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dezembro 04, 2017


(Texto originalmente publicado no site Vigor Frágil  |  Foto: Rebeca C.)


SEM OLHAR PARA TRÁS
Thamy Silva


Ela colocou os sentimentos em papel de jornal, bem enrolados para não machucar o gari. Olhou em volta para ver se não tinha esquecido nada: chaves, mala, amor-próprio e algum dinheiro. Ela iria embora sem olhar para trás, não queria mais encaixar-se onde não havia espaço para ser ela mesmo. Respirou fundo e abriu a porta para liberdade, e sentiu no rosto o vento da esperança e a claridade do esclarecimento. Deu passos hesitantes, mas pediu aos céus que desse forças para seguir em frente.

O amor nunca foi um mar calmo sem ondas, mas também não deveria ser aquela constante tempestade cansativa e ininterrupta. Era cansativo tentar manter o clima mais ameno, agradá-lo e tentar ficar sem brigas. Ela chegou ao ponto de não aguentar mais, foi como se aquele relacionamento tivesse se transformado em uma prisão de “não podes” e “não faz isso ou aquilo”. E quando sentiu que o peso estava insustentável, percebeu que como Alice na casa do Coelho, não cabia mais ali. Frustrada com os próprios sentimentos, catou o que lhe pertencia e decidiu tentar uma vida nova na vida.

Depois de sair, sentiu o sol forte demais e o vento sufocante e pensou se não teria tomado a decisão errada, onde estava era confortável, o mesmo café e amor frio de sempre. E ela quis por vezes voltar atrás, mas gostava da liberdade, dos romances esquecidos, o facebook aberto com meme de um rapaz seminu, com as gifs de bichinhos… Gostava de decidir se veria algo na Netflix ou o youtuber favorito. Gostava até das decisões erradas, pois degustava as consequências com a empolgação de ter uma nova lição na vida.

Com o tempo, parou de pensar no que deixou para trás. A felicidade de ser ela mesma se tornou o motivo de viver, a esperança de algo melhor se tornou o ar em suas asas e assim voou para longe. Para o novo. Para o desconhecido. Para o intenso. Carregando sempre consigo as lições que aprendeu, mas deixando as mágoas para trás. Não precisaria mais delas, era uma nova mulher e sabia que o mundo não havia mudado, apenas seu jeito de vê-lo.



Thamy Silvia é nossa amiga no Instagram e enviou esta crônica para participar de nosso projeto Sobre a Escrita, que tem como objetivo reunir escritos e depoimentos de jovens autores, leitores e blogueiros de nossa rede literária. Gostaria de participar? Envie uma direct em nosso Instagram ou pelo email contatopapelpapel@gmail.com :)