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julho 18, 2017



“Numa era utilitária, acima de tudo, é uma questão de grande importância que os contos de fada sejam respeitados” (Charles Dickens)

Contos de fadas permeiam a imaginação humana, desde o início dos tempos, antes mesmo que a palavra escrita surgisse, sendo transmitidos oralmente de geração em geração. Cada cultura tem suas próprias histórias e lendas, assim como cada um de nós tem também o próprio conto pessoal, que flutua entre momentos de alegria e de tristeza.

Ter consciência da própria história, faz com que tenhamos um domínio maior sobre nós mesmos e nossas capacidades. A sensação de não saber quem somos ou de onde viemos, é aterradora e nos faz cair em um redemoinho difícil de sair sem se machucar no processo.

A busca pela própria identidade, é uma constante na nossa formação como indivíduos e é também o tema central desse romance young adult, brilhantemente escrito por Caroline Wallace e distribuído no Brasil pela Editora Rocco através do selo Fábrica 231. A Busca Sofrida de Martha Perdida fala muito sobre isso, sobre a procura de quem somos e de onde viemos, para então seguir em frente.


Martha Perdida trabalha no Achados e Perdidos da estação Lime Street em Liverpool, Inglaterra. Foi “esquecida” ali quando tinha três meses de vida e a Mãe, responsável pelo setor na época, acabou ficando com ela e a criando. Quer dizer, explorando, já que Martha desde cedo teve que lutar muito para fazer valer o pão que comia. Criada em um ambiente hostil por uma fanática religiosa, Martha chega aos dezesseis anos, sem saber muito sobre si, apenas que não pode deixar a Estação Lime Street ou a mesma vai desmoronar. É isso mesmo, Martha nunca pôs os pés fora da estação. Mas ela está feliz com isso, lá ela tem tudo de que precisa e pode girar à vontade entre os transeuntes da estação, algo que ela adora:

“Adoro girar. Não é a maneira mais eficiente de circular, mas, após meses e meses de prática, acho que aperfeiçoei a forma mais brilhante de giro” – pág. 10

A vida de Martha começa a mudar, quando recebe um livro de alguém que parece conhecer muito bem sua história ou a parte do seu conto de fadas que ela não conhece. A partir de uma troca de correspondências bem peculiar, Martha vai embarcar em uma aventura pela busca da própria identidade, acompanhada de um grupo de amigos bem singulares: Elisabeth, a dona do Café ao lado do Achados e Perdidos, que ama Rock’n Roll e distribuir bolo para quem ela acha que precisa se sentir melhor, mas que carrega uma enorme tristeza dentro de si; George Harris, um imenso e jovem soldado romano que não gosta de mudar sua rotina, a não ser para ver Martha sorrir, com um coração tão grande quanto sua estatura; e William, um homem marcado por uma tragédia familiar e que vive nos túneis e canais da estação Lime Street, cuja recuperação social une ainda mais o quarteto.

No meio do caminho, nossa doce Martha se envolve com um mistério que tem a ver com uma mala supostamente repleta de artigos raros e inéditos dos Beatles, além de ter que encontrar a urna com as cinzas do dono da mala.

“Vejo as pessoas correndo por aí e me pergunto se alguma delas poderia ser minha mãe, meu pai, um irmão, um primo. Olho para tornozelos e pulsos. Olho as formas das sobrancelhas e a maneira como as pessoas falam. Tento reconhecer a pessoa que eu perdi” – pág. 60.


Será que Martha vai conseguir deixar a todos felizes, sem ter que abrir mão de si mesma no meio do caminho? Esse é um questionamento que eu me fiz durante toda a leitura junto com ela. Com uma fascinante mistura de Amélie Poulain e Hugo Cabret, somos conduzidos em uma aventura maravilhosa pela mente de uma jovem que carrega dentro de si a sabedoria de alguém que já perdeu muito e por isso se doa tanto em fazer todos a sua volta sorrirem, ao mesmo tempo em que sua imaginação moldada por uma Mãe perversa e doente, a faz ter atitudes infantis e peculiares, deixando as pessoas que a conhecem, atônitas.

“Quando tudo é tirado de você, você tem duas escolhas. Você luta para pegar de volta ou desmorona e morre” – pág. 288

A edição desse livro está bem diferenciada, condizendo com seu conteúdo: não há divisão em capítulos numerados e a história é quase toda narrada por Martha. Nos interlúdios de sua narrativa temos as “cartas” escritas nos livros que chegam à Martha, contando sua história, os cartazes que ela coloca na plataforma 6 em resposta, reportagens do Liverpool Daily Post, cartas a pessoas “importantes” escritas por Martha e também citações de autores e celebridades, com frases que mostram a importância de se acreditar em narrativas e no que podemos aprender com elas.

Em meio a personagens apaixonantes (e alguns detestáveis, porque sempre tem né?), livros, música, bolo, medo do Diabo e seus ratos, somos levados a uma jornada repleta de adrenalina e surrealidade, com um final intenso e catártico que vai deixar a todos com o coração curado, assim como a população de Liverpool com o retorno de um filho amado – só lendo para saber de quem estou falando ;)


Em A busca sofrida de Martha Perdida, Caroline Wallace conta uma história envolvente, que mistura ficção e fatos reais – Mal Evans existiu, era próximo dos Beatles e acabou morto pela polícia nos Estados Unidos, tendo suas cinzas perdidas ao serem enviadas para a Inglaterra. Com uma narrativa deliciosa, a autora convida a acompanhar Martha em uma jornada emocionante e surpreendente, cujas respostas podem estar mais perto do que se imagina, num livro que é a mistura perfeita de A invenção de Hugo Cabret e O fabuloso destino de Amelie Poulain.