Você se lembra de mim?, de Megan Maxwell - Editora Planeta de Livros | Resenha por Gih Medeiros

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A figura da mulher independente e bem sucedida nunca esteve tão em voga quanto na atualidade, mesmo que ainda soframos com atitudes que estão intrinsecamente ligadas à cultura mundial no que diz respeito à igualdade de gêneros. Acalme-se, esse não é um texto feminista. Também não é um texto machista. Eu acredito na igualdade de gêneros, no sentido de que não existem papeis pré-estabelecidos para homem ou mulher. Cada um tem um papel determinado a desempenhar na própria jornada e não tem nada a ver com a biologia que determina se temos órgãos diferentes. Ser bem sucedida é uma ideia que varia de pessoa para pessoa e não tem nada a ver com ser capaz de fazer o mesmo que um homem faz, ou até melhor em alguns casos. Tem a ver com a desenvoltura de sua própria capacidade em relação ao que espera de si mesma. Não é uma competição para mostrar ao mundo que podemos sim, montar móveis, pagar as contas da casa ou ser astronauta. É um estado de espírito que envolve sermos melhores a cada dia, do que éramos até ontem.

Inicio a resenha com esse assunto porque o livro Você se lembra de mim?, de Megan Maxwell, fala sobre a figura da mulher e da força que temos dentro de cada um de nós através da história de vida de duas mulheres, Carmen e Alana, em momentos de vida e locais distintos, mostrando que ser mulher nunca é fácil, mas com certeza é compensador se sabe o valor que tem.

Em 1960, Carmen e Loli, duas jovens irmãs de origem espanhola, decidem ir para a Alemanha em busca de um emprego que lhe proporcionasse melhores oportunidades, já que na região em que moravam a economia encontrava-se frágil e pouco havia a se fazer, especialmente para as mulheres. Com a cara e a coragem, elas iniciam uma nova vida em um país desconhecido, com uma língua que não compreendem e com um trabalho exaustivo que consome todo seu tempo, sem que haja o retorno financeiro esperado. 

Além de tudo isso, o choque cultural impressiona as irmãs, principalmente Loli, que se escandaliza ao ver jovens como ela, fumando e usando calças compridas. Carmen, de inteligência e visão avançadas para as mulheres da época, rapidamente se adapta à nova vida e estilo de vida, aproveitando cada conquista e pedaço de liberdade, mas com um bom senso que não a deixa se tornar uma figura vulgar nem irresponsável. Tudo o que ela quer é ser dona de si. 

Assim como elas, várias jovens de diversos lugares da Europa acabam migrando para a Alemanha, que na época era uma grande potência industrial, a fim de conseguir um emprego para seu sustento e da família. Entre essas jovens, Carmen e Loli fazem amizade com Renata, jovem alemã que poderia ser considerada “pra frentex” como dizemos hoje em dia, e Tereza, jovem espanhola interiorana que é super conservadora, fazendo um curioso contraste com as amigas. 

Além de pessoas buscando emprego, a Alemanha naquele período tem em várias de suas cidades, bases militares de diversos países, entre elas bases americanas repletas de jovens soldados que são treinados duramente para que episódios como os da 2ª Guerra Mundial não se repitam. Com tantos jovens solteiros e tentando aproveitar a vida como se não houvesse amanhã, seria inevitável que Carmen, Loli e as amigas acabassem se enturmando. Apesar dos soldados americanos serem vistos com desconfiança pelas jovens, seu rock and roll, amor à pátria e senso de liberdade acabam conquistando muitas das garotas. É nesse cenário que Carmen conhece o cabo Teddy, e inicialmente ela sente repulsa por suas investidas, e despreza seu jeito sorridente e bonachão, passando a provoca-lo sempre que surge uma oportunidade. Mas, com o tempo, percebe que gosta do jogo de provocação entre eles, até que finalmente decidem recomeçar do zero e se conhecer de verdade.

O amor entre eles surge de forma arrebatadora e a necessidade de estarem juntos cresce na mesma medida em que o tempo de se separarem por causa da guerra do Vietnã se aproxima. Desesperados, acabam se entregando um ao outro sem reservas, mesmo antes de se casarem, o que não era bem visto na época, mas Carmen nunca foi do tipo que se importa com convenções e Teddy entende a importância de viver o presente, já que o futuro em uma guerra é uma incógnita constante. Em meio a juras de amor eterno, feitas pessoalmente enquanto estavam juntos e por carta, quando Teddy parte com sua unidade eles apoiam e dão suporte um ao outro. 

O que eles não imaginavam era que Carmen se encontraria grávida e solteira, em uma sociedade que condenava mulheres nessa situação. Mas, decidida a cuidar de seu bebê e confiante em um futuro com Teddy, ela segue firme, trabalhando e cuidando de si, enquanto o amor de sua vida segue para um cenário de horror e medo, sem perder a esperança de ver sua menina (referência ao livro) novamente. Mas o tempo passa e Carmen deixa de receber notícias de Teddy. Com a gravidez avançando, ela se vê desesperada e sem notícias de Teddy, já que não há nenhum laço jurídico que os una, restando-lhe somente a alternativa de voltar para a casa dos pais, na Espanha. Mas como fará isso sem causar vergonha à sua família? Ela consegue lidar com os falatórios das pessoas, mas será justo submeter seus pais a tal desgosto?

35 anos depois, encontramos Alana, jornalista renomada que trabalha em uma revista de variedades em Madri. Bem sucedida na carreira, mas sem sorte alguma no amor, ela segue sua vida aproveitando cada pedaço de sucesso com suas amigas e com a mãe, Carmen, que mesmo passando por tantas dificuldades a criou com muito amor e carinho. A história de vida de sua mãe lhe inspira e ao mesmo tempo a aterroriza. Inspira baseado na força e coragem de uma mulher que enfrentou uma situação inconcebível para a época, e aterroriza com a sombra de um passado não esclarecido e o sofrimento por um amor perdido.

Cética em relação aos homens, por suas próprias experiências mal sucedidas, Alana segue sua vida de maneira a não se contentar com a visão de que não se pode ser feliz sozinho. Mas, justamente quando a maior oportunidade de sua carreira se apresenta, ela conhece Joel Parker. Uma atração impossível de ser negada surge entre eles, mas Alana resiste o quanto pode quando descobre a ocupação de Joel: fuzileiro naval da marinha americana. Amedrontada, Alana foge por instinto, mas se vê em uma encruzilhada quando seu coração tenta falar mais alto. Será que vale a pena passar pelo que sua mãe passou? As chances da história se repetir martelam a cabeça da jovem que se vê cada vez mais confusa, e ao mesmo tempo, cada vez mais curiosa para saber o que de fato aconteceu com seus pais.

Ao iniciar a leitura de Você se lembra de mim?, fiquei gratamente surpresa por ver a nota da autora esclarecendo que parte do livro foi inspirado pela vida da própria mãe. Isso definitivamente me ganhou, e com avidez e carinho iniciei a leitura. Como leitora e pessoa curiosa que sou, os relatos biográficos exercem um certo apelo nesse sentido, de forma que eu posso conhecer um pouco da jornada de pessoas tão distantes e distintas, através de um livro de memórias, diário ou enredos inspirados por histórias reais. E com esse livro a experiência foi muito vívida e gratificante.

Falando de amor, amizade e autoconhecimento através de reviravoltas, momentos engraçados, românticos e sensuais, embalados por uma trilha sonora magnífica, Megan consegue nos apresentar uma ficção parcialmente baseada em história real, que nos leva a conhecer um pouco mais sobre a vida de uma mulher na década de 60 na Europa, quando a figura feminina ainda tinha pouca visibilidade sobre seu potencial, ao mesmo tempo em que nos faz passear pela vida de pessoas adultas no presente, que como eu e você, estão dispostas a ganhar o mundo com o esforço de nosso trabalho. E quem sabe encontrar alguém que desfrute de tudo isso conosco? Pode até ser um loiro, alto e nitidamente perigoso, cantando e dançando despretensiosamente Bad Medicine do Bon Jovi (referência ao livro). Quem não adoraria isso?



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