domingo, 7 de agosto de 2016

Se eu pudesse viver minha vida novamente, de Rubem Alves



Renato Russo, Tempo Perdido



Conhecida é a música sobre o Tempo, e também sua literatura, assim como inúmeros os artistas que encontram voz neste lugar-do-passado. Em Se eu pudesse viver minha vida novamente (título, aliás, de um poema de autoria discutível, por ora atribuído a Jorge Luis Borges), Rubem Alves dedica aos leitores crônicas de sonhos e conquistas, memórias e perdas, insatisfações e quedas (principalmente estas). Grandiosas aos olhos de quem as percebe, suas histórias têm início "quando (eu) era menino lá no interior de Minas", onde, assim como nós, brincava na calçada, lia contos de fadas e vampiros, e desejava uma vida de algum modo simples, onde não houvesse nada mais que boa vontade e poesia.

Mas... e quando a vida cresce e alguns sonhos se despedem?

Diz o autor: "'Como é que o senhor planejou a sua vida para que chegasse onde chegou?" Percebi logo. Ele me admirava. Queria ser como eu. Queria que eu lhe contasse o segredo. Que lhe revelasse o caminho. Mas minha resposta pôs a perder as suas expectativas. Foi isso que lhe disse: "Eu estou onde estou porque todos os meus planos deram errado". Isso é absolutamente verdadeiro. As pontes que eu construíra para chegar aonde eu queria ruíam uma após a outra. Eu era então obrigado a procurar caminhos não pensados. (...) Sofri a dor da solidão e da rejeição. Mas foi esse espaço da solidão na minha alma que me fez pensar coisas que de outra forma eu não teria pensado." (p.13)

Se eu pudesse viver minha vida novamente é um livro não apenas biográfico, e tampouco de histórias antigas: em suas páginas encontramos o pulso de uma vida, ainda que em golpes, porém, à luz da literatura, que melancólica e sábia nos ensina: "o que a gente acumula é parte da gente".

Vida que segue então...


Sinopse: Neste livro, Rubem Alves viaja no tempo e no espaço. Lança o olhar sobre os sonhos, sobre as perdas e ganhos, detendo-se nos pequenos detalhes que fazem toda a diferença, recorrendo a memórias ora felizes ora dolorosas, quase sempre com um toque de nostalgia que não é arrependimento, mas sim uma saudade gostosa de algo vivido em plenitude.


"Esta cena está fora do tempo, paralisada. Não tem antecedentes. Não tem consequentes. Ela aparece pura e eterna na memória, como se fosse um belo quadro. Ou um sonho que se repete. E basta que ela seja lembrada para que a alma deseje voltar. Não é parte de um passado. É sempre presente.

(...) A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos; (...) contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo coisas de rara importância. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras de recente data. Toda saudade é uma espécie de velhice." (p. 87)

Coisa curiosa foi a pequena enquete que fiz a respeito desse livro, meses atrás, com os amigos do Instagram. Todos disseram ter interesse em conhecer este Rubem Alves, por terem anteriormente conhecido outras de suas obras, e que assim como eles eu me surpreenderia com a leitura. Coisa curiosa também é perceber que esta não é uma leitura fácil; pensar a vida que poderíamos ter vivido pressupõe alguma pausa ou fim, e não é sempre que o coração compreende a memória e a finitude.

Pouco conheço de biografias e obras póstumas; mas entendo que para o escritor haverá sempre a expectativa de uma página seguinte: "Parece estranho, mas o fato é que memórias são também objetos que acumulamos (...). Quando eu morrer, vão se perder. Mas não quero que se percam. Tenho de dá-las para alguém que tome conta delas. Aí me vem a aflição por escrever. Quando escrevo, estou lutando contra a morte. (...) Quem cuidará delas? (...) Mas, talvez, essa seja uma pergunta ociosa, impossível de ser respondida. Eu apenas tive a ilusão de possuir um rebanho, apenas tive a ilusão de haver acumulado objetos, memórias, ideias. Esse rebanho nunca foi meu. (...) Assim, não há por que me preocupar. Minhas ovelhas não ficarão abandonadas." (p.47-49)

Então, um dia você acorda e sente saudade. Ou percebe que este é um sentimento que não adormece, permanece pelo caminho, de mãos dadas com o dia ou à espreita na próxima esquina. E quando a dor não passa, nos resta escrevê-la: "vejam só que coisa mais pobre: uma herança onde as coisas deixadas são palavras." (p. 66)

Este talvez seja um dos livros mais bonitos que já conheci. E também um dos mais difíceis de serem lidos. Se eu fosse você, também deixaria perder-se por entre as estórias de Rubem Alves, e a cada lembrança e choro deixaria revolucionar-se.


"As estórias são flores que a imaginação faz crescer no lugar da dor. (...) Curar a dor, isso elas não podem fazer. Mas podem transfigurá-la. A imaginação é a artista que transforma o sofrimento em beleza. E a beleza torna a dor suportável. Por isso escrevo estórias: para realizar a alquimia de transformar dor em flor. Minhas estórias são as minhas poções mágicas... Não há contraindicações nem é preciso receitas..." (p. 155)

Se eu pudesse viver a minha vida novamente, teria conhecido Rubem Alves mais cedo...


Um comentário on "Se eu pudesse viver minha vida novamente, de Rubem Alves"
  1. Lindo é quando um leitor consegue transmitir a outros leitores, o sentimento que o arrebatou durante a leitura da qual compartilha suas impressões. Afora isso, só tenho a dizer que fico feliz por ser do grupo que sugeriu essa leitura e que Rubem Alves é puro amor <3

    Bjo, bjo

    www.bloggihmedeiros.blogspot.com.br

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