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dezembro 05, 2017


(Trecho de Sobre a Escrita: A Arte em Memórias, de Stephen King)


Que este blog teve início a partir de conversas, talvez muitos não saibam, mas é bem provável que a sua relação com a escrita literária também tenha acontecido assim, como um projeto que foi tomando forma justamente por ter essa característica coletiva, de colaboração e prosa entre amigos. É claro que a escrita intimista, presente em diários, anotações e poesias, acaba sendo nossa primeira experiência literária, e é bem possível que esta expressão permaneça por muito tempo em nossas vidas. Ainda assim, tornar público aquilo que sentimos, sob esta edição do texto, não é tarefa fácil, e nem sempre conseguimos levar nossos projetos adiante quando estamos sozinhos, daí a necessária companhia de quatro ou inúmeras mãos e, principalmente, incontáveis leitores.

Seguindo nesta reflexão, até porque o ato criativo envolve muita aceitação e (auto)crítica, e é por isso não é de hoje que muitos escritores, ao entenderem a escrita enquanto profissão e - por que não - destino, publicam obras dedicadas a uma reflexão de seu próprio ofício. Stephen King é um deles, e  foi a partir de sua autobiografia literária que pensamos em realizar este projeto de escrita colaborativa aqui no Blog.

Neste primeiro momento, estamos conversando com amigos leitores e blogueiros a respeito de nossas motivações para escrever. Segue um trechinho de uma prosa da Di Azevedo (que, aliás, compartilhou um belo poema em nossa página do Instagram recentemente) com a Regiane Medeiros:

Di - Eu não sei se isso acontece com todos os escritores. Eu não me considero uma escritora, mas gosto de escrever. De uns meses pra cá, venho investindo em um livro (antes, eu só escrevia poemas) e o que percebi é que colocamos muito de nós mesmos nas histórias. Às vezes me pergunto se a personagem é uma pessoa diferente ou se sou apenas eu, com um nome diferente, escrevendo o que já vivi...

Regiane - É também uma sensação libertadora, não? Poder compartilhar um pouco do que somos através da arte, seja qual for; é um privilégio que poucos conseguem fazer sem se perderem no processo. Quanto mais você se doa, mais você descobre quem é no mundo e qual o seu papel nele.



Talvez seja uma pergunta direta demais (ou quem sabe até meio abstrata, já que nem sempre nossa vontade criativa caminha ao lado de objetivos definidos - mas deveria!, e a gente sabe, se esforça pra entender isso...), mas fica o desafio:


Qual a sua motivação para escrever?  


Convidamos você, leitor, estudante, autor, blogueiro (todo mundo!) para participar desta reflexão e, quem sabe, com esta troca-desabafo entre aficcionados por literatura e letras, a gente já começa 2018 com uma melhor visão acerca de nossos projetos, não é mesmo? <3 Gostaria de participar desta conversa também? Envie uma direct em nosso Instagram (@blogpapelpapel) ou mande um alô pelo email contatopapelpapel@gmail.com :) Vamos continuar com esta série de postagens de depoimentos aqui no Blog e no Insta, e também vamos em breve lançar uma sugestão de leitura coletiva que tem tudo a ver com este tema da descoberta do autor e do criativo que existe em cada um nós :)


(Trecho de Sobre a Escrita: A Arte em Memórias, de Stephen King)


Pra encerrar o post de hoje, vamos ao texto que a jornalista e blogueira Fernanda Rosa enviou pra gente :) Confira:


Letras pra que te quero

A alfabetização foi um processo complicado para mim. Era difícil assimilar que algumas palavras eram faladas de um jeito, mas escritas de outro.

Não entrava na minha cabecinha de 10 anos que, por exemplo, enquanto falávamos "palmera" deveríamos, na verdade, escrever "palmeiiiiiiiiira". E essa comilança de letras e confusão entre "g" e "j", "ss" e "ç" deixava minha mãe de cabelo em pé e preocupada com a possível chegada de uma reprovação em Língua Portuguesa, no final do ano letivo (o que nunca aconteceu, graças ao bom Deus rs).

E, mesmo derrapando nas curvas sinuosas da boa escrita, eu teimava em escrever, especialmente sobre mim mesma. Nem sei dizer quantos diários tive ao longo da infância e da adolescência.

Até que o tempo passou, eu cresci e descobri a leitura nas páginas de José de Alencar (até hoje meu escritor favorito <3). Foi aí que comecei a me interessar pelas engrenagens e gatilhos da Língua Portuguesa. Logo depois, com a escolha do jornalismo para vida, esse interesse cresceu, floresceu e virou amor.

Atualmente, no meu trabalho, escrevo sobre saúde pública, um tema fascinante e que sempre dá pano para manga. Já nas horas de lazer, escrevo sobre cultura, novelas latinas, o idioma espanhol, os países que falam espanhol... Enfim! Escrevo porque sinto que é no correr das linhas que o mundo se ilumina. Afinal, juntando uma letrinha à outra, costurando palavras e sentido, construímos saberes.

Se, antes eu escrevia para me enxergar e me encontrar, hoje escrevo para enxergar (e também mostrar) os mundos que encontro por aí. Sim, "mundos", exatamente no plural porque quem lê e escreve gosta mesmo é de enxergar a pluralidade da vida.


Fernanda Rosa 
dezembro 04, 2017


(Texto originalmente publicado no site Vigor Frágil  |  Foto: Rebeca C.)


SEM OLHAR PARA TRÁS
Thamy Silva


Ela colocou os sentimentos em papel de jornal, bem enrolados para não machucar o gari. Olhou em volta para ver se não tinha esquecido nada: chaves, mala, amor-próprio e algum dinheiro. Ela iria embora sem olhar para trás, não queria mais encaixar-se onde não havia espaço para ser ela mesmo. Respirou fundo e abriu a porta para liberdade, e sentiu no rosto o vento da esperança e a claridade do esclarecimento. Deu passos hesitantes, mas pediu aos céus que desse forças para seguir em frente.

O amor nunca foi um mar calmo sem ondas, mas também não deveria ser aquela constante tempestade cansativa e ininterrupta. Era cansativo tentar manter o clima mais ameno, agradá-lo e tentar ficar sem brigas. Ela chegou ao ponto de não aguentar mais, foi como se aquele relacionamento tivesse se transformado em uma prisão de “não podes” e “não faz isso ou aquilo”. E quando sentiu que o peso estava insustentável, percebeu que como Alice na casa do Coelho, não cabia mais ali. Frustrada com os próprios sentimentos, catou o que lhe pertencia e decidiu tentar uma vida nova na vida.

Depois de sair, sentiu o sol forte demais e o vento sufocante e pensou se não teria tomado a decisão errada, onde estava era confortável, o mesmo café e amor frio de sempre. E ela quis por vezes voltar atrás, mas gostava da liberdade, dos romances esquecidos, o facebook aberto com meme de um rapaz seminu, com as gifs de bichinhos… Gostava de decidir se veria algo na Netflix ou o youtuber favorito. Gostava até das decisões erradas, pois degustava as consequências com a empolgação de ter uma nova lição na vida.

Com o tempo, parou de pensar no que deixou para trás. A felicidade de ser ela mesma se tornou o motivo de viver, a esperança de algo melhor se tornou o ar em suas asas e assim voou para longe. Para o novo. Para o desconhecido. Para o intenso. Carregando sempre consigo as lições que aprendeu, mas deixando as mágoas para trás. Não precisaria mais delas, era uma nova mulher e sabia que o mundo não havia mudado, apenas seu jeito de vê-lo.



Thamy Silvia é nossa amiga no Instagram e enviou esta crônica para participar de nosso projeto Sobre a Escrita, que tem como objetivo reunir escritos e depoimentos de jovens autores, leitores e blogueiros de nossa rede literária. Gostaria de participar? Envie uma direct em nosso Instagram ou pelo email contatopapelpapel@gmail.com :)

outubro 20, 2017



"LEAR — Qual é a tua profissão? Que pretendes de nós?

KENT — Minha profissão é não ser menos do que pareço; servir fielmente a quem confiar em mim; amar quem for honesto; conversar com quem for sábio e falar pouco; temer a justiça; brigar quando não houver outro jeito, e não comer peixe.

LEAR — Quem és tu?

KENT — Um tipo de coração honesto e tão pobre quanto o rei."


A vida não é um traço linear. Não se trata de um projeto ascendente em que iremos melhorar em todas as áreas. Não há uma regra de que ficaremos mais espertos a cada ano que passa. Muitas vezes não somos capazes de aprender o necessário. Como Shakespeare diz através de um de seus personagens, sobre um rei que quis abrir mão de suas responsabilidades sem perder o poder: “Pobre Lear, ficou velho antes de ficar sábio”.

Não há uma hierarquia entre juventude e maturidade. Não é possível dizer que um destes dois momentos [ou arquétipos] possa ser mais importante, deva ser mais valorizado que o outro. O que dá para perceber são algumas distinções entre os dois períodos e assim, quem sabe, absorver o que de melhor surge em ambos os contextos.

Talvez um dos temas mais comuns nos consultórios de psicologia seja o dos relacionamentos amorosos. Chego a brincar que sou especialista em curar “dores de cotovelo”. Quando é o caso de atender um adolescente ou um jovem adulto, existe um enunciado com qual eu me divirto muito. Nunca me canso de ouvi-los dizer: “acho que depois dessa eu nunca mais vou me apaixonar”. Esse é um bom símbolo de como funcionam os primeiro anos de nossas vidas.

Com pouca idade, vivemos pouca coisa. Faltam elementos de comparação para quase tudo e as situações nos parecem muito maiores do que realmente são. Quem nunca achou que perder “aquela” festa era o fim do mundo? Pois que atire a primeira pedra! E o desespero de não ser aceito socialmente? Quantas modas ridículas não foram seguidas só para que a pessoa se sentisse enturmada e diminuísse um pouquinho o medo de se tornar um fracasso social? Tudo isso que nos tirou tantas vezes o sono e hoje quase não nos preocupa.

Por outro lado, podemos pensar também sobre a inconsequência. Alguma parte da coragem na juventude surge do total desconhecimento dos riscos que se corre em tomar certas decisões. Quanta gente não se arrepende em não ter sido um pouco mais prudente neste ou naquele momento? Em não ter pensado um pouquinho antes de aceitar aquele desafio estupido de pular o muro do cemitério na madrugada ou de virar 4 dedos de uma garrafa de vodca? Certos erros nos ensinam, outros podem ser irreversíveis.

No meio de tudo isso há um ponto que é positivo: quanto menos caminho percorrido, menor a possibilidade de carregar na cabeça uma montanha de traumas ou vícios, comportamentos deturpados. A capacidade criativa e de reinvenção da juventude é alta e permite que o sujeito possa corrigir um caminho problemático com menos esforço que alguém com muito apego por suas histórias, por suas manias.

No campo da maturidade quem nunca ouviu [ou disse] “não tenho mais idade para isso”? É a desculpa perfeita, o passo de fuga, para se livrar de qualquer revisão de comportamento necessária para uma vida mais completa, uma existência integral.

A repetição de determinados comportamentos acaba promovendo a otimização das ações. O custo de uma ação torna-se menor depois de criarmos um caminho pelo qual seguimos com os olhos fechados. Aparentemente estamos perto do ponto estável que tanto procuramos em nossas vidas, dá quase para acreditar que, ao menos, algumas das perguntas foram respondidas. É o poder de um hábito constituído.

Fica muito difícil dizer se um comportamento é bom ou ruim sem analisar o contexto em que ele se insere. Mesmo um sintoma pode ser a defesa contra algum tipo de sofrimento muito maior... a parte mais complicada pode ser a engrenagem que mantém nossa criatividade em movimento, mas, em alguns casos, um mau comportamento pode ser apenas um defeito que, mesmo assim, teimamos em mantê-lo, alimentá-lo e fortalece-lo por puro comodismo.

Retornarmos aqui a ideia que apresentei no início deste ensaio. Não existe uma hierarquia entre maturidade e juventude. Digo mais, entendê-las como algo sem possibilidades de unificação é algo arriscado. Ficamos sujeitos a nos enganarmos com as farsas da juventude ou hiperdimensionar as tragédias da fase adulta.

Um jovem que tem o apoio de alguém que possa alertá-lo sobre possíveis enganos escapa de muitos perigos desnecessários. Aprende que nem sempre é necessário enfiar a mão no fogo para entender que aquilo queima. Se uma parte das tradições merece, com toda razão, ser esquecida, outra é base para a evolução de uma cultura. Os jovens devem aprender com os mais velhos e introjetá-los desde cedo.

Do outro lado, é falsa a ideia de que alguém deixa de aprender. A convivência com a juventude estimula o questionamento de quem acreditava não ser capaz de descobrir novidades no mundo. Mesmo o “tio do pavê” vai abrindo sua visão de mundo quando confrontado pelo acervo de preconceitos que carrega junto de si, principalmente se é convidado a conhecer outras possibilidades de existência e perceber que não há nada de errado nelas. É provável que não se torne um militante de causas identitárias ou coisa assim, mas já toma algum cuidado maior ao conviver com a diferença.

Ainda vale a pena apostar em um processo dialético e permitir que as contradições destas fases se enfrentem dentro e fora de nós. Somos todos velhos e novos, em algum contexto e por algum motivo. Creio eu que a sabedoria de que fala Shakespeare surge desse difícil equilíbrio.


Marcelo Marchiori, outubro de 2017
Facebook


outubro 11, 2017


Depois que a surpresa passou, eu achei que conseguiria me manter indiferente ao seu charme e ao seu perfeito uso das palavras, achei que conseguiria manter distância e não demonstraria o quanto você ainda me afeta... Mas não consegui resistir ao seu canto de sereio e, quando dei por mim, estava com um sorriso no rosto, abrindo suas mensagens e sentindo aquele frio na barriga de expectativa... 

Difícil não sucumbir à expectativa, mesmo sabendo que o caminho à frente já foi traçado por nós no passado. E não pense que me iludo achando que dessa vez pode ser diferente, porque não acho que vai, eu já reconheço o seu padrão de atuação. Mas é difícil me negar uma parcela, ainda que pequena, de alegria nesses tempos tão turvos. E é assim que me sinto ao falar contigo, alegre. Por motivos diversos e que a maioria das pessoas não vai entender, por isso nem tento explicar.

Mas não faz mal, o que me importa é como eu me sinto quando nos falamos... É como se você me enxergasse melhor do que quem convive de perto comigo e não faz ideia de como isso é libertador... Porque eu sei que com você posso ser eu mesma, e você não vai me recriminar ou julgar, algo que sei que aconteceria se fosse com outra pessoa. 

E hipnotizada por suas palavras, seu jeito de falar comigo e me estimular, eu vou seguindo o fluxo de nossas conversas, tentando não deixar meu imaginário me levar a querer mais do que sei que você está disposto a me dar. Até que ponto isso vai bastar eu não sei. Mas também não estou com pressa de descobrir. 

Só quero que esse sorriso, esse aqui no meu rosto que você provocou, continue aqui por enquanto, adornando minha face e meu estado de espírito.

Oh again
and again
Now I'm hyp
hypnotised
Yeah I lift
to a permanent high
Oh I'm hyp
hypnotised
It was dark
Now it's sunrise

Kaleidoscope EP, 2017

setembro 22, 2017


Então você voltou...

A escolha de ir embora foi sua. Eu lamentei, mas depois superei e cheguei a aceitar que era melhor assim, afinal nós dois queríamos coisas muito diferentes naquele momento.

Eu resisti bravamente à vontade de continuar sabendo o que você estava fazendo e agi da mesma maneira que nas ocasiões anteriores a essa: me desvinculei completamente de você, desabilitando seus contatos da minha agenda e excluindo as redes sociais que compartilhávamos. Apaguei as mensagens trocadas, deletei a maior parte das fotos (deixei uma ou duas, somente para me lembrar do que foi bom e de como eu fiquei no final, para não cair na onda de outro igual a você). Parei de pensar em você quando me deitava. Deixei de esperar que você sentisse saudade e me procurasse.

O tempo passou e você se tornou uma mera lembrança, mais um aprendizado na minha vida. E achei que estava tudo certo, que eu estava no caminho que devia seguir mesmo, sempre em frente.

Agora você volta e bagunça minha cabeça, me fazendo duvidar de minhas decisões, dos meus sentimentos. Porque tava tudo bem com você em silêncio, eu achava que estava tudo bem...  

Você podia facilitar e ter agido como a maioria, lançando um “oi sumida”, como se nada tivesse acontecido e eu que tivesse evitando você. Isso automaticamente me faria ter raiva de você e expulsar você definitivamente da minha vida, como se não houvesse existido... Mas, não. Como sempre, você sabe a coisa certa a dizer, me confundindo, me fazendo pensar em coisas que eu já não vislumbrava há muito tempo.

E aí, some de novo, me deixando na dúvida se foi uma breve recaída ou se foi uma isca jogada para que eu ficasse curiosa e decidisse dar o passo seguinte e te procurar. Aí vem aquela leve aflição de que talvez eu esteja interpretando tudo errado mais uma vez e de novo, eu não sou eu mesma por causa de você. 

Gostaria de concluir que você já não me afeta, mas não posso mentir para mim mesma. Ainda não entendo porque ouço seu canto de sereio, se já sei como vai terminar essa história. Eu, com mais algumas rachaduras no peito, algumas lágrimas desperdiçadas e a sensação de impotência diante de algo que não posso mudar. Mas, é praticamente impossível ignorar o apelo que vem daqui de dentro... Aquele que diz que pode ser diferente dessa vez.

Porque a gente insiste em acreditar? Porque precisamos ceder a essa louca esperança de que pode sim, finalmente ser diferente? No fundo, sabemos a resposta. Nosso coração não suportaria a certeza de que tudo sempre pode dar errado, ainda que as probabilidades sejam imensas e as estatísticas da vida sempre corroborem para isso.

Ainda não sei o que fazer a seu respeito. Não sei o que fazer com o que sinto. Não sei o que fazer comigo. Só quero me sentir eu mesma de novo, com ou sem a sua presença na minha vida.

“Fiz de mim descanso pra você
Te decorei, te precisei
Tanto que esqueci de me querer
Testemunhei o fim do que era agora

Agora eu quero ir
Pra me reconhecer de volta
Pra me reaprender e me apreender de novo
Quero não desmanchar com teu sorriso bobo
Quero me refazer longe de você”
 
Agora eu quero ir, Anavitória – Forasteiro, 2016.
agosto 18, 2017


Lembro-me como se fosse hoje. Saí do metrô, atrasado. O coração batendo acelerado. Subi pela escada rolante e virei em direção à praça. De longe, avistei o lindo e altivo prédio do Teatro Municipal. A construção mais bonita do Centro da cidade. Andei neste rumo, passando os olhos por toda a praça. Eu estava de casaco, mas já começava a suar. Um sol tímido despontava no céu.

Há poucos metros do Teatro, no último banco da praça, ela estava sentada. Vestia uma calça roxa e uma camisa quadriculada de mangas compridas. Foi o combinado. Meu casaco era cinza. Ainda o tenho em casa. É um bom casaco. Acho que eu disse: "Cheguei!". Ela se virou. O meu primeiro pensamento foi: "Ela ainda é mais linda ao vivo". Era o nosso primeiro encontro.

Aqueles olhos verdes. Aquele modo de prestar atenção, com um sorriso de canto, bem discreto, e um sincero e meigo "uhuuum" estendido. Como eu amei aquela moça!

E tudo foi surreal. Como sempre foi. Como seria depois dela também.

É sempre um milagre conquistar a moça dos seus sonhos. A ficha demora a cair. Mas perder a moça dos seus sonhos torna tudo ainda mais estranho. Há coisas que parecem não ter acontecido, embora saibamos que elas foram tão reais quanto é o sol sobre nossas cabeças.

Para nos lembrar que essas histórias surreais foram também reais é que existe a memória. Em cada lugar, uma memória; e um mar de histórias. As praças, o restaurante japonês, cada pizzaria, cada shopping, cada estabelecimento, cada rua. Por onde passo, uma antiga ou recente memória de algum período belo de doces ilusões.

Nenhuma memória, no entanto, me impacta mais que aqueles olhos verdes. Nenhuma ilusão foi maior. E quanto maior a ilusão, maior também a desilusão.

Aqueles olhos verdes se foram e nos dois anos que se passaram depois disso, nada mais foi tão intenso. Talvez isso seja bom. Faz pouco mais de um mês que terminei um namoro recente. Uma decisão difícil, distante da minha vontade real, porém necessária e acertada. Pensei que ficaria depressivo. Mas o que vi foram semanas tranquilas e estáveis, em uma constância que eu não experimentava há pelo menos três anos, tanto em períodos sem compromisso, como em períodos nos quais estive comprometido. A motivação parece ter retornado com tudo. Tenho produzido bastante, me sentido leve emocionalmente e feliz. É estranho.

Apesar do fim (até o momento) de um longo período de desânimo frequente, com picos intensos e uma montanha russa emocional, as memórias nunca se vão. A maioria não causa mais qualquer sintoma.

São apenas memórias. Memórias estéreis. Outras, no entanto, geram profundas reflexões e, por vezes, um coração acelerado. Se é tristeza, saudade, perplexidade ou contemplação, eu não sei (Deus o sabe). O que nos impacta, seja bom ou ruim, tende a sempre mexer conosco de alguma maneira. Pelo menos, é assim comigo.

Hoje passei em frente ao Teatro Municipal, fazendo o mesmo percurso daquele memorável dia, uma quinta-feira. Não houve como não lembrar daquele banco, daquele primeiro olhar, daquele primeiro encontro.

Um dia perfeito dentro de uma história rude. E o que eu escolho fazer dessa lembrança hoje? Uma história perfeita... Dentro de um dia rude. Levemente rude.

julho 17, 2017


“Deixa eu mimar você, adorar você
Agora, só agora
Porque um dia eu sei
Vou ter que deixá-lo ir”

Dia desses eu me lembrei de ti. Ou melhor, me permiti pensar em você. Sabe quando a gente houve uma música ou sente um cheiro gostoso e de repente é atingido por um milhão de memórias, de sensações? Foi mais ou menos assim que você surgiu em meus pensamentos e eu deixei ficar.

Deixei minha mente me enganar um pouco e senti novamente um certo arrepio, uma certa malemolência... Lembrei das suas palavras, da maneira como você dizia certas coisas e como isso me fazia sentir. E o quanto era bom me sentir tão... Viva. Desperta. Porque foi assim que você me fez sentir, como se eu estivesse adormecida durante um longo tempo e de repente, estava completamente alerta, com meu sistema sensorial totalmente desorientado e exacerbado de informações. 

Mas, tão intenso quanto chegou, você decidiu ir e desapareceu da minha vida, me deixando com muitas perguntas e uma confusão da qual não soube imediatamente como sair. Um tremendo bug no meu sistema nervoso.

Não demorei muito a seguir em frente. Estou acostumada a simplesmente erguer a cabeça e ir, mesmo que não saiba para onde. Também estou acostumada a esconder de mim mesma, sentimentos que podem me causar algum tipo de sofrimento ou prejuízo e ajo como se eles não existissem. Tenho doutorado em fingir demência quando não consigo lidar com algo. Dá certo na maioria das vezes, até que o tempo passa e eu consigo controlar essas ondas de nostalgia quando elas ameaçam me atingir.

Também sei quando chega a hora de me libertar de algumas coisas, de me esvaziar de alguns sentimentos, de filtrar determinados pensamentos.

Eu sei que já passou da hora de dizer adeus, mas dá uma dorzinha aqui dentro sabe? Talvez meu coração goste da sensação de se manter apegado a você, ainda que saiba que está na hora de deixar você ir. E eu vou deixar você ir. Em breve. Por enquanto, vou esconder você dentro de mim, talvez pela última vez, quem sabe? 

Quem sabe...

“O que mais posso fazer
Só te olhar dormir
Agora, só agora
Correndo pelo campo
Antes de deixá-lo ir”

Só Agora, Pitty – Chiaroscuro, 2009.
junho 29, 2017


A voz desafinada não a impediu de subir no palco. Vestida de cores, estampas e confiança, pegou a zabumba a sanfona e o triângulo e iniciou um coro de cantigas juninas. Eram poucas as pessoas no palco, e também pouca a plateia; importava o fim de uma cinza tarde, a beleza de suas árvores iluminadas, o arraiá de decorações, fantasias e bandeirinhas, o encontro de casais apaixonados, e também o dos entediados, afinal é inverno, e o carioca não aprecia casacos, muito menos em meio a abraços, e também nem sempre junto a canções antigas.

Bem antes das seis então, ali bem próximo ao palco, casais e crianças se atrapalhavam com o atropelo da sanfona, e discutiam sobre o tempo e suas vestes bonitas, ai que frio, vamos lá filha, é dois pra lá e muitos pra cá, segura na mão do papai, olha o cachorro, bonito né, nossa, tá alta essa música, vai lá comprar pipoca amor, ok, vou ali comprar cerveja, quer dizer, pipoca.

Canções de amor e São João de algum modo resistem à cidade, assim como aos food trucks e à nossa antipatia. Embora sem coreto ou cortejo, a saudade é a confissão de tudo o que persiste e, nesta empatia, pouco importa o arranhão do disco ou de nossos desalinhos; em meio a barracas de churrasco temaki pão de queijo e risoto (onde foi parar a canjica?), é possível restaurar a companhia e o sorriso, e se divertir ao som de boas lembranças, assim como ao sabor de um quitute ou um beijo, e também ao ritmo de um forró atravessado, e das muitas lâmpadas nos galhos da amendoeira. Pensar em tudo isso faz com que a Nova Cidade seja apenas mais um cenário onde não precisamos a todo tempo fugir - ainda que a canjica e o Gonzaga não estejam presentes; ainda que o trânsito e algumas despedidas sejam fotografias que não gostaríamos de ter vivido.

Gostaria de dançar, claro, com muito prazer, cuidado filha, quanto custa a cerveja moço, esqueci de passar no mercado, vinte e três é São João ou Sant'Antônio, hoje é o seu aniversário, amor, eu sei, e também o do romancista.
 

Da série: Um dia no Rio de Janeiro
Por Rebeca Cavalcanti
maio 28, 2017


“E eu andava que andava tão sozinha
Virei de canto
Olhei e segui na minha intenção
Quem vai me julgar”

Na maior parte do tempo, eu me sinto feita de titânio, inabalável, firme, sólida, inquebrantável. Mas, há dias como hoje, em que eu me sinto extremamente desgastada, tensa, frágil.

É madrugada e o fim do mundo parece mais próximo nesses momentos. E aí, eu penso em você. Penso na falta que você me faz... Mas, também penso que quando eu mais preciso, você não está aqui... Eu tento não me sentir frustrada com isso, afinal você não tem obrigação de carregar um peso que cabe a mim... Mas, não consigo parar de pensar no fato de que quando você precisa, eu sempre estou lá por você.

Só que essa é uma característica minha e já fui alertada antes de que esse traço de personalidade me torna mais humana, mas também me torna fraca.

Claro que você não vê dessa forma. Eu sei que pra você isso me torna maravilhosa. Saber que eu sempre estarei lá por você te dá segurança, não é verdade?

Mas e quanto a mim? Até quando vou esperar você se encontrar na mesma vibe que a minha? Até quando vou ter que passar noites insones me sentindo a última opção para ser sua companhia, quando está tudo bem contigo? Me quebra um pouco demais saber que você só me quer por perto quando a sua vida vai mal.

É claro que eu quero estar lá se isso acontecer – embora torça para que algo assim nunca mais se repita na sua vida. Mas também quero fazer parte das suas alegrias, das suas conquistas. E como dói não estar perto agora, quando você está bem, leve, sorridente... Talvez, se eu estivesse aí, não me sentiria tão perdida agora, tão sozinha. Porque a pessoa que eu achava que me entendia melhor do que qualquer um, na verdade parece não saber nada sobre mim.


A reciprocidade entre nós só se dá quando é você que precisa de empatia, solidariedade, amor e conforto. Quando sou eu que preciso dessas coisas, você se torna igual a todos os outros: alguém que já tem compromissos inadiáveis com outras pessoas ou qualquer outra coisa que possa servir de desculpa para não pôr em prática o que já me prometeu tantas e tantas vezes... Que eu poderia contar com você em qualquer momento de nossas vidas.

Provavelmente você nem percebe o quanto me fere com essa atitude. E eu, consciente de que não posso impor nada a você, continuo aqui sentada de madrugada, pensando no quanto sinto sua falta. O que também não é solução nenhuma.

A solução, invariavelmente é a mesma. Eu vou me levantar amanhã, respirar fundo, erguer a cabeça e me reconstruir... Sozinha.

Só para não causar confusão, preciso te dizer mais uma coisa: eu não lhe quero nenhum mal, ao contrário. Só estou deixando você ver o quanto sinto sua falta.

Quando você vai enxergar isso, é uma resposta que só o tempo trará. Só não sei até quando vou esperar.

“Então vou me enganar
Que agora não dá tempo
Que agora tanto faz
Que é hora de esquecer
E de me conformar
O que um dia já foi meu
Agora não é mais”
Mexeu Comigo, Tiê – Single, 2017

abril 21, 2017




Tô querendo te encontrar

Esperar por você, não tem sido fácil e nem de longe tranquilo. Mas tenho que acreditar que tudo o que tenho vivido só está servindo para me transformar numa pessoa melhor, que vai combinar mais com a pessoa que você está se tornando, enquanto a vida não nos coloca na mesma trilha.

Enquanto aguardo, penso no que eu quero de você, de nós dois... Sem utopias ou fantasias. Essa fase de sonhos açucarados eu já deixei para trás há um bom tempo. O que eu quero hoje é palpável, é realizável, é construível. E quero muito que seja com você.

Eu desejo abraço durante a chuva, enquanto a água que cai espanta todo mundo, fazendo-os correr, mas nós seguimos devagar, se aquecendo no calor um do outro.

Quero ouvir seu riso espontâneo de manhã, ainda que seja da minha cara amassada e mal-humorada, bem diferente de ti, que já está cheio de energia e alegria para começar o dia.

Quero sentir seus dedos entre meus cabelos, num carinho despretensioso enquanto assiste a uma partida de tênis entre dois jogadores com nomes impronunciáveis, só porque gosta do esporte, e eu tento não cair no sono durante mais uma leitura, com a cabeça recostada no teu colo, só porque é bom estar com você, independente do que fazemos.

Quero me sentir segura ao falar sobre assuntos que não ouso discutir com mais ninguém, porque sei que você não vai me deixar sentir uma boba, pois só quer que eu me sinta à vontade para ser eu mesma, sempre.

Desejo que a gente alcance logo aquele patamar no convívio, onde nos entendemos instintivamente, sem necessidades de demasiadas explicações ou explanações sobre o que sentimos.

Anseio pelos momentos em que com uma simples mensagem, você consiga me deixar alerta e com um sorriso idiota na cara.

Mas, acima de todos esses desejos para nós, eu espero que você não demore a chegar e que a gente se encontre em breve, numa esquina qualquer da vida, num relance de um olhar... Onde for para vigorar.

“Fico pensando onde está você
E se você está pensando em me encontrar
Como sou, onde estou e onde quero chegar
Como sou, como é que vai ser
E onde vou te levar
Mas se você me ver pode acenar pra mim
Já pensou que louco te encontrar assim?
Eu vou na boa, eu vou na fé
Eu sei que vou te encontrar
E quando eu te encontrar nós vamos comemorar

Me encontra ou deixa eu te encontrar
Me encontra ou deixa eu te encontrar”

Me encontra, Capital Inicial 
Acústico NY ao vivo, 2015


abril 09, 2017



A solidão do quase


“Pode estar no ponto
Ponto de interrogação
Pode ser encontro ou separação
Pode correr risco
Arriscado sempre é
Só não pode o medo te paralisar”


Rolando de um lado para o outro na cama, ela tenta encontrar uma posição confortável, mas o colchão insiste em não acomodar seu corpo cansado.

Olha o visor do celular: são duas horas da manhã e ela não consegue conciliar o sono mais uma noite. Pergunta-se amargamente quanto tempo mais vai suportar as noites insones antes de ter um colapso. Ri do próprio excesso de sua dramaticidade e se levanta para beber água, já que o sono não vem mesmo. Enquanto sorve o líquido vagarosamente, olha pela janela e observa a escuridão do lado de fora sendo pontilhada por uma ou outra luz acesa nas ruas.

O silêncio da madrugada contrasta fortemente com a barulheira dentro de si. Sente o martelar constante na cabeça e no peito, de sentimentos aos quais não quer se render, mas dos quais não pode fugir.

Ela nunca soube lidar bem com a rejeição. Com os términos sim. Se as coisas não estão caminhando bem e o relacionamento acaba, por mais difícil e doloroso que seja, ela se levanta, bloqueia o cara de todas as redes sociais, apaga todos os e-mails e mensagens e deleta o número do telefone de sua agenda do celular, seguindo em frente, um dia de cada vez. Mas, não sabe o que fazer os “quases” da vida.

Não consegue assimilar porque alguém despende tanta energia e tempo tentando conquista-la, para desaparecer como fumaça no ar quando ela finalmente se rende à possibilidade. Será que se trata de algum tipo de prazer sórdido que os homens sentem em lutar para conquistar e depois, quando conseguem, o sabor dessa “vitória” não tem tanta graça e o jeito é partir para a próxima conquista? Entre um suspiro e outro, tenta em vão entender.

Nunca foi ensinada sobre os jogos amorosos. Para ela, o que faz sentido é ser honesta consigo mesma e com o outro, e talvez por isso, por nunca ter sido iniciada nesses jogos de conquista, não saiba distinguir quando estão sendo sinceros ou não... A menos que sejam muito óbvios. E obviedade parece não fazer parte da catequese dos relacionamentos. Sente-se perdida quando é sincera e isso provoca afastamentos, quando ela pensa que uma conversa franca e aberta deveria aproximar, sempre. 

Ter empatia, sempre foi um de seus pontos fortes, mas aparentemente isso só se aplica quando se trata de dor, perda e sofrimento, situações que ela reconhece de sua própria jornada. A superficialidade do querer, o banalismo das conquistas, a indecisão das vontades, são sentimentos estranhos, que ela não experimentou e por isso não os compreende.

E assim, ela volta para a cama e continua a se virar de um lado para o outro, até o dia amanhecer, enquanto segue sem respostas para as questões que a atormentam todas as noites, desde que você se foi sem deixar pegadas ou sinais, apenas um rastro de confusão na mente e aquele gostinho melancólico na alma, de algo que “quase aconteceu”. 

“Tá faltando peça no quebra-cabeça
Eu não tenho pressa
O meu tempo é todo teu
É tudo que eu posso oferecer (é pouco)
Mas é tudo que eu posso oferecer (é quase nada)
Mas é tudo que eu posso oferecer (é pouco)
Mas é tudo que eu tenho
Tudo que eu posso oferecer”

Novos Horizontes, 2007.


março 12, 2017


Outro dia presenciei uma cena que inicialmente me provocou vontade de rir, mas depois me deixou de queixo caído: fui a uma clínica perto de casa, pois não me sentia bem, e enquanto aguardava minha vez, observei um casal que também aguardava uma consulta. A mulher parecia ser mais nova que eu e estava grávida, a barriga já proeminente, pois ela é do tipo magrinha. O homem, que intuí ser seu esposo, andava de um lado para o outro, inquieto e nervoso, ameaçando ir embora e queixando-se em voz alta da demora em serem atendidos. Confesso que a atitude dele me irritou um pouco (leia-se: bastante! Mas eu estava mal e, assim como eles, só queria ir embora logo) e às outras pessoas que estavam na recepção na mesma situação que nós. Creio que o pensamento da maioria, devia ser a irritação com quem quer ganhar tudo “no grito”.

Mas, quantas e quantas vezes, nós também já não fizemos ou agimos de modo semelhante?

A começar pela infância, quando a palavra PACIÊNCIA parece não existir em nosso vocabulário, e queremos os brinquedos e os doces imediatamente, e nos queixamos/resmungamos audivelmente, quando o colo ou mais uma história antes de dormir nos é negada. Que coisa mais injusta, não é mesmo?

E na adolescência/inicio da juventude, quando nossas prioridades se distorcem e já não sabemos mais quem somos, nem para onde vamos, mas temos de ser ouvidos, temos que abrir espaço à força, e o fim do mundo acontece todas as noites, quando finalmente nos damos conta de que não alcançamos nossos objetivos. Isso sem contar o esforço demandado no processo de conquista e a frustração por se sentir invisível em meio a um mar de gente. “Como ele(a) se atreve a não me olhar ou gostar de mim?” alguns podem pensar presunçosamente (atitude que acaba sendo perdoada, afinal, somos tão jovens).

E o que dizer de nossa vida adulta, onde tudo tem de ser para ontem!!! A correria dos dias nos impulsiona em uma rotina maluca, onde o cumprimento de prazos e a logística de trabalhar, cuidar da casa e da família, parece uma missão impossível a cada amanhecer, ainda que o suspiro de satisfação por ter dado conta de tudo seja a última ação do dia.

E assim somos levados pela corrente, não enxergando muita coisa ao nosso redor, a menos que esteja dentro de um raio de 30 cm de distância. E eu me pergunto: por quê?

Porque é tão difícil fazer as nossas obrigações com mais tranquilidade? Porque não olhamos 5 segundos para o lado e observamos quem está ali? Que urgência é essa que nos arrasta/empurra pelos dias, fazendo-nos dispersar pelo caminho e não enxergar de fato o mundo e a nós mesmos?

Mas, de onde vieram tantos questionamentos, vocês podem se perguntar.

Ao final da consulta, aquele casal citado no início desse texto, saiu emocionado da sala, ambos com sorrisos iluminados e lágrimas nos olhos. Acredito que devem ter feito um exame de imagem pela primeira vez e estavam tão felizes que era impossível conter o que sentiam. E aquele homem que há poucos minutos estava irritando a todos com sua rudeza nos fez respirar mais fundo ao compartilhar sua alegria conosco, um bando de estranhos, agradecendo em voz alta a Deus pela dádiva recebida.

Eu não sei qual é a história dessa família. O que eu sei é que naquele dia a atitude deles me fez olhar para mim mesma e me perguntar por que eu não estava valorizando as pequenas alegrias de cada dia: como um por do sol na saída do trabalho, que parecia ter sido pintado no céu especialmente para mim, com uma maravilhosa mistura de cores quentes e frias, deixando um gostinho de saudade pelo fim do horário de verão. Ou um bate papo pelo Whatsapp com os amigos, já que cada um vive em um recôndito de São Paulo e adjacências, mas que parece com nossas conversas ao vivo, repletas de riso e familiaridade. Ou ainda o simples prazer de ouvir músicas que há tempos eu não escutava e que me transportam a outros tantos tempos.

Naquele dia, eu fui exortada mais uma vez a recordar que o que importa não é o que a gente pode vir a ter ou não e sim, valorizar aquilo que temos, aquilo que sentimos, aquilo que vivemos. Agora, neste momento.

Não é sobre chegar no topo do mundo
E saber que venceu
É sobre escalar e sentir
Que o caminho te fortaleceu
É sobre ser abrigo
E também ter morada em outros corações
E assim ter amigos contigo
Em todas as situações

Trem Bala, Ana Vilela