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Mostrando postagens com marcador Vinicius de Moraes. Mostrar todas as postagens
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março 13, 2017


A poesia é um lugar-comum para o amor, e também seu maior estandarte. Neste território de escrita, o amor é como um precipício; seus versos, um olhar sem esquinas, assim raso e escuro, como um amante sujeito ao verso quebrado, ao tropeço da pena. À ruptura de seu próprio destino, o poeta é também um  Kintsukuroi perfeito.

Às margens de um soneto, estrofes de coragem e confissão e pouco senso: é assim que o amor nos conduz e paralisa. Sobre o estado-de-amar, pode-se dizer que intransitivo, porém de longe um verso simples. Afinal, o que pulsa é um amor emaranhado, é um nó de letras, um longo capítulo ou um Infinito, como um poema de Vinicius, cujo primeiro salto, O caminho para a distância, foi assim descrito:

Este livro é o meu primeiro livro. Desnecessário dizer aqui o que ele significa para mim como coisa minha — creio mesmo que um prefácio não o comportaria normalmente.

São cerca de quarenta poemas intimamente ligados num só movimento, vivendo e pulsando juntos, isolando-se no ritmo e prolongando-se na continuidade, sem que nada possa contar em separado. Há um todo comum indivisível.

Seus defeitos de ideia são os meus defeitos de formação. Seus defeitos de construção são os meus defeitos de realizador. Eu o dou tal como o fiz, com todos os arranhões que lhe notei na fixação inicial, virgem de remodelações, na mesma seiva em que sempre viveu.

Ofereço-o aos meus amigos.

V.M. Rio, 1933

Por ruas e bossas, gerações e esquinas, assim foi sua trajetória. No salto de um poeta, o amor de Vinicius irrompe em palavras, esgueira-se em partituras, em partidas e páginas, e no voo de toda uma vida.

Há poucos dias, um novo olhar editorial replicou esta poesia: em uma belíssima edição da Companhia das Letras, sonetos retornam aos seus abismos, e também às suas cantigas —  como se à beira de um disparo, como se às voltas de um escape ao tiro; porque o amor é assim.


Pela luz dos olhos teus

Ilustrada pelo artista plástico carioca Filipe Jardim, esta antologia reúne 22 poemas de um dos fundadores da bossa nova. Desde seu livro de estreia, O caminho para a distância, lançado em 1933, passando por Forma e exegese (1935) e Livro de sonetos (1957), até chegar a Novos poemas II (1959), o encantamento amoroso é o tema que perpassa toda a obra de um dos nossos principais poetas líricos.

Se no poema “A mulher que passa” Vinicius pergunta: “Por que me faltas, se te procuro?”, nos versos iniciais de “Soneto do Corifeu” ele define o estado de urgência em que vivia, numa assombrosa constatação: “São demais os perigos desta vida/ Para quem tem paixão, principalmente”.


Abaixo, alguns poemas da edição:

Namorados no mirante

Rio de Janeiro
Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas súbitas estátuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
Remontavam às origens - a realidade
Neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espécie - tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas no magma incandescente
Que milênios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas galáxias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o silêncio... 


 
Soneto de inspiração

Não te amo como uma criança, nem
Como um homem e nem como um mendigo
Amo-te como se ama todo o bem
Que o grande mal da vida traz consigo.

Não é nem pela calma que me vem
De amar, nem pela glória do perigo
Que me vem de te amar, que te amo; digo
Antes que por te amar não sou ninguém.

Amo-te pelo que és, pequena e doce
Pela infinita inércia que me trouxe
A culpa é de te amar — soubesse eu ver

Através da tua carne defendida
Que sou triste demais para esta vida
E que és pura demais para sofrer.



Sobre o poeta: Nasceu em 1913, no Rio de Janeiro. Cursou a Faculdade de Direito da rua do Catete e a Universidade de Oxford, onde estudou língua e literatura inglesas. Em 1941 entrou para o Itamaraty, assumindo em 1946 seu primeiro posto diplomático, de vice-cônsul em Los Angeles. Poeta, cronista e dramaturgo, em 1953 conheceu Antonio Carlos Jobim e iniciou um apaixonado envolvimento com a música brasileira, tornando-se um de seus maiores letristas. A lista de seus parceiros musicais é vasta, incluindo, além de Tom Jobim, Baden Powell, Chico Buarque, Carlos Lyra, Edu Lobo e Toquinho, entre outros. Morreu em 1980.
setembro 18, 2016

Retratos em branco e preto, a poesia que o dia não apagou: em um domingo, o fim de tarde é para o corpo um descanso, e também saudade e desconforto. Neste quase vinte de setembro, a voz de nossos autores espelha horizontes e rotinas, e anunciam primaveras. 

Uma feliz semana com os versos de Clarice, Drummond, Tom, Elis, Vinicius e Adélia!


Clarice Lispector - Atenção ao Sábado

Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.

No sábado é que as formigas subiam pela pedra.

Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho.

De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana.

Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?

No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde.

Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais.

Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã. 

Domingo de manhã também é a rosa da semana. 

Não é propriamente rosa que eu quero dizer.



Carlos Drummond de Andrade - Poema que aconteceu

Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.


Elis Regina - Domingo em Copacabana
Compositores: Paulo Peres Tito / Roberto Faissal

Copacabana cheia
Bom é domingo mesmo
Dias de sol
Vêm alegrar o nosso amor
Mar azul, onda azul
Vem beijar meus amores

Copacabana bela
Lua de luz acesa
Ando na calçada cheia
Sem pensar
Ah, Rio até sozinha
Da beleza do meu Rio

Da Tv Rio até o forte
Gente que passa sem ter norte
Copacabana
Eu vou sonhar junto de ti

Copacabana bela
Lua de luz acesa
Ando na calçada cheia
Sem pensar
Ah, Rio até sozinha
Da beleza do meu Rio

Da Tv Rio até o forte
Gente que passa sem ter norte
Copacabana
Eu vou sonhar junto de ti


Tom Jobim - Domingo azul do mar

Quando eu vi o seu olhar
Sorrindo para mim
Neste domingo
Domingo azul do mar
Eu compreendi que nada terminou

Vi então que o coração
Sabe adivinhar em tanta dor
Que havia de chegar em nosso amor
O domingo azul do mar

Nossos amigos que me encontravam
Falavam de você
O banco antigo, lugares vazios
Falavam de você

Mas agora que eu senti
Tremer a sua mão na minha mão
Eu vejo este domingo azul do mar
Refletido em seu olhar



Vinicius de Moraes - Soneto de um Domingo

Em casa há muita paz por um domingo assim.
A mulher dorme, os filhos brincam, a chuva cai...
Esqueço de quem sou para sentir-me pai
E ouço na sala, num silêncio ermo e sem fim,

Um relógio bater, e outro dentro de mim...
Olho o jardim úmido e agreste: isso distrai
Vê-lo, feroz, florir mesmo onde o sol não vai
A despeito do vento e da terra que é ruim.

Na verdade é o infinito essa casa pequena
Que me amortalha o sonho e abriga a desventura
E a mão de uma mulher fez simples, pura e amena.

Deus que és pai como eu e a estimas, porventura:
Quando for minha vez, dá-me que eu vá sem pena
Levando apenas esse pouco que não dura.



Adélia Prado - Grande desejo

Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai.
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.