segunda-feira, 1 de maio de 2017

Stoner - John Williams | Rádio Londres Editores


"Quando era muito jovem, Stoner pensara no amor como um estado absoluto da existência que um homem, se tivesse sorte, poderia ter o privilégio de vivenciar. (...) Agora, em sua meia-idade, ele começava a entender que não era nem um estado de graça nem uma ilusão. Via-o como uma parte do devir humano, uma condição inventada e modificada momento a momento e dia após dia, pela vontade, pela inteligência e pelo coração." (p. 214)

A pele parda, os dias claros e um futuro opaco. A vida de um homem pode ser assim descrita, como um intervalo entre o esplendor da aurora e a nebulosidade da despedida. Neste percurso, anos e sonhos envolvem-se em atmosfera gris, por vezes sem rumo, e por outras concreto, como se a vida fosse uma equação mal resolvida, ou estrofes em um idioma por nós desconhecido.

Idealizado pelo escritor norte-americano John Williams, Stoner foi originalmente publicado em 1965, e redescoberto pelo público e crítica apenas na década de 2000. No Brasil, a primeira edição foi publicada pela Rádio Londres, em 2014, trazendo um posfácio do escritor Peter Cameron, cuja afeição ao texto de Williams mostra-se vigorosa e legítima: "a mais silenciosa das existências, se examinada com carinho, compaixão e grande cuidado, pode gerar uma farta colheita literária. Esse é o caso de Stoner. (...) Acabei de ler o romance pela terceira vez e achei essa última leitura a mais marcante e reveladora. (...) Pela terceira vez, chorei enquanto lia as páginas finais deste livro maravilhoso".

Em catorze linhas, a vida de William Stoner, o protagonista, nos é apresentada logo na primeira página do livro. Neste momento, cabe ao leitor entregar-se à suspeita de que uma vida inteira não cabe em só um parágrafo, e que a genialidade do texto de Williams só pode estar nesta percepção de que até o menor dos atores ("seu nome é um lembrete do fim que aguarda a todos, e para os mais jovens é só um som que não evoca nenhuma sensação do passado e nenhuma imagem específica na qual eles consigam se reconhecer ou à qual possam associar suas carreiras.") pode tornar-se fundamental e alvo, como um inevitável reflexo de nós mesmos.

Ler Stoner com os olhos de 2017 talvez traga uma imensurável angústia à sua experiência de leitura; se considerarmos a passividade de um homem como um desejo de esvair-se de sua própria expressão e feitos, certamente Stoner será visto como um desses personagens de poucas realizações (um ou dois livros publicados; um ou dois amores sujeitos à tempestade; um ou dois amigos neste caminho), e, não havendo marcas inaugurais na vida de Stoner, por que teria o autor decidido compartilhar tão inexpressiva biografia?


Da casa para o campus, por entre a paisagem dos anos, assim foi a vida de Stoner, professor de Literatura Inglesa na Universidade do Missouri, filho do sol-a-sol de uma fazenda a uns setenta quilômetros do campus. Stoner, assim como milhares neste meio-oeste, estava destinado à solidão da enxada, até que, no ano de 1910, encontrou uma oportunidade de ingressar na universidade, onde os áridos campos seriam trocados pela estéril academia, e, adicionalmente, pela severidade de Edith, fruto de um matrimônio igualmente acre.

Egresso do curso de Ciências Agrárias, Stoner encontraria na Literatura sua nova carreira, seu porto seguro e redenção: em meio a um antigo soneto, nosso personagem finalmente toma consciência de si, e de sua própria solidão: "O Sr. Shakespeare está lhe falando de trezentos anos atrás, Sr. Stoner, você consegue ouvi-lo?" (p. 18). Neste intervalo de frase, a fala do professor Sloane atinge Stoner com uma gravidade nunca antes sentida; nesta epifania, nosso personagem entende que é preciso chegar ao interior de um poema, assim como à experiência de criação daqueles que o antecederam, para obter não apenas do entendimento da obra literária, mas de sua própria razão de existir: "Encontrava alívio e satisfação só nas aulas em que ele mesmo era aluno. Nelas conseguia recapturar a sensação de descoberta que sentira naquele primeiro dia, quando Archer Sloane falara com ele na classe e, num instante, ele se tornara outra pessoa. Enquanto a sua mente se envolvia com o assunto e se engalfinhava com a força da literatura que estudava e cuja autêntica natureza ele tentava entender, sentia uma contínua transformação em seu íntimo e, ao ter consciência disso, saía de si mesmo e entrava no mundo que o continha..." (p. 33-34)

Embora cansado, o suor e frêmito da descoberta literária fez com que este novo corpo, este novo homem - ainda que pálido e ingênuo, desde hoje até o fim de seus dias - entregasse sua trêmula carne ao ofício docente e, o que dela resistisse, dedicaria à sua esposa Edith, sua filha Grace, e também a uma terceira personagem, a ser revelada alguns capítulos e décadas depois. Aos olhos de Stoner, a literatura era mesmo a única forma de não sucumbir às Guerras fora do campus, e, principalmente, às batalhas dentro de si.

Neste momento da história, é provável que muitos leitores interpretem Stoner como alguém meticulosamente atento à ferocidade das instituições, e quase nada afeito ao que fere sua pele com um abraço ou um grito; há que se considerar que o texto de John Williams, construído enquanto uma biografia, pouco a pouco inscreve intensidades, e em conflito as apresenta, contrapondo-as com a vida com o qual nos sentimos seguros, ou apenas aptos a não desvanecê-la. Para o mal e por vezes para o bem, os episódios de vida de Stoner junto a Edith são algumas de suas maiores provações, e nesta cruz entendemos a lição de que estar junto é uma de nossas maiores incompreensões, assim como um igual escape para o ingrato opaco desta vida. Para Stoner, confrontar a realidade de sua própria casa (e por isso ser visto como alguém nulo, extremamente passivo) seria como um exilar-se de sua terra apropriada (a Literatura) e berço (a pequena vizinhança e campus do Missouri), e não o critico, pois é bem possível que eu e você, em inúmeras circunstâncias, tenhamos igualmente nos esquivado de tamanha peleja...

De volta ao posfácio, o comentador fecha suas páginas e nos entrega a um novo estado de espírito: "O que há em Stoner para justificar esse grande apelo e enorme sucesso? É um livro pequeno, de escopo e ambição modestos, mas que enfrenta e explora as questões mais essenciais e desconcertantes em que conseguimos pensar: por que estamos vivos? O que confere significado e valor a uma vida? O que significa amar? (...) Stoner atravessa com leveza e delicadeza o coração do leitor, mas o vestígio que ele deixa é indelével e profundo".

A opacidade do amor, o pesar do homem, e a exuberância da letra: se a vida de Stoner pudesse ser resumida em uma frase, esta é a que eu escolheria: "Para uma mulher ou um poema, seu amor dizia simplesmente: Olhe! Estou vivo." (p. 276). E com ele vivemos.

Stoner, um dos grandes lançamentos da Rádio Londres Editores, e que felizmente tivemos a oportunidade de compartilhar no Clube de Leitura da Livraria Da Vinci neste mês de abril, aqui no Rio de Janeiro <3 Leitura recomendadíssima, para todos!


Sobre o autor: John Edward Williams nasceu em 1922, em Clarksville, um povoado no interior do Texas. Serviu na aviação militar americana durante a Segunda Guerra Mundial, na China, na Birmânia e na Índia. Recebeu o bacharelado em Literatura Inglesa na Universidade de Denver e o doutorado na Universidade do Missouri, em 1954. Voltou para Denver no mesmo ano, onde trabalhou como professor assistente de Literatura Inglesa até sua aposentadoria, em 1985. Faleceu em 1994. Além de Stoner, é autor de mais três romances: Nothing but the night, Butcher’s Crossing e Augustus.


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