfeito pela narração extraordinária de tudo isso.

Certamente um dos grandes lançamentos da Intrínseca deste ano! E tudo o mais que eu disser será como um spoiler, então, confira :)


Jean-Paul Didierlaurent, O leitor do trem das 6h27. RJ: Intrínseca, 2015.


3 comentários on "[Resenha] O leitor do trem das 6h27"
  1. Amei a resenha! Que livro diferente, cheio de mistério pra não dar esse spoiler haha 6h27 é um dos primeiros horários de saída dos trens lá na França, eu lembro porque eram as passagens mais baratas hahaha esse livro se passa nos dias atuais ou há vários anos? Fiquei curiosa :) a capa é linda! O pessoal da Intrínseca sempre fala que eles publicam poucos mas bons livros ^^ beijos!
    http://www.trocandodisco.com.br/

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  2. Olá, Fernanda! Que informação preciosa a sua! Não imaginava que o primeiro horário fosse o das 6h27! :) Quanto a história, é bem atual sim, apesar do autor não precisar um ano, mas o personagem nasceu nos anos setenta e tem já trinta e poucos anos. Também há no texto a descrição de alguns outros trajetos e cidades, então, acredito que esse livro terá um significado muito especial pra você! Deve ser incrível esse reconhecimento geográfico durante uma leitura :) Recomendadíssimo então! *__* Beijos, obrigada pela visita! :)

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  3. Uauuuuuu!
    Fiquei muito curiosa pra ler, graças a este post lindíssimo. Além disso, que capa bonita hein?!
    Não sou de comprar pela capa, mas se fosse já teria comprado esse hahha

    Adorei♥
    surewehaveablog.com.br

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