sábado, 3 de junho de 2017

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury | Biblioteca Azul | Texto por Bruno Fraga


Ao longo da história da humanidade nos encontramos com o infeliz hábito da censura através de queima de livros. Para qualquer amante do saber, o incêndio da biblioteca de Alexandria e as queimas realizadas por nazistas nos anos 30 são alguns exemplos deste tipo de tragédia irreparável e indesculpável. Triste hábito que se repetiu em nossa história e continuará a acontecer no futuro, ao menos é isso que Ray Bradbury nos adverte no clássico Fahrenheit 451

Guy Montag, o protagonista, é um bombeiro, mas o leitor deve esquecer o conceito ultrapassado de que bombeiros apagam o fogo; neste futuro, a tecnologia irá proteger-nos de incêndios. Na história de Bradbury, bombeiro é aquele que incendeia o objeto ilegal mais perigoso para a felicidade e harmonia da sociedade: o livro, e também a casa de seu inconsequente detentor.  


Livros podem fazer pessoas infelizes. Escritores não se preocupam se ofendem pessoas e nem com o que acontecem aos sentimentos delas após a experiência. O excesso de conhecimento torna a igualdade mais difícil. Tudo é detalhadamente explicado pelo Capitão Bombeiro Beatty. Ele mesmo admite que leu alguns. Pelo perigo que os livros trazem, está certo de que queimá-los é uma forma de proteção para as pessoas.  

"Aí está, Montag. A coisa não veio do governo. Não houve nenhum decreto, nenhuma declaração, nenhuma censura como ponto de partida. Não! A tecnologia, a exploração das massas e a pressão das minorias realizaram a façanha, graças a Deus. Hoje, graças a elas, você pode ficar o tempo todo feliz, você pode ler os quadrinhos, as boas e velhas confissões ou os periódicos profissionais.” (Capitão Beatty) 

Com imensas telas e acessórios que proporcionam uma admirável realidade virtual, milhões de pessoas se enclausuram em suas residências. Quando saem, o fazem em estúpida velocidade através dos mais recentes veículos. Montag se surpreende quando, ao deixar o trabalho, encontra algo incomum: uma pedestre. Clarisse McClellan, sua excêntrica vizinha, que tem entre seus hábitos estranhos o de caminhar. O bombeiro decide acompanhar a moça enquanto compartilham uma conversa sobre temas incomuns como sentimentos e natureza. 


No entanto, um desconforto cresce dentro de Montag. Talvez por influência de seu breve caminhar com Clarice, ele começa a sentir-se diferente, a questionar se o ato de queimar livros é a coisa certa a se fazer. A imagem de algumas pessoas que preferem ser queimadas junto aos livros trava sua mente; o vazio que já existia em seu interior vai se tornando insuportável ao olhar sua esposa, Mildred, e ter a sensação de que gastou os últimos anos de sua vida com uma estranha, que prefere as pílulas e os gadgets para manter-se "feliz" à presença do marido. 

“Não precisamos que nos deixem em paz. Precisamos realmente ser incomodados de vez em quando. Quanto tempo faz que você não é realmente incomodada? Por alguma coisa importante, por alguma coisa real?” (Guy Montag) 

Refletir é uma ação que perde cada vez mais popularidade com o tempo, e Guy necessita de um norte, de uma conversa com alguém que questione, alguém que não viva na rotina catatônica do cotidiano. Então, um velho professor, que está cansado de sua própria covardia ao longo dos anos, vê a situação do bombeiro como uma chance para enfim contribuir de alguma forma com futuro dos poucos livros que restaram. 


A trama é ausente de descrições detalhadas sobre os aparatos tecnológicos que a todos envolve e tem um desenvolvimento maior via diálogos dos personagens, com ricas figuras de linguagens e citações, trazendo reflexão a cada parágrafo, e sem perder a objetividade que combina com o ambiente daquele futuro veloz e brilhoso imaginado por Bradbury. 

Todavia, o fogo dos bombeiros não será o único a incendiar a história. A maioria da população, estando no conforto de suas residências, não se importa, mas uma guerra está acontecendo. A possibilidade de destruição é grande. Ainda assim, talvez a destruição seja a única via para o recomeço que Montag precisa. 

A arte pode alertar, como em 1984 e Admirável Mundo Novo, clássicos distópicos que logo surgem quando se pensa no gênero. Bradburry está no mesmo nível. A obra está longe de pregar uma resistência anti-avanço tecnológico, porém, traz uma ponderação ao próprio viciante caminho de submissão às novas tecnologias. Pode-se dizer que estamos seguindo o caminho daquele universo, mas, enquanto nem todas as edições de Fahrenheit 451 forem queimadas, o leitor terá a maravilhosa experiência de matutar sobre nossas overdoses artificiais de cada dia. 


Fotos do post: stills do filme Fahrenheit 451, de François Truffaut (1966); edição em português da Biblioteca Azul; edição em inglês da Simon & Schuster, que, apesar de ter presenciado as chamas de perto, sobreviveu intacta ao término deste post.

2 comentários on "Fahrenheit 451 - Ray Bradbury | Biblioteca Azul | Texto por Bruno Fraga"
  1. Ótimo texto!

    Uma das coisas mais legais no Bradbury é que ele consegue ser extremamente crítico sem ser chato. Além disso, em seus textos, ele sempre dá um jeito de reafirmar seu amor pelos livros.

    E, falando em Bradbury, hoje (05/06) faz exatamente 5 anos que ele morreu. Uma perda imensa, né?

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  2. Obrigado, Lucas. Sim, um escritor que ficou pra história graças a esse clássico, ainda não li nada dele além de Fahrenheit 451, mas com certeza irei, como você mesmo disse, ele apresenta de forma dinâmica ideias que realmente nos fazem para pra pensar, mérito de poucos.

    Abraço

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