Não diga adeus - Uma crônica de Gih Medeiros

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All your eyes have ever seen | Todas as coisas que viveu
All you've ever heard |
Tudo o que conheceu
Is etched upon my memory | Está marcado na memória
Is spoken through my words | e presente em minhas palavras
 
All that I take with me |
Carrego comigo
Is all you've left behind | tudo o que deixou para trás
We're sharing one eternity | Compartilhamos a eternidade
Living in two minds | Habitando em duas mentes
Linked by an endless thread | E unidos por um fio infinito
Impossible to break | que não romperá jamais

Dream Theater, Through my words
(tradução livre)




Não diga adeus


Nos últimos tempos muito se fala em desapego, na autovalorização, no “deixar ir” o que não queremos mais. Mas, ao praticarmos esse tal desapego, devemos tomar cuidado para não deixarmos de lado pessoas ou coisas que realmente importam.

Digo isso porque as relações interpessoais estão cada vez mais superficiais e frágeis. Qualquer coisa é motivo para nunca mais mandar um “oi” no Whatsapp para aquela pessoa com quem você falava diariamente. A tão famosa afirmação “quem muito se ausenta, uma hora deixa de fazer falta” virou quase um mantra para justificar o rompimento de relações e círculos que mal se iniciaram, ou que já perduram nessa corda bamba há muito tempo.

Mas, já parou para pensar que talvez, se a pessoa se ausentou um pouco, foi porque tinha um bom motivo? De repente, essa pessoa está passando por um momento difícil e tudo o que ela precisa (e não encontra) é de uma mão que a auxilie, uma palavra de conforto, ou até mesmo uma oração em seu favor. 

O contrário também acontece. Para algumas pessoas é difícil abrir mão das pessoas, das coisas, das lembranças. Eu já fui uma dessas pessoas. Sempre tive muita dificuldade em abrir mão de qualquer coisa na minha vida. Talvez seja um trauma causado por tantas mudanças de residência quando eu era criança e adolescente, e cada vez que isso acontecia, era muito difícil mesmo, sair daquele lugar, deixar os meus amigos... 

Ao longo do tempo, tive que me habituar a essas perdas e hoje em dia, não sofro tanto ao sair de um lugar e ir morar em outro, pois a tecnologia contribui para a manutenção de quem realmente quer permanecer na minha vida.

Mas nem todas as perdas são fáceis de aceitar. Despedir-se de alguém que nos é querido é uma das maiores dores que se pode imaginar. No dia a dia no trabalho, infelizmente faz parte perder um ou outro paciente, principalmente na área em que atuo, pois as pessoas com déficit neurológico, na maioria das vezes, desenvolvem muitas complicações associadas. Quando acontece, é sempre um choque, mesmo que a gente saiba que a pessoa está mal, internada, sofrendo, e que talvez o melhor para ela seja justamente deixar o corpo terreno. Não estou fazendo apologia a nenhuma religião, cada um que acredite no que quiser, mas eu gosto de pensar que existe algum lugar onde podemos reencontrar todos aqueles que se foram antes de nós.

Desculpem se o papo está muito deprê. Essa semana perdi um paciente. Uma criança de quem eu tratava desde os 3 meses de vida. O estado dele era grave, não se sintam mal por ele não ter aguentado ficar por aqui. Mas, a sua partida levou embora consigo um pedaço do meu coração já tão quebrantado. Só quem já perdeu alguém que se ama, sabe como é difícil lidar com essas partidas e eu não parei de pensar no sofrimento dessa família que girava em torno da vida dessa criança.

Então, eu me pergunto, como eles vão seguir em frente agora? O mundo, infelizmente, não para de girar, para que possamos recolher nossos caquinhos e ir adiante. Mas, de algum jeito a gente levanta a cabeça e enfrenta, um dia de cada vez. E a cada dia, a dor vai sendo acompanhada por um sentimento mais bonito, o da saudade. E que bom se você sente saudade de alguém ou de alguma época da sua vida. Significa que você viveu, se envolveu, se entregou. 

Torça para que você também faça parte das lembranças de alguém que está distante, torça para que a sua melhor amiga desde os 11 anos de idade, lhe diga ao menos uma vez no ano que toda vez que toca Bon Jovi, ela se recorda da época em que vocês ficavam sentadas na calçada, escutando a declaração de amor em Bed of Roses ou os acordes de Miracle, imaginando um futuro onde se pudesse ter um amor como os descritos nas canções. Torça para que sua amiga da faculdade em um reencontro, haja com você como se a tivesse visto ontem, mesmo que tenham se passado alguns anos desde que vocês se falaram pela última vez. Torça para que alguém se recorde de você quando precisar de um conselho sobre uma decisão que pode mudar completamente a sua vida.

E não reaja mal se depois disso houver um hiato de contato entre vocês. Não significa que a amizade morreu ou ficou em segundo plano. Pode ser apenas uma reação normal das pessoas em um mundo onde mal temos tempo para olhar para dentro de nós mesmos e reavaliarmos nossas próprias decisões. Não é por mal. Ao menos, não sempre.

E se um dia perder alguém especial para a inexorável finitude de nossa vida terrena, não esqueça  daqueles que um dia foram importantes para você nem do tempo que tiveram juntos. Guarde as boas lembranças e torça para um reencontro. Fique com o que foi bom.

É o que eu faço, já que não acredito em adeus. Por isso, àqueles que passaram por minha vida e se foram, de um jeito ou de outro, desejo apenas um até breve, pois acredito que a gente se encontra por aí. De um jeito ou de outro.


“Só que você foi embora cedo demais
Eu continuo aqui
Meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você
Dias assim, dias de chuva, dia de sol
E o que sinto não sei dizer
Vai com os anjos, vai em paz
Era assim todo dia de tarde
A descoberta da amizade, até a próxima vez
É tão estranho
Os bons morrem antes
E lembro de você e de tanta gente que se foi cedo demais
E cedo demais, eu aprendi a ter tudo que sempre quis
Só não aprendi a perder”

Os bons morrem jovens, O descobrimento do Brasil. Legião Urbana, 1993.

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