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Mostrando postagens com marcador Fernando Pessoa. Mostrar todas as postagens
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janeiro 13, 2017



"Assim, tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espírito, e sendo o nosso espírito uma paisagem, tempos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens. Ora, essas paisagens fundem-se, interpenetram-se, de modo que o nosso estado de alma, seja ele qual for, sofre um pouco da paisagem que estamos vendo — num dia de sol uma alma triste não pode estar tão triste como num dia de chuva — e, também, a paisagem exterior sofre do nosso estado de alma — é de todos os tempos dizer-se, sobretudo em verso, coisas como que “na ausência da amada o sol não brilha”, e outras coisas assim. De maneira que a arte que queira representar bem a realidade terá de a dar através duma representação simultânea da paisagem interior e da paisagem exterior..."
(Fernando Pessoa in Cancioneiro - trecho da Nota preliminar)


Sexta-feira de chuva no Rio. Neste quase dilúvio de janeiro (segundo dia aqui na capital), nada como galochas e um livro para resistir ao tumulto aquático do trânsito e das esquinas. Há quase um ano, no dia dezenove, a paisagem úmida preenchia o blog através das páginas de inúmeros poetas; no dia de hoje, Pessoa é a voz que observo da janela, e com muito gosto compartilho com vocês.


Às vezes entre a tormenta

Às vezes entre a tormenta,
quando já umedeceu,
raia uma nesga no céu,
com que a alma se alimenta.

E às vezes entre o torpor
que não é tormenta da alma,
raia uma espécie de calma
que não conhece o langor.

E, quer num quer noutro caso,
como o mal feito está feito,
restam os versos que deito,
vinho no copo do acaso.

Porque verdadeiramente
sentir é tão complicado
que só andando enganado
é que se crê que se sente.

Sofremos? Os versos pecam.
Mentimos? Os versos falham.
E tudo é chuvas que orvalham
folhas caídas que secam.



Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão comsossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...




CANCIONEIRO - Fernando Pessoa
L&PM Pocket

Com Cancioneiro, a L&PM dá continuidade à publicação da obra de Fernando Pessoa, que já conta com Mensagem, Odes de Ricardo Reis, Poemas de Alberto Caeiro, Poemas de Álvaro de Campos e Poesias, todos em formato de bolso.

Esta edição, organizada por Jane Tutikian, apresenta ao leitor os poemas assinados por Fernando Pessoa com seu próprio nome e que foram publicados esparsamente em periódicos. A escolha de “cancioneiro” para este conjunto de poemas líricos, rimados e metrificados, de forte influência simbolista, não é aleatória: cancioneiro é o nome dado ao conjunto de poesias líricas medievais, portuguesas ou espanholas, fortemente ligadas à música, ao canto e à dança. As poesias do Cancioneiro pessoano, por sua vez, estão ligadas à tradição lírica portuguesa, também têm um ritmo e uma métrica com grande musicalidade.

Nesta antologia, que reúne mais de 150 poemas, se destaca uma das suas mais famosas criações, “Autopsicografia”, que começa com os seguintes versos: “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”. O breve poema sintetiza a relação poeta/poema, separação que caracteriza a lírica moderna. Esta problemática acompanha quase que a totalidade da obra pessoana, na qual fica difícil identificar até onde vai o autor, a vida e a obra. Pessoa não teve uma história que se possa contar: teve várias, personificadas nas vozes dos seus heterônimos como Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos, citando apenas os mais conhecidos.
maio 18, 2016

"Que me pesa que ninguém leia o que escrevo? Escrevo-o para me distrair de viver, e publico-o porque o jogo tem essa regra. Se amanhã se perdessem todos os meus escritos, teria pena, mas, creio bem, não com pena violenta e louca como seria de supor, pois que em tudo ia toda a minha vida." (Fragmento do Trecho 118)


Criamos um costume de, aqui no Blog, compartilhar todo tipo de Literatura. Dentro de nossas preferências, é claro, mas há um gosto pelo diálogo com obras tanto consideradas clássicas como também contemporâneas, produzidas nesta alguma informalidade de nossos dias.

Há pouco mais de um mês encontrei na Saraiva uma edição das Obras Completas de Álvaro de Campos, publicada pela editora portuguesa Tinta da China. Já na Travessa, recentemente, encontrei outro exemplar de Pessoa, publicado pela mesma editora. Por ser um autor que merece uma maior atenção e estudo, neste momento compartilhamos algumas citações d'O Livro do Desassossego, e também algumas sinopses de edições encontradas nos principais sites e livrarias. Para uma resenha aprofundada sobre esta publicação, sugerimos a leitura do texto compartilhado pelo Blog Letras In.verso e Re.verso :)


Tudo quanto o homem expõe ou exprime é uma nota à margem de um texto apagado de todo. Mais ou menos, pelo sentido da nota, tiramos o sentido que havia de ser o do texto; mas fica sempre uma dúvida, e os sentidos possíveis são muitos." (Fragmento do Trecho 148)


Tinta da China

"Toda a literatura consiste num esforço para tornar a vida real. Como todos sabem, ainda quando agem sem saber, a vida é absolutamente irreal na sua realidade direta; os campos, as cidades, as ideias, são coisas absolutamente fictícias […]. São intransmissíveis todas as impressões salvo se as tornarmos literárias.", Fernando Pessoa

O «Livro do Desassossego» é um dos maiores feitos literários do século XX. Obra-prima póstuma, retrato da cidade de Lisboa e do seu retratista, compõe‑se de centenas de fragmentos, oscilando entre diário íntimo, prosa poética e narrativa, num conjunto fundamental para compreender o lugar de Fernando Pessoa na criação da consciência do mundo moderno.

Jerónimo Pizarro, reconhecido estudioso pessoano, regressa às fontes dos textos que Fernando Pessoa pretendia incorporar no «Livro do Desassossego» e redefine o cânone da sua autoria. Com uma nova organização e aperfeiçoando a decifração de quase todos os fragmentos, este livro reúne os atributos para se tornar a edição de referência.


"Dar a cada emoção uma personalidade, a cada estado de alma uma alma." (Fragmento do Trecho 26)
 


Composto de centenas de fragmentos, dos quais Fernando Pessoa publicou apenas doze, o narrador principal deste livro é o semi-heterônimo Bernardo Soares. Oscilando entre temas como as variações de seu estado psíquico, a paixão, a moral e o conhecimento, o livro não apresenta uma narrativa linear; antes é composto de diversos trechos e partes que se articulam de maneira mais ou menos aberta. Ainda assim, é a obra de Pessoa que mais se aproxima do romance.

Nesta nova edição, o pesquisador Richard Zenith estabelece nova ordem, acrescenta trechos recentemente descobertos, descarta outros que só após a digitalização do acervo do autor puderam ser corretamente compreendidos - a caligrafia difícil dava margem a inúmeros equívocos - e se posiciona em relação às novidades adotadas na recém-lançada edição crítica da obra, publicada em 2010 em Portugal e tida como base segura para as interpretações do texto.

"As coisas sonhadas só têm o lado de cá... Não se lhes pode ver o outro lado... Não se pode andar à  roda delas... O mal das coisas da vida é que as podemos ir olhando por todos os lados. As coisas de sonho só têm o lado que vemos... Têm amores só puros, como as nossas almas." (Fragmento do Trecho 346)



http://www.globaleditora.com.br/literatura/catalogo-geral/?colecao=225&LivroID=10058Global Editora

É o livro da vida de Fernando Pessoa, finalmente editado como o autor queria, respeitando todos os semi-heterônimos que fazem parte dele, devidamente assinados - Vicente Guedes, Barão de Teive e Bernardo Soares. Vale explicar que a expressão semi-heterônimo é do próprio Pessoa, que considerava como heterônimos apenas três: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Ainda assim, são vozes muito próprias, que partem de biografias inventadas como personagens de teatro. Não estarem misturados ou até preteridos como em publicações passadas é a grande novidade dessa edição, preparada por uma das mais respeitadas especialistas na obra de Fernando Pessoa, Teresa Rita Lopes. Por isso a sugestão do plural do nome: Livro(s) do Desassossego. Assim como o autor foi vários, o livro também é.

A primeira parte é O livro de Vicente Guedes. Os textos nessa época ainda são muito influenciados pela corrente literária simbolista. A segunda parte, O livro do Barão de Teive, já assume um tom mais seco, de um personagem que definiu por si o fim da própria vida. A terceira parte, O livro de Bernardo Soares, é notoriamente parte do que conhecemos como Modernismo. Todos têm introduções que iluminam suas leituras, escritas por Teresa Rita Lopes, em linguagem descomplicada, ainda que contendo profundo conhecimento de causa.

Fernando Pessoa morreu cedo, em 1935, aos 47 anos. Astrólogo, ele teria previsto a data de sua morte. E organizou o que pôde, em maços de textos e indicações, o Livro do Desassossego. Começou a escrevê-lo jovem, mas documentos demonstram que desde cedo já se tratava de um projeto. A organizadora desta novíssima edição de um clássico da Literatura mundial, Teresa Rita Lopes, implode um argumento comum sobre a obra, de que ela pode ser editada de forma aleatória: Se Pessoa tivesse publicado o Livro do Desassossego tinha-o estruturado como o fez, o foi prevendo ao longo da vida. Como exemplo, ela ainda lembra que Mensagem, único livro de Pessoa publicado em vida, teve sua organização intensamente trabalhada pelo autor.

"São horas talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida. Vejo-me no meio de um deserto imenso. Digo do que ontem literariamente fui, procuro explicar a mim próprio como cheguei aqui." (Fragmento do Trecho 17)