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fevereiro 08, 2018



"IV. A quem eu ouço

Dou ouvidos a algo que soa dentro de mim de maneira constante, mas não regular, dando-me ora indicações, ora ordens. Quando indica, discuto; quando ordena, obedeço.

O que manda é o verso primevo, imutável e insubstituível, a essência que aparece sob a forma de verso. (Na maioria das vezes, aparece como os dois últimos versos do poema, em volta dos quais, depois, cresce todo o resto.) O que indica é a trilha sonora para o poema: ouço o canto, não ouço as palavras. As palavras eu procuro.

(...) Ouvir corretamente — eis minha tarefa. Não tenho outra. 


V. Para quem eu escrevo

Nem para milhões nem para uma única pessoa nem para mim mesma. Escrevo para a própria obra. Ela escreve a si própria através de mim. Para chegar aos outros ou a mim?

(...) Duas palavras sobre o dinheiro e sobre a fama. Escrever pelo dinheiro é uma baixeza, escrever pela fama é um ato de bravura. Aqui também se enganam o linguajar corrente e o pensamento comum. Escrever para qualquer outra coisa que não seja a própria obra é condená-la a durar um dia e nada mais. Assim é que se escrevem apenas os artigos de fundo — e talvez eles tenham que ser escritos assim mesmo. Fama, dinheiro, triunfo de uma ou de outra ideia, qualquer finalidade secundária, lateral à obra, é seu fim. O texto, enquanto está sendo escrito, é o fim em si mesmo.

Por que escrevo? Escrevo porque não posso não escrever. A resposta da pergunta sobre a finalidade é a causa, e não pode ser de outra maneira."

(trechos da obra O Poeta e o Tempo, publicada pela Editora Âyiné)


Nesta postagem, compartilhamos recortes da obra literária de Marina Tsvetáieva (1892–1941), poetisa e tradutora russa, cujo trabalho permanece pouco difundido em nosso país. Embora algumas ilustres traduções de seus poemas - como as de Augusto de Campos e Décio Pignatari - tenham sido há alguns anos publicadas, tais edições são dificilmente encontradas.

Em catálogo, encontramos três ensaios em O Poeta e o Tempo, publicado pela Editora Âyiné. Ainda desta editora, recomendamos o contato com os títulos da "Biblioteca Antagonista", que reúnem autores como V. S. Naipaul, Joseph Roth, George Steiner e muitos outros.


Sinopse: Marina Tsvetáeva fixou o olhar longamente, ao longo de toda a sua vida, sobre uma divindade aterrorizante: o tempo. "Dou ouvidos a algo que soa dentro de mim de maneira constante, mas não regular, dando-me ora indicações, ora ordens. Quando indica – discuto; quando ordena – obedeço". Esse "algo que soa­" era a palavra de poesia. O tempo aterroriza porque "ele só corre porque corre, corre para correr", mas «não corre para lugar nenhum".

A palavra poética, que se pretende absoluta desde os grandes românticos, é o paradoxo de um imponderável que permanece intacto, presa de nós todos, que "somos lobos do bosque impenetrável do Eterno".

Sobre essa tensão,  que vibra um instante antes de se romper, Marina Tsvetáeva construiu a sua obra. O livro que aqui se apresenta reúne três ensaios que possuem exatamente essa tensão como objeto, tocando assim o segredo de Tsvetáeva. Desde Novalis, raras vezes o risco da poesia como absoluto encontrou uma formulação tão drástica, tão elementar, tão peremptória. Tsvetáeva atenua o fanatismo da forma, que é a nossa herança moderna. Nela, um coração profundamente arcaico nos transmite "batidas que dão a exata pulsação do século".


Alguns poemas traduzidos:


TOMARAM . . .

"Os tchecos se acercavam dos alemães e cuspiam."
(Cf. jornais de março de 1939)

Tomaram logo e com espaço:
Tomaram fontes e montanhas,
Tomaram o carvão e o aço,
Nosso cristal, nossas entranhas.

Tomaram trevos e campinas,
Tomaram o Norte e o Oeste,
Tomaram mel, tomaram minas,
Tomaram o Sul e o Leste.

Tomaram a Vary e a Tatry,
Tomaram o perto e o distante,
Tomaram mais que o horizonte:
A luta pela terra pátria.

Tomaram balas e espingardas,
Tomaram cal e gente viva.
Porém enquanto houver saliva
Todo o país está em armas.

(Trad. Augusto de Campos) 




À VIDA

Não colherás no meu rosto sem ruga
A cor, violenta correnteza.
És caçadora - eu não sou presa.
És a perseguição - eu sou a fuga.
Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes - o corcel
Árabe

(Trad. Augusto de Campos)
 


ENCONTRO

Vou chegar tarde ao encontro marcado,
cabelos já grisalhos. Sim, suponho
ter-me agarrado à primavera, enquanto
via você subir de sonho em sonho.

Vou carregar esse amargo – por largo
tempo e muitos lugares, de penedos
a praças (como Ofélia – sem lámurias)
por corpos e almas – e sem medos!

A mim, digo que viva; à terra, gire
com sangue no bosque e sangue corrente,
mesmo que o rosto de Ofélia me espie
por entre as relvas de cada corrente,

e, amorosa sedenta, encha a boca
de lodo – oh, haste de luz no metal!
Não chega este amor à altura do seu
amor ... Então, enterre-me no céu!

(18 de junho de 1923)



A CARTA

Assim não se esperam cartas.
Assim se espera - a carta.
Pedaço de papel
Com uma borda
De cola. Dentro - uma palavra
Apenas. Isto é tudo.

Assim não se espera o bem.
Assim se espera - o fim:
Salva de soldados,
No peito - três quartos
De chumbo. Céu vermelho.
E só. Isto é tudo.

Felicidade? E a idade?
A flor - floriu.
Quadrado do pátio:
Bocas de fuzil.

(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
Viver é bastante.

Quadrado da carta.

(Trad. Augusto de Campos)


(Monumento a Marina Tsvetaeva, em Moscou)

janeiro 19, 2018




A vida no interior de uma palavra



A água está quente. Os grãos de areia que grudaram com o suor no meu rosto abrasam minha pele. Meus olhos estão fechados enquanto ensabôo minha cabeça. Mas penso que nem tudo é feito de grãos. Nem tudo desintegra feito pó. Às vezes, palavras montam um muro alto e móvel como um cubo mágico na nossa mente. Um labirinto de imagens que nós mesmos construímos a partir de um desejo como talvez seja o amor. Talvez eu arrisque um mapa. Represar o labirinto sem nome para não me perder. Mas, no fim, não importa. As palavras me cercam com seu grande muro alto e móvel. Eu não seria capaz de encaixar o momento em que comecei a pensar nessas coisas. O sol estava quente, creio. O trabalho foi duro. Foi. Os tijolos estão todos empilhados. Mas parece que carrego torres deles nos meus ombros. Não. Estou limpo. A espuma branca já se foi com a água. Agora, só resta o perfume no rosto. Em uma palavra cabe minha vida, creio, mas minha vida jamais conseguirá tomar forma de uma palavra. Não enquanto estiver vivo. Por enquanto, a palavra se torna ela mesma. E, talvez, minha vida continue assim, um pouco minha.



Jonatas T. B. 
Janeiro 2018
agosto 21, 2017


Exílio

Espero do exílio em que me ponho
acovardado

absorver a essência do que me foi
dito,
e a existência, do que me foi
silenciado.

Recebemos dos parceiros do Ateliê Editorial  a divulgação mais um lançamento de Poesia e já corremos para compartilhar com vocês! Com previsão de lançamento para o segundo semestre, o poeta Carlos Cardoso retorna às livrarias com "Na Pureza do Sacrilégio", idealizado após um reencontro com seus manuscritos e com a própria condição de poeta.

Em 2004, Carlos Cardoso reuniu alguns de seus poemas no volume Sol Descalço, lançado pela 7Letras. No ano seguinte chegava às prateleiras Dedos Finos e Mãos Transparentes, pela mesma editora. 

Apesar do começo promissor, Cardoso precisou concentrar-se na carreira de engenheiro, mas a poesia nunca o abandonou. Sobre este retorno, conclui o autor: “A poesia melhora minha vida de várias maneiras. Tenho uma sensação prazerosa em escrever. E gosto de ver os poemas terem vida própria, causarem sentimentos e entendimentos diferentes em cada pessoa que entra em contato com eles”.

Em Sol Descalço, o poeta dedicou-se a uma abundância de imagens poéticas; em Dedos Finos e Mãos Transparentes, Cardoso revelou um mundo de simplicidade. Já em Na Pureza do Sacrilégio, o livro será pautado por questões filosóficas e existenciais, além da criação de textos que mesclam o real com o inventivo.

Parabéns Ateliê Editorial por promover mais este lançamento! Já estamos curiosos pra conhecer este novo trabalho!

Sugestão

Encontre a paz e seja feliz.
Desista de tudo o que te agride.
A solidão a insensatez a covardia.
Deixe apenas uma palavra,
tão pura e serena
que ninguém a diria.


Sobre o autor: Carioca, nascido em 30/12/1973, tem como influências literárias T.S Eliot, Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire, Fernando Pessoa, Octavio Paz, Dylan Thomas e Camões.

“...quando nós, leitores, pensávamos ter capturado e enquadrado a originalidade poética de Carlos Cardoso, surge um novo livro do autor Dedos finos e mãos transparentes, no qual a fúria motriz das imagens alucinadas se atenua e dá lugar a um mundo de sutilezas e sensações as mais cotidianas que, sem jamais perder a visceralidade e o gosto pela surpresa, nos tocam por sua simplicidade”, escreveu sobre ele Carlito Azevedo.

Site: www.carloscardoso.art.br
Facebook: https://www.facebook.com/carloscardoso.art


A memória é uma porta de escape,

fenda por onde o amor foge quando
o amor bate.
junho 29, 2017


A voz desafinada não a impediu de subir no palco. Vestida de cores, estampas e confiança, pegou a zabumba a sanfona e o triângulo e iniciou um coro de cantigas juninas. Eram poucas as pessoas no palco, e também pouca a plateia; importava o fim de uma cinza tarde, a beleza de suas árvores iluminadas, o arraiá de decorações, fantasias e bandeirinhas, o encontro de casais apaixonados, e também o dos entediados, afinal é inverno, e o carioca não aprecia casacos, muito menos em meio a abraços, e também nem sempre junto a canções antigas.

Bem antes das seis então, ali bem próximo ao palco, casais e crianças se atrapalhavam com o atropelo da sanfona, e discutiam sobre o tempo e suas vestes bonitas, ai que frio, vamos lá filha, é dois pra lá e muitos pra cá, segura na mão do papai, olha o cachorro, bonito né, nossa, tá alta essa música, vai lá comprar pipoca amor, ok, vou ali comprar cerveja, quer dizer, pipoca.

Canções de amor e São João de algum modo resistem à cidade, assim como aos food trucks e à nossa antipatia. Embora sem coreto ou cortejo, a saudade é a confissão de tudo o que persiste e, nesta empatia, pouco importa o arranhão do disco ou de nossos desalinhos; em meio a barracas de churrasco temaki pão de queijo e risoto (onde foi parar a canjica?), é possível restaurar a companhia e o sorriso, e se divertir ao som de boas lembranças, assim como ao sabor de um quitute ou um beijo, e também ao ritmo de um forró atravessado, e das muitas lâmpadas nos galhos da amendoeira. Pensar em tudo isso faz com que a Nova Cidade seja apenas mais um cenário onde não precisamos a todo tempo fugir - ainda que a canjica e o Gonzaga não estejam presentes; ainda que o trânsito e algumas despedidas sejam fotografias que não gostaríamos de ter vivido.

Gostaria de dançar, claro, com muito prazer, cuidado filha, quanto custa a cerveja moço, esqueci de passar no mercado, vinte e três é São João ou Sant'Antônio, hoje é o seu aniversário, amor, eu sei, e também o do romancista.
 

Da série: Um dia no Rio de Janeiro
Por Rebeca Cavalcanti
junho 02, 2017



Alegria define o momento em que os amigos publicam um novo livro, ainda mais quando a publicação é dedicada a Poesia :)

Escarificação: ensimesma é um dos trabalhos recentes de Cesar Kiraly, autor cuja obra percorre o campo da Estética e da Teoria Política, da qual é professor, assim como o da produção poética, que neste ano também se apresenta em uma segunda casa, a Editora Patuá, que há pouco mais de um mês publicou Fuga sobre o branco [], livro que, em suas páginas, guarda um de meus poemas favoritos:


Ressentimento

sabe, papel da manhã?
todos esses sons que nos
envolvem. a vida acordando.
barulhos de acorda.
uma corda tesa.
os barulhos em volta do
pescoço. os barulhos da manhã.
o choro doce de uma mulher
no banheiro. passarinhos.
canhões. sabe de uma coisa
papel da manhã? res-
sinto-me. bem-te-vi é
tão fácil. não cabe
num poema novo.




Sobre o Escarificação, além de contar com um belíssimo projeto gráfico da Editora Substânsia, há um detalhe que preciso compartilhar com vocês, e que faz parte deste combo-alegria aqui do post: há muitos anos, em uma outra juventude, eu escrevia a partir de gravuras, feitas de imagens e tinta, e não apenas em parágrafos de um blog, como hoje. Neste meio tempo, que certamente bem menor que o do início da escrita-em-versos do Cesar, tais imagens foram motivo de inúmeras conversas, e de alguns muitos projetos a partir daí.

Pois bem, foi há alguns meses então que Cesar me pediu algumas destas gravuras antigas para ilustrar capa e contracapa de seu trabalho literário em Escarificação. Chegamos então a este encontro de imagens, feitas de reconstruções e monumentos (como a paisagem e a infância que nas rugas do tempo se desfaz e resplandece), e que viraram parte deste novo livro. Alegria define, mesmo :)

Alguns poemas:


112
o que diriam
se soubessem
o que sinto
daqueles que não sentiram
o frio do horror sentido?

113
não foi a navalha
que me deu que me abriu
os pulsos
             comprei outra
não trairia nossos cortes

114
agradeço
adeus
pelas pálpebras

115
eu que tudo sofri
para te fazer sofrer

116
às mãos
sujas
deus me
salve 
o verso

117
a vida é
isso que me mata





Sinopse: A escarificação tem que ver com certo hábito negativo do movimento corporal, causado por limitação física. Alguém acamado por muitos dias, independente do quão bem tratado, desenvolve ferimentos na pele, sobretudo nos vértices de apoio do corpo no leito.

Além disso, há dinâmicas de ornamentação da pele sem o acréscimo de artefatos ou pigmentos. Nelas, acontece a inscrição de diversos ferimentos, de modo prolongado no tempo, até que as cicatrizes consolidem a aparência final da marca. São imagens aparentadas às tatuagens, mas destas diferem pela cor ser intrínseca aos processos de cura do machucado.

Seria possível dizer que a voluntariedade é o que diferencia essas duas formas de escara. Todavia, ainda que impróprio, existe parentesco entre o impigmentado de marcas e a autopunição. Ora, a autopunição não é ato de liberdade.

Assim, uma forma de ler esse livro é tomá-lo como operando na complementaridade da escarificação como estado à mercê e a escarificação como circunscrição do sofrimento. Se a escarificação é tomada ensimesma, esta série de poemas é a escarificação : ensimesma. Ou mais, uma investigação sistemática sobre o aparecimento de escaras.


Sobre o autor: Cesar Kiraly é professor de Estética e Teoria Política no Departamento de Ciência Política da UFF. Atua como curador da Galeria de Arte Ibeu no Rio de Janeiro. É Editor do Caderno-Revista de Poesia 7faces. Escreveu, dentre outros, os livros 'Variações: sobre um tema de Anselm Kiefer' e 'Fuga sobre o Branco [ ]'.


março 21, 2017

"As pessoas perguntam sempre por que a gente escreve e eu fico pensando em todos os motivos que levam de repente uma pessoa a escrever e penso que a raiz disso em mim está na vontade de ser amada, numa avidez pela vida. Quem sabe também se não é uma necessidade de viver o transitório com intensidade, uma força oculta que nos impele a descobrir o segredo das coisas. (...) Eu fico impressionada quando ouço pessoas que dizem sentir prazer em escrever. Para mim é sofrimento, um sofrimento de que não posso fugir, mas me amedronta. Penso que escrever serve mais para perdurar, para existir fora de nós mesmos, nos outros. (...) É por isso que penso que o que me leva a escrever é uma vontade de ultrapassar-me, ir além da mesquinha condição de finitude." (Trecho de entrevista de Hilda Hilst para O Estado de São Paulo, 1975)

No Dia da Poesia, uma das notícias que mais me chamou a atenção foi a de um lançamento da Companhia das Letras (já em pré-venda na Amazon e com um grande desconto!) com toda a obra poética de Hilda Hilst. O livro de 616 páginas reúne poemas de seus mais de vinte títulos, além de inéditos, e inclui comentários críticos de Lygia Fagundes Telles, posfácio de Victor Heringer e carta de Caio Fernando Abreu para Hilda. Um dos melhores lançamentos do ano, com toda certeza!


Outro lançamento recente, também relacionado a obra de Hilda, é o livro Numa Hora Assim Escura, publicado pela José Olympio. Resultado de anos de pesquisa, o projeto da autora Paula Dip reúne cartas de Caio Fernando Abreu enviadas a Hilda Hilst entre os anos de 1971 e 1990. O projeto gráfico da obra está lindo, e conta com diversas imagens dos poetas, assim como facsimiles das cartas datilografadas e manuscritas. Aliás, este livro também está em promo na Amazon hoje, aproveitem!

Sobre  obra: "Inéditas, algumas (cartas) ainda em envelopes selados, escritas à mão em papéis amarelados, devorados por cupins, ou datilografadas, elas estavam com o poeta baiano Antonio Nahud Júnior que, assim como Caio, viveu na companhia de Hilda na Casa do Sol, que recebeu de Hilda após uma briga com Caio, quando ela queria queimar tudo para afastá-lo de vez da sua vida. Confessional e íntimo, o conteúdo dessas correspondências revelou a grande amizade e o verdadeiro caso de amor literário entre os dois. Numa hora assim escura é uma reunião de cartas repletas de expressão e a transcrição do laço entre esses dois grandes escritores, que Paula nos apresenta com a sensibilidade de sempre."



Alguns excertos de poemas de Hilda Hilst:



II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.
Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.
Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.

 (Em: Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor)



XIII

Ávidos de ter, homens e mulheres
Caminham pelas ruas. As amigas sonâmbulas
Invadidas de um novo a mais querer
Se debruçam banais, sobre as vitrines curvas.
Uma pergunta brusca
Enquanto tu caminhas pelas ruas. Te pergunto:
E a entranha?
De ti mesma, de um poder que te foi dado
Alguma coisa mais clara se fez? Ou porque tudo se perdeu
É que procuras nas vitrines curvas, tu mesma,
Possuída de sonho, tu mesma infinita, maga,
Tua aventura de ser, tão esquecida?
Por que não tentas esse poço de dentro
O incomensurável, um passeio veemente pela vida?

Teu outro rosto. Único. Primeiro. E encantada
De ter teu rosto verdadeiro, desejarias nada.


(Em: Poemas aos homens do nosso tempo)



Sobre a autora: "Hilda Hilst (1930-2004) foi uma ficcionista, cronista, dramaturga e poeta brasileira, considerada pela crítica especializada como uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século 20.

Hilda iniciou sua produção literária em São Paulo, com o livro de poemas Presságio (1950). Em 1965, ela se muda para Campinas e inicia a construção da Casa do Sol, para ser um porto seguro de sua criação. É na Casa do Sol que Hilda dedica-se exclusivamente ao trabalho literário, realizando ali mais de 80% de sua obra. Em 1967, ela estreia na dramaturgia e em 1970, na ficção, com Fluxo floema.

Dona de uma linguagem inovadora e abrangente, Hilda produziu mais de quarenta títulos, entre poesia, teatro e ficção, e escreveu por quase 50 anos, recebendo importantes prêmios literários do Brasil. Criadora de textos em que Atemporalidade, Real e Imaginário se fundem, e os personagens mergulham no intenso questionamento dos significados, buscando compreensão e encontro do essencial, Hilda retrata sem cessar a frágil e surpreendente condição humana.

Muitos de seus livros tiveram as edições originais esgotadas. A partir dos anos 2000, a Globo Livros reeditou sua obra completa, e em 2016 os direitos de publicação passaram para a Companhia das Letras. Hilda já ganhou traduções em países como Itália, França, Portugal, Alemanha, Estados Unidos, Canadá, Argentina.

O acervo pessoal deixado pela escritora se divide, hoje, entre a Sala de Memória Casa do Sol — onde há, inclusive, produções inéditas — e o Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio da Universidade Estadual de Campinas (Cedae-Unicamp)." 

(texto retirado do site do Instituto Hilda Hilst)

março 13, 2017


A poesia é um lugar-comum para o amor, e também seu maior estandarte. Neste território de escrita, o amor é como um precipício; seus versos, um olhar sem esquinas, assim raso e escuro, como um amante sujeito ao verso quebrado, ao tropeço da pena. À ruptura de seu próprio destino, o poeta é também um  Kintsukuroi perfeito.

Às margens de um soneto, estrofes de coragem e confissão e pouco senso: é assim que o amor nos conduz e paralisa. Sobre o estado-de-amar, pode-se dizer que intransitivo, porém de longe um verso simples. Afinal, o que pulsa é um amor emaranhado, é um nó de letras, um longo capítulo ou um Infinito, como um poema de Vinicius, cujo primeiro salto, O caminho para a distância, foi assim descrito:

Este livro é o meu primeiro livro. Desnecessário dizer aqui o que ele significa para mim como coisa minha — creio mesmo que um prefácio não o comportaria normalmente.

São cerca de quarenta poemas intimamente ligados num só movimento, vivendo e pulsando juntos, isolando-se no ritmo e prolongando-se na continuidade, sem que nada possa contar em separado. Há um todo comum indivisível.

Seus defeitos de ideia são os meus defeitos de formação. Seus defeitos de construção são os meus defeitos de realizador. Eu o dou tal como o fiz, com todos os arranhões que lhe notei na fixação inicial, virgem de remodelações, na mesma seiva em que sempre viveu.

Ofereço-o aos meus amigos.

V.M. Rio, 1933

Por ruas e bossas, gerações e esquinas, assim foi sua trajetória. No salto de um poeta, o amor de Vinicius irrompe em palavras, esgueira-se em partituras, em partidas e páginas, e no voo de toda uma vida.

Há poucos dias, um novo olhar editorial replicou esta poesia: em uma belíssima edição da Companhia das Letras, sonetos retornam aos seus abismos, e também às suas cantigas —  como se à beira de um disparo, como se às voltas de um escape ao tiro; porque o amor é assim.


Pela luz dos olhos teus

Ilustrada pelo artista plástico carioca Filipe Jardim, esta antologia reúne 22 poemas de um dos fundadores da bossa nova. Desde seu livro de estreia, O caminho para a distância, lançado em 1933, passando por Forma e exegese (1935) e Livro de sonetos (1957), até chegar a Novos poemas II (1959), o encantamento amoroso é o tema que perpassa toda a obra de um dos nossos principais poetas líricos.

Se no poema “A mulher que passa” Vinicius pergunta: “Por que me faltas, se te procuro?”, nos versos iniciais de “Soneto do Corifeu” ele define o estado de urgência em que vivia, numa assombrosa constatação: “São demais os perigos desta vida/ Para quem tem paixão, principalmente”.


Abaixo, alguns poemas da edição:

Namorados no mirante

Rio de Janeiro
Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas súbitas estátuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
Remontavam às origens - a realidade
Neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espécie - tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas no magma incandescente
Que milênios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas galáxias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o silêncio... 


 
Soneto de inspiração

Não te amo como uma criança, nem
Como um homem e nem como um mendigo
Amo-te como se ama todo o bem
Que o grande mal da vida traz consigo.

Não é nem pela calma que me vem
De amar, nem pela glória do perigo
Que me vem de te amar, que te amo; digo
Antes que por te amar não sou ninguém.

Amo-te pelo que és, pequena e doce
Pela infinita inércia que me trouxe
A culpa é de te amar — soubesse eu ver

Através da tua carne defendida
Que sou triste demais para esta vida
E que és pura demais para sofrer.



Sobre o poeta: Nasceu em 1913, no Rio de Janeiro. Cursou a Faculdade de Direito da rua do Catete e a Universidade de Oxford, onde estudou língua e literatura inglesas. Em 1941 entrou para o Itamaraty, assumindo em 1946 seu primeiro posto diplomático, de vice-cônsul em Los Angeles. Poeta, cronista e dramaturgo, em 1953 conheceu Antonio Carlos Jobim e iniciou um apaixonado envolvimento com a música brasileira, tornando-se um de seus maiores letristas. A lista de seus parceiros musicais é vasta, incluindo, além de Tom Jobim, Baden Powell, Chico Buarque, Carlos Lyra, Edu Lobo e Toquinho, entre outros. Morreu em 1980.
janeiro 17, 2017


Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, foi uma poetisa brasileira nascida a 20 de agosto de 1889, na antiga Vila Boa de Goyaz, hoje, Cidade de Goiás.

Cora estudou até as primeiras séries e desde muito cedo passou a escrever nos jornais de sua região. Em 1910 publicou o conto “Tragédia na Roça”, recebendo assim sua primeira crítica literária. Durante a juventude, casou-se e conheceu uma nova vida no interior de São Paulo.

Com a morte do marido, Cora passou a vender livros e quitutes para o sustento de seus três filhos. Em 1956, retornou para Goiás.

Ao completar cinqüenta anos de idade, Cora deixou de atender pelo nome de batismo e assumiu o pseudônimo que escolhera para si há muitos anos.

Em toda a sua vida, Cora não deixou de escrever, e produziu poemas ligados à sua história, à sua terra Goiás e ao cotidiano simples e digno que por mais de sete décadas pôde viver.

No post de hoje, nossa lembrança e homenagem a esta tão estimada poeta :)



Das Pedras

Ajuntei todas as pedras
Que vieram sobre mim
Levantei uma escada muito alta
E no alto subi
Teci um tapete floreado
E no sonho me perdi
Uma estrada,
Um leito,
Uma casa,
Um companheiro,
Tudo de pedra
Entre pedras
Cresceu a minha poesia
Minha vida...
Quebrando pedras
E plantando flores
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude dos meus versos.



Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.




Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.







Simples, muito próxima do gosto do povo, fluindo com naturalidade, a poesia de Cora Coralina encontrou uma imensa receptividade popular. O segredo talvez esteja no fato de que os seus versos dizem o que as pessoas sentem, mas não conseguem expressar, e na grande simpatia pelo semelhante, sobretudo os humilhados e perseguidos.


janeiro 13, 2017



"Assim, tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espírito, e sendo o nosso espírito uma paisagem, tempos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens. Ora, essas paisagens fundem-se, interpenetram-se, de modo que o nosso estado de alma, seja ele qual for, sofre um pouco da paisagem que estamos vendo — num dia de sol uma alma triste não pode estar tão triste como num dia de chuva — e, também, a paisagem exterior sofre do nosso estado de alma — é de todos os tempos dizer-se, sobretudo em verso, coisas como que “na ausência da amada o sol não brilha”, e outras coisas assim. De maneira que a arte que queira representar bem a realidade terá de a dar através duma representação simultânea da paisagem interior e da paisagem exterior..."
(Fernando Pessoa in Cancioneiro - trecho da Nota preliminar)


Sexta-feira de chuva no Rio. Neste quase dilúvio de janeiro (segundo dia aqui na capital), nada como galochas e um livro para resistir ao tumulto aquático do trânsito e das esquinas. Há quase um ano, no dia dezenove, a paisagem úmida preenchia o blog através das páginas de inúmeros poetas; no dia de hoje, Pessoa é a voz que observo da janela, e com muito gosto compartilho com vocês.


Às vezes entre a tormenta

Às vezes entre a tormenta,
quando já umedeceu,
raia uma nesga no céu,
com que a alma se alimenta.

E às vezes entre o torpor
que não é tormenta da alma,
raia uma espécie de calma
que não conhece o langor.

E, quer num quer noutro caso,
como o mal feito está feito,
restam os versos que deito,
vinho no copo do acaso.

Porque verdadeiramente
sentir é tão complicado
que só andando enganado
é que se crê que se sente.

Sofremos? Os versos pecam.
Mentimos? Os versos falham.
E tudo é chuvas que orvalham
folhas caídas que secam.



Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão comsossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...




CANCIONEIRO - Fernando Pessoa
L&PM Pocket

Com Cancioneiro, a L&PM dá continuidade à publicação da obra de Fernando Pessoa, que já conta com Mensagem, Odes de Ricardo Reis, Poemas de Alberto Caeiro, Poemas de Álvaro de Campos e Poesias, todos em formato de bolso.

Esta edição, organizada por Jane Tutikian, apresenta ao leitor os poemas assinados por Fernando Pessoa com seu próprio nome e que foram publicados esparsamente em periódicos. A escolha de “cancioneiro” para este conjunto de poemas líricos, rimados e metrificados, de forte influência simbolista, não é aleatória: cancioneiro é o nome dado ao conjunto de poesias líricas medievais, portuguesas ou espanholas, fortemente ligadas à música, ao canto e à dança. As poesias do Cancioneiro pessoano, por sua vez, estão ligadas à tradição lírica portuguesa, também têm um ritmo e uma métrica com grande musicalidade.

Nesta antologia, que reúne mais de 150 poemas, se destaca uma das suas mais famosas criações, “Autopsicografia”, que começa com os seguintes versos: “O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”. O breve poema sintetiza a relação poeta/poema, separação que caracteriza a lírica moderna. Esta problemática acompanha quase que a totalidade da obra pessoana, na qual fica difícil identificar até onde vai o autor, a vida e a obra. Pessoa não teve uma história que se possa contar: teve várias, personificadas nas vozes dos seus heterônimos como Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos, citando apenas os mais conhecidos.
janeiro 09, 2017



João Cabral de Melo Neto nasceu em Recife no dia 9 de janeiro de 1920. Seu primeiro livro, Pedra do sono, é de 1942. Nos anos seguintes, publicou obras que o consagraram como um dos maiores escritores do Brasil. Dentre os trabalhos mais conhecidos estão O cão sem plumas (1950), Morte e Vida Severina (1955) e A Educação pela Pedra (1966). O autor faleceu em 1999.

No segundo post da série Poesia no Papel, rememoramos a poesia de João Cabral de Melo Neto com uma pequena seleção de seus escritos.




IV. Discurso do Capibaribe 

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
 do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.


Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).


(Poema publicado em O cão sem plumas)



janeiro 03, 2017

Olá, pessoal! É com muita alegria que começamos mais um ano aqui no Blog e também no Instagram!! E nada melhor do que começar trazendo novidades, não é mesmo? Uma delas é que vamos dedicar um espaço maior aqui na página para a Poesia, tanto autoral como de nossos autores favoritos! 

Em cada postagem desta nova série, chamada Poesia no Papel, você encontrará uma imagem acompanhada de um trechinho especial (vamos postar a imagem lá no Instagram também). Já o poema completo você encontrará sempre aqui no blog.

E como amamos literatura nacional, não poderíamos começar esta série sem falar de nossa querida Cecília Meireles! <3 Ah! Utilize a hashtag #poesianopapel e compartilhe esse amor por aí também!




Discurso


E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?


(Cecília Meireles, in Viagem, 1939)



dezembro 08, 2016


E pra quem achou que novembro foi um mês de poucas cartinhas (esses Correios... puxa), dezembro já chegou com umas 42 atropelando o caminho. Risos. Enfim, continuando a postagem anterior, que falava de wishlists literárias e sugestões de presentes, o post #2 da série (sim, acabou virando série <3) apresenta uma indicação de leitura que chegou pra gente através do jornalista José Fontenele, responsável pela agência literária Oasys Cultural (aliás: atenção, novos autores! Super indicação pra quem está começando no meio literário, viu!). E como aqui no Blog gostamos demais de poesia e também de novos autores, José indicou a leitura do livro Se o vento diz, do também carioca José Fernando Guedes, publicado em parceria com a editora 7Letras. Gostei da ideia e fui procurar o livro do autor no site da editora, e a encomenda chegou bem rápido, e ainda com um livro de presente <3 Fica também a dica da 7Letras (não só pelo livro-brinde, ok? risos) pra quem curte conhecer o trabalho de novos autores, especialmente no segmento da poesia. 

Abaixo, os livros que recebemos e mais algumas sugestões de leitura:

Se o vento diz - 2ª edição
José Fernando Guedes


José Fernando Guedes mostra que os sentidos de um poeta captam o mundo de forma única: vê aquilo que nos escapa durante a incessante busca por novos horizontes; ouve o que cada som, cada timbre, cada voz tem a dizer e traduz o imenso turbilhão de emoções para o verso. Se o vento diz, devemos parar para escutar.   






A casa do fim
José Riço Direitinho   


A casa do fim, livro de estreia de José Riço Direitinho, publicado originalmente em 1992, apresenta breves contos, em que se inscreve a relação mágica, telúrica e visceral que o homem mantém com o desconhecido, tendo como pano de fundo um mundo fechado, insólito e rural. São histórias de amores e desamores, de sabedorias populares antigas, de um Portugal em extinção, ou já a dar seus últimos estertores.





Solange Rebuzzi   

Um misto de ensaio, relato de viagem e obra autobiográfica, as Oito noites em Veneza da poeta Solange Rebuzzi trazem um passeio literário pela mítica cidade italiana, revelando muitas histórias ali vividas pelos mais diversos personagens, incluindo alguns dos artistas mais importantes de suas épocas. A sensibilidade da poeta mistura sua memória afetiva e sua história familiar a estes tantos personagens, juntamente com as fotografias tiradas pelas lentes de José Eduardo Barros. Assim, a leitura da cidade fica ainda mais rica, ganhando um novo contorno e novos matizes a cada página.


Um caderno para coisas práticas
Annita Costa Malufe    


Quinto livro de poemas de Annita Costa Malufe, Um caderno para coisas práticas brinca com a ideia de anotação. Uma sequência de poemas – ou fragmentos de poemas – que se emendam como as páginas de um caderno de notas. Os temas vão e voltam e nunca se concluem. Personagens são esboçados e logo desaparecem. A escuta de vozes, que já conduzia seus livros anteriores, é o mote da escrita, da anotação rápida, da condução rítmica que tenta achar algum fio de continuidade entre estilhaços de histórias. Segundo o poeta Manoel Ricardo de Lima, que assina a orelha do livro: “[...] a ideia de Annita com esse livro é nos colocar diante do fonocentrismo frouxo de nosso tempo agora através da simulação da autobiografia (procedimento que retira com força e incorpora de alguns poetas e artistas que lê e vê e gosta muito, como tarefa política), é também nos colocar diante da impossibilidade de qualquer autobiografia.


E a 7Letras também está com dois lançamentos imperdíveis: "A mil beijos de profundidade" e "Atrás das linhas inimigas do meu amor", ambos do compositor Leonard Cohen, uma das grandes perdas do cenário musical deste ano... Os livros estão em pré-venda e podem ser adquiridos pelo site da editora mesmo.


O músico e compositor canadense Leonard Cohen é também (e antes de tudo) um poeta brilhante, como poderá ser visto nesta antologia de sua obra, em edição bilíngüe. Mais uma preciosa raridade poética que apresentamos em primeira mão para o leitor brasileiro.


E vocês, já conheciam a 7Letras? Vamos conhecer novos autores nacionais de poesia e romance? :)




Sobre a editora: A 7Letras iniciou suas atividades numa pequena livraria no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Pioneira no sistema de impressão por demanda, publicou diversos livros de poesia em pequenas tiragens em meados dos anos 1990. Com o reconhecimento dos leitores e da crítica especializada, passou a expandir seu catálogo com publicações acadêmicas  em diversas áreas -- com destaque para Filosofia, História e Ciências Sociais – e com a criação das revistas literárias Inimigo Rumor (dedicada à poesia) e Ficções (de prosa), que ajudaram a revelar vários nomes importantes no cenário da literatura brasileira contemporânea. Algumas centenas de títulos, alguns milhares de leitores e diversos prêmios literários depois, a 7Letras abre em 2012 uma nova livraria, agora em Ipanema -- e continua com seu importante trabalho de garimpagem e revelação de novos autores, sempre com soluções criativas para trazer a público o melhor da arte literária brasileira e internacional.


Sobre a Oasys: Oasys Cultural é uma empresa de produção cultural que atua, desde 2008, nos segmentos de curadoria e produção de eventos literários, agenciamento de escritores e projetos editoriais e de comunicação.

Trabalhando com ética, dedicação e criatividade, nossa missão é atender o cliente a partir da escuta e compreensão de suas necessidades, realizando um serviço excelente e completo.

Um oásis é um lugar de pausa, beleza, descanso, abundância e nutrição. No caso da nossa empresa, é o local de reunião de alguns dos melhores escritores da literatura brasileira e estrangeira. Contadores de histórias que encantam o mundo com suas palavras e narrativas, constituindo verdadeira Cultura.