domingo, 6 de novembro de 2016

Percepções - Uma crônica de Gih Medeiros





Percepções


“Eu quero ficar perto
De tudo o que acho certo
Até o dia em que eu mudar de opinião
A minha experiência
Meu pacto com a ciência
Meu conhecimento é minha distração”



Engraçado como alguém que não sabe nada sobre a sua vida, simplesmente encontra as palavras certas para te dar um chacoalhão impossível de ser ignorado. Acabo de ler um texto da Bianca Briones (a autora nacional da atualidade de quem mais gosto) em seu perfil do Facebook que me deu uma verdadeira descarga elétrica, me desconcertando. Isso não é muito fácil de acontecer, por isso talvez a necessidade de escrever esse texto agora. 

O texto inteiro é comovente, mas a parte que me chamou a atenção foi “O problema é que me fechei demais nos últimos tempos e sair se tornou difícil. (...) Acho que quando um coração é partido tantas e tantas vezes ele para. Sim, é possível viver com o coração parado dentro do peito e é o que me segura em casa”. Mesmo agora, relendo essas palavras, sou obrigada a parar e respirar fundo, porque estou desconcertada. Há muito tempo não me encontro assim nas palavras. Não é porque brinco de escrever algumas crônicas aqui no blog ou alguns romances no Wattpad, que eu sei usar as palavras para dar voz ao que sinto sempre que quero. Pelo contrário, na maioria das vezes acho que me perco mais ainda.


“Coisas que eu sei
Eu adivinho sem ninguém ter me contado
Coisas que eu sei
O meu rádio relógio mostra o tempo errado
Aperte o play”



Calma, não é depressão de domingo. Como todos os textos que trouxe até aqui, estou refletindo sobre algo que me inspirou, e nesse caso, revolveu alguns palmos de terra aqui dentro. 

Há uns 3 anos atrás, ficar um fim de semana em casa me parecia impensável, eu tinha até que marcar na agenda os compromissos com antecedência para não me perder e marcar duas saídas para o mesmo dia. Atualmente, quando alguém me fala sobre sair, eu digo à pessoa: “Pode escolher o dia que achar melhor”. Irônico ou não, o número de amigos que tenho não diminuiu, mas por motivos diversos, acabamos nos afastando um pouco. Não é culpa de ninguém, nem deles nem minha. Mas por motivos que não vem ao caso, eu mudei. Muito.

Quando eu era criança, eu sabia exatamente o que queria ser na vida e brincava da minha vida adulta: já fui pediatra, professora, dona de um hotel, secretária... As opções não paravam, mas de uma coisa eu tinha certeza, eu seria uma pessoa que trabalha, eu teria uma carreira. Ao me ver agora do alto dos meus trinta e poucos anos, vejo que me tornei a pessoa que eu esperava, eu conquistei no trabalho muito mais do que muitas pessoas que estudaram comigo: fiz minha graduação com bolsa, fiz duas pós graduações (uma delas com bolsa – sou uma cdf incurável rs), e atualmente trabalho em dois cargos públicos, além de fazer parte da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência a nível regional (para quem não sabe, sou fisioterapeuta e trabalho com reabilitação física). 

Não posso culpar minha vida profissional pela falta de vida social, já que não trabalho aos finais de semana (ok, eu fico super cansada, mas não é isso que me impede de sair nos sábados à noite ou fazer viagens rápidas ou qualquer outra coisa que eu queira). Culpo ao meu coração, que está parado. Por motivos que não entendo, ele se recusa a voltar a bater.


“Eu gosto do meu quarto
Do meu desarrumado
Ninguém sabe mexer na minha confusão
É o meu ponto de vista
Não aceito turistas
Meu mundo ta fechado pra visitação”



Conversando com uma amiga há muito tempo atrás, eu me abri e disse a ela que sentia falta de estar apaixonada (acho que eu havia percebido que já havia superado a última vez que meu coração foi partido). Ela me disse que eu deveria me apaixonar por tudo: pelos meus livros, pelas minhas bandas e músicos favoritos, pelos filmes que me instigavam ou apenas distraíam... Enfim, eu deveria me apaixonar por tudo que me arrancasse um sorriso de satisfação.

Durante um tempo isso funcionou, eu me entreguei a todas as coisas que eu adoro fazer. Mas, sem que eu percebesse, meu interesse por elas também foram diminuindo ao longo do tempo. E não pensem que eu estou achando que só uma grande paixão romântica vai me tirar dessa inércia sentimental. Na verdade, o que me assusta é a constatação de que talvez eu nada tenha a oferecer no momento, porque essa frieza sentimental me deixou anestesiada.

Não é fácil admitir isso, especialmente publicamente. Não estou em um momento de autopiedade, nem quero que vocês achem que sou digna de pena, porque eu não sou. Sou apenas humana. 

Lendo o texto da Bianca, percebi que não sou a única pessoa que passa por esse momento tão estranho de indiferença com o mundo ou com a vida, e acho que alguns de vocês também vão balançar a cabeça para si mesmos, finalmente entendendo um pouco mais do que se passa com vocês. Porque percebi que talvez esse seja um problema da minha geração. Somos formados para idealizar nossas vidas e correr atrás de nossos sonhos, mas esqueceram de nos dizer que ao “batermos a meta”, devemos encontrar novos sonhos, porque são eles que nos movem, que nos instigam, nos inspiram. Percebi que o meu problema é que atualmente não tenho objetivos que me motivem, então é natural que seja um zumbi moderno: alguém que só trabalha, paga as contas, faz o que tem que fazer. Familiar?


“Ás vezes dá preguiça
Na areia movediça
Quanto mais eu mexo mais afundo em mim
Eu moro num cenário
Do lado imaginário
Eu entro e saio sempre quando eu tô afim”



O bom disso tudo, é que quando a gente tem essas epifanias, saímos da inércia e voltamos a nos mover. Tudo o que precisamos é encontrar novos objetivos a serem alcançados. Não precisa ser nada tão grandioso quanto ter outra carreira (peloamordedeus, eu não consigo encarar outra faculdade – risos). Mas, tem que ser algo que faça meu coração bater de novo, que me faça sorrir, que me faça sentir. Que me torne alguém que faz sentido novamente.


“Coisas que eu sei
As noites ficam claras no raiar do dia
Coisas que eu sei
São coisas que antes eu somente não sabia...
Agora eu sei...!”


Coisas que eu sei, Danni Carlos – Música Nova, 2007


E quanto a vocês, o que os inspira? O que os faz sair do lugar em que se encontram? Me contem, quem sabe é a inspiração que está me faltando? Uma ajudinha de vez em quando, é super bem vinda.
<3
4 comentários on "Percepções - Uma crônica de Gih Medeiros"
  1. Um texto como o seu, Gih, assim inesperado e tão sincero, torna-se a motivação pra sorrirmos juntos, e de algum modo (também juntos) ultrapassarmos a prisão do "isso não posso dizer, pois tenho medo". Textos como o seu, Gih, inauguram a certeza de que o peito e a letra doem, e por isso merecem toda voz e ouvidos... Torço pra que sua voz encontre um algum melhor-destino aí; porque aqui com a gente, no blog, você tem já as melhores linhas (e também lagriminhas de todos nós)...

    Obrigada pela parceria, amiga! :) <3

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    1. Amiga, tenho tanto a agradecer a você!!! Não só por me dar essa oportunidade, essa voz ao "peito e letra", mas pela amizade sincera. Que nós possamos encontrar aquilo que nos falta.
      Beijo grande <3

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  2. Adorei seu texto e a letra da música que eu super me identifico também!Entendo seu sentimento e acho que ultimamente temos uma tendência a nos perdermos com tanta expectativa que o mundo cria para nós e, em dado momento, já não sabemos mais o que nos motiva de verdade. Para mim, a dedicação a escrever, a minha publicação independente em especial, foi o que me colocou de volta no rumo. Foi quando eu decidi fazer algo por mim, simplesmente, e isso transformou a minha situação em vários níveis. (E juro que em partes do seu texto eu visualizei exatamente a protagonista do meu livro mais recente rsrsrs)

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    1. Suzana, você não faz ideia do bem que me fez com seu depoimento, muito obrigada!!!! Fico feliz que você tenha encontrado um trampolim que te devolveu ao caminho da realização dos seus sonhos e com certeza isso me inspira a buscar os meus. Muito sucesso com seus livros. Um beijo especial <3

      PS: Estou mega interessada nesse livro hein? Que tal me contar mais sobre ele? ;)

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