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Mostrando postagens com marcador Keith Stuart. Mostrar todas as postagens
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dezembro 31, 2016

"Dan vai sair. (...) Ele sempre tem alguma boate para ir e o gerente é sempre amigo dele. Não é a primeira vez que me pergunto: como ele faz isso? Dan é dois anos mais novo que eu, mas não é só isso. Sua vida meio que segue no piloto automático; coisas boas acontecem com ele quer queira, quer não.
(...)  Eu já fui cool também, por muitos anos. Bem, talvez quatro. Durante a faculdade, acabei sendo o líder de uma comunidade de música alternativa chamada Oblivion, em que tocávamos pós-rock e uma música eletrônica estranha em lugares minúsculos e cheios de músicos profissionais coçando o queixo. (...) Dan aparecia e nos ajudava enquanto cursava design em Bristol; ele criava nossos cartazes e até montou um site para nós. Ele ainda faz essas coisas, mas para mim perdeu a graça.
A vida entrou no caminho.
- Acho que vou ficar em casa. Mas valeu, obrigado, Dan.
- Não esquenta, cara.


Última resenha do ano, um dos melhores livros de 2016. Porque a vida não segue por atalhos, e a história do Menino nos diz que é preciso caminhar, ainda que a estrada pareça não ter fim.

Keith Stuart é editor de games e tecnologia do jornal britânico The Guardian. Em O Menino feito de blocos, Keith apresenta a história do pequeno Sam, personagem baseado em seu próprio filho, Zac, que percebe a realidade como um quebra-cabeça cujas peças mal se conectam.

Nesta quase autobiografia, os episódios são narrados sob a perspectiva de Alex, um pai que abdicou de suas ambições e juventude para se dedicar a criação de Sam, esta criança que com muita dificuldade se adapta ao cotidiano que o cerca. É possível que o leitor interprete a sinceridade de Alex como um sinônimo de indiferença; eu diria que é apenas um desabafo de quem entendeu que a vida não é doce, e que a exaustão é um fato presente no coração de toda a gente. Afinal, por mais que haja amor, uma hora o casamento entra em crise, a criança chora por dias seguidos, e a única coisa a fazer é lutar ou desistir de seu próprio mundo.

Neste ponto da história, Alex está fora de casa, sua esposa não encontra mais motivos para sua presença. Ao refugiar-se no apartamento de seu melhor amigo, os dias de Alex se arrastam, como se à espera de uma solução para esta realidade familiar há anos incompreensível. A cada capítulo, no entanto, conhecemos um pouco mais do passado de Alex, e juntos revivemos inúmeros episódios de dedicação e amor pelo Menino.

Os dias seguem, novas decepções o interceptam pelo caminho, porém, a cada reencontro com sua esposa e filho, o coração de Alex se enche de esperança, ainda mais ao perceber que Sam encontrou na realidade dos games, especialmente Minecraft, um novo ponto de contato com a sociedade que sempre o amedrontara.

Este episódio dos games é, inclusive, um dos mais importantes na biografia do autor: "Eu acho que o tema principal da história é que, enquanto pais, nossa tarefa é encontrar nossos filhos nos lugares em que eles se sintam confortáveis, e só assim poderemos entender uns aos outros - o que acontece é que esses lugares às vezes existem através de uma tela, e o que precisamos fazer é deixar a preocupação de lado e fazer com que esse encontro simplesmente aconteça". (no Blog da Record você encontra outros trechos, cujo original, em inglês, está no jornal The Guardian).

Ao longo da história então, o Menino encontra sua voz, e, com a ajuda de Minecraft, passa a compartilhar com o mundo este seu novo vocabulário. Se eu pudesse compartilhar um spoiler, diria que os capítulos finais são de uma doçura e emoção surpreendentes! Aliás, assim como Suzy e as Águas-vivas e Achados e Perdidos, O menino feito de blocos é uma história onde a cada página compreendemos os porquês de todo reencontro e ausência, assim como de toda vulnerabilidade e força que no peito se refugia. Afinal, quando a vida retira algumas peças de nosso quebra-cabeça, este talvez seja um convite para construirmos uma nova paisagem, especialmente quando temos à disposição alguns blocos, um pouco de amor e uma família.

"- Papai, o que você está fazendo? Eu acho que você está empacado.
- Como assim?
- Às vezes eu fico empacado num pensamento e não consigo me livrar dele, não por um bom tempo. Ele fica e fica. Você está empacado em um pensamento.
Paro de andar.
- Ei - digo. - É, acho que você está certo. Está totalmente certo. Eu estou empacado num pensamento. (...) Caramba, você é muito esperto.

E isso me vem como um choque e uma surpresa (...); os vislumbres do interior de Sam são tão raros e fugazes que, quando aparecem, eu os considero verdadeiras joias. (...)
- Obrigado por pensar em mim - digo. - Obrigado, Sam.

Ele desvia rapidamente o rosto, seus olhos vasculhando a calçada, evitando meu olhar e minha gratidão. (...) Eu desisto e (...) fico (...) achando que o momento passou totalmente, essa pequena janela de intimidade. Mas, quando paramos numa rua, ele tira a mão da minha por um instante, e então bate de leve nas minhas costas.
 - Meu papai - diz ele.

E a cena é tão perfeita que sinto que estrelas vão cair sobre nós."


Keith Stuart 
Editora Record

Alex ama sua família, mas tem dificuldade em se conectar com Sam, o filho autista de oito anos. A tensão crescente da rotina leva seu casamento ao ponto de ruptura. Jody não aguenta mais o marido ausente e que pouco participa da vida do filho. Então Alex vai morar com o melhor amigo, e passa a dormir no colchão inflável mais desconfortável do mundo. Enquanto Alex enfrenta a vida de homem separado e cumpre a função de pai em meio-expediente, seu filho começa a jogar Minecraft. E, surpreendentemente, o jogo vai mudar para sempre a relação entre pai e filho. “O menino feito de blocos” é inspirado no relacionamento do autor com seu filho autista.