A solidão do quase - Uma crônica de Gih Medeiros

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A solidão do quase


“Pode estar no ponto
Ponto de interrogação
Pode ser encontro ou separação
Pode correr risco
Arriscado sempre é
Só não pode o medo te paralisar”


Rolando de um lado para o outro na cama, ela tenta encontrar uma posição confortável, mas o colchão insiste em não acomodar seu corpo cansado.

Olha o visor do celular: são duas horas da manhã e ela não consegue conciliar o sono mais uma noite. Pergunta-se amargamente quanto tempo mais vai suportar as noites insones antes de ter um colapso. Ri do próprio excesso de sua dramaticidade e se levanta para beber água, já que o sono não vem mesmo. Enquanto sorve o líquido vagarosamente, olha pela janela e observa a escuridão do lado de fora sendo pontilhada por uma ou outra luz acesa nas ruas.

O silêncio da madrugada contrasta fortemente com a barulheira dentro de si. Sente o martelar constante na cabeça e no peito, de sentimentos aos quais não quer se render, mas dos quais não pode fugir.

Ela nunca soube lidar bem com a rejeição. Com os términos sim. Se as coisas não estão caminhando bem e o relacionamento acaba, por mais difícil e doloroso que seja, ela se levanta, bloqueia o cara de todas as redes sociais, apaga todos os e-mails e mensagens e deleta o número do telefone de sua agenda do celular, seguindo em frente, um dia de cada vez. Mas, não sabe o que fazer os “quases” da vida.

Não consegue assimilar porque alguém despende tanta energia e tempo tentando conquista-la, para desaparecer como fumaça no ar quando ela finalmente se rende à possibilidade. Será que se trata de algum tipo de prazer sórdido que os homens sentem em lutar para conquistar e depois, quando conseguem, o sabor dessa “vitória” não tem tanta graça e o jeito é partir para a próxima conquista? Entre um suspiro e outro, tenta em vão entender.

Nunca foi ensinada sobre os jogos amorosos. Para ela, o que faz sentido é ser honesta consigo mesma e com o outro, e talvez por isso, por nunca ter sido iniciada nesses jogos de conquista, não saiba distinguir quando estão sendo sinceros ou não... A menos que sejam muito óbvios. E obviedade parece não fazer parte da catequese dos relacionamentos. Sente-se perdida quando é sincera e isso provoca afastamentos, quando ela pensa que uma conversa franca e aberta deveria aproximar, sempre. 

Ter empatia, sempre foi um de seus pontos fortes, mas aparentemente isso só se aplica quando se trata de dor, perda e sofrimento, situações que ela reconhece de sua própria jornada. A superficialidade do querer, o banalismo das conquistas, a indecisão das vontades, são sentimentos estranhos, que ela não experimentou e por isso não os compreende.

E assim, ela volta para a cama e continua a se virar de um lado para o outro, até o dia amanhecer, enquanto segue sem respostas para as questões que a atormentam todas as noites, desde que você se foi sem deixar pegadas ou sinais, apenas um rastro de confusão na mente e aquele gostinho melancólico na alma, de algo que “quase aconteceu”. 

“Tá faltando peça no quebra-cabeça
Eu não tenho pressa
O meu tempo é todo teu
É tudo que eu posso oferecer (é pouco)
Mas é tudo que eu posso oferecer (é quase nada)
Mas é tudo que eu posso oferecer (é pouco)
Mas é tudo que eu tenho
Tudo que eu posso oferecer”

Novos Horizontes, 2007.


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18 comentários

  1. Que texto lindo, bem escrito, gostoso de ler, leve (apesar da insônia e da luta interna da personagem). Parabéns! Amei o post!

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    1. Obrigada flor! Esses momentos da madrugada sempre geram reflexões. Bjoooo ❤

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  2. Gostei do conto, bem interessante. Já pensou em postar em sites de contos e cRônicas? Recomendo a Academia de Contos, é um site muito bom, só jogar no google.
    Abraços

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    1. Obrigada pela dica Thai. A ideia é juntar o máximo de crônicas e transformar em livro ❤
      Beijos!

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  3. Olá boa noite.
    Muito bom. Quem é que nunca passou por isso?
    Abraços, Uiara Melo

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    1. Boa noite!!! Sempre aprendendo e amadurecendo, assim a vida nos exige. Por isso é bom externar alguns sentimentos e nos enxergar nos outros que também tem sua própria cota de dissabores. Bjoooo ❤

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  4. Olá!
    Que texto magnífico! Acredito que todos vão encontrar um pouco de si mesmo em suas palavras. Parabéns mesmo!

    Abraço
    http://lupiliteratus.blogspot.com/

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    1. Oi Fábio! Muito obrigada! Fico feliz quando alguém se reconhece em um texto meu ❤
      Bjoooo

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  5. Os quases são muitas vezes nossos maiores tropeços né. Adorei o texto, super gostoso de ler e bem "tranquilo", apesar de tudo que o envolvia. Achei grandioso, parabéns, escreva sempre!

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    1. Obrigada pelo incentivo flor! Isso me inspira a escrever mais e mais! Bjoooo ❤

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  6. Que texto incrível, quantas vezes passamos por isso também, tentamos dormir, rolamos da cama de um lado para o outro e não conseguimos dormir. Muitas vezes passo por isso, me identifiquei um pouco com ele. Parabéns pela escrita, bjs.

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    1. Insônia parece ser o mal da nossa geração hein Lu?
      Bjoooo ❤

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  7. Puxa, texto maravilhoso! Preciso visitar mais vezes esse blog! Sem palavras, só um sincero e cordial parabéns!

    Saio desse blog inspirado a escrever pois sempre que leio um texto que me toca é como se tivesse a necessidade de responder com meu espírito. Amei!

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    1. Volte sempre Rob!!!! Vou ficar de olho nas suas poesias, adorei seu blog ❤
      Bjoooo

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  8. Sem palavras! Texto gostoso de se ler, muito bom mesmo! Leitura agradável e tranquila. Parabéns!

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