quarta-feira, 17 de maio de 2017

Wabi-sabi - Francesc Miralles | Editora Record

(Este é um texto de ficção a partir da obra Wabi-sabi, de Francesc Miralles. Ainda assim, por sua proximidade com os fatos expressos no livro, o leitor pode considerar este texto como uma Resenha, e tê-lo como referência em sua leitura da obra. Aliás, não deixe de ler! Este é um dos melhores lançamentos dos últimos tempos da Record <3)


É como se um dia acordássemos e um cartão-postal estivesse sob o bem-vindo do carpete de entrada, em um envelope meio amassado, trazendo uma notícia tão alegre quanto o nosso humor às cinco e quinze ou após ter tropeçado ao sair do chuveiro. Digo isso porque Gabriela me escreveu uma ou três linhas e pediu que eu voltasse pra casa e aguardasse o seu chamado. Talvez Gabriela quisesse apenas me dizer que também tropeçou no chuveiro e que por isso não estaria em condições de continuar sua peregrinação nada espiritual a muitos quilômetros de Barcelona. Ao chegar em casa, no entanto, o suor da ansiedade fez com que eu entendesse que esta seria uma possibilidade ridícula. Ainda assim, com alguma esperança, sentei no sofá e aguardei o telefonema. E fiquei pensando: se compararmos a vida a um longo episódio de peregrinação, digamos, pelo Caminho de Santiago, é bem provável que em algum momento de nossa escalada todo o equipamento escorregue de nossas mãos (no caso, de minhas mãos, não duvidaria disso) e nossa sobrevivência dependa unicamente de um milagre ou de um helicóptero da defesa civil. Bem, esta seria minha versão filosoficamente resumida dos fatos, caso eu sobrevivesse a esta peregrinação, pois é bem certo que Gabriela saberia muito o que fazer para sair de uma emboscada dessas. E sairia sozinha, claro, ela e suas botas trekking e seu equipamento de navegação (no meu tempo isso se chamava bússola) movido à bateria solar. Enfim, sem mais devaneios, pois já são nove e cinquenta e nove e daqui a um minuto receberei uma ligação da Gabriela, minha autoconfiante guerreira das montanhas! Das montanhas, da cidade, do mundo... do mundo longe de mim?

"O mundo é imprevisível, mas os sábios insistem que tudo acontece quando tem de acontecer". Escrevi esta frase um pouco após o telefonema de Gabriela, que durou também uma ou três linhas, e que poderia ter sido dito de um jeito diferente, caso houvesse algum resquício de compaixão em si mesma. Mas... não foi assim que aconteceu (momento autopiedade on). É, eu sei, a vida é mesmo uma sequência de imperfeições e impermanências, então, prefiro acreditar que no coração de Gabriela a mensagem tenha sido escrita mais ou menos assim:

"Preciso falar com você. Porque essa distância de agora não é apenas resultado de um carimbo em meu passaporte. Afinal, toda impermanência tem seus motivos, e mesmo que a gente não saiba definir o instante em que nossos meridianos se desalinharam, o coração da gente já começa a rabiscar novas coordenadas e logo percebe que é hora de partir. Bem, talvez você não perceba, já que seu país é recortado por um passado que não mais compreendemos, que eu não compreendo, mas é bem aí, nesta geografia antiga, que você insiste em viver, e eu não sei mais o que dizer a respeito disso, a não ser: Wabi-sabi.

Há momentos, Samuel, em que o ontem é o nosso melhor destino, mas não acredito que nossos caminhos estejam vivendo isso agora. Bom, eu sei que não estou. Por isso escrevo, às dez da noite de um fuso horário errante, só pra dizer que eu acredito que você deva partir também, sabe. Que tal Japão, Maldivas, Berlin...? Melhor, Quioto! É, no extremo oriente, ali bem próximo ao Monte Fuji. Você pode pegar um trem, fotografar o Monte, perder o medo de escaladas e acreditar um pouco mais em você. Acreditar que tudo é possível, inclusive a dissonância e a imperfeição de nossos sentimentos, que, apesar de tudo, foi o que permitiu que a gente percorresse tantos quilômetros de vida juntos...

Hoje, porém, foi preciso pegar minhas malas e cruzar estes um ou dois países; sei que posso voltar pra Barcelona, mas minha verdade não está tão perto assim. A sua também não, e eu gostaria que você enxergasse um pouco disso.

Cuide bem do gato. E continue escrevendo. Seus livros, e também os de Titus, seu melhor amigo. Fique bem. Que a vida o reencontrará tão logo, ainda que não pareça tão cedo.

Bjs,
Gabriela"

A sensação é a de que a vida parou e eu fiquei em choque nesta cadeira por alguns dias. Mas era apenas madrugada, e as dores e câimbras do corpo não poderiam nunca se comparar ao tapa que recebi disto que chamamos Realidade. Estou mesmo cansado, os dias seguintes foram péssimos, porém, estava disposto a ouvir o conselho de meu sábio vizinho Titus - que, na verdade, meu único amigo - e partir para uma viagem de autoconhecimento, logo ali, no Japão. É claro que Titus gostaria que eu o ajudasse em mais uma de suas pesquisas acerca da sabedoria do oriente, mas a viagem tinha como principal objetivo a resolução de um mistério: o de encontrar o remetente dos cartões postais que chegaram há alguns dias, diretamente do Japão, escritos em bela caligrafia e com uma enigmática mensagem no verso: Wabi-sabi. Embora eu não conhecesse a língua, os costumes e tampouco amigos nipônicos, Titus também achou que este mistério dos postais chegou em boa hora, como se fora um "presente do destino" - ou, dito de forma cética, como uma oportunidade de ocupar minha cabeça e esquecer o pé na bunda que recebi de Gabriela. Mas veja bem, só topei esta viagem porque já se aproximava o período de férias. Afinal, minha carreira como professor universitário (embora não muito bem sucedida) precisava ser mantida, e "matar aulas" seria algo fora de cogitação, sempre. Se bem que, pensando agora no telefonema de Gabriela, este talvez seja um dos motivos porque Gabriela desistiu de mim, porque sou previsível, o que você acha? É, deve ser isso... você está certo. Obrigado.

Mas voltando à viagem: o que foi que eu encontrei no Japão? Além do Monte Fuji, alguns templos e um copo de cerveja a 15 euros? Wabi-sabi, claro! Minha verdade. E que talvez seja bem parecida com a sua. Ainda que você não esteja no Japão; ainda que não tenha conhecido uma Gabriela...

"'O melhor remédio para os amedrontados, solitários ou infelizes é sair, ir ao ar livre encontrar o céu, a natureza e Deus. (...) Enquanto isso existir - e deve existir para sempre -, sei que haverá consolo para a tristeza, para qualquer circunstância que a tenha provocado.' (Anne Frank)

Essas palavras de uma menina de 16 anos que estava prestes a ser levada à câmara de gás me fizeram sentir vergonha de mim mesmo. Não apenas porque escrevia melhor do que eu, mas porque em seu esconderijo era capaz de desfrutar coisas que um homem que tinha toda a liberdade do mundo negava a si mesmo.

Quantas vezes eu havia passado o dia ao ar livre nos últimos anos? (...) Isso para não mencionar outros prazeres da vida, que me causavam dilemas morais próprios de uma espécie que boicota a si mesma para poder continuar se lamentando.

(...) Onde estava o problema? (...) O problema era eu."
(pg. 187-188)



Wabi-sabi - Francesc Miralles

Sinopse: Quando um relacionamento vai mal, nada melhor do que viajar para um mundo distante para repensar a vida. E é exatamente isso que Samuel faz. E é exatamente isso que Samuel faz. Sua namorada, Gabriela, com quem ele mantém um relacionamento há oito anos, parece mais distante a cada dia, e sua vida passa a se dividir entre as aulas de alemão e as pesquisas que faz para os livros de autoajuda de seu vizinho, o escritor Titus. Tudo isso na companhia do gato Mishima. Porém, certa manhã, algo tira Samuel de sua existência monótona: um cartão-postal vindo do Japão com a imagem de um gato de porcelana, o maneki-neko, e os dizeres “Wabi-Sabi”. Dias depois, ele recebe em sua casa um segundo postal com a fotografia de um templo e as mesmas palavras. Intrigado, Samuel decide ir ao Japão para descobrir quem é o remetente das misteriosas mensagens, e sua viagem acaba se transformando em uma verdadeira jornada de autoconhecimento.
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