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abril 30, 2017


Angus - Da Barbárie à virtude

“Os bretões vieram para a Bretanha na terceira era do mundo; e na quarta, os escotos se apoderaram da Irlanda. Os bretões, que, por não contarem com eventuais hostilidades, estavam desprovidos dos meios de defesa, foram atacados hostil e incessantemente tanto escotos do oeste como pelos pictos do norte.
- Como assim? Eles nunca resistiram?
- Tentavam resistir, mas a ferocidade dos pictos e escotos era sem igual.
No entanto, e preciso lembrar que também houve a fase de dominação de um povo muito poderoso, os romanos, de que tu com certeza já ouvistes falar.”

Há certo tipo de história cuja intensidade do enredo e a solidez afiada de ideias emergem feito iluminuras vítreas por trás de nossos olhos, como se de algum modo sempre estivessem escondidas por lá. De repente, a lâmina escapa desse prisma e simplesmente nos corta. No lugar do ferimento se abre uma trilha íngreme que nos eleva à compreensão de coisas tão essenciais, como, por exemplo, a brutalidade do mundo natural, nossas raízes familiares e até as virtudes necessárias para que deixemos de ser meras individualidades a mercê no cosmos ou animais sociais cuja existência se sedimenta no tempo. Para além de toda margem da dúvida, posso finalmente aqui afirmar que “Angus, O Primeiro Guerreiro”, de Orlando Paes Filho, é uma bela iluminura de sangue, aço e espírito. Assim, comparo cada palavra escrita com as pinturas feitas pelo próprio autor para esta edição: a narrativa ambientada durante a Alta Idade Média pulsa feito ferro sob marteladas em uma forja.

Pelo ano de 545 D.C., Columba, um monge eremita, atravessa belas e perigosas paragens bretãs para reunir-se com sete mais importantes druidas. Diante de todos, as cortinas do inferno se abrem e desvelam a profecia que lançaria o mundo ao seu fim através das forças “do-olho-que-tudo-vê. E para se evitar o triunfo do mal, na mesma visão pulula em meio a névoa uma espada a ser forjada por aqueles druidas conhecedores da nobre arte. Após o prólogo, somos arremessados diretamente no olho do tornado das invasões vikings que atormentaram a Europa, no ano de 865 D.C. Sob o olhar do jovem Angus, de apenas 16 anos, testemunhamos a voracidade e violência de povos nórdicos, cujo sustentáculos do seu governo são a guerra, a pilhagem e a comercialização de escravos com povos de tradição escravagista, como os médio orientais.

“Era muito bom ver o contentamento daquela gente. Mães reencontrando filhos, pais quebrando grilhões de crianças e jovens, antes nuas em pêlo, agora vestidas por seus companheiros. E todos, felizes em seus trapos, em um farrapo de vida recuperada, apesar de sua existência ter sido transformada em frangalhos por Ivar e seu filho bastardo, choravam copiosamente de alegria. Sim, eles estavam felizes, pois os barcos que aquelas famílias agora terminavam de construir e os outros que tinham conseguido recuperar eram os mesmos que os iriam levar, dentro de alguns meses, num futuro próximo e até havia pouco inevitável, para os mercados mouros e hebreus, onde seriam vendidos como animais, onde as mulheres seriam prostituídas, onde as crianças seriam açoitadas e onde os homens competiriam com os cavalos, executando trabalhos pesados até a morte.”


Nesta história, o sangue não nutre apenas as sensações do leitor ávido por batalhas mortais, mas nos conduz também por uma dura trilha de elevação espiritual. Seawulf, pai de Angus, tomara como esposa uma mulher cristã pertencente ao povo picto, consagrando o jovem à dupla herança familiar. É de Seawulf que ele aprende as primeiras lições sobre vida e morte, honra e sensatez. A prova de maturidade de Angus será a guerra. Seawulf e sua tribo foram convocados à conquista da ilha bretã, conduzidos por Ivar, apelidado de “o sem ossos”, cujo pai fora jogado em um poço com serpentes. A estratégia do guerreiro de sangue de gelo se afirma como contraponto às ações impulsivas e desordenadas dos berserkers e outros jarls (líderes guerreiros). Suas decisões precisas o tornam essencial na conquista de cada cidade.

“Mas Ivar estava no auge de sua ferocidade. Ou crueldade, eu diria. Seus berserkers pareciam tomados pelo efeito de cogumelos. Aquelas "camisas de urso", assim chamados por que costumavam se vestir com a pele desses animais, devoravam os habitantes da cidade como se fossem relva. Crianças eram arrancadas do seio das mães e seus corpos atirados contra as rochas que se transformavam em suas sepulturas, enquanto as mães eram massacradas e lançadas sobre os corpos ainda trêmulos dos filhos.”

O comportamento de Seawulf e seus subordinados, aos poucos, se distingue dos demais, como água em gordura. Enquanto os primeiros atentam a um primitivo bom senso, a cada conquista dos povoados e castelos, os outros bárbaros espalham o horror por pura vontade. Crianças e mulheres, todas mortas sem distinção. Uma trilha de corpos fatiados e catapultados para atemorizar o inimigo. Para mim, o cume da violência se deu em um ritual chamado águia de sangue, descrito de forma magnífica, mas que, de tão viva a cena, não ouso transcrever aqui. Então, por impor-se explicitamente contra os métodos de Ivar, é considerado como ameaça pelos próprios pares.

“Crianças choravam perdidas no meio dos destroços carbonizados daquilo que tinha sido seus lares. Corpos mutilados espalhavam-se pelo chão. A maioria não tinha tempo de se defender, e os que tentaram foram todos retalhados. Agora, os lobos humanos buscavam mulheres. Os gritos e choros deles enchiam o ar, me inundando de apreensão.”

Angus descobre que o mundo governado sob a égide das forças naturais é tão frio e cortante quanto o aço, e a única forma de resistir e ordenar tais forças é elevando o espírito em direção à virtude. Às portas da morte, o jovem guerreiro é salvo pelo monge Nennius. Ele é o responsável pelo ensino de cada virtude, em oposição às fraquezas que amaldiçoam o homem. Pessoalmente, o capítulo seis (A Abadia de Nennius) é o espírito de toda obra. Ali, um velho monge leva um jovem bárbaro à reflexão profunda acerca do propósito de sua vida, munindo-o com sabedoria necessária para tornar-se de fato um nobre guerreiro.


“Depois de dizer essas palavras, que, mais do que um ensinamento, pareciam uma ordem ou uma sentença, Nennius retirou-se calmamente. Era como se tudo ao redor, a pacífica capela, os monges com seu andar simples, os pássaros, o vento que soprava assobiando e acariciando os galhos das árvores, as montanhas firmes e longínquas, como se tudo tivesse ficado envolvido por suas palavras. E não só a natureza ficou. Eu também me vi tomado por toda aquela sabedoria.”

Por fim, confesso que nunca imaginaria me ver a considerar Angus uma obra original. Não no sentido de novidade, obra nunca vista, inventiva, ou algum ponto de partida germinal. Há nesta história evidente esforço em contar algo mais importante. Uma história que haverá de ser contada mesmo se for esquecida, como se a escrita escavasse a terra à procura da raiz mais profunda da árvore mais antiga. Tal qual Robert Ervin Howard, ao salientar o inequívoco conflito entre civilização e barbárie em sua série Conan, Orlando Paes Filho, a meu ver, demonstra de forma patente a transformação da brutalidade natural para a nobreza excelsa em que homem toma sua responsabilidade de guerreiro.

Orlando Paes Filho certamente é um autor de respeito, não só pela consistência histórica, fruto de evidente longa pesquisa, ou pelas belíssimas ilustrações feitas pelo próprio autor, mas também pela ousadia e crueza com que nos conta. Reitero que a narrativa flui com o vigor de um martelo modelando o metal bruto a torná-lo uma espada.

P. S.: Além da série Angus e spin-offs, os leitores poderão encontrar jogos de RPG e a trilha sonora para ambientação da série, produzida pelo próprio autor. 


Angus - O Primeiro Guerreiro
Orlando Paes Filho


Bretanha, ano de Nosso Senhor de 863. Cidades e monastérios são deitados ao chão. Os invasores fazem frente aos maiores reis da Bretanha, tudo se torna árido pela devastação. A morte se espalha por toda parte. Mas há um guerreiro de nome Angus MacLachlan, que não

parece tombar diante dos ataques daneses. Ele não se curva aos dominadores nórdicos. Parece abençoado, luminoso, assim como luminosa é sua espada a espalhar cadáveres dos invasores.
Ele parece libertar os cativos e propor uma nova resistência. Ele parece unifi car reis. Um oponente terrível contra a invasão, que tenta destruir a Bretanha e seus reinos para sempre

Angus - O Primeiro Guerreiro é o início de uma trilogia medieval ricamente ilustrada, que mistura literatura fantástica com importantes fatos históricos da humanidade.

março 26, 2017



“Aqui, digo, pressionando meu punho cerrado nas costelas dela.
E aqui, com a mão em seu esterno.
Dou a ela a mesma instrução que me fora dada pela minha mãe.
É a linguagem do saber da criança,
Linguagem esta tão antiga quanto o próprio universo.
É o ver sem olhos,
E ouvir sem ouvidos.
Foi assim que minha mão sobreviveu naqueles primeiros anos.
Como sobrevivemos agora.
Confie na força que existe dentro de você.
E, um dia, você deverá ensinar sua filha a fazer o mesmo.”
(Os últimos Testemunhos de Gaudrel - Pág.182)


Tive o prazer de ler The Heart of Betrayal, o segundo volume de Crônicas de Amor e Ódio, uma emocionante saga romântica narrada em um universo fantástico criado por Mary E. Pearson. O livro continua a história sobre fuga de Jezelia, agora capturada por Kaden, o assassino e lado direito do Komizar que reina as terras bárbaras e estéreis de Venda. Lia (como prefere de ser chamada) é humilhada diante dos líderes de outras províncias, a despeito das tentativas de Kaden protegê-la, chegando até a ser vestida com sacos de tecido. Quando o assassino é questionado por que não a matara antes, ele argumenta que a princesa possui o precioso Dom, mas no fundo não tirara sua vida porque estva apaixonado.

A situação do príncipe Rafe, para quem tinha sido prometida a mão de Lia em casamento, também não é das mais vantajosas. Temendo que acontecesse, entregou-se disfarçado de emissário do Reino de Dalbreck para ficar mais próximo possível e proteger sua futura esposa. No entanto, Lia finge estar submetida aos desejos de Kaden, ganhando aos poucos liberdade para transitar e conhecer o reino.

Apesar de pertencer a um reinado inimigo, Lia tem a simpatia quase que instantânea do povo, seja por apreciarem a forma como conta as histórias de Morrighan, sua terra natal, ou pelo fato de ter o mesmo nome de uma personagem messiânica pertencente ao folclore das regiões mais distantes de Venda, uma mulher também chamada Jezelia. Dia a dia a jovem descobre que há muito mais nobreza do que imaginava nos ritos e costumes daquele povo bárbaro, ainda que vivessem de pilhagem e a liderança fosse sucedida com base na espada. Conforme investiga os corredores escuros e passagens secretas do Sanctum (a principal cidadela de Venda), descobre seus segredos místicos e aparições enigmáticas, provando-se a si que os antigos mitos de origem são algo mais que lendas, são uma realidade cujo destino de Lia não se poderá discernir.

Assim como o primeiro livro da série, a narrativa é em primeira pessoa alternando-se em alguns capítulos para o ponto de vista de outros personagens como Kaden e Rafe. Então, são evidentes os sentimentos e conflitos internos, o que pessoalmente me causou certa angústia, pois eu sabia claramente os objetivos dos personagens e que entrariam em conflito logo adiante. Por exemplo, as pretensões de Rafe em oposição às de Kaden pelo amor de Lia. Sempre imaginava como seria o desfecho provavelmente trágico deste impasse amoroso.

Esse novo volume é um verdadeiro jogo de engano e mentiras, cujos jogadores muitas vezes arriscam suas vidas por mero orgulho. É também um cenário grandioso a ser explorado, um mundo fantástico com a mesma proporção dos inúmeros mistérios que povoam cada floresta e corredor sombrio. Se você aprecia essas características em uma história, The Heart of Betrayal será uma ótimo opção.

Características físicas do livro: A capa dura possui arte e impressão caprichada. O design e a tipografia são bem agradáveis. Gosto muito do mapa que nesta edição está na cor vermelha-sangue. O papel é bem leve e resistente, o que facilita na leitura quando estiver deitado. Acabamento excelente, como tudo que já li da editora Darkside até hoje.


Abaixo, sinopses do segundo e terceiro volumes da série:


The Heart of Betrayal 
Mary E. Pearson

A série Crônicas de Amor e Ódio, iniciada com THE KISS OF DECEPTION, virou a queridinha dos leitores mais apaixonados. Encantou os fãs de fantasia do mundo todo - e pegou os brasileiros pelo coração.

A história de Lia inspirou muitos leitores a embarcarem em uma jornada extraordinária repleta de ação, romance, mistério e rivalidade, pintados em um universo deslumbrante criado pela premiada escritora Mary E. Pearson, que consegue - como poucos - erguer um mundo poderoso e repleto de personagens cativantes.


The Beauty of Darkness
O volume final da fantasia que arrebatou os leitores brasileiros

A trilogia Crônicas de Amor e Ódio chega ao fim de maneira arrasadora. Iniciada em The Kiss of Deception, a série encantou os fãs de fantasia - e conquistou os corações dos brasileiros.

A história de Lia inspirou muitos leitores a embarcarem em uma jornada extraordinária repleta de ação, romance, mistérios e autoconhecimento, em um universo deslumbrante criado pela premiada escritora Mary E. Pearson, onde o poder feminino é a força motriz capaz de mudar e fazer toda a diferença no novo mundo em construção.
março 23, 2017

- Eu posso levar-te mais longe que um navio, disse a serpente.
Ela enrolou-se na perninha do príncipe, como um bracelete de ouro:
Aquele que eu toco, eu o devolvo à terra de onde veio, continuou a serpente. Mas tu és puro. Tu vens de uma estrela ...
O pequeno príncipe não respondeu.
- Tenho pena de ti, tão fraco, nessa Terra de granito. Posso ajudar-te um dia, se tiveres muita saudade do teu planeta. Posso ...
- Oh! Eu compreendi muito bem, disse o pequeno príncipe. Mas por que falas sempre por enigmas?
Eu os resolvo todos, disse a serpente.
E calaram-se os dois.
 

Há pouco mais de um ano Rebeca me concedeu a oportunidade de escrever com toda liberdade resenhas a respeito de livros que de algum modo preencheram positivamente minha vida. Confesso nunca ter sido fã de resumir ou criticar ou descrever qualquer coisa de maneira objetiva feito resenhas, mas, como aqueles que acompanham Papel Papel há tempos já sabem, notei que havia algo de diferente nos textos do blog, uma qualidade especial na forma como se transmitia as ideias, algo que ia para além de aparente pessoalidade e autenticidade almejados por tantos outros. Algumas vezes acontecia de maneira sutil, outras explicitamente, mas era evidente, pois sempre me deparava com teor poético raro neste tipo de texto, o que me fez perceber não se tratar apenas de resenhas comuns, mas de pequenas peças que expressavam exatamente aquilo que uma obra de arte essencialmente pretende ao encontrar conosco: a beleza.

Isso me encorajou a escrever. Tudo que escrevi desde então foi tentativa de imitar e reproduzir o mesmo teor poético dos textos do Papel Papel. Uma das minhas maiores felicidades foi a resenha sobre O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. “Antoine de Saint-Exupéry retorna ao deserto”. Além de ser o texto que mais gosto, depois de tê-lo escrito, recebi um convite de Rodrigo Ferreira para participar no site Nerd Geek Feelings. Entre tantas pessoas talentosas, lá conheci um sujeito com voz de galã chamado Sérgio Silva. Ele é muito importante nesta história porque foi ele quem deu vida produzindo versões em áudio de uma resenha sobre a HQ Soppy (Phillippa Rice) e uma adaptação em HQ de Coração das trevas (Conrad). E é este sujeito com voz de galã que também deu vida ao texto “Antoine de Saint-Exupéry retorna ao deserto” que vocês poderão ouvir.



 Escute a versão narrada da resenha de O Pequeno Príncipe feita em parceria com o Vooozer
uma plataforma de áudio criada para dar voz a internet.
Aperte o play, escute o áudio e dê sua opinião nos comentários :)


De certo modo esta postagem é uma carta pública de agradecimento a todos que participam do Papel Papel (Bruno Fraga, Regiane, Rafa Vieira, Giselle Passos , Rebeca) e do Nerd Geek Feelings (Raquel Pinheiro, Midian Araújo, Mariane Kelczeski, Sofia Maia, Gustavo Almeida e Emanuel Victor, Rodrigo Farias, Sérgio Delduque, Tatiana Stefani, Luiz Alexandre Andrade). Espero que apreciem esta pequena confissão sobre as inúmeras experiências maravilhosas em nossa jornada pelo universo da literatura.

Um forte abraço a todos!
Jonatas

fevereiro 14, 2017





Lá e de volta a minha vez


John Ronald Reuel Tolkien.

Ouvi esse nome pela primeira vez quando tinha pouco mais de quatorze anos. Um amigo de escola me falou que era um autor de livros sobre de aventuras com monstros e guerreiros em um mundo medieval habitado por um monte de povos com suas próprias culturas e línguas. Naquela época já tinha metido na cabeça a ideia de que gostava de escrever, então, interessado no que meu amigo havia dito, no dia 11 de setembro de dois mil e um adquiri uma edição de capa azul de O Hobbit, publicado pela Martins Fontes. Tal qual o hobbit Bilbo Bolseiro, que um belo dia foi chamado para a maior aventura de sua vida, ao abrir aquelas páginas e me deparar com aquele monte de mapas e runas mágicas, mal sabia que eu nunca mais seria o mesmo.

Um longo tempo passou e infelizmente perdi aquela edição azul. Mas no final do ano passado a sorte me saudou. Rebeca me presenteou com uma nova edição em capa dura, também publicada pela Martins Fontes. Saiba você que retornar àquela confortável casa com uma vista fabulosa e receber novamente uma visita inesperada de treze anões a convidar Bilbo para sua caça ao tesouro foi, de algum modo, como encontrar o mesmo adolescente sem propósito algum na vida de 11 de setembro de dois mil e um. As mesmas runas da Lua gravadas no mapa; o mesmo mago Gandalf deixando uma marca na porta; o mesmo fresco fascínio em cada centímetro de floresta e grutas escuras por onde passei. Reler O Hobbit foi como se pudesse sorrir, acenar para aquele tolo Jonatas do passado e agradecer: “ei, garoto. Continue assim. É o caminho certo!” Se eu pudesse dar um novo sentido ao título Lá e de volta outra vez, seria, sem tirar uma vírgula, precisamente esse. É o que o precioso O Hobbit significa para mim.

Talvez isso aconteça com você, acaso algum dia leia O Hobbit pela segunda ou terceira vez, mas se não acontecer, estou certo de que, mantendo os sentidos acesos em sua jornada, poderá ouvir a água negra estalando entre as pedras enquanto aranhas, orcs e um Gollum espreitam nas trevas, e se sentirá aliviado por um sortudo Sr. Bolseiro portar O Anel de invisibilidade mantendo-os sempre seguros, apesar de exaustos e molhados. Poderá até ouvir o assobio do vento que sopra acima das Montanhas Cinzentas enquanto o Senhor das Águias os carrega para o alto. E muitas vezes, assim como Sr. Bolseiro, desejará estar em casa frente à lareira de estômago forrado, lamentará tão arrependido de ter dado ouvidos ao Mago Cinzento. Acredito que O Hobbit exerça todo esse poder porque, no fundo, em cada folha de cada árvore, até nas minúsculas faíscas de choque de espadas e, não nos esqueçamos, nos anéis coloridos de fumaça soprados pelo cachimbo a subir e desaparecer por trás da Colina, essa obra guarda fagulhas da vida de um Tolkien de verdade, uma vida de verdade.

Poucas vezes assumi que amei de fato algo ou alguém, e resisto mais ainda em dizer que amo coisas e histórias, por mais profundamente me tenham tocado. Entretanto, após este segundo encontro seria desonroso além de muito injusto afirmar que, ao final desta viagem, O Hobbit me foi meramente um livro que li duas vezes. Não só por todas as verdadeiras lições sobre praticidade e simplicidade, amizade e perseverança, pelo perigo da ganância que o ouro fomenta no coração humano ou élfico, de anões ou dragões, poucas ou nenhuma história batem a nossa porta duas vezes e nos conduzem a maravilhosas viagens assim. Imagino que Tolkien fosse uma pessoa que não dizia nada por mera casualidade. Gostaria muito que ele soubesse que, ao final, nenhuma palavra foi em vão. Não sei se algum dia terei essa oportunidade, então, quando for a sua vez, acaso o encontrem passeando pelo Condado, peço a você que se lembre no meio de um chá ou um bom fumo, e diga por mim. Eu agradeço.



Sinopse - Os hobbits são seres muito pequenos, menores do que os anões. São de boa paz, sua única ambição é uma boa terra lavrada e só gostam de lidar com ferramentas manuais. Este livro tem como personagem central o hobbit Bilbo Bolseiro. Ele vive muito tranquilo até que o mago Gandalf e uma companhia de anões o levam numa expedição para resgatar um tesouro guardado por Smaug, um dragão enorme e perigoso.

Sobre o autor - J. R. R. Tolkien nasceu em 3 de janeiro de 1892. Teve uma longa e ilustre carreira acadêmica, porém se tornou mais conhecido por suas extraordinárias obras de ficção, O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion. Em 1972, Tolkien foi agraciado comotítulo de Comendador do Império Britânico e com o de Doutor honoris causa em Letras pela Oxford University. Seus livros foram traduzidos para mais de 30 idiomas e venderam mais de 50 milhões de exemplares no mundo todo. Tolkien faleceu em 2 de setembro de 1973, aos 81 anos.
novembro 25, 2016

"Agora sabia finalmente o que era necessário fazer. Só um filho do homem, um habitante do mundo que ficava para além de Fantasia, podia dar um novo nome à imperatriz Criança. Tinha de encontrá-lo e de levá-lo até junto dela.

Levantou-se de um salto.

"Ah", pensou Bastian, "eu gostaria tanto de ajudá-la — a ela e também a Atreiú. Com certeza eu poderia inventar-lhe um nome maravilhoso. Se ao menos soubesse como chegar junto de Atreiú! Iria imediatamente. Como ele iria ficar espantado se eu lhe aparecesse de repente! Mas infelizmente isso não é possível... Ou será?"


Breve mapa das fronteiras entre histórias e memórias

Quanto maior a precisão com que uma história atinge o núcleo de nosso ser, maior é a dificuldade em se expressar qualquer impressão sobre ela. É como ter uma fenda aberta na pele por uma flecha que atinge a alma. Num piscar de olhos você paralisa com o que lê, fica inerte, vítreo feito poça de água refletindo nuvens. Pisca mais uma vez na tentativa de compreender o que o atingiu. Mas ao ler a próxima linha, outra flecha. E outra, depois outra, cada frase é um novo golpe, sucedendo-se tantas que agora parece não se tratar mais de uma história. É como se nela você percebesse sua própria vida paralisada no tempo. Naquele enxame agudo de palavras, a história indefinidamente nos vira do avesso, acabamos por nos perceber os nossos olhos voltados para as páginas, e aquela mesma nuvem refletida na poça termina por imitar as formas tênues do seu espírito preso entre seus dedos e a folha de papel.

Acho difícil falar de maneira sóbria sobre História Sem Fim, de Michael Ende. Lembro-me da primeira vez que vi a edição da Martins Fontes numa livraria Saraiva do Centro da Cidade. Não era possível comprá-lo. Aquele exemplar custava em torno de oitenta reais, caro para um adolescente que não tinha dinheiro nem para calças novas. Passaram-se anos até que o reencontrasse, - a obra que seria das mais importantes para mim. Quando criança a adaptação cinematográfica homônima me cativou. O desejo pelo livro ora adormecia, ora sonambulava. Não tinha a mínima noção do que estava por vir. Sempre que me metia em sebos fuxicava nas prateleiras. Era mais um dentre tantos Bastian Baltasar Bux, gordos de uns onze ou doze anos, abrindo a porta e tocando o sininho da livraria, de corpo ensopado e com muitos problemas na escola. Mas diferente dele, não furtei História Sem Fim nem fugi para o sótão da escola para lê-lo. Simplesmente esqueci que a buscava.


O exemplar do qual falo foi o mesmo que encontrei anos atrás, o mesmo História Sem Fim original, escrito por Michael Ende em alemão. Pode parecer estranho, mas é exatamente o mesmo traduzido para a língua portuguesa e publicado pela Martins Fontes, o mesmo que durante quatro noites insones eu li, e o mesmo exemplar que Bastian leu durante o tempo que poderia ser a metade de um dia ou, literalmente, o início e o fim de um mundo inteiro. Uma história dentro de outra história. Comunicando-se infinita e ciclicamente.

Ouviu-se de novo o soluçar da voz que, cantando, se afastava cada vez mais:  

"O Nada vem chegando
E o Oráculo vai-se calar.
Não mais este som pairando
Tu poderás escutar.
De todos os que vieram
Ao pétreo bosque de esteios,
E minha voz escutaram,
Hás de ser o derradeiro.
É possível que consigas
O que ninguém conseguiu jamais.
Para isto o que te cantei precisas
Guardar, e não esquecer nunca mais!"

E depois, a uma distância cada vez maior, Atreiú ouviu de novo as palavras:
"Tudo uma vez
apenas acontece
e é dessa vez que deve suceder.
Longe, lá onde o campo floresce,
devo morrer e desaparecer..."

A edição que tenho em mãos não me pertence (por enquanto). Na verdade, o livro me foi emprestado e, tal qual Atrieú, que teve sua caça ao búfalo púrpura interrompida por Cairon, o mensageiro metade homem e metade zebra, fui presenteado igualmente por minha mensageira. Obviamente não era o distintivo feito de duas cobras, uma clara e outra escura, ambas mordendo a cauda da companheira, o Aurin, o brilho, a joia, ou Pentáculo, como também era conhecido. Diferente da insígnia enviada pela Imperatriz criança, minha mensageira tirou do envelope feito de papel manteiga uma delicada medalha, também trazida de um lugar muito muito distante, tão distante que suspeito que seja o próprio centro do mundo - obrigado. Foi como o instante em que Atreiú viu Bastian através da porta de espelho, a flecha mais poderosa me atingiu. Entendo agora a minha importância naquele movimento, e da importância do movimento que história provocou em mim.

Mas as surpresas não cessaram. Quando criança, os cães cocker spainel eram meus favoritos, justo porque pareciam com o Dragão da sorte Falkor do filme. Por sorte tive o prazer de possuir dois da raça –  o de pelo negro chamado Joel, já falecido, e Judas. No livro o Dragão da sorte é Fuchur e não Falkor, e há diferenças como a sua cabeça parecer a de leão e a voz repicar igual a um sino. Mas ambos, fosse dragão do filme ou livro, piscam da mesma forma que Joel piscava para dizer que tudo ia terminar bem.


Estava à espera de ver no espelho qualquer imagem terrível e assustadora de si mesmo, como o advertira Enguivuck, mas agora que tinha deixado o medo para trás, isso lhe parecia irrelevante. 

Porém, em vez de uma imagem aterradora, viu uma coisa para a qual não estava preparado e que também não podia compreender. Um rapaz gordo, de rosto pálido — aproximadamente da mesma idade que ele — sentado de pernas cruzadas sobre uma cama feita de colchões amontoados, lendo um livro. Estava embrulhado em um velho cobertor cinzento, todo rasgado. Os olhos do rapaz eram grandes e tinham uma expressão muito triste. (...) 

Bastian estremeceu ao compreender o que acabava de ler. Era ele! A descrição coincidia em todos os detalhes. O livro começou a tremer em suas mãos. Decididamente, aquilo estava indo longe demais!

Ainda me sinto um pouco zonzo ao tentar contar com precisão a respeito. Poderia continuar relatando por incontáveis eras sobre as memórias que encontrei nos subterrâneos de Fantasia, sobre os poemas que cantam o fim dos sonhos e da esperança recitados pela voz do silêncio (ou Uiulala), mas prefiro que você mesma ouça a voz e descubra seu caminho para lá. Desejo do fundo daquele ponto atingido pela ponta da flecha que você vislumbre por si, e testemunhe sua história sem fronteiras caber em algo tão pequeno quanto uma semente de trigo. E a floresta que dela germina se tornar um deserto de dia, para florescer novamente enquanto ainda pudermos sonhá-la por todas as noites.



P. S.: Quase me esqueci de falar das incríveis ilustrações que introduzem todos os vinte e seis capítulos do livro. São letras capitulares, fontes góticas acompanhada de cenas do próprio capítulo. Se você prestar a atenção entenderá porque o número capítulos é o mesmo que o de letras do alfabeto. Mas deixo esse mistério para que descubra por conta própria.

outubro 11, 2016




Parte um – Por uma chave sem porta

“De que tamanho você quer ser?” perguntou. “Oh, não faço questão de um tamanho certo”, Alice se apressou a responder; “só que ninguém gosta de ficar mudando toda hora, sabe.”
“Eu não sei”, disse a Lagarta.

Esta não foi a primeira vez que acompanhei a pequena Alice através da toca do coelho. Nem foi a última que mergulhei com ela no abismo repleto de móveis e peças de chá. Há muito tempo meu pai alugou uma fita VHS, a versão clássica da Disney. Depois que o terminei, me foi deixada certa reminiscência que me fez experimentar a viagem pela segunda vez. Por volta dos quinze anos uma amiga pegou (ou roubou, se não me engano) o livro da biblioteca para me emprestar. A tradução era ruim, e eu, péssimo leitor. Tropecei nas palavras e deixei montes de buracos pelo caminho da leitura. Entretanto, uma coisa que nunca mais esqueço, foi aquele sorriso de gato em meia lua não saía de minha cabeça. Não conseguiria jamais abandonar a curiosidade que a história me despertava.

Foram necessários sessenta e sete anos mais quatro até a chegada da semana passada até que eu pudesse encontrar Alice pela última vez. Era a edição de bolso ilustrada da editora Zahar que li num piscar de olhos. Na verdade foi o piscar mais longo da minha vida. Durou dois dias. Não encontrei nada diferente da primeira ou da segunda viagem que fiz, mas também não encontrei nada igual. Pensei que, no início, os animais dançariam feito lagostas ao redor da pedra para se secar do mar de lágrimas, e estava correto. Eles recitaram um poema e deram uns passos ensaiados, mas não se molhavam como lembrava.

Talvez você não tenha vivido muito tempo no mar…” (“Nunca”, disse Alice),
“…e talvez nunca tenha sido apresentada a uma lagosta…” (Alice ia começando a dizer “Provei uma vez…”, mas engoliu a língua mais que depressa e disse: “Não, nunca”) “…então não pode imaginar que coisa deliciosa é uma Quadrilha da Lagosta!”
“Realmente, não”, disse Alice. “Que espécie de dança é essa?”

Dali continuei.

Entrei no bosque e cresci e estiquei e encolhi e fiquei preso em uma casa com chaminé.

É o que acontece se não voltamos pelo caminho que chegamos e não temos a chave da porta de entrada. Você vira do avesso e o País começa a morar em você. O lado de dentro da sua cabeça fica maior do que deveria. Então, num piscar de olhos, você não está mais caminhando ao passo de Alice, mas depara a si mesmo infundindo chá como louco, levantando a mesa com a Lebre de Março e correndo ao redor da casa atrás do tempo perdido. Quando avista Alice ao longe, oferece uma toalha ao invés da torrada e um lugar à mesa para ouvir uma história sobre nada.

“Alice suspirou, entediada. “Acho que vocês poderiam fazer alguma coisa melhor com o tempo”, disse, “do que gastá-lo com adivinhações que não têm resposta.”
“Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu”, disse o Chapeleiro, “falaria dele com mais respeito.”

Ao fim de agora, depois do último passo, com Alice perdida em nossa mente, vamos ter de continuar o caminho além do baralho. O próximo lance é o degrau sobre a lareira. Há um jogo de xadrez em cima da mesa do lado oposto no espelho. Neva lá fora, mas está quente no interior do reflexo invertido. Quando chegarmos ao nosso próximo encontro, você verá. Alice de Carroll nos mostrará que as flores discutem tanto quanto um leão com um unicórnio, e nos explicará quantas casas com jardins infinitos ao redor de uma colina cabem em um tabuleiro.

http://www.zahar.com.br/livro/alice-edicao-comentada-e-ilustrada-0

Parte dois – Do jogo sem peças

“É uma partida de xadrez fabulosa que está sendo jogada… no mundo todo… se é que isso é o mundo. Oh, como é divertido! Como eu gostaria de ser um deles. Não me importaria de ser um Peão, contanto que pudesse participar… se bem que, é claro, preferiria ser uma Rainha.”

Eu era pequeno, mas tinha altura o suficiente para subir na cadeira e apanhar o espelho pendurado na parede do quarto. Depois, ficava por horas tateando o reflexo. Tentava desvendar com os dedos o que havia além da superfície oval, imaginando que, se tivesse sorte, poderia tocar nem que fosse por um segundo as coisas maravilhosas que existiam por lá. Mexia a cabeça para esquivar do meu inverso, investigando os objetos imersos naquele imenso lago sem profundidade. Parecia mais um vizinho fofoqueiro espiando por cima do muro. Se pudesse comparar, diria que era curiosidade semelhante a de Alice quando chegou do outro lado do seu próprio espelho.

Segundo Carroll, ela era pouco mais velha do que eu e teve de subir em uma lareira. Nevava lá fora. A gata Dinah dava banho em seus filhotes e a mocinha prosseguiu do jeito que se faz quando se passa pela janela de um lago. A princípio o outro lado era exatamente igual ao nosso, só que ao contrário, com rainhas e reis e peças sobre a mesa ao invés de gatos no assoalho. Quando decidiu ir adiante, Alice não tinha mais para onde encolher ou crescer e o mundo todo era um grande tabuleiro de xadrez com sessenta e quatro casas. Nada mais. Percebi que desta vez tudo era absolutamente mais claro e preciso do que no País das Maravilhas. Ouso dizer que consegui diferenciar mosquitos, árvores e ovos com pernas e braços em cima do muro, coisas que me deixariam confuso se estivessem na terra da Rainha de Copas.

“Receio que pegue um resfriado, deitado assim no capim úmido”, disse Alice, que era uma menininha muito atenciosa.
“Agora está sonhando”, observou Tweedledee. “Com que acha que ele sonha?”
Alice disse: “Isso ninguém pode saber.”
“Ora, com você!” Tweedledee exclamou, batendo palmas, triunfante. “E se parasse de sonhar com você, onde acha que você estaria?”
“Onde estou agora, é claro,” respondeu Alice.
“Não, não!” Tweedledee retrucou, desdenhoso.
“Não estaria em lugar algum. Ora, você é só uma espécie de coisa no sonho dele!”
“Se o Rei acordasse”, acrescentou Tweedledum, “você sumiria… puf!… exatamente como uma vela!”


No outro lado do espelho eu não me perdi. Se fosse cego ou tivesse raízes no lugar das pernas jamais me perderia, pois lá não havia caminho diferente do movimento de peças. Neste caso, Alice era um peão. Movia-se como um peão, apesar de continuar se portando como Alice. Segundo a promessa, se chegasse ao final do jogo, não seria mais um peão, seria a nova rainha. Acredito que Carroll tenha ficado um pouco triste com isso. As rainhas, em teoria, são pessoas educadas para se distanciarem de pessoas comuns nos dias comuns, e ainda mais quando têm algo importante para fazer. Creio que por isso Carroll nunca mais nos escrevera nada de singular sobre as aventuras de Alice.

“O Leão olhou para Alice enfadado. “Você é animal… vegetal… ou mineral?” disse, bocejando entre uma palavra e outra.
“É um monstro fabuloso!” o Unicórnio gritou, antes que Alice pudesse responder.
“Então sirva o bolo de passas, Monstro”, disse o Leão, deitando-se e pousando o queixo sobre as patas.”


Ou talvez eu esteja errado. Pensando melhor, talvez Carroll não tenha escrito mais sobre Alice porque sabia que nunca havia voltado de verdade daquela tarde em que passeava de barco. Por isso ele só disse o que tinha de dizer. Talvez a história esteja ainda sendo contada em algum lugar no Tâmisa. Pode ser que isso explique o motivo de Alice insistir em ser contada e repetida tantas vezes e de tantas formas, e porque o Chapeleiro Louco, a Lebre de Março e o Coelho Branco continuam tão animados como em uma eterna hora do chá, - como na primeira vez que Carroll os imaginou.

Acho que é isso. Algumas pessoas nunca deixam o mundo engolir sua infância e continuam a se recordar de como era brincar de atravessar o espelho, como você bem deve ter se lembrado. Depois de acontecerem tantas coisas desde nosso nascimento, ou mesmo desde antes do nascimento do mundo, eu simplesmente não consigo acreditar que tenha sido por outro motivo.

Jonatas T. B.

agosto 23, 2016


Emma Trevayne é o tipo de autora cujas histórias você não imaginaria se apaixonar. Afinal, mundos e mistérios encantados talvez estejam mais ao alcance de leitores de bibliotecas nerd-geek, e não de nós-mortais chegados aos contos e prosas e poesias. No entanto, quando nos permitimos conhecer histórias totalmente inesperadas, é bem possível que daí surjam grandes leituras! E com os livros de Emma Trevayne não poderia ser diferente :)

Nesta postagem, nosso colunista Jonatas T. B. compartilha suas impressões a respeito do pequeno Thomas e suas aventuras. Confira!

Sinopse: Thomas tem apenas doze anos, mas vai viver aventuras de outro mundo! Roubar túmulos é um negócio arriscado. É, na verdade, um péssimo negócio. Para Thomas Marsden, a partir de uma noite de primavera em Londres (véspera do seu aniversário de doze anos), esse passa a ser um negócio também assustador. Isso porque, deitado em uma cova recente, ele encontra um corpo idêntico ao seu. Esse é apenas o primeiro sinal de que alguma coisa esquisita está acontecendo. Desesperado para conhecer a sua verdadeira história e descobrir de onde vem, Thomas será apresentado à magia e ao ritual, às fadas e aos espiritualistas, e vai se dar conta de que, para ele, a morte está muito mais próxima da vida - e é bem menos assustadora - do que imaginava.

Leia também a resenha de Voos e Sinos e Misteriosos Destinos



O que aconteceu com Thomas Marsden?


I

E se por terrível obra do acaso você vivesse nas regiões mais miseráveis de Londres no período da Revolução Industrial? Então, para sobreviver, tivesse que sair de casa à noite, num frio capaz de congelar o solo, a fim de desenterrar cadáveres no cemitério a e furtar seus bens? Imagine: numa dessas noites, não uma fria, mas uma noite de primavera, quando está prestes a completar doze anos, de repente, após se esforçar e se sujar todo de terra misturada com suor, você encontra um corpo com a mesma aparência que a sua. Igualzinho, como se olhasse no espelho. A cor dos olhos, os lábios. Até a marca de nascença. E mão fria do morto está segurando uma folha. Você desdobra. Lê. É uma mensagem pessoal, junto com dois convites para uma sessão de invocação de espíritos.

Este é o início do fim da dura vida de Thom Marsden, o menino que protagoniza o novo livro de nossa já conhecida Emma Trevayne: “Thomas e sua inesperada vida após a morte” (também publicado pela editora Seguinte). Nesta fabulosa aventura, em meio a percalços terríveis, toda perspectiva de mundo do pequeno Thom se modifica após encontrar o cadáver gêmeo. As pistas irão revelar-lhe os segredos de sua estranha origem, dando início a uma jornada, acompanhado dos pais e de amigos verdadeiros, em direção a perigos piores que a própria morte.

“Como se escutasse Lucy contando-lhe uma história antes de dormir, Thomas ouviu enquanto Cravo-de-Defunto falava de como surgiu o reino das fadas. Sua voz estava enfraquecendo, e ele fazia uma careta cada vez que se mexia, mas não parou. No passado, o reino das fadas e o reino humano tinham sido um só, colocados um em cima do outro, no mesmo lugar, da forma como Thomas tinha pensado sobre Londres no dia anterior”.


II


Há pouco escrevi uma resenha para o blog Nerd-geek feelings e fiquei com a sensação de ter muito a falar sobre a história. Em especial, porque vi nela reflexos do livro anterior de Trevayne: “Voos e sinos e misteriosos destinos”. Algumas perguntas se aninharam no fundo da minha cabeça...

As fadas e outras criaturas mágicas, de onde vêm exatamente? Aliás, eram os mesmos tipos de fadas, já que na história de Jack elas não pareciam temer o ferro, enquanto na de Thom, não podiam nem mesmo ouvir sinos. Ou será que elas eram vulneráveis apenas ao ferro do nosso mundo? Os portais interdimensionais são criados pela mesma espécie de mágica? Quantos mundos existiriam? Será que a alma com que as máquinas são preenchidas para se moverem sozinhas seriam as mesmas almas dos mortos no nosso mundo?  E, por acaso, haveria a possibilidade de Thomas e Jack Foster terem se esbarrado em algum beco londrino?

São algumas questões a respeito de um mundo mágico, obscuro e intrigante que, se Emma Trevayne pudesse nos responder através de novas aventuras, me fizeram bastante feliz. Então, deixo aqui, Srtª. Trevay, meus agradecimentos com sabor de dúvida, que só entenderá quem ler toda a história: o que acontece depois do final?




julho 06, 2016

Não faço ideia de que hora são. Fechei há pouco a bonita capa de “The Kiss of Deception”, escrito por Mary E. Pearson e caprichosamente publicado pela editora Darkside, e me guardei em silêncio. Não sei se você compartilha desse hábito, mas eu costumo olhar por um longo tempo o teto deixando os fragmentos do que li tilintando atrás dos olhos. De repente, percebo a música, que geralmente escuto para abafar os ruídos da rua, - ela parou de tocar. Está bem tarde, quase dia. Deveria dormir. Mas não vou. Não posso guardar isso comigo. Preciso contar para você o que senti nestes últimos dias de leitura.


A protagonista se chama Lia, princesa do grande reinado de Morrighan, prometida em casamento contra sua vontade ao príncipe de Dalbreck por motivos políticos, sem nem ao menos conhecê-lo. A história, em primeira pessoa, começa com sua fuga para a região sudeste, onde consegue trabalho servindo em uma estalagem. Decide que ali será início de uma nova vida de liberdade. Mas não demora muito até conhecer dois belos forasteiros: Kaden e Rafe. Desse contato, a trama se desenvolve num triângulo amoroso, culminando na descoberta de que um deles é o príncipe de Dalbreck, e o outro é um assassino enviado pelo Reino de Venda para matá-la.

A jornada de Lia é uma transição da ingenuidade juvenil para a experiência e entendimento sobre um mundo violento, muito diferente de seus ideais. O ponto de partida é fuga para longe da segurança do castelo, rumo ao próprio sonho. Aos poucos, o sonho se vai se diluindo como espuma. A jovem sente na pele a brutalidade natural que habita no coração humano. Tal hostilidade é a mesma que fizera da muralha e da espada entes necessários para a proteção de seu reino. E foi no percorrer das ruínas deixadas pelas antigas civilizações do continente que percebi tal amadurecimento.

Os restos de torres e construções de pedra que pontuavam a paisagem me sugeriam duas verdades: a primeira, sobre a inexorabilidade e apatia do tempo, de como qualquer esforço humano, mesmo que direcionado à consciência eterna dos deuses, quando materializado, irá sempre cair, se destroçar, e retornará à estaca zero; e, a segunda, sobre o triunfo familiar da vontade. Não apenas pelas ruínas serem testemunho concreto e resistente da passagem de uma civilização grandiosa, mas pela capacidade que a própria miragem colossal possui de despertar o nosso espírito. Eu, ao adentrar os bosques e desertos dos três grandes reinos junto de Lia, quando avistei as dorsais de muralhas corroídas pela umidade, fossos escondidos sob vegetação densa, ou estruturas tombadas pelo vento abrasivo, pude ouvir um ruído soando nos porões da eternidade, e aproximando-se, até ecoar nos ouvidos do meu espírito. A descrição caprichada de Pearson me permite qualquer aparente exagero. Acredite.

Observando os anseios interiores da princesa, posso afirmar que não se trata de mais uma jornada em busca da liberdade. A envergadura épica que dá profundidade a história não se limita a problematizações acerca de sonhos sufocados por obrigações sociais da nobreza - e, pessoalmente, considerei diferencial dentre muitas histórias sobre autodescobrimento. E, quanto ao coração de Lia, neste tomo de “Crônicas de amor e ódio”, a narrativa, como um todo, estende-se além da procura pela verdadeira face do amor (que, devido ao triângulo amoroso, imaginei reduzir-se a esse tema). “The Kiss of Deception” é uma história que partilha a necessidade de compreender-se as crenças e tradições que sustentam uma sociedade em perigo, e, o mais importante, como a cultura e os ouvidos atentos ao sagrado e ancestral refletem no sentido que damos ao mundo, e, por consequência, como o enxergaremos em nós mesmos.

Bem. Acho que é isso que precisava dizer. Agora preciso atravessar minhas próprias ruínas entre os travesseiros e encontrar meu sono. Espero que aprecie tanto quanto eu apreciei esta primeira parte da jornada de Lia. Só tenha cuidado. Mantenha os olhos abertos. Reúna todas as forças necessárias. E não pare. Mesmo se ver os próprios rastros que for deixando para trás sendo engolidos pelo deserto.


junho 24, 2016


“- São teus os segredos do reino das fadas, Merlim?
- Sim; a maior parte deles, meiga dama do lago. São segredos muito estranhos, e o mais importante jaz debaixo desta lousa.
- Qual é? Dize qual é, Merlim!
- O segredo do descanso eterno – respondeu Merlim, num devaneio -. O segredo cuja posse permite ao homem dormir dia após dia, de mês a mês, de ano a ano. Como eu desejo mergulhar nesse doce sono.”



Sobre as velhas histórias de sempre
 
I
Há histórias que germinam ao ponto de romper as palavras. E dessa fissura, tais histórias sopram, em nossos ouvidos, seus esporos sob o véu do que somos e do que sentimos. Não se sabe ao certo como ou por que, mas acredito que essa espécie de história seja imprescindível para a maneira como sonhamos o mundo. São como vitrais por onde a luz se derrama a fim de iluminar o interior de um castelo. Não é a luz lá fora, nem a construção que providencia forma às sensações. Creio que no fundo de nossas mentes, as histórias, já tão livres das letras, acendem uma chama que sugere sentido ao nome de todas as coisas. São essas histórias como raízes, sementes e vida própria.

“- Ide passar a vida inteira no conforto macio do vosso castelo, comendo e bebendo com vossos cortesãos, em festins suntuosos, divertindo-vos em combates simulados? Não sabeis o que significa uma grande aventura? (...) Não sabeis, podeis experimentar agora, seguindo as fadas caçadoras, grande rei Artur! Que tem que a dama vos tenha pedido só o resgate do seu cãozinho? Que importa que vos pareça magia e loucura tudo o que vistes, e que estejais mais à vontade e mais sossegado em vosso castelo? Tende a coragem de montar a cavalo e seguir Sir Gawaine ao reino das fadas, de tomar o castelo do perigo, de arriscar a vida no enredo tenebroso do vale sem regresso!” (pg. 98)



II

Quando acidentalmente li “Os cavaleiros da Távola Redonda”, uma edição da editora Vecchi publicada em 1958, logo nas primeiras páginas pude ouvir uma voz de Merlim, que me transmitiu algo além do que em geral os magos costumam transmitir. Os encantos do velho sábio aludiam ao tempo de criança, em que eu mesmo me sentia um mago e podia lançar meus próprios feitiços. Assim também ouvia os Cavaleiros da Távola, que pareciam me conduzir por entre um caminho familiar, enfrentando perigos familiares como gigantes e lobos no meio da floresta. Conforme lia a história corria livre pelos bosques povoados por dragões e fadas. A sensação era como se estivesse voltando para casa pela centésima vez depois de um longo tempo, mesmo que em um instante ou outro me perdesse pelo caminho. Tanto participei da história, que creio que poderia até espalhar as páginas amareladas daquele velho livro no chão do quarto e depois lê-las como cartas de baralho. Mesmo assim, não me perderia.

“Disse, pois, que deviam ser três anjos, na esperança de Perceval não tardasse a esquecê-los. Mas o menino empertigou-se, apalpou os músculos dos braços e declarou que, se os três cavaleiros eram anjos, ele pretendia ser como eles.” (pg.181)

Se ao acaso você me perguntar por que uma história contada tantas vezes e de tantas maneiras, como a Demanda do Santo Graal, poderia fazer alguém enferrujado e seco feito eu ser arrebatado para um mundo ao mesmo tempo estranho e familiar; se deseja me questionar como mera coletânea de lendas acerca de uma época em que nem os historiadores afirmam ter existido algum poderoso Arthur e cavaleiros, enquanto estabelecia a paz a unificar a Bretanha - e, se existiu de fato, se seriam seus costumes mais ou menos romanos, menos ou mais bretões; ou se insistir em me perguntar o que teria de especial um círculo de lendas sobre rei e magos, bruxas e fadas, dragões e princesas, tão semelhante a inúmeras lendas espalhadas pelo mundo, não se tratando sequer de uma história original... bem, sinto dizer que eu jamais teria na língua resposta.

Mas se servir de consolo, te aconselharia a inverter a pergunta: por que uma história não apenas sobrevive, mas reaparece como um fantasma escondido debaixo de mil máscaras como acontece com a de rei Arthur? Quais segredos ela guarda para que um número infinito de gerações e de povos queira contá-las, ou, também, o que há em nós a despertar-nos o anseio de ouvi-las?

E se duvidar da existência d’alguma verdade nas respostas que encontrar, não fique triste: as crianças continuarão desejando ouvir as aventuras do mago Merlin e rei Arthur sem se importar, tantos reis Arthur existam e sejam as versões de magos Merlim boas ou más. Haverá sempre, disso tenho certeza, um ouvido novo para ouvir de uma mãe ou um avô uma velha história. As histórias para sempre e sempre provarão, por si só, sua mágica além das palavras.

Fim


Observações:

Como eu havia dito, a versão de “Os cavaleiros da Távola Redonda” que eu tenho em mãos não informa ao menos quem foi seu autor, apenas que fora traduzida por Marina Guaspari. Quem puder me ajudar no conhecimento do autor original, agradeceria profundamente. Além desta, não descobri uma obra propriamente original sobre as lendas arthurianas até o presente momento. Existe o registro reconhecido como mais antigo escrito em latim por Geoffrey Monmouth (s. XII), o Historia Regum Britanniae. É um conjunto de relatos sobre reis da Grã-Bretanha desde sua origem. Além dessa obra, destaca-se a visão do poeta Wace (sec. XII) acerca dos Cavaleiros de Arthur, e também a de Chretien de Troyes (s. XII), que narra diversas aventuras sobre o Santo Graal. Também existe a versão contada pelo britânico Thomas Malory (séc. XV) de nome Le Morte D’Arthur (A Morte de Arthur), tornando-se uma das mais populares. Atualmente foi lançada pela editora Zahar uma edição de Rei Arthur e Os Cavaleiros Da Távola Redonda escrita e ilustrada pelo americano Howard Pyle. (http://www.zahar.com.br/livro/rei-arthur-e-os-cavaleiros-da-tavola-redonda-edicao-comentada-e-ilustrada)

A edição contemporânea de Jacqueline Mirande (sec. XX), baseada nas obras de Troyes, podem lidas no link disponibilizado pela Companhia das Letras (http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/11019.pdf).

Pretendo ler todas as possíveis e comentá-las em algum não tão distante futuro (se PapelPapel não se incomodar com a repetição do tema, claro).

Há, entre as diversas adaptações e inspirações, animações japonesas, histórias em quadrinhos, filmes, séries e outras variações desta lenda que compõem um belo tesselo nas fundações de nossa cultura. 


Creio que seja bem como eu dissera no início: há histórias que germinam ao ponto de romper as palavras.

Que bom que isso nunca termina.
maio 12, 2016

Em breve completamos 1 ano de blog <3 E como nostalgia é também meu sobrenome, quero neste aniversário (especialmente por ser o primeiro!) relembrar algumas histórias, e compartilhar os desafios e conquistas deste início, e também falar um pouco de nossos sonhos daqui pra frente.

Desde o início penso o blog como uma plataforma de encontros: o das proximidades que surgem no dia-a-dia do Instagram e páginas literárias, e o das afinidades que se prolongam e permanecem; e se chegamos até aqui, nestes primeiros-alguns meses juntos, foi por essa identificação e amizade entre nossas palavras: tão bom este afeto que surgem por entre as linhas de alguém que não conhecíamos!

Não é fácil o exercício da generosidade - e falo não apenas o do autor-blogueiro em relação aos seus amigos-leitores; penso que encontrar um trecho de beleza nas palavras de todo autor (não importa se um John Green ou o independente de trinta e dois exemplares) seja árdua tarefa, e por isso a mais importante, a que despertará um maior sentido em nossa vida aqui, online, escrevendo, e conhecendo outros pares que também dedicam seus dias a leituras, dedicatórias e escritas.

Talvez a imagem da carta não seja suficiente, mas gosto da ideia de que todo encontro é como um envelope com um remetente incompleto, meio rasurado até, e que chegou até nós com alguma voz de incerteza, mas com uma vontade-certa de ser encontrado, e quem sabe até completo.

https://www.wattpad.com/story/65701298-hist%C3%B3rias-de-um-entregador-de-sonhos

Vamos dar um salto nesta história: há alguns meses o blog começou a contar com a participação de dois novos autores-amigos, que também blogueiros, de gostos e olhares muito particulares, e que já fazem parte de nossa família Papel Papel: Regiane Medeiros (que contribui com crônicas e reflexões de amor e música) e Jonatas T. B (nosso entusiasta da literatura fantástica e suas vertentes).  E pra comemorar estas parcerias, divulgaremos inspiradoras histórias compartilhadas por estes amigos no Wattpad. Conheça então um pouco do trabalho do Jonatas em suas "Histórias de um Entregador de Sonhos":

https://www.wattpad.com/story/65701298-hist%C3%B3rias-de-um-entregador-de-sonhos

A história ainda está no começo, então, se você tem uma conta no Wattpad, pode acompanhar o passo a passo desta criação, e claro, deixar seus comentários para o autor :)

Segue mais um trecho, agora do primeiro capítulo:

   https://www.wattpad.com/story/65701298-hist%C3%B3rias-de-um-entregador-de-sonhos

Ah, o Jonatas é também colaborador dos seguintes blogs:

https://poligrafia.wordpress.com/

http://nerdgeekfeelings.com/

Quanta coisa acontecendo por aí, né... E vamos seguindo! Na próxima postagem, compartilharemos novas crônicas da amiga Regiane, a menina que não para de ler.

Gostaria de deixar alguma sugestão pra gente? Compartilhe suas ideias nos comentários! Ficaremos felizes com a prosa <3
abril 22, 2016

Raigor Ferreira é um jovem autor de Goiânia que recentemente entrou em contato conosco para bater um papo e apresentar um pouco de seu trabalho. E como adoramos uma prosa, e não apenas um bom release rs, convidamos o Raigor para uma conversa com o Jonatas, pela proximidade de ambos com a literatura fantástica e o universo infanto-juvenil, e claro, pela alegria de contar boas histórias :) Acompanhe também esta rica conversa! 

O Príncipe Congelado - Disponível na Amazon
Outros contatos do autor: Skoob | Facebook | Instagram


1.  Raigor, fale um pouco de sua vida (qual idade, de onde és, se trabalhas, se estudas etc.).
Bom, tenho 22 anos, sou do interior de São Paulo, mas atualmente moro em Goiânia, onde estudo e trabalho. Curso Administração e trabalho na área também.

2. Conte-nos um pouco como você resolveu entrar no mundo da escrita.
Eu escrevo há bastante tempo pra mim mesmo, rs. Eu nunca vi o mercado literário brasileiro como algo possível para escritores amadores, então a escrita sempre me foi algo muito pessoal. Algo pra ser compartilhado só com amigos, parentes e tal... Mas por volta de abril/maio do ano passado, a Amazon lançou um concurso nacional de contos e acabei enxergando ali uma oportunidade de, ganhando o concurso ou não, lançar uma história que pudesse ser lida por pessoas que acessam a plataforma. Então, escrevi uma distopia, que pouca gente conhece, sobre um futuro sem água – Abnegação: um conto sobre a sensibilidade em tempos de seca – para concorrer ao concurso.

Depois que o concurso passou, eu senti que eu não devia parar por ali. Hoje, temos duas plataformas gigantes que são a Amazon e o Wattpad, que dão essa possibilidade de você criar e gerenciar a sua própria vitrine de escrita e, nesse ponto, eu já estava fascinado com essa possibilidade, e eu só tinha a certeza de que eu deveria publicar mais e mais histórias pela Amazon, que era a ferramenta mais próxima de mim no momento.

Daí, foi uma busca alucinada sobre escritos que comecei e nunca terminei, coisas que eu tinha escrito em algum lugar e que, quem dera, eu teria a sorte de nunca ter descartado e, no meio dessas coisas, eu lembrei do “Príncipe Congelado”, que foi um conto que escrevi em 2014, por um impulso de escrever uma história para minha prima, que tinha dez anos na época. Escrevi o conto á mão mesmo e tive muita sorte, eu acho, de ter encontrado esse manuscrito. Então, mudei pequenas coisas na história e senti que essa deveria ser a próxima história que eu viria a publicar na Amazon. Então, publiquei e o retorno foi chegando aos poucos, mas bem mais rápido do que eu poderia esperar.

Hoje, eu posso dizer que “O Príncipe Congelado” é o que vai me mover daqui pra frente na minha trajetória de escrita, por ter sido um conto que me proporcionou vários feedback’s, divulgações, contatos... Eu acabei conhecendo muita gente por causa desse conto que escrevi sem muito compromisso para que essa história viesse a ser conhecida por alguém, para além de mim e minha prima.

Essa falta de pretensão que aconteceu quando escrevi esse conto, acho que nunca mais vai acontecer, pois, agora, eu acredito que qualquer coisa que eu venha a escrever daqui pra frente terá potencial para ser lido, mesmo que não seja bem avaliado. Mas haverá pessoas para lerem. Hoje, eu consigo acreditar que esse público pequeno existe no mercado brasileiro. E é, com certeza, a maior lição que eu tiro dessa experiência com a Amazon, a de que existem leitores para lerem autores brasileiros, novos e independentes... esses leitores existem!!

Ah, e não posso deixar de citar a Editora Itacaiúnas, onde tenho poesias publicadas nas antologias que a editora promove. Foi muito importante também para que eu começasse a me reconhecer escritor.


3. Quais são suas principais influências literárias? Há outras influências fora da literatura (como filmes, séries, artes plásticas etc.)?
Eu acho muito difícil definir uma influência, porque é bem provável que tudo que eu leio acaba me influenciando de alguma forma quando escrevo. Então, aquilo que eu mais leio é, provavelmente, o que mais me influencia. Ultimamente, me sinto bem influenciado por literatura nacional, por que tenho lido muitos livros nacionais, rs. Mas falando especificamente do Príncipe e de uma nova história que estou escrevendo, que segue uma linha parecida, eu acho que tentei pegar algumas coisas que funcionaram muito no século XVII com o Perrault, ou no século XIX, com o Andersen.

Parece até vaidade minha dizer que “O Príncipe Congelado” se assemelha a esses clássicos, mas eu insisto em citar, porque todos os elementos que funcionam na história do Phelipe como um conto rápido e até previsível para quem cresceu lendo esses contos de fada vêm desse gênero das versões das histórias a La Grimm. Pode até ser que a pessoa comece a ler o meu conto e imagine que ele terá um final diferente, por ser nacional, apesar das influências estrangeiras, por ser contemporâneo, por ser um conto escrito nesse século perturbador em muitos sentidos, mas quando o leitor descobre que o conto tem uma moral e que a felicidade eterna foram preservadas na história, o conforto que ele sentirá, creio que vem muito das histórias que todos lemos quando criança, nessa época da infância que acreditamos com menos dificuldade de que tudo ficará bem quando chegar ao final. A maior verdade disso é que eu não tenho medo dos finais felizes. Tenho medo de um dia não conseguir escrevê-los. Medo de que, em algum livro, eu precise causar prejuízos aos meus personagens para que minha história tenha algum sentido. Felizmente, não foi o que precisei fazer com “O Príncipe Congelado”.

Houve comentários que aproximaram minha escrita no conto com a do Neil Gaiman, e eu até poderia dizer isso aqui, pois li muita coisa dele que pode ter me influenciado, mas acho que esse seria um auto-elogio que eu não sou capaz de lidar no momento, rsrsrs.

Também houve blogueiros que relacionaram “O Pequeno Príncipe” com a minha história. Mas eu acredito que seja mais a questão da ilustração de capa. O Príncipe do Exupéry e o Phelipe de Arvoredo tem semelhanças físicas bem evidentes, repararam? Hehehe.

Minha infância foi marcada basicamente pelo Lobato, pelo Ziraldo e pelos infinitos gibis do Maurício de Sousa que eu tenho até hoje. Ultimamente, tenho lido algumas obras do Pedro Bandeira. Então, falando de literatura infantil brasileira, acho que esses nomes podem me influenciar daqui pra frente em alguma obra, com certeza.


4. Quando decide que deve começar uma obra e como é sua rotina na experiência da escrita?
Eu sou a pessoa menos disciplinada possível com rotina de escrita. Não tenho métodos de quantidade de palavras, nem de páginas, tampouco de acontecimentos. É interessante pensar que eu me desafiei participar do NaMoWriMo por duas vezes - a maratona de escrita que acontece em novembro - e, em nenhuma dessas oportunidades, eu cumpri com a quantidade de palavras que o desafio propõe para os escritores. Nas duas vezes, eu sequer cheguei à metade das 50.000 palavras.

Espero e cobro de mim que eu seja mais disciplinado num futuro próximo, mas por enquanto, sou bem flexível com o que eu escrevo. Estou escrevendo uma história agora, por exemplo, que eu poderia terminá-la em, no máximo, nove ou dez semanas. Mas a julgar pelas minhas frequentes interrupções no processo de escrita dessa história, sei que a chance de eu terminá-la nesse tempo é praticamente zero.

Sobre decidir começar uma obra, diferente do que acontece com o processo em si, rs, eu já adquiri certa disciplina no sentido de saber qual a próxima história que eu devo escrever. Eu tenho uma ideia, dentre as histórias que eu planejo, de qual deve ser a próxima da lista. A próxima a ser lançada, seguindo aquilo que eu acredito que os leitores esperam de mim. Então, esse processo de organização da ideia, do contexto e dos personagens se tornou menos intuitivo e mais racional, pois quando me proponho, no ócio, a pensar na próxima história a ser contada, automaticamente, prevejo a relação que algum leitor possa fazer com a obra anterior e isso tem me influenciado bastante no meu cronograma de escrita.


5. Quais os gêneros literários que prefere ler e escrever?
Eu leio muito romance, até os mais piegas e clichês. Eu gosto, em certa parte do meu tempo como leitor, de ler escritores que abusam de frases feitas. Leio pra desanuviar a cabeça e não tenho medo de ler mais do mesmo. Acho importante, como escritor, saber que algo já foi reciclado por tantas vezes. Mas também leio muita fantasia e infantis. Gosto de biografias também. Enfim, leio várias coisas e não sei se tenho um gênero preferido pra ler. Já para escrever, é diferente. Narrativas juvenis mais imaginativas e fantásticas me atraem para a escrita, mais do que qualquer outro gênero.


6. Quais são os seus projetos para o futuro em relação à literatura?
Tem uma chuva de coisas. Tem a história do Príncipe Congelado em livro, abandonando o aspecto de conto e adquirindo uma narrativa, ainda episódica, mas um pouco maior. Tem essa história nova que eu não quero falar muito por pura superstição, mas posso dizer que é uma fábula também, com dois protagonistas da realeza que eu estou amando escrever. Eu brinco que estou passando mais tempo negociando essas histórias do que efetivamente as escrevendo.

Eu não quero abandonar a Amazon. Eu acho que ainda haverão muitas histórias minhas a serem publicadas na plataforma, inclusive nesse ano. Mas também me dedico para que essas histórias ultrapassem a Amazon, e tenho trabalhado bastante nesse sentido. 

Muito Obrigado pelo espaço!!