navegar pelo menu
Mostrando postagens com marcador Editora Martin Claret. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Editora Martin Claret. Mostrar todas as postagens
setembro 17, 2017


E para finalizar a leitura da edição especial Clássicos do Terror da Editora Martin Claret, vamos falar sobre Drácula, escrito pelo irlandês Bram Stoker e publicado pela primeira vez em 1897, e que atualmente encontra-se em domínio público, sendo acessível em língua inglesa em diversas bibliotecas online. Embora não seja a primeira história escrita sobre vampiros, definitivamente foi a que os popularizou e tornou-se a maior referência sobre esses seres que sempre despertam curiosidade, fascínio e uma atração irresistível.

Jonathan Harker, jovem advogado inglês, faz uma viagem à Transilvânia para tratar de negócios jurídicos com o cliente do escritório para o qual trabalha, o Conde Drácula. O início da viagem de Jonathan já começa cheia de mistérios, pois ao chegar ao vilarejo de Bistritz, na região dos montes Cárpatos em um local remoto da Europa, acaba conhecendo um pouco sobre a história local e as superstições daquele povo, tão diferentes do que ele está acostumado na Inglaterra. Tais superstições se aplicam inclusive ao próprio Conde, nobre senhor da região.

“Quando lhe perguntei se conhecia o Conde Drácula e se poderia dizer-me algo sobre seu castelo, tanto ele como sua esposa se benzeram e, dizendo não saber absolutamente nada, simplesmente se recusaram a prosseguir com a conversa” – pág. 234.

Inicialmente encantado com o local e a educação do Conde, Jonathan acaba um pouco deslumbrado com o requinte e a aparente riqueza que o cerca, ainda que durante o caminho que percorreu até chegar ali, tenha passado por tantas situações estranhas que já deveriam ter lhe alertado de que algo estava muito errado com seu anfitrião. Mas é difícil ser indiferente à figura imponente e nobre do Conde, principalmente quando seu diálogo é tão rico e cheio de sentimentos.


“Não procuro alegria e prazeres nem desejo a ardente voluptuosidade de muito sol e de águas brilhantes que agradam aos jovens e alegres. Já não sou jovem e meu coração, cansado de chorar durante anos os mortos, não se adapta aos prazeres. (...) Amo a escuridão e a sombra, e gosto de ficar a sós com meus pensamentos, quando possível” – págs. 250 e 251.

Mas Jonathan não demora a perceber que tem algo sinistro acontecendo ao tentar explorar o castelo e descobrir que todas as portas de acesso ao lado externo, se encontram trancadas, bem como a ausência de criados, tendo observado sorrateiramente o Conde fazendo alguns serviços domésticos. Em um estalo, o jovem percebe que é um prisioneiro do castelo. Com essa constatação, suspeitas sobre o anfitrião começam a surgir, especialmente ao se dar conta de que Drácula nunca se alimenta durante as refeições, parece nunca dormir em um horário socialmente aceitável e não apresenta reflexo ao espelho: “Súbito, senti que alguém colocava a mão sobre meu ombro e ouvi a voz do Conde, que me desejava bom dia. Assustei-me, pois me perturbava o fato de que não o vira, uma vez que o espelho refletia todo o aposento atrás de mim.(...) Tendo respondido ao cumprimento do Conde, voltei-me para o espelho novamente, a fim de verificar como me enganara. Porém desta vez não havia possibilidade de erro: o espelho não revelava homem algum junto de mim, mas eu podia vê-lo sobre o meu ombro! Todo o quarto atrás de mim se projetava no espelho, porém nele não havia sinal de homem, a não ser eu mesmo. Isso era assustador e, somado a tantas outras coisas fantásticas, principiava a aumentar aquela vaga sensação de insegurança que eu sempre sentia quando o Conde estava próximo” – pág. 252.

Vendo-se prisioneiro, Jonathan começa a arquitetar formas de se libertar antes que se torne alvo de um destino que ele não consegue identificar, mas que pressente e do qual quer se esquivar, apegando-se a objetos que lhe foram entregues por pessoas no caminho durante a sua viagem até o castelo: “Por que me haviam dado o crucifixo, o dente de alho, a rosa silvestre e o cornogodinho? Abençoada seja aquela bondosa mulher que pendurou este crucifixo ao meu pescoço! Ele me proporciona consolo e força sempre que o toco” – pág. 254.

A partir de então, segue-se uma série de descobertas que vai levar Jonathan ao limite da sanidade mental e física, em uma busca frenética para colocar fim ao reinado de horror que Drácula começa a impor à Londres. Durante essa empreitada, ele vai contar com a ajuda de  Abraham Van Helsing, professor de antropologia e filosofia, especialista em doenças obscuras, além de ser um cientista de métodos pouco ortodoxos, fazendo uso de símbolos religiosos para derrotar seus inimigos, bem como de alguns amigos e da própria esposa, Mina, que durante um tempo acaba sendo acometida por uma “maldição”, que a conecta psiquicamente ao Conde Drácula e dessa ligação é que surge a inspiração para um plano que pode finalmente, livrá-los do mal que os cerca.

Dos três romances clássicos do terror que li, esse foi o mais difícil, não apenas por ser o mais longo, mas por algumas características que tornaram a leitura mais lenta, ainda que os acontecimentos me instigassem a prosseguir. O livro é todo narrado através de epístolas escritas pelos personagens, relatos em diário, jornais e registros de bordo, mas tudo era tão detalhado (inclusive o conteúdo das refeições feitas por Jonathan, por exemplo), que eu às vezes voltei alguns trechos para ter certeza de que não tinha deixado passar nada de importante, tamanha a minha distração durante a leitura.


Apesar disso, a linguagem do texto não é tão formal e teve uma ou outra palavra apenas que eu precisei buscar o significado ou do que se tratava, para entender, por isso a leitura também não é complexa de se fazer, é apenas um pouco cansativa. Mas isso só dura até começar a ação de verdade, a caçada ao predador mais temido dentre os seres sobrenaturais, pois a partir de então, a leitura é fluida e instigante. 

Eu gostei muito do fato do autor ter incluído entre os protagonistas da história, mulheres que não fizeram apenas figuração, elas participaram ativamente de todo o enredo e isso foi muito positivo em se tratando de uma obra do séc. XIV, onde a maioria dos enredos dá preferência aos narradores masculinos, bem como o protagonismo das histórias, mesmo escritas por mulheres, acabava caindo também sobre o gênero masculino.

Outro ponto positivo, foi que mesmo conhecendo a história e tendo visto muitas versões cinematográficas, a obra é surpreendente e digna do status de obra referencial de terror, apresentando surpresas e momentos realmente assustadores, quando comparada aos outros dois enredos lidos anteriormente.

Espero que vocês tenham curtido essa nossa viagem ao mundo clássico do terror e que apreciem essas leituras, que já se tornaram atemporais. Nós aqui, aguardamos quais serão as próximas apostas da Editora Martin Claret no nicho da literatura clássica.

Beijinhos, até breve!
Gih



Nesta edição, reunimos três clássicos do terror mundial. Frankenstein (1818), da autora inglesa Mary Shelley, tornou-se um dos maiores clássicos da literatura de terror e conta a história do dr. Victor Frankenstein. Essa história ficou imortalizada no teatro e no cinema em várias adaptações. O médico e o monstro (1886) aborda a dialética dos valores morais em forma assombrosa e vai além do bem e do mal da alma humana. O escritor escocês Robert Louis Stevenson impregnou neste romance um forte clima de apreensão, suspense, terror e perplexidade, que garantem a atenção do leitor do início ao fim. O romance gótico Drácula (1897), do autor britânico Bram Stocker, narra a história do Conde Drácula, vilão morto-vivo da Transilvânia, que se tornou o típico representante do mito do vampiro. Tradutores: Roberto L. Ferreira, Cabral do Nascimento, Maria L. L. Bittencourt.
 

agosto 23, 2017

 
Deixe-me escolher o meu próprio destino, por pior que seja” – Henry Jekyll.

Desde o início de nossa compreensão, durante a infância, são incutidos em nossas mentes os conceitos de bem e mal, certo e errado, moral e imoral. Tais conceitos são a principal base da convivência harmoniosa em sociedade e fazem uma importante distinção entre os indivíduos. Mas, em diversas culturas, há a premissa (em grande parte filosófica) de que ninguém é exclusivamente bom ou mau, de que há parcelas de ambos os conceitos em nossas personalidades e que essa dualidade promove o equilíbrio para o nosso desenvolvimento.

Tal dualidade tem sido tema recorrente em todas as vertentes artísticas, especialmente na literatura, e talvez seu maior representante seja o clássico O Médico e o Monstro, escrito pelo escocês Robert Louis Stevenson, considerada sua obra-mestra até hoje, reproduzida em diversas versões literárias, teatrais e adaptações cinematográficas, além de servir de inspiração para o desenvolvimento de tantas outras obras – qualquer semelhança com histórias em que há a presença de um alter-ergo, é mera coincidência... Ou não (risos). A obra faz parte da edição especial criada pela Editora Martin Claret, que reúne os três maiores clássicos de terror de todos os tempos – Frankenstein já teve sua resenha publicada no blog.

Publicado originalmente em 1886, segundo os relatos históricos, essa história nasceu de um sonho ou melhor, de um pesadelo (algo parecido com o que aconteceu com Mary Shelley antes de escrever Frankenstein – uma coincidência peculiar) e toda a narrativa parece nos levar a esse clima natural de maus sonhos, onde somos acometidos de uma inexplicável apreensão que cresce até que algo nos desperta do sono e nos traz alívio. Logo nos primeiros capítulos, nos é apresentado um crime brutal, característica que marca quase toda essa história:

Via-se à noite em uma cidade cheia de lampiões; um homem seguia velozmente; de outro lado vinha uma criança, da casa do médico; os dois chocavam-se, e o demônio humano pisoteava a menina, sem atender aos seus gritos” – pág. 183.

Esse crime hediondo assombra o Dr. Utterson, advogado residente em Londres, durante boa parte da história porque segundo testemunhas, tal ato foi cometido por Edward Hyde e Hyde é protegido do Dr. Henry Jekyll, médico e amigo de longa data de Utterson. Inicialmente, o advogado teme que a reputação do amigo esteja em jogo por se associar a um homem capaz de tamanha brutalidade, mas conforme vai investigando a vida de Hyde, Utterson descobre que há muito mais que força bruta e vileza em tal pessoa... Há, a verdadeira presença do mal. Mal esse, que continua a mover Hyde a cometer crimes sem encontrar a punição devida, em parte por conta de seu benfeitor, Henry Jekyll.


O que Utterson não sabe a respeito do seu amigo Henry Jekyll, é que o renomado e respeitado médico está realizando experiências em seu laboratório particular. Jekyll acreditava que tinha encontrado uma fórmula capaz de separar as duas partes do ser humano, o bem e o mal que há dentro de cada um:

Na minha própria pessoa habituei-me a reconhecer a verdadeira e primitiva dualidade humana, sob o aspecto moral. Depreendi isso das duas naturezas que formam o conteúdo da consciência, e, se eu pudesse corretamente dizer que era qualquer das duas, seria ainda uma prova de que eu era ambas. Desde muito tempo, ainda antes que as minhas descobertas científicas começassem a sugerir-me a simples possibilidade de semelhantemilagre, aprendi a admitir e a saborear, como uma fantasia deliciosa, o pensamento da separação daqueles dois elementos. Se cada um, dizia eu comigo, pudesse habitar numa entidade diferente, a vida libertar-se-ia de tudo o que é intolerável. O mau poderia seguir o seu destino, livre das aspirações e remorsos do seu irmão gêmeo, a sua contraparte boa; e esta caminharia resolutamente, cheia de segurança, no caminho da virtude, fazendo o bem em que tanto se compraz, sem se expor à desonra e à penitência engendradas pelo perverso. Constitui uma maldição do gênero humano que esses dois elementos estejam tão estreitamente ligados; que no âmago torturado da consciência continuem a digladiar-se” – pág. 215.

Creio que não constitui spoiler (já que a obra é tão conhecida e tão reproduzida em todos os lugares do mundo) dizer que a conclusão desse mistério nos leva à revelação de que Jekyll e Hyde são, na verdade, a mesma pessoa, pois o médico iniciou seus experimentos usando a si mesmo como primeira cobaia. Através de Hyde, Jekyll é capaz de vivenciar todos os prazeres a que sempre se negou para manter a postura diante da sociedade que era esperada dele, devido à sua posição como médico vindo de uma família conceituada. Enquanto Jekyll é educado e preocupado com o próximo, Hyde se entrega à luxúria como um fim em si, incluindo entre seu meios de expressá-la, a força física, regozijando-se cada vez que machuca alguém, enquanto Jekyll, sente todo o peso do remorso de seus atos, mas também sente-se reenergizado, mais leve e mais jovem fisicamente e logo essas sensações tornaram-no um escravo de seu alter-ego: “Havia algo de estranho nas minhas sensações, algo de novo e indescritível que, pelo seu ineditismo, era incrivelmente agradável” – pág. 216.

Mas como lidar de forma sensível com a certeza de que dentro de si há tamanha crueldade? Como obter o controle necessário para que não se perca nesse frágeis prazeres obtidos por um momento de consciência amoral? De que forma, podemos encontrar o equilíbrio necessário entre nossas parcelas de bondade e maldade, para que uma não seja mais alimentada que a outra e a submeta completamente? Esses e outros questionamentos permeiam a mente do leitor durante essa leitura. Stevenson conseguiu de maneira magistral construir um thriller psicológico que nos abala ao mesmo tempo em que nos mantém presos às suas palavras até o fim da narrativa, permanecendo em nossa mente muito depois de finalizada a leitura.

Há muita influência da ficção científica iniciada com a obra de Mary Shelley, tanto que as duas obras são consideradas praticamente a base para todos os enredos posteriores que se valem do cenário da ciência para seus enredos. Mas, há em O Médico e o Monstro um algo diferente no tocante ao plano psicológico de seus personagens, que são extremamente bem desenvolvidos e críveis. Claro que a teoria de que é possível separar fisicamente nossas porções boas e más, é extremamente surreal, mas no campo da psquiatria e psicologia, há diversas síndromes que mostram o desenvolvimento de múltiplas personalidades, cada uma delas com suas peculiaridades, trejeitos e até mesmo constituição moral e sim, são reais e estão entre nós.

A única ressalva a respeito dessa história, é que ela é curta – risos!!! – eu adoraria ter visto mais desses personagens tão elaborados, profundos e intensos. Mas, ainda assim, a narrativa empolgante de Stevenson, com o toque certo de suspense e horror, me ganhou eternamente!!! Quero ler tudo dele!!!

Espero que vocês tenham a oportunidade de vivenciar essa leitura e por favor, esqueçam tudo o que viram no cinema sobre tais personagens... Nada na tela nos prepara para a história original!!!


SINOPSE: O tema do “Duplo”, tão caro à literatura do século XIX, tem em O médico e o monstro sua expressão mais icônica. A obra, que conta a história de um médico acima de qualquer suspeita que se transforma numa criatura odiosa e amoral, propõe discussões que desafiam alguns dos nossos conceitos mais arraigados. Indo muito além da dinâmica entre o bem e o mal, “O médico e o monstro” nos convida a refletir sobre a real natureza do homem, seu papel na sociedade e a ideia de civilização como força coerciva e condicionante. Nesse jogo entre ser e parecer, a multilateralidade se revela como o aspecto mais basilar do indivíduo. Publicada originalmente em 1886, a obra, que se tornou sucesso instantâneo de público, é ainda hoje um verdadeiro símbolo pop. Continuamente adaptada, citada e reinterpretada, a criação de Robert Louis Stevenson está presente nas mais diversas mídias, do cinema ao desenho animado.
agosto 22, 2017



"- Na sua idade, de onde você tira essas coisas? - perguntou Maxime, mais tarde.
- Um dia te conto.
- Você fala às vezes como um menino, às vezes como um homem. Quando você é você mesmo, Omar-Jo?
- Em todas essas vezes."

O passado é aquilo que nos divide. Por denunciar a origem (do indivíduo, da sociedade), o passado é uma espécie de vento que em um dia quente traz conforto, e tempestade quando menos gostaríamos.

O passado dos Homens guarda episódios de gratidão e vergonha - tão exatamente como o Nosso, em nossa geração, casa e feitos, e também em tudo o que abadonamos pelo caminho.

Na ficção poética de Andrée Chedid, o protagonista é um Menino. Seu nome, Omar-Jo, é o uma espécie de testemunho de suas origens (de Omar e Joseph, seu pai e avô). De mãos dadas com a criação do Menino, estava também o Estado, cujos filhos porfiam por atenção e sangue e ruínas, a todo custo, ao custo de todos, até do Menino.

Eu habito toda a terra
Eu choro ou eu rio
Pelos lados de lá Pelos de cá
Pelos fortes Pelos fracotes
Eu moro sob a terra
Que não me engoliu!

Certo dia, uma primeira explosão anunciou a reconstrução da cidade. Nesta primeira e em tantas outras vezes, por baixo dos escombros, ainda encontrou-se esperança no coração de seu povo. Porque há milênios os Homens prezam suas vitórias para em seguida pecar, e, em busca de uma qualquer redenção, seguem em disparates que insultam toda alma e pele e destino.

E foi assim, em um dia opaco, que a vida comum de Omar-Jo e sua vizinhança viu-se presa em uma explosão. Dizem que os destroços da alma perfuram mais do que os do cal e do cimento; o que sabemos é que Joseph, o avô do Menino, viria a gravar no mármore junto a terra as iniciais dos que eram sua pátria: Omar. Annette. Pai e mãe e moradia do menino. Não importa se em mil e setecentos ou oitocentos, ou em um nove centos de explosões, não importa: bastou uma, apenas uma, uma rinha, uma vaidade, uma rixa para que Joseph segurasse a única mão do Menino, nesta solidão que agora encaminhava-se para um exílio.


"Depois dos gritos de angústia, não resta outra saída que a de se reconectar com a vida.
Omar-Jo pega do bolso sua velha harmônica e, reencontrando o sopro, tira dela, mais uma vez, sons melódicos e vívidos.
Lentamente, o Carrossel volta a girar.
Sem saber direito se acabara de mergulhar na mais cruel das realidades ou se havia assistido apenas a uma intervenção, a multidão aplaudiu."

Omar-jo entendeu-se Múltiplo quando atravessou a fronteira: seus primos, que em outras épocas fugiram aos assaltos de sua pátria, eram hoje comerciantes na Cidade Luz, a alguns kilômetros das imagens que estampavam os cartões postais. Ainda assim, vida de Omar-jo ainda não havia recomeçado. Porque era preciso reencontrar-se, e no mapa de Paris não estava indicado o ponto onde isso era possível.

Baldio estava o coração, e também os olhos de um alguém que resiste. Em meio a um triste deambular, descalço e repleto de recordações esquecidas, Omar-Jo depara-se com um Carrossel bem ali, suspenso no terreno outrora baldio. Sem pestanejar, o Menino escala a plataforma e se refugia em uma pequena carruagem escondida sob a lona e o luar de Paris.

Reocupar o passado e alegrar o presente talvez fosse mais fácil ao som do cavalgar de um corcel, pensava Maxime, um homem que deixara de sonhar havia poucos dias - que, na verdade, eram décadas: décadas de um trabalho sem amor, e de pouco amor por si mesmo, e pelos seus, que sempre fizeram pouco de si, assim pensava.

Era apenas mais um dia após um outro que já nem contei quando Maxime avistou o Menino. Saia, seu pedinte! Não sou um pedinte! Quem você é então? Sou Omar-Jo, um Menino. Omar-Jo, que nome é esse? Um nome, e um nome Múltiplo, como a própria vida.

E foi assim que o homem vazio conheceu o menino que já não tinha mais o que transbordar. Sobre a amizade, é bem possível que você possa supor o seu destino; sobre o próprio destino, a narrativa de Andrée Chedid é múltipla em seus sentidos: sentimentos de glória e extorsão; de cânticos de vitória e lamentos de ingratidão; de poemas que surgem de quem muito sofre, como também na voz de quem tudo silencia.

Maxime construiu um Carrossel para começar uma nova vida. Enquanto isso, o Menino Múltiplo vence a própria vida em sua teimosia.

 
"- Não se preocupe, Maxime. Você nunca vai estar sozinho.
- O que você sabe sobre isso?
- Você tem a mim!
- Ãh? - fez Maxime.
- E eu, eu tenho você!
- É assim que você vê as coisas?
- É assim que elas são."


O Menino Múltiplo - Andrée Chedid

Filho de pai muçulmano egípcio e mãe católica libanesa, Omar-Jo carrega suas origens no nome. Durante a guerra do Líbano, em 1987, um carro-bomba leva seus pais e seu braço. E o menino de doze anos é enviado pelo avô, trovador, a Paris. Na Cidade Luz ocorre o encontro do Oriente com o Ocidente, do menino-duplo com as luzes, as cores, os sons e os movimentos do Carrossel de Maxime; o rabugento proprietário que, pouco a pouco, reencontra com o menino, então múltiplo, a alegria de viver. Alteridade, amor e tolerância fazem parte do enredo poético. A ser lido em voz alta.
agosto 05, 2017


Algumas histórias são tão populares na cultura ocidental que acaba-se perdendo a identidade, e muitas pessoas desconhecem sua verdadeira origem, embora saibam ou conheçam seu conteúdo (que sempre acaba sofrendo algumas alterações, dependendo de quem as transmite, claro – quem nunca brincou de telefone sem fio, não sabe o que é ver uma história ser totalmente reformulada - risos). 

Mas existem aquelas histórias extraordinárias que se tornaram tão marcantes na época em que foram escritas quanto o são no presente, que não importa o tempo que passe todo bom leitor ou ouvinte de histórias sabe identificar o seu conteúdo e, muitas vezes, quem o originou. Porque algumas poucas histórias ficam atreladas de tal maneira ao seu autor, que fica impossível citar o título sem seguir-se o nome de quem o originou. Esse é o caso de Frankenstein de Mary Shelley.

Criada em meio à literatura, a londrina Mary Shelley desenvolveu desde cedo o gosto pela escrita que os pais tinham, assim como seu esposo, que sempre a incentivou a seguir e desenvolver seu talento. Mas, assim como nós pobres mortais temos nossos momentos de bloqueios de escrita e criatividade, a querida Mary também teve o seu, e sofreu uma certa pressão por parte daqueles que lhe eram próximos, já que eles esperavam que ela surgisse com algo surpreendente e que superasse tudo o que havia escrito até então – sim Mary, nós te entendemos, pois não é assim também atualmente? Somos todos alvos da expectativa alheia, levando-nos a um processo de esgotamento mental por tentar extrair até o último pingo de criatividade de nossa mente (oh yeah, eu estou fazendo drama, sim!).

Mas, voltando à Mary, ela não era de modo algum alguém que se sujeitasse às expectativas alheias e só escrevia quando realmente sentia a inspiração fluindo. Inspiração que a tomou de assalto em uma pequena viagem com alguns amigos, onde todos eles escritores (entre eles Lord Byron, talvez o maior poeta romântico de todos os tempos entre os autores britânicos), após uma rodada de conversa e contação de histórias de terror, aceitaram o desafio de escrever uma história que envolvesse elementos sobrenaturais. Passaram-se vários dias de cobrança até que, em uma noite, Mary (que tinha apenas 19 anos na época) sonhou com um jovem que dava vida a uma criatura grotesca que o assombrava, embora fosse sua criação. Esse sonho foi tão marcante que despertou em Mary a vontade de escrever novamente.


E assim nasceu Frankenstein: ou o Moderno Prometeu, obra considerada a pioneira no gênero de Ficção Científica, com influência do Terror Gótico e elementos do Romantismo Clássico. É importante ressaltar essas informações, pois não se trata de uma pura história de terror, há muito mais temas abordados nessa obra do que o susto que o diferente nos causa.

A narrativa da história é feita pelo próprio Victor ao capitão de um navio de exploração, que o encontra em uma situação deplorável, física e psicologicamente, no meio do mar congelado. Agradecido pela acolhida e percebendo no capitão alguns traços de personalidade parecidos com os seus, ele decide convencer o jovem  a desistir de seus planos de aquirir cada vez mais conhecimento, contando o infortúnio de sua jornada.

Frankenstein é o sobrenome do jovem Victor, que desde a infância é apaixonado por ciência, natureza e os processos de desenvolvimento do ser humano e a sua criação. Paixão essa que se torna uma obsessão, que beira à loucura. Paixão que digladia com seu amor por Elizabeth, prima de consideração que foi criada junto com Victor e seus irmãos. Desde a chegada de Elizabeth à casa dos Frankenstein, Victor já demonstra um certo excesso em sua personalidade e sentimentos: “E quando, no dia seguinte, me apresentou Elizabeth como o presente prometido, eu, com gravidade infantil, interpretei literalmente as suas palavras e considerei Elizabeth como sendo minha – minha para proteger, amar e tratar com carinho. Todos os elogios que lhe faziam eu os tomava como dirigidos a uma propriedade minha” – pág. 36. 

Quando chega o momento de ampliar seus estudos, Victor perde sua mãe, o que acaba levantando alguns questionamentos na mente do jovem, que segue rumo à Alemanha para estudar em uma renomada universidade. Lá ele conhece alguns importantes professores de ciências naturais, filosofia e química e o que aprende com cada um deles acaba despertando em Victor um anseio em descobrir os mistérios do corpo humano e a origem de sua vitalidade. 

“Vida e morte pareciam-me fronteiras ideais que eu primeiro transporia, para depois lançar uma torrente e luz em nosso tenebroso mundo” – pág. 49.


A paixão pela ciência, vira uma obsessão que lhe tira o foco de tudo, da sua família e até mesmo dos cuidados consigo mesmo, sua dedicação sendo exclusiva aos trabalhos até o ponto em que ele realmente consegue dar vida a um corpo inanimado. Mas, ao concluir tal façanha, Victor, ao invés de se regozijar pela grandiosidade do seu feito, sente na verdade um verdadeiro e profundo asco pela criatura e por si mesmo, rejeitando o ser que criou, que sem saber o que estava acontecendo, foge e desaparece durante um bom tempo. 

Deprimido por ter demandado tanta energia em um trabalho que não lhe satisfez, Victor acaba caindo prostrado por um tempo e recebe cuidados de seu grande amigo Clerval, que chega à Alemanha para acompanhá-lo por um tempo. Quando se restabelece o suficiente para retornar para casa, Victor recebe uma carta que lhe dá um novo golpe na alma: seu irmão caçula fora assassinado. Imediatamente, ele e o amigo se põe a caminho da Suíça, terra natal de ambos, em uma viagem intranquila e triste. Depois que chega ao lar, mais tragédias se sucedem até que Victor se vê cara a cara com seu algoz. 

“Aproximou-se; seu rosto demonstrava uma angústia amarga, combinada com desprezo e maldade, enquanto a sua feiúra fantasmagórica o tornava quase medonho demais para os olhos humanos. Mas, mal notei isso; a cólera e o ódio primeiro me tiraram a fala, e só a recuperei para cobri-lo de palavras de furiosa abominação e desprezo” – pág. 81.

Em uma conversa tensa e dolorosa, o “monstro” conta a história da própria jornada até aquele momento, comovendo e ao mesmo tempo horrorizando seu criador e ao fim de sua narrativa faz-lhe uma proposta que pode mudar o rumo dos acontecimentos e garantir a paz a Victor ou trazer sobre ele um futuro de desolação.

Essa é a premissa desse clássico, considerado por Stephen King (mestre e gênio das histórias de terror modernas) um dos três grandes nomes do gênero de terror de todos os tempos, junto a Drácula e O Médico e o Monstro, obras que serão lidas a seguir.

Há muitas possibilidades na obra de Mary Shelley que a tornam tão impactante e digna de nota até os dias atuais. Ela aborda assuntos que a maioria de nós leitores evitamos. Não é uma leitura fácil, nem fluida, ainda que sua linguagem não seja complexa, mas também não é uma linguagem simplória. Há muitos detalhes que podem entediar alguém que curte uma leitura mais dinâmica, mas que para alguém que se interessa pelos sentimentos dos personagens e bonitas paisagens (internas e externas), é um deleite ver tão belo uso das palavras, sensações e visões da natureza, sendo uma leitura que te faz pensar o tempo todo em tantos assuntos diversos que fica complexo enumerá-los, mas vou tentar falar de alguns deles:

- A referência mais óbvia é a relação entre criador e criatura, que nos leva a questionar (com toda a carga cultural e religiosa que nos é oferecida desde a infância – sem apologia a nenhuma em especial, é apenas uma constatação) porque o homem tem tanta sede de saber e conhecer os mistérios da criação e da vida? Porque não é o suficiente apenas aproveitar o que recebemos do mundo ao chegarmos nele, até chegar a nossa hora de deixá-lo? Certamente Mary Shelley também tinha os próprios questionamentos ao incluir tal temática nessa história, incluindo citações de textos famosos na época em que esse livro foi escrito.

- A queda e ruína moral também é um tema que nos abala ao ler Frankenstein. Há uma dualidade conflituante ao acompanhar a jornada de Victor, que uma hora nos desperta choque e horror, em outras nos causa compaixão. Tal como Prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses na mitologia grega e que dá nome ao subtítulo dessa história, Victor ascende com o conhecimento adquirido e cai por conta dele também.

“Durante a juventude, a insatisfação nunca visitou a minha alma, e se às vezes o tédio tomava conta de mim, a vista do que é belo na natureza ou o estudo do que é excelente e sublime nas obras do homem sempre podiam interessar o meu coração e comunicar elasticidade ao meu ânimo. Mas sou uma árvore atingida pelo raio que penetrou a minha alma; e eu sentia então que devia sobreviver para mostrar o que logo deixarei de ser – um miserável espetáculo de humanidade destroçada, lamentável para os outros e intolerável para mim mesmo” – pág. 124.

-  A evolução técnológica da ciência no período, ainda que Mary não se aprofunde nesse tema, ele está presente em toda a obra como plano de fundo, refletindo o contexto social que ela própria vivenciara com a Revolução Industrial que ocorreu nessa mesma época.

- Amizade verdadeira e laços familiares são tratados aqui com muita delicadeza e beleza, através de praticamente todos os personagens, incluindo Victor e sua criatura.

- Questões sociais e humanas como injustiça, preconceito e ingratidão também estão presentes e mostram o quanto somos influenciados pela aparência física do outro, mais do que por suas atitudes e comportamento para conosco. Algo que ela levanta ao mostrar o desejo da criatura de ser aceito e ter uma companhia e ao enveredar por um caminho tortuoso e cheio de ódio contra a humanidade ao se ver rejeitado. 

Será que se tivesse recebido um tratamento diferente, suas atitudes também seriam outras? Eis um questionamento que devemos fazer a nós mesmos! Como estamos tratando nossos semelhantes e o que estamos recebendo em troca? Há quem diga que a vida é um eco e a gente recebe o que emite... Será que realmente é verdade ou se trata de só mais uma frase de efeito? Que cada um de nós observe a própria consciência e decida!!!

“A invenção consiste na capacidade de apreender as possibilidades de um assunto e no poder de moldar e formar as ideias sugeridas por ele” – Mary Shelley.

Nem preciso dizer o quanto a edição da Martin Claret está exuberante, com uma capa dura muito bem trabalhada e cheia de detalhes em relevo, além do aspecto envelhecido do tom das páginas, aludindo a um pergaminho envelhecido, em um trabalho digno da grande obra que contém.

Espero que apreciem essa verdadeira obra de arte literária como eu.
Beijinhos!!!

maio 13, 2017


A literatura fantástica, ainda que não seja um gênero muito apreciado pela elite da Academia Literária, tem sido ao longo do tempo um dos gêneros mais populares entre os leitores de todo o mundo. E quando se trata de fantasia aliada a suspense e terror, o maior difusor do nicho é Edgar Allan Poe, autor americano que teve sua vida marcada pelo alcoolismo e pela depressão, ambos elementos da fragilidade humana muito presentes em sua obra.

Não poderia ser diferente no conto O Gato Preto, uma de suas obras mais conhecidas pelos fãs do autor, agora sendo adaptado para HQ pela Editora Martin Claret em sua primeira experiência com esse tipo de publicação – e antes de qualquer coisa, eu preciso dizer que ficou um arraso!


A narrativa é feita por um homem atormentado que deseja “desabafar” antes de sua pressentida morte ocorrer. Esse homem diz ter sido uma criança dócil e amante de animais. Ao longo da vida teve diversos animais de estimação e teve o privilégio de encontrar alguém com o mesmo amor por animais quanto ele e se casar. Dentre esses animais, um deles era o mais próximo do seu dono, um enorme gato preto de nome Plutão que dedicava todos os seus carinhos e ronronares para o seu senhor. 

Com a passagem do tempo, o homem acabou se perdendo em si mesmo e deixou vir à tona os piores aspectos de sua personalidade. Essa é uma das grandes qualidades do trabalho de Poe, ele sempre expõe os sentimentos humanos, sejam esses sentimentos bons ou maus. O homem acabou se tornando um dependente do álcool e em seus episódios diários de embriaguez, descontava toda a sua aversão ao mundo na esposa e em seus animais a ponto de maltratá-los fisicamente com requintes de crueldade e não sentir remorsos depois quando se encontrava sóbrio, com raras exceções e em troca começou a ser evitado por seus “amados” bichos e pela esposa, que recebia a maior parcela da raiva incontida do esposo e sofria sempre calada.


A frieza do homem alcançou tal nível, que um dia em um acesso de raiva ele arrancou um dos olhos do seu estimado Plutão, o que fez o gato se afastar enquanto se recuperava dos maus tratos do dono. Mas, seu dono não se satisfez em deixar o gato cego, a maldade que crescia naquela alma precisava de mais, precisava de sangue... Assim, o homem matou o famigerado gato.

De acordo com algumas linhas de pensamento da psicologia, atos de crueldade são capazes de provocar uma “cicatriz” em quem os comete, levando essas pessoas a delírios, alucinações, estados psicóticos ou paranoicos. No caso do nosso narrador, ele passou por experiências terríveis após o assassinato de seu gato e até o final da história, não sabia mais distinguir o que era realidade e o que era “coisa da sua cabeça”. 


Gatos pretos são extremamente estigmatizados por sua constante presença em histórias de suspense e terror, que são transmitidas através dos tempos em todas as culturas, povoando o imaginário da população e recebendo de muitas pessoas um tratamento hostil, por serem vinculados a uma imagem de má-sorte ou do próprio mal. Nesse conto de Poe, essa imagem fica muito vívida na imaginação do leitor, especialmente por ter sido tão bem retratado pela equipe dos ilustradores da Editora Martin Claret, nessa edição que em nada deixa a desejar quando comparado à visualização proporcionada pelos filmes baseados nessa obra que já assisti.

Além do visual gótico e dark das ilustrações, somos arrebatados pelo peso psicológico da obra. A exploração das nuances da personalidade do narrador é uma verdadeira aula sobre a alma humana e de como somos capazes de ir do nosso melhor para o nosso pior em questão de pouquíssimo tempo e com tão pouco estímulo para que isso ocorra. 

Recomendo para aqueles que tem coração forte e não se impressionam fácil com o sobrenatural, pois podem sucumbir diante da magistral escrita desse autor atemporal.


O Gato Preto - Edgar Allan Poe

Sinopse: O Gato Preto é um conto de Edgar Allan Poe publicado originalmente em 1843 e adaptado para o cinema na década de 1930. Nesta edição da Martin Claret, a obra de Poe foi adaptada para o formato graphic novel, e conta com prefácio do prof. Dr. Alexandre Huady, apêndice de Lilian Cristina Corrêa e tradução de Eliane Fittipaldi e Kátia Maria Orber.

A história é narrada em primeira pessoa pelo personagem sombrio que desde criança possui uma grande afeição por animais, mas o destino mostra-se assustador quando um gato preto aparece em sua vida... Perseguido pelo fantasma do gato, ele adota outro animal, que, com o passar do tempo, além de despertar a mesma aversão em seu dono, revela, em sua pelagem, a marca da forca. Nesses quadrinhos, desfrutamos um pouco do mistério, do fantástico e da alma do ser humano, que se revela aterrorizadora.


PS: Só gostaria de deixar claro, que nós do Blog Papel Papel não somos do time dos supersticiosos que abominam os gatíneos pretos, ao contrário, amamos todos eles independente da cor de suas penugens! Inclusive, morro de saudades da minha Princesa <3


março 31, 2017


Já é quase abril, mas ainda dá tempo de conversar um pouco sobre os recebidos que chegaram por aqui neste finzinho de março :) Dentre os lançamentos, trilogia chick-lit da Harper Collins, uma divertida publicação jovem da Morro Branco, e duas intensas histórias publicadas pela José Olympio / Record. Conheçam:


Charlotte - David Foenkinos

Uma tragédia familiar pouco antes da Segunda Guerra Mundial marca a vida da pequena Charlotte, que já dava indícios da realizada artista que viria a se tornar. Obcecada pela arte e pela vida, a jovem, progressivamente excluída de todas as esferas sociais alemãs com a ascensão do nazismo, teve que abandonar tudo para se refugiar na França. Exilada, ela inicia uma obra pictural autobiográfica de uma modernidade fascinante.

David Foenkinos coloca em suas próprias palavras um tributo original, apaixonado e vivo a Charlotte Salomon. Esse romance assombroso e redentor, pautado na vida da trágica figura real que lhe serve de protagonista, é o relato de uma busca. Da busca de um escritor obcecado por uma artista.


Bartleby, o escrivão - Herman Melville

O personagem título é um jovem amanuense judicial que, cansado do trabalho burocrático, decide adotar o “não” como lema e o “nada” como estilo de vida. Publicada originalmente, de forma anônima, numa revista em 1853, Bartleby, o escrivão é uma daquelas obras que deixa os leitores confusos quando chegam ao final: não há uma resposta e sim questionamentos sobre quem seria esse personagem tão peculiar.

A narrativa de Melville, um dos percursores do absurdo na literatura, é tão curta quanto rica e múltipla; leitura para se perder em interpretações.




A atriz Libby Lomax encontrou seu refúgio no mundo dos filmes clássicos, nos quais as deusas imortais favoritas da tela parecem oferecer muito mais romance do que a vida real. Depois de um dia terrível no set de filmagens, onde ela passou a maior vergonha de todos os tempos na frente do elenco inteiro e, pior, do astro sexy e notório bad boy Dillon O’Hara, tudo o que Libby consegue fazer é se jogar no sofá e assistir Bonequinha de luxo pela milionésima vez. De repente, ela se surpreende ao ver a estrela do cinema, Audrey Hepburn, sentada bem ao seu lado, em seu vestidinho preto, clássicos óculos escuros e cigarrilha vintage, cheia de conselhos para dar. Mas será que Libby realmente é capaz de transformar sua vida de fracasso em um incrível blockbuster? Talvez, com um pouquinho da ajuda mágica de Audrey, ela até consiga…


Uma noite com Marilyn Monroe

Os últimos meses passaram como um furacão pela vida de Libby Lomax. Depois das confusões em que a atriz não tão bem sucedida se meteu com a ajuda da diva Audrey Hepburn, agora Libby não só está namorando o cara mais gato do planeta mas também parece ter encontrado uma alternativa profissional melhor que a anterior. É incrível como a vida pode melhorar!

Mas seu otimismo tem vida curta. Logo ela percebe que Dillon O’Hara não é, nem de longe, o namorado perfeito que esperava, e seu melhor amigo, Ollie, parece ter esquecido de Libby em meio a tanta confusão.

Ainda bem que Libby tem outra convidada mais que especial para lhe aconselhar... Agora é torcer para que desta vez Marilyn seja a chave para finalmente colocar a vida nos eixos!



Nesta conclusão hilária da série Uma noite com, Libby Lomax se vê em mais uma enrascada: lutar pelo melhor amigo e amor de sua vida, Olly, que parece ter partido para outra, ou se jogar de cabeça em uma aventura que pode se transformar em seu felizes para sempre? Grace Kelly é a convidada da vez, e ela tem uma lição importante a ensinar: se você quer algo, precisa lutar para conseguir!




As vibrantes cores e o caos da cidade de Mumbai embalam esta história de crime e mistério, que vai fazer você mergulhar de cabeça na cultura indiana.

No dia da sua aposentadoria, o inspetor Chopra herda dois grandes mistérios. O primeiro é o afogamento de um rapaz, cuja suspeita morte ninguém parece interessado em investigar. E o segundo é um bebê elefante.

Enquanto sua busca por pistas o leva através da movimentada cidade de Mumbai – das ricas mansões ao submundo sombrio das favelas – Chopra começa a suspeitar que pode haver bem mais por trás dos dois mistérios do que ele pensava. E logo, ele descobre que um determinado elefante pode ser exatamente o que um homem honesto precisa...



O Gato Preto - em quadrinhos - Edgar Alan Poe

A intrigante história de 'O Gato Preto' é narrada em primeira pessoa pelo personagem sombrio que desde criança possui uma grande afeição por animais, mas o destino mostra-se assustador quando um gato preto aparece em sua vida. Nesses quadrinhos desfrutamos um pouco do mistério, do fantástico e da alma do ser humano, que se revela aterrorizadora. Uma leitura imperdível.


E você, já leu alguns destes lançamentos? <3

março 14, 2017



Dostoiévski faleceu em fevereiro de 1881. Meses antes, por nossa sorte, havia concluído uma de suas obras mais reverenciadas: Irmãos Karamázov, que foi publicado em folhetim com seu término em novembro de 1880. Passam-se os anos mas seu trabalho jamais poderá ser classificado como ultrapassado devido a sua capacidade de retratar características universais recorrentes da essência humana.

A história, que foi publicada ao longo de quase dois anos na revista "O Mensageiro Russo", é hoje dividida em quatro partes, todas presentes na belíssima edição da Martin Claret.

A narrativa de Irmãos Karamázov, como o título sugere, tem o enfoque na vida de Dmitri, Ivan e Aliócha, e como suas personalidades distintas resultam em escolhas totalmente diferentes dentro da imensidão da Rússia Czarista do Século XIX.

O romance desenvolve-se predominantemente na figura de Aliócha, o irmão mais novo que demonstra uma alma pura, um rico desejo de ajudar o próximo, e encaminha-se para seus votos religiosos, decisão inesperada por aqueles que conhecem a família, pois o caçula mostra que é o exato oposto de seu pai, Fiódor Pavlovitch Karamázov, um monstro libertino, difamado por sua vida libidinosa e rígido controle das finanças herdadas de suas duas falecidas ex-esposas - convém, além disso, ressaltar boatos que Smerdiakov, o excêntrico servo da família, seria filho bastardo de Fiódor.

Ivan, possuidor de distinta inteligência, é, no entanto, egocêntrico e não se importa com a vida de seus irmãos. Dmitri herdou de forma mais direta as características de seu vicioso pai, embora, ainda que não fosse tão maléfico quanto o progenitor, apresenta a ganância e ira que fazem aqueles ao redor perceberem se tratar de um "Karamazov". É como portar uma herança maldita, independente do contrabalanço feito pelo ingênuo Aliócha.

Uma trama tão extensamente desenvolvida não poderá aqui ser resumida em uma simples resenha de poucas palavras, entretanto, os acontecimentos cruciais para o desenrolar da história envolvem a insistência de Dmitri em receber uma herança prometida por seu pai , enquanto Aliócha aproxima-se cada vez mais da vida consagrada e Ivan luta para controlar o exasperado amor por Katerina Ivanova, noiva de seu irmão mais velho.

O leitor é contemplado com ricas informações da cultura e cotidiano russo, todavia, sentimentos universais são apresentados através dos agudos devaneios e anseios característicos do romance psicológico, além dos excelentes sermões do padre Zosima, com genuínas e profundas reflexões filosóficas. Há de se ressaltar também narrativas emocionantes como a do jovem enfermo Kólia que preenchem o livro e tornarão a proximidade com aquele cotidiano ainda mais viva. 

"Sobretudo, não minta a si mesmo. Quem mente a si mesmo e ouve a própria mentira chega a não distinguir mais a verdade, nem em si, nem no mundo ou ao redor;  então perde o respeito por si mesmo e pelos outros. A pessoa que não respeita ninguém deixa de amar... "

Ao pensarmos em um livro que fala da vida de uma família, poderíamos nos remeter à forma mais tradicional de amor, mas amar, odiar e vingar-se como um Karamázov, torna o encontro em um tribunal inevitável. Sob a ótica interior de um dos acusados, bem ao estilo já consagrado do autor, o leitor se envolverá em todo processo de "Crime e Castigo" entre os envolvidos em uma atrocidade supostamente cometida por um Karamázov.

Irmãos Karamázov atinge sua condição de clássico não por acaso, sua leitura é uma experiência que remete uma maravilhosa viagem pelo íntimo dos personagens, a partir de diálogos primorosos e surpresas dentro da trama. Do ponto de visto técnico, devemos pontuar a variedade de estilos que o autor emprega ao longo da trama. O livro não deve assustar o leitor por seu grande número de páginas, visto que a qualidade encontrada ali tornam isso um mero detalhe. 


Irmãos Karamázov - Fiódor Dostoiévski
Tradutor: Herculano Villas-Boas

Os irmãos Karamázov é o último romance de Dostoiévski e traz à baila as “malditas” questões existenciais que o afligiram a vida inteira, com especial relevo para a flagrante degradação moral da humanidade afastada dos ideais cristãos. A narrativa põe em foco três protagonistas irmãos, representantes dos mais diversos aspectos da realidade russa – o libertino Dmítri, o niilista Ivan e o sublime Aliocha – a fim de alumiar as profundezas insondáveis do coração entregue ao pecado, corrompido por dúvidas ou transbordante de amor.
março 08, 2017


De Pauliceia Desvairada a Lira Paulistana – Mário de Andrade
O início dos anos 20 no Brasil foi marcado por mudanças conceituais no campo político, social, econômico e especialmente cultural. O marco principal desse período foi a Semana de Arte Moderna de 1922 (de 11 a 18 de Fevereiro), ao apresentar novas ideias e conceitos artísticos, como a poesia através da declamação, a música por meio de concertos, e as artes plásticas exibidas em suas novas feições. O evento marcou o início do modernismo no Brasil e tornou-se referência cultural do século XX.

Um dos nomes mais influentes e tido até mesmo como a “força motriz da Semana de Arte Moderna”, foi o poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista e ensaísta paulista Mário Raul Moraes de Andrade. Durante o evento, Mário apresentou a obra Pauliceia Desvairada, livro de poemas onde explora todos os novos conceitos estabelecidos pelo modernismo, usando de ironia e um sutil deboche que, segundo suas próprias palavras, passou despercebido àqueles que o aplaudiam no momento.

Mas sua escrita evoluiu com o tempo e o amadurecimento, e isso pode ser observado nesse compêndio que a Editora Martin Claret nos apresenta, De Pauliceia Desvairada a Lira Paulistana, onde encontramos o melhor da obra marioandradina, com todas as facetas e questionamentos dessa mente inquieta, que em cada verso nos faz questionar nossa realidade atual, nossos sentimentos, nossas escolhas... E nos instiga a buscar respostas, a sair do lugar-comum, a olhar para nós mesmos com clareza e despidos de qualquer efeito que nossa mente possa tentar usar para embotar nossa visão. Mário nos mostra o seu lado mais alegre e também o mais sombrio, e nos conforta ao expor as angústias que muitos de nós tentamos suplantar todos os dias através de uma rotina exacerbada de esforço físico e mental, numa tentativa vã de fugir de nós mesmos.

Dono de uma escrita musical, Mario consegue nos transmitir sentimentos dos mais diversos, seja imitando sotaques mineiros, seja descrevendo a rotina de um quartel, ou a paixão proibida por uma mulher casada... Mas com certeza, a paixão por São Paulo, essa metrópole sempre em movimento que parece ter vida própria, é nitidamente sentida em seus poemas que descrevem as ruas por onde andou, por onde cresceu, por onde brincou, por onde sentiu cada pedaço de sua alma ser construído e reconstruído continuamente, numa intensa busca pelo transformar a vida através das palavras.

Vida longa ao poeta, vida longa ao escritor, vida longa ao ser humano Mário de Andrade!

Abaixo, trago a vocês, trechos de alguns dos poemas de cada livro dessa edição digna de colecionadores:





fevereiro 24, 2017


Quando estava na adolescência, mais especificamente no 1° ano do Ensino Médio, fiz amizade com algumas pessoas da minha turma que eram loucas por livros, assim como eu. Uma delas era a Amália, uma das pessoas mais inteligentes que já conheci. Nossas similaridades paravam por aí, no amor à literatura. Amália era muito branca e muito alta para a nossa idade, enquanto eu era morena café com leite e baixinha (parei de crescer aos 14 anos, com 1,53 cm – riso amarelo). Por algum motivo, Amália cismou em me chamar de Sininh e até os últimos dias de aula que tivemos juntas ela me perguntou como andava meu amigo Peter Pan e a Terra do Nunca. E assim nasceu minha relação com Peter, que culmina no dia de hoje, quando venho contar a vocês minhas impressões recentes sobre a leitura do clássico do escritor J.M. Barrie, em uma edição linda e ilustrada lançada pela Editora Martin Claret.

Acho que todo adulto já se perguntou algum dia como seria se pudéssemos ser crianças para sempre, ou já se queixou da vida adulta e desejou retornar aos tempos infantes, quando tudo parece ter sido bem mais fácil e bonito do que provavelmente foi na verdade (é comum “dourarmos a pílula” do passado para nos sentirmos melhor no presente, quando as coisas ficam um pouquinho mais complexas).

Mas por que esse personagem, um menino que não admite crescer e despreza os adultos, produz tanto fascínio em pessoas de todas as idades e há tanto tempo?



O enredo é de conhecimento universal: A família britânica Darling possui 3 filhos, Wendy, João e Miguel, que passam a maior parte do tempo aos cuidados de Nana, a cadela fiel dos Darling. Apaixonados por histórias, sempre se encantam com os contos de fadas que a mãe lhes conta à noite, sem perceber que são observados de perto por Peter Pan, um menino diferente de todos os outros, que sabe voar e fala com as fadas. Peter adora histórias, e sempre que tem um tempinho livre, fica escondido do lado de fora do quarto das crianças Darling, ouvindo atentamente e os observando pela janela.

Um dia, Peter perde sua sombra, que entra no quarto das crianças e acaba sendo escondida pela sra. Darling. Quando Peter volta para buscá-la, depara-se com Wendy, que, movida por um precoce instinto maternal, o ajuda com a famigerada sombra. E, a partir desse momento, Peter decide que vai levar Wendy para a Terra do Nunca, “uma ilha, com extraordinárias pinceladas de cor aqui e ali, e recifes de coral e embarcações de aspecto arrojado navegando em alto-mar, e selvagens e covis isolados, e gnomos que em sua maioria são alfaiates, e cavernas pelas quais corre um rio...” (páginas 15 e 16).

Seduzidos pelas possibilidades infinitas, principalmente de voar, Wendy, João e Miguel seguem Peter até à ilha onde habitam os meninos perdidos, fadas, peles-vermelhas, animais selvagens e piratas sob o comando de James Gancho, e ali vivenciam diversas aventuras (algumas especialmente sangrentas!), entre elas, a de se tornarem uma família, com Wendy assumindo plenamente o papel de mãe deles, o que ela aceita com prazer. Lá, eles acabam conhecendo a história da rixa entre Peter e o Capitão James Gancho, um pirata cruel e assombrado pela figura de um Crocodilo, que o persegue com tanta persistência.

Muitos são os personagens secundários que dão suporte a essa história, e alguns até poderiam ter sido mais explorados, mas de fato o trio de protagonistas é o que nos conquista, pois são os mais intrigantes e bem elaborados, e merecem destaque nessa nossa conversa:


- Wendy - nossa protagonista é uma jovem precoce, em muitos sentidos. Ao conhecer Peter, ela imediatamente se compadece ao vê-lo chorando e o ajuda com a “saga da sombra”, e mesmo escandalizada com a maneira como ele reagiu, acaba o perdoando: “Para Peter, que era um tanto infantil, as aparências não importavam, e assim ele estava pulando de alegria. E infelizmente se esquecera de que devia sua felicidade a Wendy” (pg.41). Ao chegar na Terra do Nunca, Wendy reage de uma maneira incomum a tudo o que está conhecendo, como se na verdade aquele fosse seu lugar desde sempre, e o que mais lhe importa, acima de qualquer coisa, é a sua obrigação com os Meninos Perdidos, cuidando de cada um deles de maneira impecável como uma verdadeira mãe. Apesar de embarcar de cabeça nessa aventura, Wendy nunca se esquece de seus pais, e está sempre tentando fazer com que os irmãos não se esqueçam também, contando a eles e aos outros garotos, noite após noite, a história da jornada deles e sempre garantindo que serão recompensados por confiarem no amor de sua mãe: “A confiança que eles tinham no amor de mãe era de fato tão grande que eles acharam normal se permitirem ser insensíveis por mais algum tempo” (pg. 144). Essa confiança de Wendy, tanto no amor de mãe quanto na bondade intrínseca dos outros, é o que a torna tão especial. Até o fim, a personagem mantém essa fé inabalável e nos faz acreditar um pouquinho também.

- James Gancho: o Capitão James Gancho possui uma reputação aterradora, mas ao olhar um pouco mais de perto, podemos ver que ao menos um pouco de sua atitude é um pouco de fachada. Com um passado digno de príncipe, muito de sua educação ainda permanece em seus trejeitos atuais: “Quanto aos modos, ele ainda conservava algo de grande senhor, de forma que ao destroçar alguém o fazia com um ar de distinção, e tinha a reputação de ser ótimo contador de histórias. Era nas ocasiões em que se mostrava especialmente cortês que ele se revelava mais sinistro, e isso talvez constitua a suprema prova de educação. A elegância da sua dicção, até quando ele xingava, assim como a distinção do seu porte, demonstravam que ele não era da mesma classe da sua tripulação. Homem de coragem indômita, dizia-se que ele só temia ver o seu próprio sangue, que era espesso e de uma cor insólita” (pg. 73). Mas, ao mesmo tempo sua genialidade para o mal, não o satisfazia como gostaria: “Devia haver alegria no seu coração, mas o rosto não a refletia: sempre um enigma obscuro e solitário, ele se isolou dos seus seguidores em corpo e em espírito” (pg. 157) e por vezes um lado seu, mais suave, acaba aflorando em momentos inesperados: “o homem não era mau por completo: gostava de flores (segundo me disseram) e de música doce (ele próprio era harpista, e não tocava mal)” (pg. 165). Mas, o que afinal de contas, inquietava o Capitão? Ele parecia não temer nada, com exceção de um certo Crocodilo, que havia provado seu sabor com a ajuda de Peter e agora queria saboreá-lo por inteiro, nem ninguém, mesmo que muitos considerem que ele tinha medo do Peter, quando na verdade, ele se incomodava com a atitude atrevida daquele menino que não demonstrava receio diante dele. Esse James Gancho que vemos aqui, nada tem a ver com a figura caricata demonstrada nos filmes, e curiosamente, acabamos simpatizando com ele, pois no fundo, ele é apenas alguém assombrado por seu passado, cujo tormento o leva a um terrível e triste fim. Com certeza, você já deve ter conhecido alguém assim.

- Peter Pan: se houve um personagem capaz de despertar emoções contraditórias durante essa leitura, com certeza foi Peter. Inicialmente, suas atitudes infantis me irritaram profundamente: “É constrangedor ter de confessar que essa presunção de Peter era uma das suas características mais fascinantes. Dito com franqueza brutal: nunca houve um menino mais convencido” (pg. 41), e diferente de Wendy, eu não o perdoava logo em seguida porque ele não tinha uma mãe ou porque era muito esquecido mesmo, ou porque por motivos egoístas resolvia praticar alguma boa ação. Esse perdão só chegou com o tempo, ao conhecer um lado de Peter, que talvez nem ele mesmo se desse conta, pois para ele tudo era muito natural, inclusive esquecer. Mas, quando ele se vê na situação de cumprir com responsabilidade seu papel de anti-vilão, ele mostra o seu verdadeiro caráter, de alguém que luta com justiça por justiça: “O que atordoou Peter não foi a dor do golpe, mas a deslealdade do adversário. Ela o deixou totalmente desarmado. Ficou olhando horrorizado, sem ser capaz de mais nada. Toda criança se sente atingida desse modo na primeira vez que sofre uma injustiça. Quando ela chega até alguém, acredita piamente que é seu direito ser tratada com justiça. Depois que você lhe faz uma  injustiça ela voltará a amá-lo, mas nunca mais será a mesma criança. Ninguém jamais supera a primeira injustiça; ninguém, com exceção de Peter. Ele a experimentou com frequência, mas sempre esqueceu. Imagino que essa era a verdadeira diferença entre ele e todos os outros. Assim, quando ele experimentou a injustiça naquele momento, sentiu como se fosse a primeira” (pg. 121).


É impossível não ter empatia com alguém que sofre esse drama existencial com tanta intensidade, ainda que seja um personagem fictício. Ao terminar de ler essa história, você quer pegar Peter no colo e embalá-lo, tal qual a Wendy fazia quando ele tinha pesadelos ou chorava, mesmo que seu lado mais matreiro e insolente nos desperte um pouco de raiva, como fez com James.

A história é narrada em terceira pessoa, por um observador externo, em um estilo próximo ao dos bardos antigos, com muita ironia, humor e atenção, levando-nos com ele durante toda essa aventura: “É só isso que nós somos, observadores. Ninguém nos quer verdadeiramente. Então observemos e digamos coisas cáusticas, esperando que algumas delas magoem” (pg. 202), o que só torna a leitura mais fluida e divertida.

Eu não costumo falar das edições dos livros, mas sobre esse me sinto na obrigação de ressaltar o capricho da Editora Martin Claret, que nos trouxe uma edição de capa dura linda e ilustrada com muita qualidade, o que só tornou a leitura ainda mais agradável, além do cuidado em acrescentar algumas informações importantes no apêndice, e um guia de estudos que pode ser bem útil aos professores que se utilizarem dessa obra em suas aulas, e uma bibliografia a ser consultada caso tenhamos mais curiosidade ainda sobre essa obra atemporal.

Sim, atemporal. No início desse texto, eu questionei o motivo de após tanto tempo (a obra original data de 1911), esse romance ainda nos instigar e fascinar. Creio que cada leitor vai encontrar a sua própria resposta de acordo com suas próprias experiências de vida.

No meu caso, o que eu percebo é que J. M. Barrie, ao tentar escrever uma história de navegação (que estava na moda na época) a partir das aventuras de personagens jovens (o que também estava na moda), nos trouxe algo muito mais profundo a ser discutido, especialmente nos dias atuais. Peter vê em Wendy a chance de ter alguém que faça parte de seu teatro infantil, alguém que vem somar à aventura que ele vive diariamente, e encontra muito mais, algo que ele jamais esperou encontrar novamente: a sensação de pertencimento. Wendy deu a Peter um lar de verdade, e é por isso que ele fica de coração partido quando ela decide voltar para casa; é por isso que ele arrisca tudo, inclusive a própria vida para libertá-la das mãos dos piratas; é por isso que ele cumpre a promessa de leva-la para casa; é por isso que mesmo se esquecendo de sua promessa de passarem uma semana juntos todos os ano, para a faxina de primavera, ele acaba se perdendo no calendário e voltando anos depois. Porque sua mente de criança aventureira pode ter se esquecido do que foi combinado, mas seu coração sempre se lembra da sensação de ter e fazer parte de uma família, e da confiança que tem que ter no amor de uma mãe, ainda que ela seja apenas de faz de conta.