sábado, 5 de agosto de 2017

Especial Clássicos do Terror – Martin Claret | Frankenstein - Mary Shelley | Editora Martin Claret | Texto por Gih Medeiros


Algumas histórias são tão populares na cultura ocidental que acaba-se perdendo a identidade, e muitas pessoas desconhecem sua verdadeira origem, embora saibam ou conheçam seu conteúdo (que sempre acaba sofrendo algumas alterações, dependendo de quem as transmite, claro – quem nunca brincou de telefone sem fio, não sabe o que é ver uma história ser totalmente reformulada - risos). 

Mas existem aquelas histórias extraordinárias que se tornaram tão marcantes na época em que foram escritas quanto o são no presente, que não importa o tempo que passe todo bom leitor ou ouvinte de histórias sabe identificar o seu conteúdo e, muitas vezes, quem o originou. Porque algumas poucas histórias ficam atreladas de tal maneira ao seu autor, que fica impossível citar o título sem seguir-se o nome de quem o originou. Esse é o caso de Frankenstein de Mary Shelley.

Criada em meio à literatura, a londrina Mary Shelley desenvolveu desde cedo o gosto pela escrita que os pais tinham, assim como seu esposo, que sempre a incentivou a seguir e desenvolver seu talento. Mas, assim como nós pobres mortais temos nossos momentos de bloqueios de escrita e criatividade, a querida Mary também teve o seu, e sofreu uma certa pressão por parte daqueles que lhe eram próximos, já que eles esperavam que ela surgisse com algo surpreendente e que superasse tudo o que havia escrito até então – sim Mary, nós te entendemos, pois não é assim também atualmente? Somos todos alvos da expectativa alheia, levando-nos a um processo de esgotamento mental por tentar extrair até o último pingo de criatividade de nossa mente (oh yeah, eu estou fazendo drama, sim!).

Mas, voltando à Mary, ela não era de modo algum alguém que se sujeitasse às expectativas alheias e só escrevia quando realmente sentia a inspiração fluindo. Inspiração que a tomou de assalto em uma pequena viagem com alguns amigos, onde todos eles escritores (entre eles Lord Byron, talvez o maior poeta romântico de todos os tempos entre os autores britânicos), após uma rodada de conversa e contação de histórias de terror, aceitaram o desafio de escrever uma história que envolvesse elementos sobrenaturais. Passaram-se vários dias de cobrança até que, em uma noite, Mary (que tinha apenas 19 anos na época) sonhou com um jovem que dava vida a uma criatura grotesca que o assombrava, embora fosse sua criação. Esse sonho foi tão marcante que despertou em Mary a vontade de escrever novamente.


E assim nasceu Frankenstein: ou o Moderno Prometeu, obra considerada a pioneira no gênero de Ficção Científica, com influência do Terror Gótico e elementos do Romantismo Clássico. É importante ressaltar essas informações, pois não se trata de uma pura história de terror, há muito mais temas abordados nessa obra do que o susto que o diferente nos causa.

A narrativa da história é feita pelo próprio Victor ao capitão de um navio de exploração, que o encontra em uma situação deplorável, física e psicologicamente, no meio do mar congelado. Agradecido pela acolhida e percebendo no capitão alguns traços de personalidade parecidos com os seus, ele decide convencer o jovem  a desistir de seus planos de aquirir cada vez mais conhecimento, contando o infortúnio de sua jornada.

Frankenstein é o sobrenome do jovem Victor, que desde a infância é apaixonado por ciência, natureza e os processos de desenvolvimento do ser humano e a sua criação. Paixão essa que se torna uma obsessão, que beira à loucura. Paixão que digladia com seu amor por Elizabeth, prima de consideração que foi criada junto com Victor e seus irmãos. Desde a chegada de Elizabeth à casa dos Frankenstein, Victor já demonstra um certo excesso em sua personalidade e sentimentos: “E quando, no dia seguinte, me apresentou Elizabeth como o presente prometido, eu, com gravidade infantil, interpretei literalmente as suas palavras e considerei Elizabeth como sendo minha – minha para proteger, amar e tratar com carinho. Todos os elogios que lhe faziam eu os tomava como dirigidos a uma propriedade minha” – pág. 36. 

Quando chega o momento de ampliar seus estudos, Victor perde sua mãe, o que acaba levantando alguns questionamentos na mente do jovem, que segue rumo à Alemanha para estudar em uma renomada universidade. Lá ele conhece alguns importantes professores de ciências naturais, filosofia e química e o que aprende com cada um deles acaba despertando em Victor um anseio em descobrir os mistérios do corpo humano e a origem de sua vitalidade. 

“Vida e morte pareciam-me fronteiras ideais que eu primeiro transporia, para depois lançar uma torrente e luz em nosso tenebroso mundo” – pág. 49.


A paixão pela ciência, vira uma obsessão que lhe tira o foco de tudo, da sua família e até mesmo dos cuidados consigo mesmo, sua dedicação sendo exclusiva aos trabalhos até o ponto em que ele realmente consegue dar vida a um corpo inanimado. Mas, ao concluir tal façanha, Victor, ao invés de se regozijar pela grandiosidade do seu feito, sente na verdade um verdadeiro e profundo asco pela criatura e por si mesmo, rejeitando o ser que criou, que sem saber o que estava acontecendo, foge e desaparece durante um bom tempo. 

Deprimido por ter demandado tanta energia em um trabalho que não lhe satisfez, Victor acaba caindo prostrado por um tempo e recebe cuidados de seu grande amigo Clerval, que chega à Alemanha para acompanhá-lo por um tempo. Quando se restabelece o suficiente para retornar para casa, Victor recebe uma carta que lhe dá um novo golpe na alma: seu irmão caçula fora assassinado. Imediatamente, ele e o amigo se põe a caminho da Suíça, terra natal de ambos, em uma viagem intranquila e triste. Depois que chega ao lar, mais tragédias se sucedem até que Victor se vê cara a cara com seu algoz. 

“Aproximou-se; seu rosto demonstrava uma angústia amarga, combinada com desprezo e maldade, enquanto a sua feiúra fantasmagórica o tornava quase medonho demais para os olhos humanos. Mas, mal notei isso; a cólera e o ódio primeiro me tiraram a fala, e só a recuperei para cobri-lo de palavras de furiosa abominação e desprezo” – pág. 81.

Em uma conversa tensa e dolorosa, o “monstro” conta a história da própria jornada até aquele momento, comovendo e ao mesmo tempo horrorizando seu criador e ao fim de sua narrativa faz-lhe uma proposta que pode mudar o rumo dos acontecimentos e garantir a paz a Victor ou trazer sobre ele um futuro de desolação.

Essa é a premissa desse clássico, considerado por Stephen King (mestre e gênio das histórias de terror modernas) um dos três grandes nomes do gênero de terror de todos os tempos, junto a Drácula e O Médico e o Monstro, obras que serão lidas a seguir.

Há muitas possibilidades na obra de Mary Shelley que a tornam tão impactante e digna de nota até os dias atuais. Ela aborda assuntos que a maioria de nós leitores evitamos. Não é uma leitura fácil, nem fluida, ainda que sua linguagem não seja complexa, mas também não é uma linguagem simplória. Há muitos detalhes que podem entediar alguém que curte uma leitura mais dinâmica, mas que para alguém que se interessa pelos sentimentos dos personagens e bonitas paisagens (internas e externas), é um deleite ver tão belo uso das palavras, sensações e visões da natureza, sendo uma leitura que te faz pensar o tempo todo em tantos assuntos diversos que fica complexo enumerá-los, mas vou tentar falar de alguns deles:

- A referência mais óbvia é a relação entre criador e criatura, que nos leva a questionar (com toda a carga cultural e religiosa que nos é oferecida desde a infância – sem apologia a nenhuma em especial, é apenas uma constatação) porque o homem tem tanta sede de saber e conhecer os mistérios da criação e da vida? Porque não é o suficiente apenas aproveitar o que recebemos do mundo ao chegarmos nele, até chegar a nossa hora de deixá-lo? Certamente Mary Shelley também tinha os próprios questionamentos ao incluir tal temática nessa história, incluindo citações de textos famosos na época em que esse livro foi escrito.

- A queda e ruína moral também é um tema que nos abala ao ler Frankenstein. Há uma dualidade conflituante ao acompanhar a jornada de Victor, que uma hora nos desperta choque e horror, em outras nos causa compaixão. Tal como Prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses na mitologia grega e que dá nome ao subtítulo dessa história, Victor ascende com o conhecimento adquirido e cai por conta dele também.

“Durante a juventude, a insatisfação nunca visitou a minha alma, e se às vezes o tédio tomava conta de mim, a vista do que é belo na natureza ou o estudo do que é excelente e sublime nas obras do homem sempre podiam interessar o meu coração e comunicar elasticidade ao meu ânimo. Mas sou uma árvore atingida pelo raio que penetrou a minha alma; e eu sentia então que devia sobreviver para mostrar o que logo deixarei de ser – um miserável espetáculo de humanidade destroçada, lamentável para os outros e intolerável para mim mesmo” – pág. 124.

-  A evolução técnológica da ciência no período, ainda que Mary não se aprofunde nesse tema, ele está presente em toda a obra como plano de fundo, refletindo o contexto social que ela própria vivenciara com a Revolução Industrial que ocorreu nessa mesma época.

- Amizade verdadeira e laços familiares são tratados aqui com muita delicadeza e beleza, através de praticamente todos os personagens, incluindo Victor e sua criatura.

- Questões sociais e humanas como injustiça, preconceito e ingratidão também estão presentes e mostram o quanto somos influenciados pela aparência física do outro, mais do que por suas atitudes e comportamento para conosco. Algo que ela levanta ao mostrar o desejo da criatura de ser aceito e ter uma companhia e ao enveredar por um caminho tortuoso e cheio de ódio contra a humanidade ao se ver rejeitado. 

Será que se tivesse recebido um tratamento diferente, suas atitudes também seriam outras? Eis um questionamento que devemos fazer a nós mesmos! Como estamos tratando nossos semelhantes e o que estamos recebendo em troca? Há quem diga que a vida é um eco e a gente recebe o que emite... Será que realmente é verdade ou se trata de só mais uma frase de efeito? Que cada um de nós observe a própria consciência e decida!!!

“A invenção consiste na capacidade de apreender as possibilidades de um assunto e no poder de moldar e formar as ideias sugeridas por ele” – Mary Shelley.

Nem preciso dizer o quanto a edição da Martin Claret está exuberante, com uma capa dura muito bem trabalhada e cheia de detalhes em relevo, além do aspecto envelhecido do tom das páginas, aludindo a um pergaminho envelhecido, em um trabalho digno da grande obra que contém.

Espero que apreciem essa verdadeira obra de arte literária como eu.
Beijinhos!!!

12 comentários on "Especial Clássicos do Terror – Martin Claret | Frankenstein - Mary Shelley | Editora Martin Claret | Texto por Gih Medeiros"
  1. Olá!
    Primeiramente; esta edição ficou magnifica! Só pela foto já me prendeu a atenção haha
    Tenho o livro aqui na edição da Agir (aquele box com ele, o médico e o monstro e dracula) e estou só esperando abrir espaço na tbr pra ler. Espero apreciar tanto quanto você!

    Abraço,
    Lupi Literatus

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    1. Oi Fábio!!!
      Essa edição da Martin Claret contém as outras duas obras e serão tema em próximos textos. Quando tiver a oportunidade de ler, quero saber sua opinião!
      Bjooooo

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  2. Eu ja li Dracula e O medico e o monstro, mas Frankenstein eu nunca tive curiosidade. Não sei o porque mas a história não me chama atenção.
    Gostei muito da sua resenha, super bem explicada.
    Beijos

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    1. Oie! Obrigada!!!!
      Realmente não é uma leitura que chama muito, especialmente porque a obra não é retratada adequadamente no cinema, o que compromete o seu alcance entre os leitores!
      Bjoooo

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  3. Olá!
    Fiquei fascinada pela história do Frankenstein ao ler sua resenha! É bom saber que há muito mais que terror por trás desse personagem tão famoso. A capa do livro está divina!
    Bjos,
    https://contosdacabana.blogspot.com.br/

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    1. Olá!!!!
      Há muito, muito mais na escrita de Mary Shelley e é emocionante saber que ela tão jovem e em um período tão crítico e de mudanças na sociedade, conseguiu desenvolver uma trama tão inesperada e cheia de nuances a serem pensadas.
      Bjoooo

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  4. Olá!!

    Fiquei ainda mais encantada pela história do Frankenstein após ler a sua resenha! Assisti todos os filmes que sairam no cinema e é um personagem que chama muito a minha atenção! Agora ainda mais, após saber que tem muito mais terror, do que imaginava na história dele.

    Beijos!

    www.femininaemuitovaidosa.com

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  5. Oi Tudo bom?
    Eu gosto muito de histórias de terror e contos, mas confesso que não conhecia o surgimento desses personagens, e fiquei maravilhada.
    Parabéns eu realmente gostei desse post, esta com uma qualidade de escrita excelente.
    beijos, Joyce de Freitas.

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  6. Oi, q beleza de edição, me encantou!!! E parabéns tb pelo post muito original, fiquei com vontade de ler o livro, vc o descreveu muito bem!

    Abraços e boas leituras!!!

    http://minhavida-deleitora.blogspot.com.br/

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  7. Nossa um livro sobre Frankenstein nunca pensei em ler, mas quando eu era criança eu adorava assistir o filme, achava o máximo kkk adorei a sua resenha de verdade, vou ver se procuro o livro para ler!!

    -Beijos

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  8. Não vou mentir, o gênero que eu menos gosto é esse kkk na verdade detesto. Então não é pra mim, mas parabéns a você pela aquisição

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  9. Olá. Tudo bom?
    Amo essa história, mas nunca li algo sobre, apenas assisti mesmo.
    essa edição parece ser um luxo que só. Gostei do verde na capa. A história desse cara é surpreendente e confesso que dá um medinho pela grande colocação de itens expressivos.

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