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agosto 17, 2017


Conhecer a história de vida de alguém através de uma biografia, é sempre uma experiência enriquecedora que muitas vezes nos leva a um outro tempo e lugar. Mas, raramente isso é possível com a pessoa que inspirou tal biografia ainda viva. Ter esse privilégio é como conhecer de perto uma lenda viva e fazer parte da sua história. Foi assim que me senti ao ler Maurício – A história que não está no gibi, primeira publicação do selo Primeira Pessoa do grupo editorial Sextante.

Difícil não se emocionar ou se envolver com a história de alguém que contribuiu para que eu me tornasse uma leitora tão voraz, alguém que está tão em pauta nos dias atuais quanto estava durante a minha infância e antes que eu chegasse ao colo da minha mãe. Alguém, que eu nem conheço pessoalmente (ainda!), mas com quem tenho uma afinidade sem explicação!!! Meus caros, é impossível segurar essa emoção e o envolvimento quando a pessoa é tão palpável, tão próxima de seu público, quanto Maurício de Sousa consegue ser.

Maurício nasceu em Santa Isabel, cidade situada na região do Alto Tietê em São Paulo, que até hoje tem ares de cidade do interior apesar da proximidade com a metrópole paulista. Mas, logo teve de dividir a infância entre Mogi das Cruzes, uma das maiores cidades da região do Alto Tietê e a capital paulista em idas e vindas dos pais, numa tentativa de melhorar de vida – como ainda é feito nos dias de hoje! Ainda na infância descobriu os quadrinhos, que foram a porta de entrada não apenas para sua alfabetização, como também para o desenrolar de sua habilidade como desenhista. Habilidade que lhe custou a formação no ensino médio, já que em um momento de “descuido”, foi pego por um professor que lhe reprovou em sua matéria durante alguns anos, até Maurício desistir de continuar seus estudos, algo que não era incomum na época.

Trabalhando desde criança em diversas ocupações, passou por muitas “profissões” até conseguir chegar ao posto que queria ocupar, recebendo “nãos” de pessoas “entendidas” profissionalmente do ofício de desenhista. Mas, Maurício se recusava a desistir, apenas continuou aprimorando sua técnica e conhecimento até a oportunidade perfeita surgir.

“A história, o mundo está cheia de ‘nãos’ que podiam fazer sentido para quem os disse, mas que depois se revelaram estupendas bolas fora. A gravadora Decca recusou os Beatles por julgar que eles nunca teriam futuro na música e muito menos aceitação do público. Criadora do bruxo Harry Potter, J. K. Rowling levou mais de 10 nãos antes de encontrar a editora que publicaria seu primeiro livro. Walt Disney foi demitido de um jornal sob a alegação de ter pouca imaginação e nenhuma ideia original. Mesmo batendo no muro, nenhum deles desistiu” – pág. 12.


Dono de uma personalidade forte, Maurício nunca desanimou diante das negativas que recebeu, apenas aceitou pegar atalhos ou caminhos inesperados que o levariam a conquistar uma oportunidade, contando para isso com a ajuda e apoio não só da família, como de pessoas que enxergavam nele o potencial futuro e ao longo do tempo, de pessoas que apostavam em seu talento e carisma pessoal, afinal seus quadrinhos falam uma língua universal, compreendida em qualquer lugar do mundo. E nesse relato, ele nos mostra de forma humilde e generosa, como alcançou corações de crianças do mundo inteiro, em locais impensáveis para ele quando deu início ao trabalho como jornalista (na época não era necessário cursar Faculdade para ser jornalista, bastava escrever bem e ser esperto para captar o que podia ser de interesse do público leitor, algo em que o Maurício já era pós-graduado com tão pouca idade), trabalho esse que lhe abriu as portas para a prática do desenvolvimento de desenhos e em pouco tempo tirinhas que se transformaram em sua marca pessoal.

“Duas lições me acompanhariam vida afora. A primeira é que queimar pontes nunca é bom negócio para ninguém. Isso só gera desgaste, ruptura, isolamento, oportunidades perdidas. A segunda é que, como meu pai, também gosto de estar certo. Mas, se não estiver, ao contrário dele, hoje eu incentivo as pessoas a demonstrarem onde está o erro no meu modo de pensar ou de fazer as coisas. Eu gosto de ser convencido, de que me apontem um caminho melhor do que aquele que eu tinha sugerido” – pág. 37.

Nessa autobriografia, ele nos conta como seus dez filhos inspiraram personagens que adentraram a casa das famílias brasileiras em períodos difíceis do governo brasileiro e da educação religiosa, que durante muito tempo exigiu o fim das revistas infantis por considerar seu conteúdo impróprio e abusivo. Nesse cenário similar à Inquisição Espanhola, Maurício conseguiu destoar de muitos autores de gibis ao demonstrar uma capacidade incrível de escrever e mostrar como a infância pode ser boa e divertida, conseguindo de certa forma um indulto da Igreja para continuar distribuindo suas histórias.

“Jamais tive crise de criatividade. A maioria das histórias sempre veio num jorro, como se já estivessem escritas em algum lugar do cosmos e eu as captasse e colocasse no papel” – pág. 64.

Com o tempo, Maurício aprendeu não apenas a desenvolver personagens, como também a expandir seus negócios, transformando sua marca num negócio lucrativo e de fácil acesso a todas as crianças através do desenvolvimento de produtos, brinquedos, peças de teatro, filmes e qualquer coisa que possa nos lembrar de sua turminha. Também desenvolveu com o tempo, o crescimento de seus personagens, que hoje podem ser vistos tanto na infância, com os clássicos gibis, quanto nas revistas da Turma da Mônica Jovem que resgatou um público que ama a turminha, mas que já não compreendia suas tramas ou se envergonhava de ler as histórias clássicas de Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão e Chico Bento, em suas travessuras infantis, transformando-se imediatamente em um sucesso de vendas no país que é tão duramente criticado pela falta de incentivo à leitura às novas gerações.

Acompanhar a trajetória de Maurício, é conhecer também um pouco da história do nosso país nesses últimos oitenta anos ao menos, onde através de situações que ele e a família enfrentaram, podemos ter um vislumbre dos costumes, da política e do desenvolvimento do pensamento artístico e social ao longo do tempo, além de observar o amadurecimento de uma mente criativa e a visão de um empreendedor que não deixa escapar oportunidades, não para angariar mais lucro (o que convenhamos, se ele decidisse usar a partir de hoje o que já foi produzido até então, não precisaria mais inovar ou desenvolver nada para isso, seu portfólio fala por si só), mas para responder a um desafio que o move desde que ele pode se lembrar: porque não?

“Com mais de 80 anos, uma pessoa já passou por tanta coisa que tem toda a consciência de que certos comportamentos ou reações não valem a pena, como se estressar por algo que, de um jeito ou de outro, será resolvido e voltará ao normal. Por outro lado, essa pessoa também aprendeu que as coisas mais importantes da vida estão associadas à família, à simplicidade, à solidariedade e ao amor” – pág. 221.

Sinto que, por mais que eu fale e elabore a respeito, não estou fazendo jus à essa leitura. Não apenas movida por um sentimento de reverência por falar de alguém que admiro, mas porque Maurício merece mais, sua história merece mais. Ler sua biografia me fez sentir como se estivesse sentada em seu estúdio, observando-o trabalhar enquanto batemos papo, como se fôssemos amigos de longa data, sem frescura nem rebuscamento na linguagem. Uma simples, honesta e gentil conversa.

Espero que você aí do outro lado, possa ter essa oportunidade também, de rir e se emocionar com esse genial e fabuloso ser humano ao conhecer a sua jornada, porque ele está contando-a para você!!!

“Em última instância, sou um sobrevivente, um homem que começou do nada, realizou seu sonho e não quer desistir dele de jeito nenhum.
Enquanto eu estiver por aqui, saiba que foi você quem sempre alimentou meus sonhos. Depois que eu partir, não se esqueça de que ideias e também sonhos improváveis, é que movem o mundo. De um jeito ou de outro, sempre estarei com vocês”
– pág. 300.


fevereiro 17, 2017



"Humberto nunca havia subido em um palco. Desde a adolescência, fazer música era um sinônimo de acolhimento. Dedo contra corda. Som se projetando. Quando a porta do quarto se fechava, cada acorde no violão sugeria outro, que sugeria outro, e assim iam se sucedendo. Um mundo de sons se formava e passava também a acomodar palavras, poesia anotada em folhas de papel." (p. 13)

Um livro sincero, como todo livro deveria ser. Especialmente quando a sinceridade diz respeito a uma vida (no caso, mais de três) que você viu de perto, ou meio assim de relance, em um registro de memória que em algum momento (ou sempre) revisitamos. Sob o olhar de quem não se desfaz de tamanha juventude, percebemos que a nostalgia é um sentimento também coletivo, e que o resgate de uma época quase sempre surge em tempos como agora, onde pouco é o pertencimento, ainda que muitas as estradas e geografias.

Com este sentimento em mãos, nasce uma Biografia, e já que vamos falar de Engenheiros, há que se dizer que Infinita Highway mantém-se fiel à memória e legado de seus personagens, e só por isso já merece um lugar de destaque neste nicho literário dedicado a cultura musical de nosso país. Afinal, o texto de Alexandre Lucchese é mesmo generoso neste sentido, pois apresenta a história da banda com rigor jornalístico, valendo-se de fatos e depoimentos de época, além de bate-papos e entrevistas recentes que contribuem para a forte autenticidade de seu texto.

Enquanto leitora, percebo um lugar comum entre os autores de biografias de personalidades nacionais, especialmente quando retratadas entre as conturbadas décadas de 1960 e 80 (e felizmente o texto do Lucchese passa bem longe disso); no caso, quando o autor se coloca como protagonista da história e, ao invés de resgatar a vida e obra de seus personagens, dedica inúmeros capítulos a narrativas pessoais e a discursos políticos. Ok, é bem possível que a proposta da obra seja uma reflexão maior que a particularidade de um ídolo, porém, não deveríamos chamá-la Biografia então. Recentemente, inclusive, em uma obra similar a dos Engenheiros (similiar, no caso, porque também sobre rock brasileiro), o autor não só dedicou um capítulo inteiro a suas visões políticas, mas fez questão de reafirmar suas inquietações panfletárias ao longo de todo o texto. Caro jornalista, sabemos que a história do Brasil foi e será sempre tumultuada, e que a gente por vezes sente mesmo uma necessidade de compartilhar textões sobre isso; porém, quando o leitor compra um livro a respeito de um artista ou banda, é bem provável (e óbvio) que ele queira ler sobre a vida e obra de seu ídolo, e não necessariamente umas 150 páginas contendo uma análise política de uma época, especialmente quando a visão nada imparcial do autor interrompe a narrativa biográfica para, por exemplo, saudar "um importante líder político e sindical da época". Desculpe, caro jornalista, mas sua bandeira política não interessa nem um pouco, e eu realmente lamento esta necessidade de obtenção de vendas de seu trabalho sob este artifício da panfletagem.

Um parêntese: peço desculpas ao Alexandre Lucchese por inserir este comentário na resenha, mas o seu trabalho de escrita junto a obra dos Engenheiros realmente se diferencia, e penso ser importante mencionar isto. Afinal, para o leitor, e principalmente para o fã, fatos e entrevistas e algum (muito) afeto por parte de quem escreve deveriam ser os principais objetivos de se escrever uma biografia, e encontrar essa honestidade no seu texto foi mesmo uma grande experiência, a qual não vou deixar de recomendar.

A vida imita o vídeo 
Garotos inventam um novo inglês 
Vivendo num país sedento 
Um momento de embriaguez 
Somos quem podemos ser 
Sonhos que podemos ter 

Somos quem podemos ser (1988)


"Sem muitos amigos, mas sempre com muitos fãs, a saga dos Engenheiros do Hawaii começava a extrapolar o circuito das pequenas danceterias de Porto Alegre. (...) Gessinger, ao menos aparentemente, não teve dificuldades em se fazer compreender para todo o Brasil. (...) Se, por um lado, havia um desejo de seguir na estrada, também ficava claro o desejo de abandoná-la quando o interesse deixasse de ser orgânico ou quando o som precisasse ser transformado por imposições internas. 'A gente está nessa história para continuar, tanto que fazemos a coisa de uma maneira superséria e acreditamos mesmo nela. Agora, a gente não pretende aposentadoria no INPS através da música. Vamos continuar tocando enquanto a coisa estiver viva, enquanto tiver sentido de ser', (...) afirmou Carlos Maltz em entrevista para a Revista ZH (Zero Hora), em 4 de janeiro de 1987." (p. 110 e 151)

De volta a história dos Engenheiros, quem é fã já sabe que a ideia da banda surge em meados da década de oitenta, nos anos da faculdade de Arquitetura, onde Humberto Gessinger e Carlos Maltz se conheceram e, ao longo de uma década, realizaram uma inconfundível parceria. Após algumas páginas de introdução de sua pesquisa, Alexandre Lucchese faz uma apresentação da cena rock de Porto Alegre, e também desta alguma distância entre a o sotaque do sul e sonoridade das outras capitais. Em paralelo a cronologia, o autor dedica capítulos aos primeiros acordes, vida e interesses de cada integrante - inclusive dos que fizeram parte da formação pré-Augustinho Licks, assim como às questões iriam nortear suas escolhas de carreira: "- Nós não éramos brothers de ninguém, nem de nós mesmos. Éramos completamente outsiders - conta Maltz. Tinha aquela questão do individual, herdado do romantismo alemão, de ser um indivíduo, da gente não fazer parte de nenhuma panelinha, de nenhum sindicato do rock." (p. 37)

Esta escolha por autenticidade teve um preço, e a sonoridade e versos que conquistaram o público eram as mesmas que distanciavam os Engenheiros do gosto da crítica e das bandas de seu tempo: "Revolta dos Dândis também pode ser lido como uma tirada irônica sobre a onda roqueira de meados dos anos 1980, nas quais muitas bandas que se diziam radicais e punks eram formadas por garotos de classe média que, como um dândi, se travestiam em uma forma diferente de vestir e agir no palco. Terra de Gigantes é a música que deixa mais clara essa intenção de questionar a suposta rebeldia do rock nacional, com o verso 'A juventude é uma banda numa propaganda de refrigerante'." (p. 187)

(Qualquer semelhança com os dias de hoje...)


"A banda entrou nesse clube fechado não pela vendagem, mas pela credibilidade (...). Até hoje tem gente que não nos entende. Já essas bandas - Titãs, Legião, Paralamas - todo mundo sabe qual é a deles. (...) Nunca me senti tão pouco à vontade quanto no tempo em que minha banda teve exposição avassaladora. Nunca foi uma banda para ter aquele volume de exposição e ser hegemônica. (...) Gosto de fazer parte de uma indústria e saber que ela impõe limites fortes ao meu trabalho. A gente descobriu a dignidade de entreter. (...) É interessante você botar uma poeira na engrenagem, em vez de combatê-la de frente. Acho mais válido do que falar da polícia e da igreja. Isso é uma obviedade desgraçada." (p. 222, 236 e 243)

É claro que em toda relação há atritos, principalmente no que diz a criação artística, liderança e rumos coletivos; uma década de carreira talvez tenha sido pouco, mas tornar-se inesquecível na mente do ouvinte é quase um infinito. Embora grande a saudade, há que se respeitar a vida que cada um escolheu para si após o término da banda, assim como a relação que cada um estabelece com a obra realizada na juventude e a importância ou não de comentá-la hoje em dia. Ao leitor, fica o sentimento de que a biografia de Lucchese realmente respeitou a vontade e espírito de seus personagens, e, de forma gentil, contribuiu para a preservação deste importante capítulo da história da música, assim como o de nossa própria história.

Vida longa ao legado dos Engenheiros e ao honesto trabalho do jornalista Alexandre Lucchese!

Aliás, vale conferir uma entrevista com o autor no site da revista Scream and Yell :) Tá bem bacana!

Há espaço pra todos, há um imenso vazio
Nesse espelho quebrado por alguém que partiu
A noite cai de alturas impossíveis
E quebra o silêncio e parte o coração

Há um muro de concreto entre nossos lábios
Há um muro de Berlim dentro de mim
Tudo se divide, todos se separam
(Duas Alemanhas, duas Coreias)
Tudo se divide, todos se separam


Alívio Imediato (1989)



Alexandre Lucchese

Era pra ter durado uma noite só. Era pra ter sido somente uma banda de abertura. Era pra ter outro nome. Não era pra ser um trio. Eram várias variáveis. Graças a essa sucessão de fatos estranhos, quando não ter plano é o melhor plano, nasceu uma das maiores bandas do rock brasileiro: Engenheiros do Hawaii. Uma história cheia de lances improváveis que o jornalista Alexandre Lucchese conta nesta biografia, depois de ter entrevistado mais de uma centena de pessoas ligadas à banda, inclusive Humberto Gessinger, Carlos Maltz e Augusto Licks, o trio responsável pela fase de maior sucesso, que acabou se desfazendo anos mais tarde em meio a brigas e processos judiciais. Embarque na infinita highway para ver como nada do que foi planejado para a viagem deu certo, mas, nesse caso, ter dado tudo errado não poderia ter sido o mais certo.