Achados e Perdidos, de Brooke Davis | Editora Record

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Fere o sol teu continente de sardas e nervos. Embora agosto, o atravessar do mundo torna-se invasivo, como um domingo de insônia ou verão, onde a lembrança desfaz a madrugada, o brilho dos olhos, e o dia seguinte.

Do alto da cidade o interior reflete a paisagem: Lembra aquele dia em que... Sim, gostávamos de... Quando foi que partimos?

É preciso um largo gesto para encenar a saudade; teus olhos, porém, encerram toda memória, e em dois ou três passos transbordam o que ficou de nós mesmos: Quando foi que...

Tropeço.

"Ela logo percebeu que tudo estava morrendo ao seu redor. Insetos, laranjas, árvores de Natal, casas, caixas de correio, trenzinhos de parque de diversão, canetinhas hidrográficas, velas, gente velha, gente jovem e gente que não era nem uma coisa nem outra. Só depois que registrasse 27 criaturas diferentes em seu Livro das Coisas Mortas - Aranha, o Pássaro, Vovó, a gata Gertrude do vizinho, entre outros - ela descobriria que seu pai também viraria uma Coisa Morta. E que ela anotaria isso ao lado do número 28, em letras tão grandes que tomariam conta de duas páginas: MEU PAI. Que, durante algum tempo, seria difícil saber o que fazer além de ficar olhando aquelas letras até já não conseguir mais lembrar o que significam. Que ela faria isso usando uma lanterna, sentada no corredor em frente ao quarto de seus pais, ouvindo sua mãe fingir que estava dormindo." (p. 11)

Mesmo ator e cena e filme, até que a vida embaralhe o ensaio e o script: fotos sem rosto, travesseiros sem corpo, tua presença, nua, como um dia de inverno, quando foi que...

Para encerrar a dor, o caderno de Millie abriga uma Coleção de Inesquecíveis: folhas para alguns, papéis para ninguém, para todos reticências - porque sim, Millie, é preciso anotar o melhor de nossos dias, ainda que o amanhecer entristeça a bondade e o crepúsculo engrandeça propósitos ruins.

Embora literatura, a vida continua em seu movimento - como um pássaro que da copa escapa, e destrói o seu ninho, e em um galho próximo esboça um assovio.

Pouco temos a dizer sobre isso.


Um fato sobre o mundo que sabemos com certeza é a nossa habilidade em transformar o cotidiano em um soneto triste. E também a de entendermos que o outono é a segunda chance de toda natureza (desfolhar-se é renovar a própria espera, e desfazer os nós de todo o medo: "Millie acendeu todas as velinhas e sentou-se na grama. (...) As velas (...) balançaram suavemente. (...) O céu estava cheio de estrelas e agora parecia que havia estrelas também na árvore e no chão, como se Millie tivesse feito do mundo inteiro uma enorme noite estrelada. Ela se levantou e passeou pelo seu céu; será que seu pai não estaria fazendo o mesmo lá em cima?").

Quando foi que...

Nestes momentos de exposição e choro, o enredo consome o coração (o nosso, o de Brooke Davis), desfaz o corpo (tua enseada), em uma sensação de nada e despedida, como se o pouco rimasse com perdão, esperança ou triste riso. Millie acredita nisso, e em diferentes momentos da história nos diz: - Mamãe, estou aqui. Eu também, Millie... Apesar. De. Tudo. Estamos. Bem. Aqui, eu sei.

(Tropeço)
(Respiro)
(Recomeço)
(Respiro)

Assim é todo parágrafo, e também Achados e Perdidos, onde é preciso recobrar o passo, e acreditar que a vida os levará a um horizonte menos triste, ou pelo menos sincero. Porque é possível que o coração peça um par de décadas para entender esta "vida pequena" (quando foi que...), e o reencontro (consigo, com o mundo, com o riso esquecido) será a estrofe de partida para Millie e Agatha e Karl, e quem sabe um épico estribilho. 

"Ele havia abraçado Millie e a sensação era de ter ganhado algo que não merecia, mas que gostaria muito de merecer. Com certeza um dia ele também havia abraçado seu filho assim, porém a sensação agora parecia completamente nova. E agora aquela mulher estava ali também, tornando sua vida mais interessante, mais complicada." (p. 127)


Sinopse: Millie Bird é uma garotinha de apenas 7 anos que já sabe muita coisa. Ela já descobriu que todos nós um dia vamos morrer. Em seu Livro das Coisas Mortas, ela registra tudo o que não existe mais. No número 28 ela escreveu “MEU PAI". Millie descobriu também, da pior forma possível, que um dia as pessoas simplesmente vão embora, pois a mãe dela, abalada com a morte do marido, a abandona numa grande loja de departamentos. Ela só não está triste porque conheceu Karl, o Digitador, um senhor de 87 anos que costumava digitar com os próprios dedos frases românticas na pele macia de sua mulher. Mas, agora que ela se foi, ele digita as palavras no ar enquanto fala. Ele foi colocado pelo filho em uma casa de repouso, porém, em um momento de clareza e êxtase, ele escapa, tornando-se então um fugitivo. Agatha Pantha é uma senhora de 82 anos que mora na casa em frente à de Millie e que não sai mais, nem conversa com ninguém, há sete anos. Desde que o marido morreu, ela passou a viver num mundinho só dela. Agatha preenche o silêncio gritando, pela janela, com as pessoas que passam na rua, assistindo à estática na televisão e anotando em seu diário tudo o que faz. Mas, quando descobre que a mãe de Millie desapareceu, ela decide que vai ajudar a menina a encontrá-la. Então, a adorável garotinha, o velhinho aventureiro e a senhorinha rabugenta partem em uma busca repleta de confusões e ensinamentos, que vai revelar muito mais do que eles imaginam encontrar.

Achados e Perdidos, de Brooke Davis. Ed. Record, 2016

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