navegar pelo menu
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
dezembro 05, 2017


(Trecho de Sobre a Escrita: A Arte em Memórias, de Stephen King)


Que este blog teve início a partir de conversas, talvez muitos não saibam, mas é bem provável que a sua relação com a escrita literária também tenha acontecido assim, como um projeto que foi tomando forma justamente por ter essa característica coletiva, de colaboração e prosa entre amigos. É claro que a escrita intimista, presente em diários, anotações e poesias, acaba sendo nossa primeira experiência literária, e é bem possível que esta expressão permaneça por muito tempo em nossas vidas. Ainda assim, tornar público aquilo que sentimos, sob esta edição do texto, não é tarefa fácil, e nem sempre conseguimos levar nossos projetos adiante quando estamos sozinhos, daí a necessária companhia de quatro ou inúmeras mãos e, principalmente, incontáveis leitores.

Seguindo nesta reflexão, até porque o ato criativo envolve muita aceitação e (auto)crítica, e é por isso não é de hoje que muitos escritores, ao entenderem a escrita enquanto profissão e - por que não - destino, publicam obras dedicadas a uma reflexão de seu próprio ofício. Stephen King é um deles, e  foi a partir de sua autobiografia literária que pensamos em realizar este projeto de escrita colaborativa aqui no Blog.

Neste primeiro momento, estamos conversando com amigos leitores e blogueiros a respeito de nossas motivações para escrever. Segue um trechinho de uma prosa da Di Azevedo (que, aliás, compartilhou um belo poema em nossa página do Instagram recentemente) com a Regiane Medeiros:

Di - Eu não sei se isso acontece com todos os escritores. Eu não me considero uma escritora, mas gosto de escrever. De uns meses pra cá, venho investindo em um livro (antes, eu só escrevia poemas) e o que percebi é que colocamos muito de nós mesmos nas histórias. Às vezes me pergunto se a personagem é uma pessoa diferente ou se sou apenas eu, com um nome diferente, escrevendo o que já vivi...

Regiane - É também uma sensação libertadora, não? Poder compartilhar um pouco do que somos através da arte, seja qual for; é um privilégio que poucos conseguem fazer sem se perderem no processo. Quanto mais você se doa, mais você descobre quem é no mundo e qual o seu papel nele.



Talvez seja uma pergunta direta demais (ou quem sabe até meio abstrata, já que nem sempre nossa vontade criativa caminha ao lado de objetivos definidos - mas deveria!, e a gente sabe, se esforça pra entender isso...), mas fica o desafio:


Qual a sua motivação para escrever?  


Convidamos você, leitor, estudante, autor, blogueiro (todo mundo!) para participar desta reflexão e, quem sabe, com esta troca-desabafo entre aficcionados por literatura e letras, a gente já começa 2018 com uma melhor visão acerca de nossos projetos, não é mesmo? <3 Gostaria de participar desta conversa também? Envie uma direct em nosso Instagram (@blogpapelpapel) ou mande um alô pelo email contatopapelpapel@gmail.com :) Vamos continuar com esta série de postagens de depoimentos aqui no Blog e no Insta, e também vamos em breve lançar uma sugestão de leitura coletiva que tem tudo a ver com este tema da descoberta do autor e do criativo que existe em cada um nós :)


(Trecho de Sobre a Escrita: A Arte em Memórias, de Stephen King)


Pra encerrar o post de hoje, vamos ao texto que a jornalista e blogueira Fernanda Rosa enviou pra gente :) Confira:


Letras pra que te quero

A alfabetização foi um processo complicado para mim. Era difícil assimilar que algumas palavras eram faladas de um jeito, mas escritas de outro.

Não entrava na minha cabecinha de 10 anos que, por exemplo, enquanto falávamos "palmera" deveríamos, na verdade, escrever "palmeiiiiiiiiira". E essa comilança de letras e confusão entre "g" e "j", "ss" e "ç" deixava minha mãe de cabelo em pé e preocupada com a possível chegada de uma reprovação em Língua Portuguesa, no final do ano letivo (o que nunca aconteceu, graças ao bom Deus rs).

E, mesmo derrapando nas curvas sinuosas da boa escrita, eu teimava em escrever, especialmente sobre mim mesma. Nem sei dizer quantos diários tive ao longo da infância e da adolescência.

Até que o tempo passou, eu cresci e descobri a leitura nas páginas de José de Alencar (até hoje meu escritor favorito <3). Foi aí que comecei a me interessar pelas engrenagens e gatilhos da Língua Portuguesa. Logo depois, com a escolha do jornalismo para vida, esse interesse cresceu, floresceu e virou amor.

Atualmente, no meu trabalho, escrevo sobre saúde pública, um tema fascinante e que sempre dá pano para manga. Já nas horas de lazer, escrevo sobre cultura, novelas latinas, o idioma espanhol, os países que falam espanhol... Enfim! Escrevo porque sinto que é no correr das linhas que o mundo se ilumina. Afinal, juntando uma letrinha à outra, costurando palavras e sentido, construímos saberes.

Se, antes eu escrevia para me enxergar e me encontrar, hoje escrevo para enxergar (e também mostrar) os mundos que encontro por aí. Sim, "mundos", exatamente no plural porque quem lê e escreve gosta mesmo é de enxergar a pluralidade da vida.


Fernanda Rosa 
dezembro 04, 2017


(Texto originalmente publicado no site Vigor Frágil  |  Foto: Rebeca C.)


SEM OLHAR PARA TRÁS
Thamy Silva


Ela colocou os sentimentos em papel de jornal, bem enrolados para não machucar o gari. Olhou em volta para ver se não tinha esquecido nada: chaves, mala, amor-próprio e algum dinheiro. Ela iria embora sem olhar para trás, não queria mais encaixar-se onde não havia espaço para ser ela mesmo. Respirou fundo e abriu a porta para liberdade, e sentiu no rosto o vento da esperança e a claridade do esclarecimento. Deu passos hesitantes, mas pediu aos céus que desse forças para seguir em frente.

O amor nunca foi um mar calmo sem ondas, mas também não deveria ser aquela constante tempestade cansativa e ininterrupta. Era cansativo tentar manter o clima mais ameno, agradá-lo e tentar ficar sem brigas. Ela chegou ao ponto de não aguentar mais, foi como se aquele relacionamento tivesse se transformado em uma prisão de “não podes” e “não faz isso ou aquilo”. E quando sentiu que o peso estava insustentável, percebeu que como Alice na casa do Coelho, não cabia mais ali. Frustrada com os próprios sentimentos, catou o que lhe pertencia e decidiu tentar uma vida nova na vida.

Depois de sair, sentiu o sol forte demais e o vento sufocante e pensou se não teria tomado a decisão errada, onde estava era confortável, o mesmo café e amor frio de sempre. E ela quis por vezes voltar atrás, mas gostava da liberdade, dos romances esquecidos, o facebook aberto com meme de um rapaz seminu, com as gifs de bichinhos… Gostava de decidir se veria algo na Netflix ou o youtuber favorito. Gostava até das decisões erradas, pois degustava as consequências com a empolgação de ter uma nova lição na vida.

Com o tempo, parou de pensar no que deixou para trás. A felicidade de ser ela mesma se tornou o motivo de viver, a esperança de algo melhor se tornou o ar em suas asas e assim voou para longe. Para o novo. Para o desconhecido. Para o intenso. Carregando sempre consigo as lições que aprendeu, mas deixando as mágoas para trás. Não precisaria mais delas, era uma nova mulher e sabia que o mundo não havia mudado, apenas seu jeito de vê-lo.



Thamy Silvia é nossa amiga no Instagram e enviou esta crônica para participar de nosso projeto Sobre a Escrita, que tem como objetivo reunir escritos e depoimentos de jovens autores, leitores e blogueiros de nossa rede literária. Gostaria de participar? Envie uma direct em nosso Instagram ou pelo email contatopapelpapel@gmail.com :)

setembro 22, 2017


Então você voltou...

A escolha de ir embora foi sua. Eu lamentei, mas depois superei e cheguei a aceitar que era melhor assim, afinal nós dois queríamos coisas muito diferentes naquele momento.

Eu resisti bravamente à vontade de continuar sabendo o que você estava fazendo e agi da mesma maneira que nas ocasiões anteriores a essa: me desvinculei completamente de você, desabilitando seus contatos da minha agenda e excluindo as redes sociais que compartilhávamos. Apaguei as mensagens trocadas, deletei a maior parte das fotos (deixei uma ou duas, somente para me lembrar do que foi bom e de como eu fiquei no final, para não cair na onda de outro igual a você). Parei de pensar em você quando me deitava. Deixei de esperar que você sentisse saudade e me procurasse.

O tempo passou e você se tornou uma mera lembrança, mais um aprendizado na minha vida. E achei que estava tudo certo, que eu estava no caminho que devia seguir mesmo, sempre em frente.

Agora você volta e bagunça minha cabeça, me fazendo duvidar de minhas decisões, dos meus sentimentos. Porque tava tudo bem com você em silêncio, eu achava que estava tudo bem...  

Você podia facilitar e ter agido como a maioria, lançando um “oi sumida”, como se nada tivesse acontecido e eu que tivesse evitando você. Isso automaticamente me faria ter raiva de você e expulsar você definitivamente da minha vida, como se não houvesse existido... Mas, não. Como sempre, você sabe a coisa certa a dizer, me confundindo, me fazendo pensar em coisas que eu já não vislumbrava há muito tempo.

E aí, some de novo, me deixando na dúvida se foi uma breve recaída ou se foi uma isca jogada para que eu ficasse curiosa e decidisse dar o passo seguinte e te procurar. Aí vem aquela leve aflição de que talvez eu esteja interpretando tudo errado mais uma vez e de novo, eu não sou eu mesma por causa de você. 

Gostaria de concluir que você já não me afeta, mas não posso mentir para mim mesma. Ainda não entendo porque ouço seu canto de sereio, se já sei como vai terminar essa história. Eu, com mais algumas rachaduras no peito, algumas lágrimas desperdiçadas e a sensação de impotência diante de algo que não posso mudar. Mas, é praticamente impossível ignorar o apelo que vem daqui de dentro... Aquele que diz que pode ser diferente dessa vez.

Porque a gente insiste em acreditar? Porque precisamos ceder a essa louca esperança de que pode sim, finalmente ser diferente? No fundo, sabemos a resposta. Nosso coração não suportaria a certeza de que tudo sempre pode dar errado, ainda que as probabilidades sejam imensas e as estatísticas da vida sempre corroborem para isso.

Ainda não sei o que fazer a seu respeito. Não sei o que fazer com o que sinto. Não sei o que fazer comigo. Só quero me sentir eu mesma de novo, com ou sem a sua presença na minha vida.

“Fiz de mim descanso pra você
Te decorei, te precisei
Tanto que esqueci de me querer
Testemunhei o fim do que era agora

Agora eu quero ir
Pra me reconhecer de volta
Pra me reaprender e me apreender de novo
Quero não desmanchar com teu sorriso bobo
Quero me refazer longe de você”
 
Agora eu quero ir, Anavitória – Forasteiro, 2016.
agosto 18, 2017


Lembro-me como se fosse hoje. Saí do metrô, atrasado. O coração batendo acelerado. Subi pela escada rolante e virei em direção à praça. De longe, avistei o lindo e altivo prédio do Teatro Municipal. A construção mais bonita do Centro da cidade. Andei neste rumo, passando os olhos por toda a praça. Eu estava de casaco, mas já começava a suar. Um sol tímido despontava no céu.

Há poucos metros do Teatro, no último banco da praça, ela estava sentada. Vestia uma calça roxa e uma camisa quadriculada de mangas compridas. Foi o combinado. Meu casaco era cinza. Ainda o tenho em casa. É um bom casaco. Acho que eu disse: "Cheguei!". Ela se virou. O meu primeiro pensamento foi: "Ela ainda é mais linda ao vivo". Era o nosso primeiro encontro.

Aqueles olhos verdes. Aquele modo de prestar atenção, com um sorriso de canto, bem discreto, e um sincero e meigo "uhuuum" estendido. Como eu amei aquela moça!

E tudo foi surreal. Como sempre foi. Como seria depois dela também.

É sempre um milagre conquistar a moça dos seus sonhos. A ficha demora a cair. Mas perder a moça dos seus sonhos torna tudo ainda mais estranho. Há coisas que parecem não ter acontecido, embora saibamos que elas foram tão reais quanto é o sol sobre nossas cabeças.

Para nos lembrar que essas histórias surreais foram também reais é que existe a memória. Em cada lugar, uma memória; e um mar de histórias. As praças, o restaurante japonês, cada pizzaria, cada shopping, cada estabelecimento, cada rua. Por onde passo, uma antiga ou recente memória de algum período belo de doces ilusões.

Nenhuma memória, no entanto, me impacta mais que aqueles olhos verdes. Nenhuma ilusão foi maior. E quanto maior a ilusão, maior também a desilusão.

Aqueles olhos verdes se foram e nos dois anos que se passaram depois disso, nada mais foi tão intenso. Talvez isso seja bom. Faz pouco mais de um mês que terminei um namoro recente. Uma decisão difícil, distante da minha vontade real, porém necessária e acertada. Pensei que ficaria depressivo. Mas o que vi foram semanas tranquilas e estáveis, em uma constância que eu não experimentava há pelo menos três anos, tanto em períodos sem compromisso, como em períodos nos quais estive comprometido. A motivação parece ter retornado com tudo. Tenho produzido bastante, me sentido leve emocionalmente e feliz. É estranho.

Apesar do fim (até o momento) de um longo período de desânimo frequente, com picos intensos e uma montanha russa emocional, as memórias nunca se vão. A maioria não causa mais qualquer sintoma.

São apenas memórias. Memórias estéreis. Outras, no entanto, geram profundas reflexões e, por vezes, um coração acelerado. Se é tristeza, saudade, perplexidade ou contemplação, eu não sei (Deus o sabe). O que nos impacta, seja bom ou ruim, tende a sempre mexer conosco de alguma maneira. Pelo menos, é assim comigo.

Hoje passei em frente ao Teatro Municipal, fazendo o mesmo percurso daquele memorável dia, uma quinta-feira. Não houve como não lembrar daquele banco, daquele primeiro olhar, daquele primeiro encontro.

Um dia perfeito dentro de uma história rude. E o que eu escolho fazer dessa lembrança hoje? Uma história perfeita... Dentro de um dia rude. Levemente rude.

julho 17, 2017


“Deixa eu mimar você, adorar você
Agora, só agora
Porque um dia eu sei
Vou ter que deixá-lo ir”

Dia desses eu me lembrei de ti. Ou melhor, me permiti pensar em você. Sabe quando a gente houve uma música ou sente um cheiro gostoso e de repente é atingido por um milhão de memórias, de sensações? Foi mais ou menos assim que você surgiu em meus pensamentos e eu deixei ficar.

Deixei minha mente me enganar um pouco e senti novamente um certo arrepio, uma certa malemolência... Lembrei das suas palavras, da maneira como você dizia certas coisas e como isso me fazia sentir. E o quanto era bom me sentir tão... Viva. Desperta. Porque foi assim que você me fez sentir, como se eu estivesse adormecida durante um longo tempo e de repente, estava completamente alerta, com meu sistema sensorial totalmente desorientado e exacerbado de informações. 

Mas, tão intenso quanto chegou, você decidiu ir e desapareceu da minha vida, me deixando com muitas perguntas e uma confusão da qual não soube imediatamente como sair. Um tremendo bug no meu sistema nervoso.

Não demorei muito a seguir em frente. Estou acostumada a simplesmente erguer a cabeça e ir, mesmo que não saiba para onde. Também estou acostumada a esconder de mim mesma, sentimentos que podem me causar algum tipo de sofrimento ou prejuízo e ajo como se eles não existissem. Tenho doutorado em fingir demência quando não consigo lidar com algo. Dá certo na maioria das vezes, até que o tempo passa e eu consigo controlar essas ondas de nostalgia quando elas ameaçam me atingir.

Também sei quando chega a hora de me libertar de algumas coisas, de me esvaziar de alguns sentimentos, de filtrar determinados pensamentos.

Eu sei que já passou da hora de dizer adeus, mas dá uma dorzinha aqui dentro sabe? Talvez meu coração goste da sensação de se manter apegado a você, ainda que saiba que está na hora de deixar você ir. E eu vou deixar você ir. Em breve. Por enquanto, vou esconder você dentro de mim, talvez pela última vez, quem sabe? 

Quem sabe...

“O que mais posso fazer
Só te olhar dormir
Agora, só agora
Correndo pelo campo
Antes de deixá-lo ir”

Só Agora, Pitty – Chiaroscuro, 2009.
junho 29, 2017


A voz desafinada não a impediu de subir no palco. Vestida de cores, estampas e confiança, pegou a zabumba a sanfona e o triângulo e iniciou um coro de cantigas juninas. Eram poucas as pessoas no palco, e também pouca a plateia; importava o fim de uma cinza tarde, a beleza de suas árvores iluminadas, o arraiá de decorações, fantasias e bandeirinhas, o encontro de casais apaixonados, e também o dos entediados, afinal é inverno, e o carioca não aprecia casacos, muito menos em meio a abraços, e também nem sempre junto a canções antigas.

Bem antes das seis então, ali bem próximo ao palco, casais e crianças se atrapalhavam com o atropelo da sanfona, e discutiam sobre o tempo e suas vestes bonitas, ai que frio, vamos lá filha, é dois pra lá e muitos pra cá, segura na mão do papai, olha o cachorro, bonito né, nossa, tá alta essa música, vai lá comprar pipoca amor, ok, vou ali comprar cerveja, quer dizer, pipoca.

Canções de amor e São João de algum modo resistem à cidade, assim como aos food trucks e à nossa antipatia. Embora sem coreto ou cortejo, a saudade é a confissão de tudo o que persiste e, nesta empatia, pouco importa o arranhão do disco ou de nossos desalinhos; em meio a barracas de churrasco temaki pão de queijo e risoto (onde foi parar a canjica?), é possível restaurar a companhia e o sorriso, e se divertir ao som de boas lembranças, assim como ao sabor de um quitute ou um beijo, e também ao ritmo de um forró atravessado, e das muitas lâmpadas nos galhos da amendoeira. Pensar em tudo isso faz com que a Nova Cidade seja apenas mais um cenário onde não precisamos a todo tempo fugir - ainda que a canjica e o Gonzaga não estejam presentes; ainda que o trânsito e algumas despedidas sejam fotografias que não gostaríamos de ter vivido.

Gostaria de dançar, claro, com muito prazer, cuidado filha, quanto custa a cerveja moço, esqueci de passar no mercado, vinte e três é São João ou Sant'Antônio, hoje é o seu aniversário, amor, eu sei, e também o do romancista.
 

Da série: Um dia no Rio de Janeiro
Por Rebeca Cavalcanti
maio 28, 2017


“E eu andava que andava tão sozinha
Virei de canto
Olhei e segui na minha intenção
Quem vai me julgar”

Na maior parte do tempo, eu me sinto feita de titânio, inabalável, firme, sólida, inquebrantável. Mas, há dias como hoje, em que eu me sinto extremamente desgastada, tensa, frágil.

É madrugada e o fim do mundo parece mais próximo nesses momentos. E aí, eu penso em você. Penso na falta que você me faz... Mas, também penso que quando eu mais preciso, você não está aqui... Eu tento não me sentir frustrada com isso, afinal você não tem obrigação de carregar um peso que cabe a mim... Mas, não consigo parar de pensar no fato de que quando você precisa, eu sempre estou lá por você.

Só que essa é uma característica minha e já fui alertada antes de que esse traço de personalidade me torna mais humana, mas também me torna fraca.

Claro que você não vê dessa forma. Eu sei que pra você isso me torna maravilhosa. Saber que eu sempre estarei lá por você te dá segurança, não é verdade?

Mas e quanto a mim? Até quando vou esperar você se encontrar na mesma vibe que a minha? Até quando vou ter que passar noites insones me sentindo a última opção para ser sua companhia, quando está tudo bem contigo? Me quebra um pouco demais saber que você só me quer por perto quando a sua vida vai mal.

É claro que eu quero estar lá se isso acontecer – embora torça para que algo assim nunca mais se repita na sua vida. Mas também quero fazer parte das suas alegrias, das suas conquistas. E como dói não estar perto agora, quando você está bem, leve, sorridente... Talvez, se eu estivesse aí, não me sentiria tão perdida agora, tão sozinha. Porque a pessoa que eu achava que me entendia melhor do que qualquer um, na verdade parece não saber nada sobre mim.


A reciprocidade entre nós só se dá quando é você que precisa de empatia, solidariedade, amor e conforto. Quando sou eu que preciso dessas coisas, você se torna igual a todos os outros: alguém que já tem compromissos inadiáveis com outras pessoas ou qualquer outra coisa que possa servir de desculpa para não pôr em prática o que já me prometeu tantas e tantas vezes... Que eu poderia contar com você em qualquer momento de nossas vidas.

Provavelmente você nem percebe o quanto me fere com essa atitude. E eu, consciente de que não posso impor nada a você, continuo aqui sentada de madrugada, pensando no quanto sinto sua falta. O que também não é solução nenhuma.

A solução, invariavelmente é a mesma. Eu vou me levantar amanhã, respirar fundo, erguer a cabeça e me reconstruir... Sozinha.

Só para não causar confusão, preciso te dizer mais uma coisa: eu não lhe quero nenhum mal, ao contrário. Só estou deixando você ver o quanto sinto sua falta.

Quando você vai enxergar isso, é uma resposta que só o tempo trará. Só não sei até quando vou esperar.

“Então vou me enganar
Que agora não dá tempo
Que agora tanto faz
Que é hora de esquecer
E de me conformar
O que um dia já foi meu
Agora não é mais”
Mexeu Comigo, Tiê – Single, 2017

maio 07, 2017


Eu conheço uma menina feita de sonhos. Sempre doce, sempre alegre, sempre com uma palavra otimista a quem precisa. Sábia, consegue esconder as próprias dores e incertezas, levando a quem a conhece a pensar que ela não tem grandes preocupações, que tudo em sua vida se resolve facilmente. Pobres aqueles que nada sabem sobre sua essência, que não enxergam além do que está na superfície de sua atitude leve e graciosa.

A menina feita de sonhos tinha um segredo. Seu coração, era o coração de uma princesa. Mas, como mostrar às pessoas a verdade de sua nobreza, sem ser tachada de iludida? Como trazer à vista dos desinformados que não era uma donzela indefesa, mas uma donzela guerreira? Como tirar o véu dos olhos dos desiludidos e mostrar-lhes que não há nada de errado em almejar o melhor que a vida pode oferecer?

Observadora, percebeu que não adiantava dizer nada à maioria das pessoas, que a melhor estratégia seria demonstrar. Afinal, palavras podem apenas serem palavras. Podem não ter valor dependendo de quem as profere. Assim, decidida, a menina feita de sonhos começou a distribuir gentilezas e risos por onde passava, sempre deixando sua marca na vida e no coração daqueles que se desarmavam diante do seu olhar rasgado e do sorriso largo.

Mas, a menina feita de sonhos com o tempo percebeu que algo estava faltando. Apesar de todos a seu redor estarem bem, principalmente em sua companhia, ela sabia que uma peça do seu quebra-cabeça estava fora de alcance. Num estalo, percebeu que precisava encontrar alguém como ela, feito de sonhos e com coração nobre. O coração de um príncipe. 

“Por onde começar tal jornada? ”, ela se perguntava frequentemente, até se dar conta de que deveria conspirar com o Universo e favorecer essa busca. Então, começou a conhecer possíveis candidatos a completar seu quebra-cabeça.

Mas a menina feita de sonhos logo descobriu que essa não era uma tarefa fácil, que as pessoas não sabem quem são ou que são capazes de viver plenamente um personagem, como se a vida fosse um eterno teatro de ilusões. De coração partido, ela decidiu se retrair novamente e ficar próxima do que conhece e do que lhe faz bem.

As verdadeiras amizades contribuíram para seu processo de regeneração e aos poucos, ela voltou a sorrir novamente e percebeu que não era o fim do mundo abrir seu coração e vê-lo ser rejeitado por quem não tem a mesma essência nobre. E que ter seu coração partido significava que ao menos ela havia tentado, e isso era bom.

Com a alma refeita e mais forte do que nunca, a menina feita de sonhos voltou a brilhar com toda a sua intensidade. Seu brilho começou a funcionar como um ímã, atraindo somente pessoas de bem, pessoas nobres, que queriam sempre estar perto daquela menina alegre de bochechas rosadas e falas surpreendentes. E antes que a menina percebesse com sua mente, encontrou com o coração, alguém que era tão nobre como ela. Alguém com o coração de um príncipe. 

Mas, durante muito tempo, essa descoberta ficou nublada pelo véu da amizade. Uma amizade tão genuína, que se apoiaram um no ombro do outro nos momentos mais difíceis, quando seus sentimentos por outras pessoas foram manchados pela desilusão e a incerteza da recuperação não os deixava enxergar a cura que estava ali, ao lado.

Só não contavam com a conspiração do Universo, que está sempre a favor daqueles que merecem. E um belo dia, num estalo, a menina percebeu com a mente, o que já sabia com o coração. Havia encontrado a peça que faltava. Mas, a princípio, seu mundo desmoronou, pois como poderia amar seu melhor amigo? Como poderia colocar em risco algo que só lhe trazia benefícios? Como poderia conviver com tal sentimento e ver seu par ideal com qualquer outra pessoa que não fosse ela mesma? 

O que a menina feita de sonhos não sabia naquele instante de epifania dolorosa, era que seu sentimento era nobremente retribuído. E nobre foi o reconhecimento de ambos, quando se despiram de qualquer véu ilusório e enxergaram que não há nada melhor do que amar quem já te ama! E que não há presente melhor da vida do que se apaixonar por um amigo verdadeiro e receber tanto amor de volta.

Hoje, eles não são mais duas pessoas com coração nobre perdidas por aí tentando se encontrar. São um nobre casal da realeza que inspiram e melhoram a vida de todos que tem o privilégio de conviver com pessoas tão elevadas moral e espiritualmente.

“Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina, paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar
Que o nosso amor pra sempre viva, minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será
Palavras, apenas
Palavras pequenas
Palavras”

Palavras ao Vento, Cássia Eller 
Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo, 1999

Dedicado a Sheila França, a Menina feita de sonhos :)

abril 21, 2017




Tô querendo te encontrar

Esperar por você, não tem sido fácil e nem de longe tranquilo. Mas tenho que acreditar que tudo o que tenho vivido só está servindo para me transformar numa pessoa melhor, que vai combinar mais com a pessoa que você está se tornando, enquanto a vida não nos coloca na mesma trilha.

Enquanto aguardo, penso no que eu quero de você, de nós dois... Sem utopias ou fantasias. Essa fase de sonhos açucarados eu já deixei para trás há um bom tempo. O que eu quero hoje é palpável, é realizável, é construível. E quero muito que seja com você.

Eu desejo abraço durante a chuva, enquanto a água que cai espanta todo mundo, fazendo-os correr, mas nós seguimos devagar, se aquecendo no calor um do outro.

Quero ouvir seu riso espontâneo de manhã, ainda que seja da minha cara amassada e mal-humorada, bem diferente de ti, que já está cheio de energia e alegria para começar o dia.

Quero sentir seus dedos entre meus cabelos, num carinho despretensioso enquanto assiste a uma partida de tênis entre dois jogadores com nomes impronunciáveis, só porque gosta do esporte, e eu tento não cair no sono durante mais uma leitura, com a cabeça recostada no teu colo, só porque é bom estar com você, independente do que fazemos.

Quero me sentir segura ao falar sobre assuntos que não ouso discutir com mais ninguém, porque sei que você não vai me deixar sentir uma boba, pois só quer que eu me sinta à vontade para ser eu mesma, sempre.

Desejo que a gente alcance logo aquele patamar no convívio, onde nos entendemos instintivamente, sem necessidades de demasiadas explicações ou explanações sobre o que sentimos.

Anseio pelos momentos em que com uma simples mensagem, você consiga me deixar alerta e com um sorriso idiota na cara.

Mas, acima de todos esses desejos para nós, eu espero que você não demore a chegar e que a gente se encontre em breve, numa esquina qualquer da vida, num relance de um olhar... Onde for para vigorar.

“Fico pensando onde está você
E se você está pensando em me encontrar
Como sou, onde estou e onde quero chegar
Como sou, como é que vai ser
E onde vou te levar
Mas se você me ver pode acenar pra mim
Já pensou que louco te encontrar assim?
Eu vou na boa, eu vou na fé
Eu sei que vou te encontrar
E quando eu te encontrar nós vamos comemorar

Me encontra ou deixa eu te encontrar
Me encontra ou deixa eu te encontrar”

Me encontra, Capital Inicial 
Acústico NY ao vivo, 2015


abril 09, 2017



A solidão do quase


“Pode estar no ponto
Ponto de interrogação
Pode ser encontro ou separação
Pode correr risco
Arriscado sempre é
Só não pode o medo te paralisar”


Rolando de um lado para o outro na cama, ela tenta encontrar uma posição confortável, mas o colchão insiste em não acomodar seu corpo cansado.

Olha o visor do celular: são duas horas da manhã e ela não consegue conciliar o sono mais uma noite. Pergunta-se amargamente quanto tempo mais vai suportar as noites insones antes de ter um colapso. Ri do próprio excesso de sua dramaticidade e se levanta para beber água, já que o sono não vem mesmo. Enquanto sorve o líquido vagarosamente, olha pela janela e observa a escuridão do lado de fora sendo pontilhada por uma ou outra luz acesa nas ruas.

O silêncio da madrugada contrasta fortemente com a barulheira dentro de si. Sente o martelar constante na cabeça e no peito, de sentimentos aos quais não quer se render, mas dos quais não pode fugir.

Ela nunca soube lidar bem com a rejeição. Com os términos sim. Se as coisas não estão caminhando bem e o relacionamento acaba, por mais difícil e doloroso que seja, ela se levanta, bloqueia o cara de todas as redes sociais, apaga todos os e-mails e mensagens e deleta o número do telefone de sua agenda do celular, seguindo em frente, um dia de cada vez. Mas, não sabe o que fazer os “quases” da vida.

Não consegue assimilar porque alguém despende tanta energia e tempo tentando conquista-la, para desaparecer como fumaça no ar quando ela finalmente se rende à possibilidade. Será que se trata de algum tipo de prazer sórdido que os homens sentem em lutar para conquistar e depois, quando conseguem, o sabor dessa “vitória” não tem tanta graça e o jeito é partir para a próxima conquista? Entre um suspiro e outro, tenta em vão entender.

Nunca foi ensinada sobre os jogos amorosos. Para ela, o que faz sentido é ser honesta consigo mesma e com o outro, e talvez por isso, por nunca ter sido iniciada nesses jogos de conquista, não saiba distinguir quando estão sendo sinceros ou não... A menos que sejam muito óbvios. E obviedade parece não fazer parte da catequese dos relacionamentos. Sente-se perdida quando é sincera e isso provoca afastamentos, quando ela pensa que uma conversa franca e aberta deveria aproximar, sempre. 

Ter empatia, sempre foi um de seus pontos fortes, mas aparentemente isso só se aplica quando se trata de dor, perda e sofrimento, situações que ela reconhece de sua própria jornada. A superficialidade do querer, o banalismo das conquistas, a indecisão das vontades, são sentimentos estranhos, que ela não experimentou e por isso não os compreende.

E assim, ela volta para a cama e continua a se virar de um lado para o outro, até o dia amanhecer, enquanto segue sem respostas para as questões que a atormentam todas as noites, desde que você se foi sem deixar pegadas ou sinais, apenas um rastro de confusão na mente e aquele gostinho melancólico na alma, de algo que “quase aconteceu”. 

“Tá faltando peça no quebra-cabeça
Eu não tenho pressa
O meu tempo é todo teu
É tudo que eu posso oferecer (é pouco)
Mas é tudo que eu posso oferecer (é quase nada)
Mas é tudo que eu posso oferecer (é pouco)
Mas é tudo que eu tenho
Tudo que eu posso oferecer”

Novos Horizontes, 2007.


fevereiro 03, 2017


SOS não entendido


Sei que já tentei de tudo 
Sei que já não quero mais lembrar 
Só não sei como dizer pra mim 
Toda vez eu me pergunto 
Quem será que pode completar 
Esses versos mudos que escrevi


Ela olha sua própria imagem no espelho e encara os olhos manchados de rímel e lápis preto. Sabe que é bela e mesmo com a face chorosa ainda é bonita, mas não consegue espantar a sensação de que se tornou invisível. 

No peito, algo dolorido ameaça sufocá-la e irrompe em soluços, liberando em lágrimas mal contidas a sensação amarga da rejeição a que se submeteu. No fundo culpa a si mesma, por ter se deixado levar por um sopro de fantasia, por ter almejado um pouco além do que tem. 

Reconhece a sensação, porque já passou por isso antes. Acontece repetidamente, toda vez que abre uma brecha em si mesma e deixa algo/alguém lhe seduzir, lhe fazer sonhar, lhe fazer querer. Mas aí, logo em seguida descobre que adentrou em uma estrada de mão única. Que sonhou e quis sozinha. 

Ela sabe o que vem a seguir. Vai mergulhar profundamente em si mesma e dar um tempo de todos, buscando reconstruir aquele pedaço dentro dela que ruiu. Depois de muito tempo é que alguns poucos vão notar sua ausência e perguntar o que há e ela vai desconversar, porque já não quer mais falar sobre isso. O momento em que ela precisava expor seus sentimentos passou. 

Ela é do tipo que pede socorro em silêncio e só quem de fato presta atenção em seus olhos consegue ver o turbilhão que há dentro dela, porque seu olhar não esconde nada, ela não sabe fingir. Também não sabe como dizer às pessoas para não fazerem promessas que não podem cumprir. Está farta de dizerem a ela “pode contar comigo, sempre!”, sem saber o que isso realmente significa. Sim, porque “sempre” é muita coisa, mas ela lembra a si mesma o que John Green a ensinou pela voz de Hazel Grace, que “as pessoas não tem noção das promessas que fazem, no momento em que as fazem” (A Culpa é das Estrelas, Intrínseca, 2012) e tenta sinceramente desculpar os outros que não merecem o fardo de suas expectativas.

Tenta consolar a si mesma, dizendo que ao menos dessa vez o estrago não foi tão grande, que já passou por coisas muito maiores e mais difíceis, mesmo sabendo que é inútil. Cada dor é uma dor diferente. Vai ser sentida, a gente querendo ou não. Mas, também sabe que ao final de tudo, vai ficar mais forte, com uma cicatriz a mais no peito e uma dose a mais de cinismo com a vida. 

Vai ouvir reclamações dos amigos pelo seu ceticismo com a vida amorosa e o ser humano em geral, e vai rir deles por isso. E vai seguir em frente, até passar por tudo isso de novo ou finalmente aprender a não ser a primeira a sonhar, a querer. Esperar encontrar reciprocidade é algo que ela já não suporta mais e prefere um dia ser surpreendida do que continuar à sua procura.

Aos poucos vou reconstruindo 
Aos poucos tudo volta pro lugar 
Escutando a alma dizer que sim 
Nesse mundo desatino 
Espero a nova rima me encontrar 
Nesses versos mudos que escrevi

Versos Mudos
Marjorie Estiano, 2005

outubro 14, 2016



Eles se conhecem desde sempre. Não conseguem se lembrar a primeira vez em que se viram, nem como a amizade começou, mas sabem que sempre estiveram presentes na vida um do outro, mesmo quando houve distanciamentos necessários ou impostos.

Durante a infância dividiram todos os doces ganhos em datas especiais como Páscoa, Dia das Crianças, Natal e Aniversários, as brincadeiras com os primos durante os encontros dominicais das famílias e as estrelas que apreciavam juntos, deitados na grama que separava suas casas, nomeando de forma engraçada cada constelação que imaginavam ter descoberto.

Na adolescência, continuavam a olhar as estrelas, mas dessa vez os nomes escolhidos para as constelações passaram de engraçados a ridículos. Mas já não andavam juntos na escola por tanto tempo, apesar de defenderem um ao outro sempre que alguém fazia algum comentário torpe sobre um deles. E à noite sempre incluíam seus nomes nas orações, sempre estavam na lista de convidados nos aniversários e no Natal de suas famílias.

Quando a escola acabou e tiveram que encarar a vida adulta, ele se mudou e foi pra faculdade de Tecnologia da Informação, enquanto ela teve que abrir mão do sonho de se tornar cineasta, para trabalhar de balconista em uma videolocadora, para poder passar mais tempo com a mãe doente. A convivência entre eles se resumiu ao contato virtual através de redes sociais. Entre um like e outro, ela observava a quantidade de amigos com quem ele saía para curtir a noite e a variedade de mulheres que se empenhavam em lhe agradar, enquanto ele voltava para casa toda noite, independente das conquistas feitas, e contemplava do telhado do prédio onde morava, as estrelas lá em cima, pensando em como estaria sua companheira de descobertas astronômicas.

O tempo fez o favor de reaproximá-los. A perda do pai dele o trouxe de volta, e sem verbalização, ela disse a ele o quanto sentia por sua dor e por sua ausência, através de um abraço que reforçou o laço entre eles, esse laço que parecia ter se rompido, mas que estava na verdade adormecido.

Voltaram a andar juntos, agora já mais maduros, mas ainda implicando um com o outro sobre coisas do passado, que para eles era tão precioso. Compartilharam além dos conflitos sobre carreira, estudos e futuro, os amores e desamores que passaram em seus caminhos, ela ouvindo as queixas dele sobre cada ex-conquista e ele cedendo o ombro para o choro dela a cada vez que seu coração foi partido. E em todas as vezes, saíam juntos para dançar e beber até amanhecer, finalizando cada noitada com um cachorro quente com Coca-Cola, sentados na calçada de uma loja qualquer ou em um ponto de ônibus, abrigando-se nos braços um do outro para se protegerem do frio da madrugada.

A cada nova saída, sentiam um certo estranhamento tomar conta de si, mas disfarçando bem para não assustar um ao outro. Esse estranhamento tinha origem na percepção de detalhes que antes passavam despercebidos e que agora saltavam aos olhos. Como o jeito delicado com que ela mexia em uma mecha de cabelo quando achava que ninguém estava olhando. Ou a maneira como os músculos do pescoço dele se moviam, hipnotizando-a, já que sempre achou esternocleidomastóideo seu músculo favorito do corpo masculino. Ou ainda, o perfume da pele dela abaixo do ponto onde borrifou a fragrância, que sempre o deixava em estado de alerta, desejando encostar o nariz ali para sentir mais. E ainda a maneira como os braços dele sempre pareciam perfeitos ao abraçá-la, todas as partes possíveis do corpo dele em contato com as suas, num abraço de corpo inteiro. Todas essas coisas os atormentavam, mas quando achavam que seria o momento de se abrir, a sensação de que estavam errados os impedia e agiam o mais normalmente que podiam.


Em mais uma noite de dança em um dos bares favoritos de ambos, a leve embriaguez os deixou mais corajosos. Durante uma dança, ela ousou se aproximar mais e imediatamente sentiu a reação do corpo dele que estremeceu ao seu toque. Ele respirando profundamente, simplesmente deu um passo para trás encostando o corpo na parede atrás de si, puxando-a junto a seu corpo, o que ela aceitou naturalmente envolvendo seus braços ao seu pescoço. Olharam-se por um momento interminável, ambos ouvindo a música de fundo e deixando que ela falasse por eles.

“Os nossos lábios todas as palavras nada dizem
Aos nossos olhos tudo o que já vimos foi vertigem
É tudo tão real
Mas nada normal”


Tomado de uma coragem antes nunca sentida, ele ousa indagar:
- Por que a gente nunca ficou junto?
- Porque aí, acabaríamos sem nos falar... E eu não quero parar de falar com você – ela responde como se fosse óbvio, enquanto acaricia os cabelos dele com seus dedos, apreciando a maciez dos fios úmidos.
Ele, ainda ouvindo a música, pensa em como tal letra, que ele ouviu milhões de vezes, parece fazer tanto sentido nesse momento:

“Te lembro e já me sinto ao seu lado, no seu mundo
Me identifico com você de um jeito tão profundo
E é tudo tão real
Mas nada normal”

Nada Normal – Victor e Leo, Borboletas, 2008.

- É só você não sumir da minha vida como fez com todos os caras com quem se envolveu – ele observa a surpresa naquele olhar profundo que parece enxergar a sua alma, passar para algo mais intenso, um misto de medo com curiosidade e algo que ele tem enxergado nos próprios olhos quando se observa no espelho ao pensar nela: amor. 

O beijo acontece antes dos lábios se encontrarem, através do olhar desarmado e cheio de esperança de ambos, pois é o tipo de beijo que muda tudo ou mantém tudo inalterado, para sempre. Mas, finalmente estão dispostos a descobrir.


Gih Medeiros