navegar pelo menu
Mostrando postagens com marcador Maurício Gomyde. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Maurício Gomyde. Mostrar todas as postagens
dezembro 02, 2016

Minha interação com leitores digitais ainda é pouca, confesso. Porém, quando até os amigos começam a publicar histórias, é necessário contornar a velhice e a miopia, e aproveitar aquela horinha do café pra curtir um bom ebook no celular :) 

No post de hoje, algumas dicas de publicações de nossos amigos-parceiros, e também alguns links de livros gratuitos disponívels na loja da Amazon <3


R. M. Medeiros (sim, este é o primeiro livro da nossa colunista Regiane!! <3)

Rafaela é uma jovem enfermeira, solteira e tímida, com pouco tempo para sair e conhecer pessoas. A chegada do Tinder, aplicativo que tem como intuito promover encontros entre pessoas que moram próximas e tem interesses em comum, promete mudar seu status de relacionamento.

Trecho: "Rafaela percebeu que após recusar levá-lo para sua casa, Carlos começou a se afastar, já não mandava mensagens com frequência (e por sinal nem ela), e se sentiu aliviada quando ele passou mais de dois dias sem dar notícias. Ela não queria ter que dar o primeiro passo e pôr um ponto final naquele rascunho de história que estavam escrevendo.

Durante o tempo em que começou a sair com Carlos, Rafaela se esqueceu do Tinder, mas agora que se sentia livre novamente, tratou de dar início a uma nova procura, só que dessa vez ela seria mais seletiva, mais atenta, não se impressionaria com o primeiro que aparecesse. Ao menos foi o que disse a si mesma ao abrir o aplicativo."


A.M.A.R Vale a pena (recomeçar)
Luana Barros

Gustavo e Luiza formam uma família linda e feliz. Juntos criam Malu, filha dele com outra mulher. Mas a vida não continuará assim... A mãe de sangue da criança volta para reivindicar os direitos que abriu mão ao abandoná-la. Luiza vai embora por amor à filha de criação. Gustavo se desespera ao ver sua vida destruída. Em Londres, Luiza conhece pessoas de diferentes lugares do mundo, faz muitas amizades e se diverte bastante, apesar da saudade que sente dos amores deixados no Brasil.

Uma história emocionante que mostra que em todos os lugares e em todas as línguas, todos amam e querem um amor verdadeiro. O livro toca a alma e o coração dos leitores, arranca sorrisos, lágrimas e suspiros... Faz brotar os melhores sentimentos.


Yonah: O Último Mal'ach
Giancarlo Marx

Dentro de poucos dias a maior cidade do planeta será reduzida a cinzas. A descoberta coloca o astrônomo Yonah Mal'ach diante de um dilema moral: Avisar aos milhões de habitantes da capital e possibilitar a fuga do déspota que ocupa o trono há centenas de anos ou correr na direção oposta, cruzando o Mar de Sal rumo ao exílio na distante e exótica Tarshish?

Em um mundo devastado pelo inverno nuclear não existem caminhos seguros nem escolhas fáceis. Ameaças mortais espreitam atrás de cada ruína, duna e miragem em toda terra de Desolação. Sangue, fogo e gasolina. Apesar disso a intervenção de um ser de dimensões cósmicas pode mudar absolutamente tudo.

Misericórdia e justiça colidem nessa história vibrante.


Algum clássicos de nossa literatura contemporânea (que já temos em edições físicas, claro <3 mas sempre é bom ter um ebook pra reler a qualquer momento, não é mesmo?):
 


Outros ebooks-desejo, disponíveis em inglês, porém grátis:


The Kiss of Deception (Chapters 1-5)   |   Finding Cinderella   |   Us


E você, tem alguma sugestão de ebook pra compartilhar com a gente? :)


abril 10, 2016


"Nunca tinha escrito nada como aquilo. Palavras que pareceram escritas com a alma e fora do seu estado normal de consciência. Passou o resto do dia pensando no que ela tinha provocado, já que era apenas alguém que tinha visto por alguns segundos de sua desinteressante vida. (...) Talvez fosse melhor ficar só em sonho." (p.33)

Tudo começou no dia em que escreveu uma carta e viu sua amada rasgá-la em mil pedacinhos. Na verdade a carta era uma espécie de poema, que mais tarde viraria uma canção de amor, dessas que ninguém imaginaria ser capaz de escrever, principalmente Ele, que já em seus trinta e poucos anos, e ainda vivendo como um cidadão-comum-médio-normal, de muitos sonhos porém poucos amores, uns dois ou três na verdade, embora fosse rapaz do tipo nem bonito nem feio, meio assim olhos verdes, magro, barriguinha de chope e boa gente e tal, mas olha, a vida não é fácil, tanto que sua melhor companhia tem sido apenas Horácio, O Papagaio, este sim um grande amigo!

Mas voltando à carta, que na verdade era canção e talvez livro: tudo começou no dia em que Ele, após uma insana intuição, também chamada 'coração desequilibrado', acreditou ter encontrado o amor de sua vida em um vagão do metrô às sete da matina. E deste encontro até a tal composição musical há muita história (e tropeço) pelo caminho, e a escrita de Gomyde nestes episódios é inesperadamente hilária! Aliás, esta é uma qualidade que será refinada a cada nova história e personagens (publicado em 2000, O Mundo de Vidro é o seu primeiro livro), transformando-se em bom humor e, especialmente, alegria de viver.

Pode-se também dizer que cartas e dedicatórias estão presentes em toda a obra de Gomyde, assim como o primeiro encontro e o improvável que se transforma em realização; não sei se esta será também sua interpretação mas, após ter lido por último este primeiro livro (nesta leitura fora de ordem, o primeiro foi o Ainda não te disse nada, que até hoje considero sua melhor história - se bem que meio empatado com O Rosto que precede o sonho, ou seja, não consigo decidir), percebo que para tornar-se um grande autor é preciso deste tanto de personagens que nos conduzem a uma outra margem da vida; como se fizéssemos uma curva em nossa percepção para em cada página encontrar histórias que confundem-se tanto com a nossa vida que até nos sentimos personagens do livro - e quem já leu Gomyde sabe que ele é mestre nisso.


"Ela ficou o domingo em casa, para dar um jeito na vida e apagar da memória cada resquício da relação que havia acabado de forma tão dura. (...) E as lágrimas despencaram. Lágrimas que seriam as últimas a correr por seu outrora grande amor. Passou o resto do dia bem, tomou sol, cuidou da pele e tentou se convencer de que uma nova vida começava.
E assim seria..." (p.73)

Mas a história do Mundo era também Dela, que ainda sem nome, porém com uma vida muito mais definida, faculdade e pós em Economia, emprego estável, uma beleza inacreditável, e quase um casamento. E nestas horas em que a vida parece estar completa vem o destino e sussurra um "não é bem assim", e tudo muda, desaba, desmorona, despenca, enfim, como se precisássemos desse empurrão do além pra nos dizer que não fomos tão cuidadosos naquilo que escolhemos... Ainda assim, a gente teima e chora e desiste e começa tudo outra vez. Com uma nova ajudinha, claro, da lua, do acaso, do destino, da insistência do menino... Hmm, disto agora não falaremos. 

Voltando ao cotidiano Dele, o desajeitado moço-comum-mediano-de-olhos-verdes: acho que vocês já perceberam que Gomyde cria um Mundo onde dois personagens tão diferentes se esbarram e, numa improvável amizade, se aproximam, e tudo fica meio complicado depois disso, certo? 

Bem... Quem sabe? 

O que é certo é que tudo o que é dito assim meio de repente, no meio da amizade, faz a mocinha fugir, e se for um eu-te-amo então, nossa, isso pode ser mesmo um problema, pode complicar a vida, e não há canção ou poema ou livro que faça o capítulo perdido voltar atrás... 

Bom.... Quem sabe? 

Mas olha, uma coisa é certa: desde sempre, do Mundo de Vidro ao Surpreendente!, encontramos um autor cuja escrita diz: "sim, eu escrevo pra você", e não há como fechar suas páginas sem se identificar com pelo menos um de seus personagens ou aventuras. Portanto, por isso aqui encerramos este texto, para que todos possam criar suas próprias impressões, e igualmente compartilhar este tanto de lembranças que da memória e do coração transbordam, e que de forma não tão inesperada assim abraçam e se vêem abraçadas nas histórias de um autor como Maurício Gomyde. 

"Era uma vez um mundo muito diferente. Um mundo que não existia na vida real e que só se criava a partir do exato instante em que ele fitava os olhos dela e ela, sem graça, dava um sorriso tímido. Ninguém mais o via, apenas eles dois." (p. 125)


Outras resenhas sobre o autor aqui no Blog:


janeiro 16, 2016


I will be watching over you (Eu cuidarei de você)
I am gonna help you see it through (Eu o ajudarei até o fim)
I will protect you in the night (Eu o protegerei na escuridão)
I am smiling next to you (Eu estarei ao seu lado, sorrindo)

(Queensryche, Silent Lucidity, 1991)



No calendário, a página virada nem sempre corresponde aos nossos próprios capítulos. Enquanto histórias desaparecem no trinta e um de dezembro, outras permanecem em aberto, em um prolongamento de parágrafos, parênteses e linhas. Às margens de um novo ano, um brinde ao hiato ou soluço de nossas vidas.

Havendo páginas, desenhamos planos, contornamos esboços, cultivamos perspectivas. E o traçado por vezes prolonga-se. Em Dias melhores pra sempre, a história de Bruno, Micaela, Dante e Karina é contada em curvas e derivas, e por vezes naufrágios, como se no intervalo entre o mar e a cidade encontrássemos nossa melhor vida - e também seu desvio.

Neste horizonte, os dias transbordam e por vezes se esgotam no próprio amor. Para Bruno, futuro médico e surfista, sobreviver às águas seria o menor de seus desafios: nas primeiras horas de um Reveillon, Bruno se afoga em um parágrafo chamado Ana, restando-lhe um pouco fôlego e um mar de incertezas.

Após a tempestade, foi preciso acreditar que uma nova vida preencheria suas irreversíveis lacunas. Por vezes, Bruno, é preciso perder parte de nosso mundo para encontrar nossa famiglia, e com ela encontrar um novo percurso de vida.

Dias melhores pra sempre é uma história de muitas cicatrizes, e possivelmente um dos enredos mais complexos de Maurício Gomyde. Ainda assim, em meio a tantas adversidades, seus personagens renovam-se em episódios de amizade e esperança, encontrando o amor justamente quando a vida torna-se irreconhecível.

Em dias assim, muito do que foi vivido transforma-se em uma imagem turva, à espera de uma tradução, uma reconquista. Porque a vida, assim como a memória, é uma tecnologia sujeita às mágoas e ao tempo - como uma história gravada em película ou em um caderno empoeirado, onde a densidade de suas cores e ritmo desbotam com o passar dos anos ou com a ruptura de suas superfícies.

Em Dias melhores pra sempre, Gomyde convida-nos então a compreender que a vida que é também feita de sons, vozes, toques e impressões; desta forma, quando o mundo ferir-nos a pele do corpo, encontraremos cura em tudo o que preenche os nossos sentidos. E este otimismo é uma das qualidades da obra de Maurício Gomyde, onde há esperança não só no olhar de seus personagens, mas na intensidade do amor em cada lição de suas vidas.
 


Maurício Gomyde, Dias melhores pra sempre. Porto 71, 2013.


Outras resenhas:
A Máquina de contar histórias
Ainda não te disse nada e Surpreendente

outubro 24, 2015

 
- Tenho medo de perder a espontaneidade.

- Esse idealismo é bonito e é próprio dos jovens, e você está certa em ter medo de perdê-lo. Mas não vai ser por ter consciência plena das suas limitações e potencialidades que isso vai acontecer. Admiro sua perseverança em se entregar ao texto. Se assim for, que seja com a alma. O importante é você colocar fogo entre as palavras, e não nas palavras.

(A máquina de contar histórias, p. 159)


Seja você mesmo. Talvez o conselho que mais ouvimos na vida? Nesta busca pelo que é verdadeiro, conseguimos traduzir a intimidade que gostaríamos ou sentimo-nos intimidados por esta expectativa de sinceridade? 

Contar uma história ou um desejo (ou ainda, o desejo de uma história) pode por vezes ter a voz de uma prece: silenciosa, embora irrequieta, como se estivéssemos à espera da melhor das frases, e não apenas de seu melhor. E qual o vencedor nesta luta entre o não-dito (o fogo entre as palavras) e tudo o que por motivos de timidez ou soluço não conseguimos dizer?

Ainda que em um continuum de coragem e tropeço, acredito que o importante seja dizer. Seria este um conselho menos dolorido? Viver de primeiras palavras, não importando quais ou quão importantes, sem medir o tanto de prazer e danos que causaríamos? Haveriam histórias pra contar, lembranças dessa espontaneidade pra vivermos?

Se a conversa e os encontros de nossos dia-a-dias são assim tão difíceis, no limite da naturalidade e da prudência, penso na dor dos que se propõem a escolher palavras para um poema, uma carta de amor, uma obra literária; no quanto de medo, tropeço, coragem, ousadia que cada corpo de texto desses carrega. Afinal, cabe ao autor demonstrar sua verdade com todas as palavras possíveis? É preciso exaustão para soar verdadeiro? Escrever até a alma cansar seu fôlego? Ou, como um antigo texto nos diz, teu nome no meio da página será sempre a melhor declaração de um poeta?

Seria a escrita então este algum-mundo onde nos sentimos... livres? E sentir-se livre, ainda que preso ao texto, é sentir-se então verdadeiro?

Sei que é preciso vontade. Para o impensado e também o texto escolhido. Para que assim o leitor-confidente ouça nossa precisão e soluço, e quem sabe complete o que ficou pelo caminho.

 
 VS, segundo album do Pearl Jam (1993)

 
O segundo álbum tem a fama de ser um marco e um problema para todo artista. Porque quando uma banda consegue seu melhor trabalho logo no primeiro disco, as expectativas para o segundo costumam ser duvidosas, como se já não houvessem créditos para algo ao mesmo tempo novo e incrivelmente fiel à experiência do primeiro. Talvez a Literatura siga em uma outra lógica e indústria, mas ser diferente com a mesma essência é uma cobrança que assola tanto o escritor como o artista, que nestas horas talvez sofram como um menino à espera de seu segundo encontro, onde por sua essência permanecerão formosos aos olhos da mocinha ou simplesmente ignorados por seus dois ou três diálogos mal ensaiados.

Em A máquina de contar histórias, Maurício Gomyde apresenta-nos Vinícius Becker, um escritor mundialmente famoso que, após um longo processo de dor e segundas chances, reconhece que a fama e o sucesso não o torna um escritor de verdade. Ainda que a verdade percebida por seu público tenha sido o êxito de sua carreira em todos estes anos. Mas no instante em que a vida real confronta a literária, é preciso escolher o caminho que mais importa, e então seguir. No caso de Vinícius, foi preciso este nocaute do real para que sua vida literária recomeçasse no caminho certo.

Aos dezesseis anos Vinícius descobre a escrita, e nela se abriga, sendo este seu melhor ofício e carreira, sua razão de existir. Quando adulto, esta vontade de escrita produziu um, dois, inúmeros bestsellers. E a vida assim continuava, entre milhares de fãs, histórias e clichês de sucesso, até o dia em que uma grande perda confrontou Vinícius com uma dura realidade: valeu a pena conquistar o mundo para deixar-se vencer pela vida?

Esposo de Viviana e pai de duas meninas, por muitos anos Vinícius tratou a literatura 'com a frieza de uma ciência exata' (p. 141), como se a proeza de seu texto (conquistada a duras penas) fosse uma fórmula suficiente para o êxito de seu ofício. Porque anterior ao sucesso está o domínio da escrita, mas para o pequeno-grande mundo que acompanha o artista (sua família e amigos), tal êxito talvez seja sinônimo de apenas isolamento.

Para Vinícius, não é preciso responder se a arte é a expressão de sua verdade (pergunta favorita de todo jornalista) pois suas obras falam por si, e por isso despertam uma inimaginável proximidade com os leitores. E se é verdade que o autor dedica mãos e tempo para escrever, costurar e cortar parágrafos e versos atravessados, seu trabalho será então verdadeiro. Como uma confidência, talvez. Ainda que muito bem estruturada e pouco "espontânea", como dirá Valentina, sua filha adolescente e então comentadora favorita, que não entende como podemos chamar de arte algo que não transparece a verdadeira dor e virtude de todo artista. Porque não pode ser autor aquele que não fala com vigor e autenticidade; afinal, é preciso que sua vida simplesmente pule do coração e se derrame na tela do texto.

E assim prosseguem os personagens de Maurício, neste possível-impossível das relações humanas e da criação artística, apaziguados apenas quando a maior das verdades, o Amor, verdadeiramente ocupa as páginas do coração de Vinícius e suas filhas.

Ainda sobre as segundas chances, lembro de uma entrevista sobre o Pearl Jam (trecho de um documentário na verdade) onde os integrantes comentavam sobre como Eddie Vedder era um cara um tanto introspectivo nos palcos, especialmente no início da banda, e que foi preciso um incidente em um dos shows (no caso, um tumulto entre público e seguranças) para que toda a intensidade da cena reverberasse na voz de Eddie. Este momento foi documentado em vídeo, assim como inúmeros outros de inúmeros shows, mas foi esta explosão de voz e expressão específica que a banda decidiu tornar inesquecível. Porque quando parte de nossa vida é de certa forma assim eternizada, importa guardar a lembrança que queiramos como mais verdadeira, talvez porque não seja possível compartilhar a lembrança mais importante de nossas vidas com todo o mundo. No caso do Pearl Jam, parece mesmo haver algum 'romantismo' nesta imagem de um cantor que descobriu sua voz apenas quando confrontou as forças que o policiavam (o que não deixa de fazer sentido); mas se esta imagem é de todo verdadeira ou não, não saberemos, e não importa. Afinal, para que haja história, seja a da literatura ou da música ou de nós mesmos, é importante que haja voz, ainda que fraca, como um prenúncio de uma coragem que em algum momento apenas surge, e vive.


- As palavras de um de seus favoritos, Jack Kerouac, vieram à mente: 'A página é comprida, está em branco, cheia de verdades. Quando eu acabar com ela, provavelmente estará comprida, cheia - e vazia com palavras'. Pois ele sentia que o branco da página era o mais sincero a dizer a Viviana.  
(p. 54)



Maurício Gomyde, A máquina de contar histórias. SP: Novo Conceito, 2014.

outubro 11, 2015

um livro de viagem onde a viagem seja o livro o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o começo e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro¹

- Então, tenho que te contar uma ideia maluca que eu tive...
- Ideia pra um trabalho?
- É, eu tava indo pra casa, e um vento absurdo vindo de uma só direção, ainda bem que eu não tava de saia. Mas continuei andando, prendi o cabelo, daí as folhas começaram a "andar" mais rápido que eu, como se eu estivesse pisando em um tapete móvel, feito dos restos do último outono...
- Nossa, taí um bom título!
- Não é?! E depois aconteceu uma coisa ainda mais incrível, maior inspiração, peguei o celular na hora, fiz um vídeo, olha.
- Deixa ver... Pena que não deu tempo de filmar também o tapete-Aladyn de outon... Nossa! Isso aqui tá muito bom!
- Poisé! E foi algo que aconteceu no maior acaso...
- Foi algo que aconteceu porque você tava prestando atenção...
- Ah, mas olha esse vento, parecia que tudo tava respirando, a paisagem toda, não tinha como não prestar atenção!
- É, realmente não tinha, mas felizmente o motoboy prestou atenção em você né, porque olha isso, toda louca atravessando a rua e filmando, podia ter morrido, doida!
- Ahhh, tudo pela Arte, amiga! A gente tem que se arriscar, sair do lugar comum, confiar nas sugestões poéticas que o mundo nos oferece!
- Concordo com as sugestões poéticas, mas fica viva, tá? Que esse vídeo realmente tá muito bom! Quem diria, dona Julia recriando o Beleza Americana, vai reescrever o filme todo também?
- Nossa, tá todo mundo falando isso, mas acredita que não vi o Beleza ainda?
- Que isso, menina! Não conhece a cena do saco? É um clássico! Me dá aqui o celular, tem no Youtube. Pronto, assiste aí.
- Bora ver................... Gente!!! Como assim?!!
- Poisé!!!
- Uau, isso sim é arte!
- A tua percepção também, menina! Aliás, principalmente! Já que não conhecia o filme e saiu filmando no instinto.
- É, isso é verdade... Porque eu poderia ter filmado o Gael García da zona norte e ter curtido uma viagem mais documental né.
- Acho difícil. Você é poeta, tem nada de Easy Rider no sangue.
- Cause I am Easyyyy... Easy como a música do Faith no Moooooore...
- Easy como a música do Commodores, amiga.
- Quem?
- Êêê novinha, sabe nada dos flashbacks...
- Êêê idosa, pra mim o amor não tem essa de trilha não, pode ser flashback, pode ser pagode, pode ser...
- Eita, e quem falou de amor aqui antes, menina?
- E quem nunca falou de amor aqui antes, menina?...


Sempre ouviu que cada um é a soma de suas experiências. Mesmo que imperceptíveis, uma palavra, uma cena, uma situação, essas mínimas coisas são capazes de mudar uma pessoa. Para melhor ou pior. (Ainda não te disse nada, p.74)

Um horizonte chamado São Paulo. Ou Paris, Lisboa, um novo lugar. Porque pra sonhar é preciso dar um primeiro passo, e por vezes cruzar alguma geografia. Ainda em seus poucos vinte anos, Marina cruzaria seu primeiro oceano, partindo da pequena São Pedro da Serra em direção a capital paulistana, onde o sonho de estudar, realizar-se profissionalmente e quem sabe amar fosse talvez algo possível. E ainda que a passos poucos, o primeiro salário, a vida universitária e as melhores amigas seriam um conforto para quaisquer inquietações. Porque Marina muito desejava, era preciso ter os pés no chão para sentir cada mudança, cada encontro, cada presente que a vida lhe proporcionava.

Inquietação era também característica de Pedro, que desde muito jovem acreditou que a Arte poderia transformar corpos e consciências. Especialmente o seu, que por incompreensíveis razões foi se tornando um corpo cada vez mais frágil, ainda que permanentemente sensível a tudo o que o mundo julgava insignificante.² Em seus vinte e alguns anos, a visão turva de Pedro seria eternizada pelas lentes do Cinema e de todos os que a cada dia igualmente desafiam a opacidade do mundo.

No improvisado cineclube do bairro, quatro ou cinco espectadores parecem silenciosamente gostar - e de algum modo compreender - os ideais e sonhos ali compartilhados. E como persistência é uma das forças vitais de todo artista, Pedro e sua equipe (um trio formado por seu melhor amigo, uma amiga de trabalho e um futuro amor) seguem na contramão da adversidade rumo a um novo e audacioso projeto cinematográfico, possível até mesmo em um mundo desbotado, prestes a esmaecer.

A busca por inspiração também ocupa os dias de Marina, que em meio a uma rotina de trabalho em uma agência dos Correios dedica-se a minuciosos desenhos de moda, traçados com a intensidade de seus sonhos. Neste vaivém de realidade versus desejo, a história de Marina é como um presente-contínuo onde a interrupção é apenas um intervalo para a continuação de seu traço, pois o cotidiano nunca deixa de se escrever. Mesmo com os inúmeros desvios do caminho.

Ainda não te disse nada é um livro fronteiriço. Assim como Surpreendente!, cujos personagens encontram-se à beira do quase, este limite à primeira vista intransponível, e que ao menor sinal de audácia torna-se um impasse - ou um passo - para uma nova história. Na vida de Pedro e Marina, assim como em nossa própria vida, é preciso saber lidar com este quase que antecede o acontecimento. Para melhor ou pior.

Sempre às margens então, os personagem de Maurício Gomyde de alguma forma motivam-nos a não entregar o jogo. Porque é preciso apostar no que precisa ser feito, ainda que haja dor e inconveniência. Como no dia em que uma carta reescreveria os sonhos de Marina e um eu-te-amo salvaria Pedro de seu próprio abismo. E não há como não nos identificarmos com tais histórias, pois o impasse é o que nos move de um nível ao outro e nos torna ainda mais profundos. 


- Muitas vezes reparei - continuou a Maria dos Remédios -, és capaz de conversar longamente com uma pessoa sem olhar para ela. Eu preciso de lhe ver os olhos, de saber como reage... Para ti só as palavras unem as pessoas, só elas permitem a comunicação. Já tinhas pensado?

Escrever é usar as palavras e não os olhos - saberás tu que eu escrevo? E ao mesmo tempo pus-me a observar-lhe os cabelos: são teus esses cabelos, foste tu a escolher este penteado?

Ela continuava:
- Aprende a olhar, pois as palavras são cegas, são surdas, não têm sabor, nem tacto...
(...)

Respondi-lhe:
- (...) Se olho uma paisagem ou um quadro, se não acompanho esse olhar com alguns comentários, embora silenciosos, os sentidos serão cegos... Não: as palavras é que dão olhos aos sentidos.³


Uma boa escrita é a que nos deixa vulneráveis, imersos na intensidade do personagem e do livro. Acredito que para o autor a escrita seja também uma experiência frágil, como a de um escultor que pode a qualquer momento calejar sua criação. Como se num encontro de palavras tortas e corações alinhados, o ofício do escritor é doar este tanto de (sua) vida em cada letra ou entrelinha, assim como o do leitor é o de recontar (e reencontrar-se em) toda esta criação. Daí a ideia de que toda escrita pode ser boa, bastando a esta encontrar seus bons leitores. Certamente não me refiro ao conceito de bom para o mercado literário; disso não comentaremos aqui. 

A gente escreve para permanecer. Ainda que com toda informalidade, o autor escreve para que algum sentimento permaneça, não importa se em nós ou apenas aqui dentro. E quando não houver sentido, a escrita poderá ser como um papel embolado no fundo da memória, e o autor um grande armazém de experiências: "Quando a impressora cuspiu a capa de The dark side of the moon, ele parou. Talvez ela representasse seu destino e não fosse necessário imprimir mais nada. O desenho do prisma, na capa, foi posicionado de ponta-cabeça. E as cores entravam no triângulo transformando-se em um único feixe, com fundo preto, em direção à borda da capa. As cores que nunca veria. A luz que se apagaria em pouco tempo. Luz que atravessava as janelas e fazia brilhar o mosaico no chão, formado pelas coisas que ele não desejava esquecer. Imagem que talvez tornasse aquele o lugar mais lindo de todo o mundo naquela tarde." (Surpreendente!, p. 127)

Quanto aos personagens de Maurício, estes parecem contar histórias como se conosco as escrevessem. Em confissões ao pé do bar e do ouvido, Marina, Fran, Thaís, Pedro, Fit, Mayla e Cristal compartilham imagens do amor e suas expectativas, como se em um filme onde o desejo eternamente inacabado superasse todo e qualquer script. E não poderia haver melhor definição para a Carta e para o Cinema do que esta intensidade que vem do amor e seus clichês. Afinal, a vida tem também seu universo de dias simples, sem nós, onde tudo apenas segue, um dia por vez, uma batalha por dia, entrecortados por um mundo de realizações e desejos pelo caminho. Daí que após a leitura de Ainda não te disse nada e Surpreendente! você simplesmente acorda ao término das páginas e vê que o sonho permanece. Tal como as histórias que encontramos e os amores que escrevemos. E acredito que a imagem de um bom livro seja esta: a de se tornar um afeto forte como uma carta, sendo ainda algo tão frágil como um texto.


Tu disseste que alguns sonhos não se concretizaram. Mas, pensa... Que graça teria, caso todos eles sempre se tornassem realidade? A beleza da vida está em sua imprevisibilidade. (...) Um sonho não se realizou? Sonha outro. (Ainda não te disse nada, p. 159)


Maurício Gomyde, Ainda não te disse nada. Brasília: Porto 71, 2011.
Conheça o Book Trailer e a Playlist do livro

Maurício Gomyde, Surpreendente!. RJ: Intrínseca, 2015.
Conheça o hotsite do livro



Notas:

¹ Trecho inicial de Galáxias, de Haroldo de Campos. SP: 34, 2011 (3ª ed)

² - Preciso que ela continue acreditando na minha teoria de que o cinema, a música boa e a literatura são instrumentos da Santíssima Trindade para salvar o ser humano da derrota como espécie.
- Se essa teoria não começar a colocar dinheiro no caixa do Cultural, quem não vai se salvar é você. (Surpreendente!, p. 13)

³ Augusto Abelaira, Bolor. Portugal: Livraria Bertrand, 1978 (4ª ed)

Para acompanhar o Ainda não te disse nada, uma leitura sugerida: Henry James, In the Cage / Na Gaiola (1919). Infelizmente não encontrei um pdf traduzido, compartilho então o original:

"During her first weeks she had often gasped at the sums people were willing to pay for the stuff they transmitted—the “much love”s, the “awful” regrets, the compliments and wonderments and vain vague gestures that cost the price of a new pair of boots.  She had had a way then of glancing at the people’s faces, but she had early learnt that if you became a telegraphist you soon ceased to be astonished.  Her eye for types amounted nevertheless to genius, and there were those she liked and those she hated, her feeling for the latter of which grew to a positive possession, an instinct of observation and detection. (...) There were those she would have liked to betray, to trip up, to bring down with words altered and fatal; and all through a personal hostility provoked by the lightest signs, by their accidents of tone and manner, by the particular kind of relation she always happened instantly to feel".