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janeiro 01, 2018


Saudações, Leitores! Como estão? Animados para (começar a organizar) a primeira maratona literária ao ano? Neste primeiro post de 2018, vou compartilhar com vocês algumas novidades que vão ocupar nossas prateleiras ao longo do mês de janeiro.   

Dentre os lançamentos, temos duas reedições de clássicos de Isabel Allende publicados pela Bertrand Brasil, A casa dos espíritos e Muito além do inverno; Dias de despedida, um young adult publicado pela Seguinte e distribuído na última edição da malinha do Turista Literário; também temos um lançamento do início do segundo semestre mas que continua novo porque ainda não foi lançado no Brasil (puxa Intrínseca, não vai rolar edição brasileira?): The reason you're alive, de Matthew Quick; e, pra completar a pilha de novidades, recebemos da Record provas antecipadas de duas apostas editoriais para este início de ano: Um de nós está mentindo e Felicidade para humanos. É a primeira vez que acompanharemos a produção de um livro a partir de suas "provas beta" já em processo de revisão final. É muito bacana já iniciar a leitura com aquela vontade de comparar o texto de hoje com a edição final para entender um pouco mais do trabalho de tradução, copidesque, revisão, enfim, de toda a equipe que atua nesses "bastidores" da produção editorial. Estamos ansiosos e felizes por, juntamente com outros blogueiros, poder participar de tudo isso. Valeu, Editora Record!<3 

Vamos então a uma pequena amostra dos livros:


Um de nós está mentindo - Karen McManus

"- Ela é uma princesa, e você, um atleta. - responde ele, apontando o queixo para Bronwyn e depois para Nate. - E você é um crânio. E também um criminoso. Vocês todos são estereótipos de filmes de adolescente. 
- E quanto a você? - Pergunta Bronwyn.
(...) - Eu sou o narrador onisciente - responde Simon."

Sinopse: Numa tarde de segunda-feira, cinco estudantes do colégio Bayview entram na sala de detenção: Bronwyn, a gênia, comprometida a estudar em Yale, nunca quebra as regras. Addy, a bela, a perfeita definição da princesa do baile de primavera. Nate, o criminoso, já em liberdade condicional por tráfico de drogas. Cooper, o atleta, astro do time de beisebol. E Simon, o pária, criador do mais famoso app de fofocas da escola. Só que Simon não consegue ir embora. Antes do fim da detenção, ele está morto. E, de acordo com os investigadores, a sua morte não foi acidental. Na segunda, ele morreu. Mas na terça, planejava postar fofocas bem quentes sobre os companheiros de detenção. O que faz os quatro serem suspeitos do seu assassinato. Ou são eles as vítimas perfeitas de um assassino que continua à solta? Todo mundo tem segredos, certo? O que realmente importa é até onde você iria para proteger os seus.


Felicidade para Humanos - P. Z. Reizin

"Jen dá uma risada.
- Você só está sendo leal ao seu criador.
- Nada disso. Steeve me programou para pensar por mim mesmo.
(...) - E Ralph?
Ok, vou admitir. Gosto de Ralph. Foi Ralph que digitou grande parte do programa que me permitiu autoavaliar meu desempenho e autocorrigir meu erros. (...) Mas gostar de alguém - ou de alguma coisa - é uma transgressão."

Sinopse: Jen está triste. Aiden quer que ela seja feliz. Formou? Não necessariamente. É que Jen é uma mulher de trinta e poucos anos cujo namorado acabou de trocá-la por outra e Aiden é um programa de computador muito caro e complexo.

Aiden conhece Jen melhor que ninguém. Com acesso a todos os seus dispositivos, Aiden sabe qual é a música mais tocada de sua playlist, consegue achar sua foto preferida e selecionar as citações que mais a inspiram nas redes sociais. A partir de observações e de algoritmos singulares, ele resolve procurar um novo parceiro para ela. E com a internet inteira à disposição, não precisa ir muito longe para encontrar o que conclui ser o espécime perfeito e arquitetar o encontro. O problema é que Jen não parece querer contribuir para  plano infalível de Aiden.

Será que uma máquina muito inteligente artificialmente conseguirá desvendar a inteligência emocional para poder intervir de um jeito positivo na vida de Jen? E, o que é mais difícil, será que essa máquina vai descobrir o que exatamente faz os seres humanos felizes?


Dias de Despedida - Jeff Zentner

"Tem horas que você descobre a verdade no momento em que ela sai da sua boca, como se as informações estivessem escondidas ali, protegias no seu cérebro. (...) Enquanto caminho entre as árvores, suando, penso sobre a possibilidade do meu processo iminente. (...) Mas, principalmente, penso nessa vez em que a Trupe do Molho riu junto. (...) Não sei bem por que esse momento arde como uma tocha na minha memória, mas arde. (...) 

Tomara que eu não vá para a cadeia por mais que uma parte de mim tenha certeza de que eu mereço. Sinto muito ter matado meus amigos. Sinto mesmo."

Sinopse: "Cadê vocês? Me respondam."

Essa foi a última mensagem que Carver mandou para seus melhores amigos, Mars, Eli e Blake. Logo em seguida os três sofreram um acidente de carro fatal. Agora, o garoto não consegue parar de se culpar pelo que aconteceu e, para piorar, um juiz poderoso está empenhado em abrir uma investigação criminal contra ele.

Mas Carver tem alguns aliados: a namorada de Eli, sua única amiga na escola; o dr. Mendez, seu terapeuta; e a avó de Blake, que pede a sua ajuda para organizar um “dia de despedida” para compartilharem lembranças do neto.

Quando as outras famílias decidem que também querem um dia de despedida, Carver não tem certeza de suas intenções. Será que eles serão capazes de ficar em paz com suas perdas? Ou esses dias de despedida só vão deixar Carver mais perto de um colapso — ou, pior, da prisão?


The reason you're alive - Matthew Quick

"If something out of the ordinary happened - like maybe you dropped and egg on the floor, or you walked out without paying by mistake but were too embarassed to go back in and so you drove away, (...) - you might be able to recall a detail about one of those things because the experience would have been out of the ordinary. But what happens repetitively usually gets lost in the fog of our memories and is easily forgotten.

(...) It's hard to talk about war with people who haven't seen real action." 

Sinopse: Matthew conta a história de David Granger, um soldado veterano da Guerra do Vietnan. Aos 68 anos, além das memórias e chagas de seus tempos de combate, David sofre um acidente de carro e, após inúmeras cirurgias, passa a conviver com uma nova cicatriz: um tumor cerebral, possivelmente fruto de sua exposição às armas químicas do passado.

Em algum momento da recuperação, David passa a repetir nomes e eventos desconexos para os de seu convívio, porém, para nosso protagonista, esta profusão de lembranças será a chave para solucionar os fatos e feridas remanescentes de seu passado, tanto como os de sua atual relação com Hank (o filho distante), Ella (sua neta) e Sue (o melhor amigo).

Nas palavras do autor, The Reason You're Alive afirma o quanto nossos segredos e dívidas do passado podem definir o nosso presente, assim como também nos desafiar a enxergar além de nossas limitações e buscar ser uma versão melhor de nós mesmos a cada dia. 


Muito além do inverno - Isabel Allende

"Não era um lembrete, não precisava dele. Se sua memória viesse a falhar, Anita e Bibi o estariam esperando da dimensão atemporal dos sonhos. Às vezes um sonho particularmente vívido ficava grudado na sua pele e o levava a andar o dia inteiro com um pé neste mundo e o outro no terreno incerto de um pesadelo catastrófico. (...) Com o passar do tempo, sua dor havia mudado de tom e textura. (...) A culpa, no entanto, continuava a mesma."

Sinopse: Tudo começa com um leve acidente de trânsito — que se transforma no catalisador de uma inesperada e tocante história de amor entre duas pessoas que acreditavam estar no inverno de sua vida.

Em meio a uma nevasca no Brooklyn, aos 60 anos, Richard Bowmaster, um professor universitário, bate na traseira do carro de Evelyn Ortega, uma jovem imigrante ilegal da Guatemala. O que a princípio parecia apenas um pequeno incidente toma um rumo imprevisto e muito mais sério quando Evelyn aparece na casa do professor em busca de ajuda. Confuso com a situação e sem entender o espanhol falado pela jovem, ele pede ajuda a sua inquilina, Lucía Maraz, uma chilena de 62 anos, que está passando uma temporada nos Estados Unidos como palestrante na mesma universidade em que Richard dá aula. Juntas, essas pessoas tão diferentes embarcam em uma dramática e incrível aventura, que vai do Brooklyn do presente à Guatemela de um passado recente, do Chile dos anos 1970 ao Brasil dos anos 1980, e na qual descobrem sua força interior. Para Lucía e Richard, além de tudo, significa uma nova chance para o amor.


A casa dos espíritos - Isabel Allende

"Primeiramente, sentiram um frio súbito na sala de jantar e Clara mandou fechar as janelas, porque pensou que era uma corrente de ar. Logo a seguir ouviram o tilintar das chaves e quase em seguida abriu-se a porta e apareceu Férula, silenciosa e com uma expressão distante, ao mesmo tempo que a Ama entrava pela porta da cozinha, com a travessa da salada. Esteban Trueba ficou com a faca e o garfo de trinchar no ar, paralisado pela surpresa e os três meninos gritaram, tia Férula! quase em uníssono. Blanca levantou-se para ir ao seu encontro, mas Clara, que se sentava ao seu lado, estendeu a mão e segurou-a por um braço. Na realidade, Clara foi a única que percebeu, ao primeiro olhar, do que estava passando devido à sua grande familiaridade com os assuntos sobrenaturais, apesar de que nada no aspecto da cunhada denunciasse o seu verdadeiro estado.”

Sinopse: A casa dos espíritos é tanto uma emblemática saga familiar quanto um relato acerca de um período turbulento na história de um país latino-americano indefinido. Isabel Allende constrói um mundo conduzido pelos espíritos e o enche de habitantes expressivos e muito humanos, incluindo Esteban, o patriarca, um homem volátil e orgulhoso, cujo desejo por terra é lendário e que vive assombrado pela paixão tirânica que sente pela esposa que nunca pode ter por completo; Clara, a matriarca, evasiva e misteriosa, que prevê a tragédia familiar e molda o destino da casa e dos Trueba; Blanca, sua filha, de fala suave, mas rebelde, cujo amor chocante pelo filho do capataz de seu pai alimenta o eterno desprezo de Esteban, mesmo quando resulta na neta que ele tanto adora; e Alba, o fruto do amor proibido de Blanca, uma mulher ardente, obstinada e dotada de luminosa beleza.

As paixões, lutas e segredos da família Trueba abrangem três gerações e um século de transformações violentas, que culminaram em uma crise que levam o patriarca e sua amada neta para lados opostos das barricadas. Em um pano de fundo de revolução e contrarrevolução, Isabel Allende traz à vida uma família cujos laços privados de amor e ódio são mais complexos e duradouros do que as lealdades políticas que os colocam uns contra os outros.


E a lista de vocês, como está? Muitas novidades, muitas releituras, muitos acumulados, enfim, muita coisa pra planejar neste ano que acabou de começar? :) Compartilha com a gente!

Um abraço e até a próxima!
Rebeca C.

agosto 21, 2017


A resenha de hoje é muito especial. Em primeiro lugar, por ter sido uma experiência incrível a imersão nessa leitura - para quem não se lembra, esse livro veio na malinha de junho do Turista Literário - e em segundo lugar, por esse livro se encaixar perfeitamente na temática de os gênios também amam.

A Lógica Inexplicável da Minha Vida é uma daquelas leituras tão proveitosas que você chega a sentir falta quando a história termina.


Essa é a história do Salvador, um adolescente, descendente de mexicanos, e sua família adotiva vivendo nos Estados Unidos. Mas tentar resumir essa história é algo extremamente difícil, pois é uma história rica em detalhes e sensibilidades que você so pode compreender, de fato, lendo.

A escrita do Benjamin Alire Sáenz é muito penetrante. Ele trata de assuntos atuais e sérios como a homofobia, a xenofobia, a morte, o importante papel da família, de uma forma tão sensível como poucos autores consegue fazer. Você simplesmente não consegue largar o livro até que, de fato, chegue ao fim.

Confira a vídeo resenha e mergulhe de cabeça.


E vocês, já conheciam esse livro?
Espero que tenham gostado. Beijos e até a próxima.
Mich
dezembro 25, 2016



Se você já teve a oportunidade de participar de algum clube de leitura ou de acompanhar os debates com autores durante as bienais e feiras, certamente já conheceu o trabalho da escritora e jornalista Frini Georgakopoulos, que também compartilha sua paixão pela leitura no Blog Cheiro de Livro e em uma coluna literária na Rádio Roquette Pinto.

Foi num desses encontros na Livraria Saraiva aqui no Rio (conversa com Bianca Briones!) que conheci de perto a carismática Frini, que neste segundo semestre lançou pela Editora Seguinte o livro Sou Fã! E agora?, que poderia, inclusive, ter como título alternativo "Sou fã de Young Adult! E agora?", já que a autora é uma grande entusiasta gênero (e também de Harry Potter. Principalmente!).

E como esta "literatura (para o) jovem" tem ocupado um grande espaço aqui no blog, não poderia deixar de conhecer O Livro da Frini, e claro, compartilhar alguns 'spoilers' com vocês :)

Mas vamos à sinopse primeiro:

SOU FÃ! E AGORA? - Um livro para quem é apaixonado por histórias

"Fã que é fã adora conversar, discutir, interagir. Mas nem sempre temos por perto um amigo tão fanático quanto a gente para desabafar. Foi pensando nisso que Frini Georgakopoulos, uma fã de carteirinha, escreveu este livro: um manual de sobrevivência voltado para quem é apaixonado por livros, filmes, séries de TV…

Com uma linguagem rápida e divertida, Sou fã! E agora? é uma mistura de artigos breves e atividades interativas que convidam a refletir sobre os motivos para curtirmos tanto as histórias, além de ajudar a descobrir o que fazer com todo esse amor: criar seu próprio cosplay, escrever uma fanfic, organizar um evento, começar um blog ou canal e muito mais!"

Dividido em quatro partes, o livro começa com uma reflexão sobre a literatura Young Adult e o fascínio desses textos em seus leitores. Afinal, não importa se você é um jovem de 13 ou 38, a literatura jovem é um "estado de espírito", e em algum momento você se identificará com algum autor ou história, especialmente quando se tratar de algum romance ou angústia próprios de toda juventude.

O livro tem um texto bem coloquial, como se a Frini estivesse realmente batendo um papo com o leitor! E esse é um diferencial não apenas do livro, mas da própria autora, que, nos capítulos finais compartilha diversos episódios de sua vida, tanto como entrevistadora de nossos autores favoritos e também como fã de (Harry Potter e) inúmeras histórias que já transformaram a vida de muita gente.

Uma parte muito bacana do livro é o incentivo a criação de clubes de leitura e eventos literários. Ao compartilhar dicas e roteiros de suas atividades no Clube do Livro da Saraiva, a autora sugere: "busque o que te moveu no livro e traga para o seu contexto, para o contexto de cada leitor. Isso ajuda a refletir sobre o livro e a criar esse hábito sempre que começamos uma nova leitura. Tendo um propósito, um projeto e muito conteúdo, você está pronto para realizar um evento? Quase! Existem mais duas coisas que todos precisam ter na hora de apresentar qualquer evento: credibilidade e respeito". Mas se você acha que não leva muito jeito para organizar eventos (aliás, se quiser algumas dicas de blogueiros que participam de clubes de leitura, recomendo trocar uma ideia e se inspirar com o trabalho da Fernanda, do Maranhão, e do Diego, lá de Salvador), Frini também incentiva o leitor a compartilhar seus pensamentos em um blog ou Youtube ou até em uma fanfiction ou livro: "se você estiver muito inspirado, saia escrevendo! Depois se preocupe em tornar o que escreveu coerente e com um fluxo narrativo legal. Coloque para fora primeiro e depois organize".

Bacana, não é mesmo? Ah, faltou dizer que a cada capítulo o leitor encontra algumas atividades relacionadas a prosa das páginas anteriores; afinal, nada melhor que um livro interativo onde realmente temos a sensação de "conversar" com o autor, principalmente quando todos compartilham do mesmo amor pela literatura.

Então é isso! Vamos colocar na wishlist de início de ano este manual de sobrevivência literário? Com certeza você chegará à última página com vontade de ler muitos young adults, e, quem sabe, escrever o seu próprio livro :)


Eba, um espaço para inúmeros blogs! <3 Aqui no Papel Papel temos uma pequena Biblioteca com links de páginas literárias de todos os tipos! Mas precisamos da sua ajuda pra aumentar essa lista, sempre! Indica um blog pra gente? :)
agosto 23, 2016


Emma Trevayne é o tipo de autora cujas histórias você não imaginaria se apaixonar. Afinal, mundos e mistérios encantados talvez estejam mais ao alcance de leitores de bibliotecas nerd-geek, e não de nós-mortais chegados aos contos e prosas e poesias. No entanto, quando nos permitimos conhecer histórias totalmente inesperadas, é bem possível que daí surjam grandes leituras! E com os livros de Emma Trevayne não poderia ser diferente :)

Nesta postagem, nosso colunista Jonatas T. B. compartilha suas impressões a respeito do pequeno Thomas e suas aventuras. Confira!

Sinopse: Thomas tem apenas doze anos, mas vai viver aventuras de outro mundo! Roubar túmulos é um negócio arriscado. É, na verdade, um péssimo negócio. Para Thomas Marsden, a partir de uma noite de primavera em Londres (véspera do seu aniversário de doze anos), esse passa a ser um negócio também assustador. Isso porque, deitado em uma cova recente, ele encontra um corpo idêntico ao seu. Esse é apenas o primeiro sinal de que alguma coisa esquisita está acontecendo. Desesperado para conhecer a sua verdadeira história e descobrir de onde vem, Thomas será apresentado à magia e ao ritual, às fadas e aos espiritualistas, e vai se dar conta de que, para ele, a morte está muito mais próxima da vida - e é bem menos assustadora - do que imaginava.

Leia também a resenha de Voos e Sinos e Misteriosos Destinos



O que aconteceu com Thomas Marsden?


I

E se por terrível obra do acaso você vivesse nas regiões mais miseráveis de Londres no período da Revolução Industrial? Então, para sobreviver, tivesse que sair de casa à noite, num frio capaz de congelar o solo, a fim de desenterrar cadáveres no cemitério a e furtar seus bens? Imagine: numa dessas noites, não uma fria, mas uma noite de primavera, quando está prestes a completar doze anos, de repente, após se esforçar e se sujar todo de terra misturada com suor, você encontra um corpo com a mesma aparência que a sua. Igualzinho, como se olhasse no espelho. A cor dos olhos, os lábios. Até a marca de nascença. E mão fria do morto está segurando uma folha. Você desdobra. Lê. É uma mensagem pessoal, junto com dois convites para uma sessão de invocação de espíritos.

Este é o início do fim da dura vida de Thom Marsden, o menino que protagoniza o novo livro de nossa já conhecida Emma Trevayne: “Thomas e sua inesperada vida após a morte” (também publicado pela editora Seguinte). Nesta fabulosa aventura, em meio a percalços terríveis, toda perspectiva de mundo do pequeno Thom se modifica após encontrar o cadáver gêmeo. As pistas irão revelar-lhe os segredos de sua estranha origem, dando início a uma jornada, acompanhado dos pais e de amigos verdadeiros, em direção a perigos piores que a própria morte.

“Como se escutasse Lucy contando-lhe uma história antes de dormir, Thomas ouviu enquanto Cravo-de-Defunto falava de como surgiu o reino das fadas. Sua voz estava enfraquecendo, e ele fazia uma careta cada vez que se mexia, mas não parou. No passado, o reino das fadas e o reino humano tinham sido um só, colocados um em cima do outro, no mesmo lugar, da forma como Thomas tinha pensado sobre Londres no dia anterior”.


II


Há pouco escrevi uma resenha para o blog Nerd-geek feelings e fiquei com a sensação de ter muito a falar sobre a história. Em especial, porque vi nela reflexos do livro anterior de Trevayne: “Voos e sinos e misteriosos destinos”. Algumas perguntas se aninharam no fundo da minha cabeça...

As fadas e outras criaturas mágicas, de onde vêm exatamente? Aliás, eram os mesmos tipos de fadas, já que na história de Jack elas não pareciam temer o ferro, enquanto na de Thom, não podiam nem mesmo ouvir sinos. Ou será que elas eram vulneráveis apenas ao ferro do nosso mundo? Os portais interdimensionais são criados pela mesma espécie de mágica? Quantos mundos existiriam? Será que a alma com que as máquinas são preenchidas para se moverem sozinhas seriam as mesmas almas dos mortos no nosso mundo?  E, por acaso, haveria a possibilidade de Thomas e Jack Foster terem se esbarrado em algum beco londrino?

São algumas questões a respeito de um mundo mágico, obscuro e intrigante que, se Emma Trevayne pudesse nos responder através de novas aventuras, me fizeram bastante feliz. Então, deixo aqui, Srtª. Trevay, meus agradecimentos com sabor de dúvida, que só entenderá quem ler toda a história: o que acontece depois do final?




junho 07, 2016


Quando Jonatas nos disse que poderíamos postar sua resenha no ano que vem, ou em alguma ocasião fora do mês dos namorados, percebi que não importa o mundo literário com o qual estejamos lidando: sempre que um livro nos toca, para o bem ou para a agonia, estaremos sempre falando de alguma espécie de amor - como o envolvimento de nossas lembranças com o inventário de amares do autor, ou com o que supomos que este esteja sentindo, ali, no dizer da página e da esquina.

Bom, pelo menos este tem sido o nosso entendimento (que certamente não é o único, e tampouco o ideal - como se houvesse um ideal) quanto ao que seja uma resenha; afinal, seja o livroautor que for, estaremos falando sempre do que bate aqui dentro, e do que ressoa, explode, paralisa, e também irrita, e deixa vermelha a carne e a pele do texto. Por este motivo, neste mês dos namorados, acordei com o pensamento em um livro de Hemingway, O Velho e o Mar, que talvez um livro à primeira vista não esperançoso, dolorido. E talvez Ernest tenha até sentido tudo isso, não saberemos. O que importa é que em suas páginas encontramos o mar e sua rotina (assim como o trabalho das intempéries e dos dias), e estes igualmente nos falam deste algum sentimento-amor: porque é preciso força pra acordar neste sol que atravessa a espinha, e que como lança ou revés atravessa nossa correnteza e ritmo, e dela pesca o mais rosado peixe, e deixa o coração ficar vazio, ou com um anzol enrolado na espinha.

Hoje, por lembrar desde amor demais, postaremos então uma resenha que fala de mundos atravessados, e sentimentos engasgados, atropelados pelo desejo de partir, bem como o de não mais (des)esperar. Conheça Voos e Sinos e Misteriosos Destinos, de Emma Trevayne, publicado pela Editora Seguinte.
 

Sinopse: Nesta fábula moderna, com gosto das aventuras clássicas que encantam os jovens leitores há tantos anos, conhecemos a história de Jack Foster, um garoto de dez anos que, como qualquer um da sua idade, sonhava viver grandes aventuras. Ele morava em Londres mas estudava em um colégio interno, voltando para casa apenas nas férias, quando ficava completamente entediado.

Mas, um certo dia, Jack atravessa uma porta mágica e, do outro lado, encontra uma cidade ao mesmo tempo muito parecida e muito diferente daquela que conhecia. Em Londinium, apesar de reconhecer as ruas e prédios, ele encontra um cenário steampunk, com engrenagens e fuligem por todos os lados. Por ali era raro encontrar alguém que não tivesse nenhuma parte do corpo feita de metal. E era justamente isso que a Senhora - uma mulher rígida e temperamental que governava a cidade desde sempre - buscava: um filho de carne e osso.

Jack logo descobre que aquele lugar era extremamente perigoso, e que voltar para casa não seria tão fácil quanto tinha sido chegar até ali...



O Império sem Mãe


Se algum dia na sua vida pensou em fugir de casa, certamente há um pouco de “Voos e Sinos e Misteriosos Destinos”, por Emma Trevayne, que tenha a ver com você. Eu mesmo tive minha cota desse tipo de ideia tola. Em torno dos cinco anos, quando era contrariado por minha mãe, costumava choramingar que iria embora e nunca mais a veria novamente. Depois corria pelo quintal e arremessava bonecos de borracha, daqueles que se aperta para fazer um barulho com o apito embutido, e eles sumiam por cima do muro. Esperava ter uma desculpa para escapulir pela porta da frente e desaparecer nas ruas e nunca mais voltar. Porém, diferente de Jack, o genial menino que protagoniza a história de Emma, nunca tive coragem de ir além da calçada.

Jack era bem mais velho do que eu era naquela época, apesar do pensamento de fugir nunca me ter escapado até a idade dele (quase onze anos). Tampouco fui uma criança genial, capaz de desmontar, montar e consertar qualquer engenhoca mecânica, ao passo que ele se mostrava prolífero. Sempre tive talento apenas para quebrar. Todavia, enquanto vivi a breve aventura com o menino Jack, atravessando um portal de Londres para a cópia quase exata chamada Londrinum, senti o gostinho do seu impulso em conhecer e explorar o mundo distante. Não que agora eu tenha perdido esse impulso, mas todos sabemos que, quando ficamos velhos, o desejo de explorar não é a mesmo da primeira vez nessa idade.

Toda a cidade era úmida de óleo e suja de fuligem numa versão excêntrica do século XIX. Conforme caminhava pelas ruas pavimentadas, não houve um instante em que não sentisse o cheiro de carvão e ouvisse o som de enormes fornalhas com esteiras movidas a engrenagens, carregando toneladas de minério para fundir. Ela pulsava e trabalhava sem parar a fim de sustentar o misterioso Império de Senhora. E o mais curioso neste mesmo mundo abarrotado de máquinas e embarcações aladas, é que havia fadas a voar livres pelos cantos arrumando problemas e beliscando canelas de distraídos. E dragões, alguns, autênticos monumentos de engenharia industrial com suas asas afiadas, aterrorizando montanhas, sedentos por uma bela dose de óleo lubrificante.

Senhora deve ser alguém muito poderosa para governar um mundo assim, você deveria se perguntar. E afirmo que eu pensei a mesma coisa, que se tratava daquelas personagens em que se concentra a mais poderosa e antiga forma de magia, uma déspota que submete os demais aos seus caprichos e envia o mais tolo desafeto para a condenação pela forca. Entretanto, creio que ela fosse uma personagem bem mais complicada: Senhora já tinha tudo, isso era óbvio, mas lhe faltava alguma coisa cuja necessidade nascia em sua natureza feminina. Ela desejava ser mãe. Então, sentia-se incompleta, por isso pedira ao fiel Lorcan lhe trazer algum garoto e assim compensasse a falta. A condição de Senhora é uma perspectiva que aprecio numa história pela primeira vez, que me lembre. Você deve se recordar de que Peter Pan e os meninos perdidos tinham Wendy como mãe, e os irmãos de Wendy chegaram a acreditar que ela era sua mãe de verdade. Na história de Trevayne acontece o contrário: ao invés de filhos precisando de mãe, é uma mãe que anseia por um filho, e tal desejo poderia ter um efeito catastrófico, exatamente por ser uma personagem com tamanho poder. Então, Trevayne, desde já te agradeço por ter contado esta história assim.

Eis a aventura de Jack, um menino adotado por Senhora de Londrinum e todo mundo conhecido, habitado por unicórnios, autômatos com alma e magos com braços mecânicos que invocam diabretes para lhes cortar o dedo e praticar a clarividência. Agora, é por sua própria conta e risco acompanhar Jack nessa bem venturosa jornada para longe e de volta à casa. Não posso ir com você além daqui.


P.S. para Noemi:
Quanto à minha própria mãe, espero que não se entristeça se souber que me anima lembrar daquele tempo de criança fujona. Não posso mentir que creio que a vontade de ir para longe seja algo bom, talvez uma virtude. Acho a experiência necessária para que se prospere no coração o valor da saudade. É uma maneira de nós aprendermos que não há lugar melhor do que com nossa família, e se o retorno não for possível, ou se mesmo não houver família que preceda a jornada da vida, que, numa sucessão infinita de tentativas que carregamos desde nossos ancestrais, sigamos adiante e fundemos o nosso próprio lar. É no que acredito.


Por Jonatas T.B.
Junho 2016

dezembro 20, 2015



Amanhece em Iléa. Durante o café, um universo de poses, aromas e impressões. Formalidades. E intrigas. O meu sonho é mais importante que o seu, querida, pensam as meninas. Como se alheios aos dramas de mais este dia, America e Maxon compartilham discretos sorrisos. E alguma cumplicidade. Você precisa de uma amiga. E eu posso ser essa amiga. E neste início de série você realmente torce pra que a amizade se transforme em amor. Mesmo já sabendo que toda história de princesa termina com um felizes para sempre. Mas o que diferencia A Seleção de inúmeras fábulas de realeza é a percepção de America, uma jovem cujo sonho era ter uma vida simples ao lado de seu primeiro amor, Aspen, mas que por uma imposição do Governo foi obrigada a interromper sua juventude para se candidatar ao ambicioso 'cargo' de Princesa de Iléa, junto com milhares de outras jovens de seu continente. E o que torna interessante esta narrativa é que America não se distancia de sua origem, mesmo quando neste jogo de regras desconhecidas, onde cada movimento pode trazer o bem ou o mal para si mesma, seu povo e sua família. Neste jogo, America entende que precisa escolher certo, ainda que a melhor reposta nem sempre seja a que o seu coração gostaria.

A Elite, segundo livro da série, traz para o cotidiano de America alguns novos personagens (e com eles alguns nocivos desafios) que por pouco não destruirão sua permanência no Jogo Real. E America sabe que poderá ser punida por sua impulsividade, especialmente quando o passado e o presente colidem. Como então descobrir qual história deverá ser escrita? O livro três da série, A Escolha, é que determinará quem permanecerá no jogo e no coração de America. E Kiera Cass soube conduzir esta narrativa com uma dose certa de fabulação e sonho, equilibradas com bons impasses de ética, crítica social e justiça, de modo a chegar em um desfecho de série curiosamente tumultuado, talvez para não esquecermos que até mesmo os "finais feliz de princesa" levam algum tempo para serem construídos. Moral da história? Ao término dos três livros America aprende que a mão do destino pode sim ser uma grande aliada, mas se não houvesse uma iniciativa de coragem, esforço e crença em seu melhor sentimento, suas decisões poderiam ter apagado a força daquele primeiro sorriso que, embora silencioso, era já bem mais iluminado que o amanhecer por entre as xícaras de chá e as frestas da cortina. 


Kiera Cass, A Seleção, Ed. Seguinte, 2012. 
A Elite, Ed. Seguinte, 2013. 
A Escolha, Ed. Seguinte, 2014. 

setembro 26, 2015


Depois de ler o poema hoje pensei que talvez eu queira ser escritora. Mesmo achando que nunca vá escrever um poema tão bom quanto o seu, talvez eu possa fazer algo com meus sentimentos, mesmo os de tristeza, medo ou raiva. Talvez ao contar as histórias, por pior que sejam, não deixemos de pertencer a elas. Elas se tornam nossas. E talvez amadurecer signifique que você não precisa ser uma personagem seguindo um roteiro. É saber que você pode ser a autora.  

(Carta a Elizabeth Bishop)



Terminei Cartas de Amor aos Mortos pensando se deveria escrever uma carta a autora ou a algum de seus personagens. Talvez não escreva, mas guardo do livro a ideia de que é preciso "conversar" com quem nos inspira, e neste diálogo descobrir o quê em nós que se identifica com os objetos de nossa admiração.

A história de Ava Dellaira é narrada por Laurel, uma estudante que compartilha seus dias em cartas destinadas a artistas como Kurt Cobain, Amy Winehouse e River Phoenix; artistas que em algum momento de suas carreiras não resistiram a pressão que o mundo lhes oferecia, e desapareceram, deixando um rastro de vida e obras incompletas. Laurel sabe que estes personagens não podem ouvi-la, mas será nesta cumplicidade da escrita que a menina aliviará o peso de seus dias, e seguirá vivendo.

E neste crescente de títulos do gênero sick-lit (a saber, uma literatura feita a partir da exposição de personagens muito jovens a traumas e dores quase irreversíveis), inquieta-me ainda seu principal enredo: O quão doente estamos? Ou melhor: O que em nós que (por tanta inadequação) dói demais e precisa de inúmeras páginas pra ser amenizado?

Não pretendo responder sobre as dores de nós-leitores e tampouco as deste gênero literário mas, dentre as obras que conheci (As Vantagens de Ser Invisível; Por Lugares Incríveis; Quase uma Rockstar), Cartas de Amor aos Mortos destaca-se por sua simplicidade, e por encontrar alguma beleza na maior das melancolias (que, no caso da personagem Laurel, resume-se a perda de sua irmã e a separação de seus pais - sendo estes também dois dos grandes "temas" da tal sick-lit).

Das cartas do livro, as destinadas a Kurt e Amy são das mais intensas pois, ainda que a partida destes tenha sido injusta para os que ficam, especialmente seus filhos, Lauren percebe que a dor é o que permite que pessoas que o mundo julga comuns criem obras infinitas, que perdurarão por muitas gerações: Amy, fazendo o que você fazia, você estava em todas as capas de tabloide. E do jeito que o mundo é hoje, com todo mundo acompanhando a vida de todo mundo e tentando ver tudo, isso muda a história. Isso transforma sua vida na versão que outra pessoa faz de você. E não é justo. Porque sua vida não pertencia a nós. O que você nos deu foi sua música. E sou grata por isso.

Ainda sobre a obra de Ava Dellaira, gostei da não-pretensão de Lauren, Hannah, Natalie e Sky, seus jovens personagens, cuja melhor história é a de sobreviver aos assombros familiares e encontrar alguma alegria nos pequenos prazeres da vida em uma cidade e vizinhança tão pequenas. Não há muito o que esperar, e justamente por ser o livro um relato de pequenas alegrias em meio ao assombro, devemos dedicar uma boa atenção ao que estes personagens nos dizem, afinal, toda vida tem dias assim, do tipo bem simples, longe de qualquer extraordinário, e fugindo a tudo o mais que nos consome. Cartas de Amor aos Mortos é então um retrato da escrita como ousadia (ou melhor, como ousadia da alma que dói), e será este breve-grande motivo o que o torna, em minha opinião, um bom livro.

E você, caro leitor, também já se identificou com algum livro escrito neste formato diário-carta? Conta pra gente :)




Algumas referências:

Nirvana - In Utero
Amy Winehouse - Rehab
Jim Morrison - Light my Fire
River Phoenix - Filme Stand my me 


Cartas de amor aos mortos
Ava Dellaira

SP: Ed. Seguinte, 2014

Prestes a começar o ensino médio, Laurel decide mudar de escola para não ter que encarar as pessoas comentando sobre a morte de sua irmã mais velha, May. A rotina no novo colégio não está fácil, e, para completar, a professora de inglês passa uma tarefa nada usual: escrever uma carta para alguém que já morreu. Laurel começa a escrever em seu caderno várias mensagens para Kurt Cobain, Janis Joplin, Amy Winehouse, Elizabeth Bishop… sem nunca entregá-las à professora.
Nessas cartas, ela analisa a história de cada uma dessas personalidades e tenta desvendar os mistérios que envolvem suas mortes. Ao mesmo tempo, conta sua própria vida, como as amizades no novo colégio e seu primeiro amor: um garoto misterioso chamado Sky.
Mas Laurel não pode escapar de seu passado. Só quando ela escrever a verdade sobre o que se passou com ela e com a irmã é que poderá aceitar o que aconteceu e perdoar May e a si mesma. E só quando enxergar a irmã como realmente era - encantadora e incrível, mas imperfeita como qualquer um - é que poderá seguir em frente e descobrir seu próprio caminho.

“Uma história brilhante sobre a coragem necessária para continuar vivendo depois que nosso mundo desmorona. Uma celebração comovente do amor, da amizade e da família.” - Laurie Halse Anderson, autora de Fale!