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setembro 18, 2017




Publicado originalmente em 1968, A mulher que matou os peixes é um livro sobre perdas, animais e sobre nossa relação com a culpa e a verdade. No enredo, a própria Clarice é a protagonista. Em certa ocasião, ao deixar os peixinhos de seu filho morrerem, Clarice inicia uma retrospectiva de todos os animais que já fizeram parte de sua vida, tanto os de estimação quanto os que surgem de forma inesperada em nossa casa e caminho, como os insetos, por exemplo. Apesar de ser conhecido como uma história para crianças, A Mulher que matou os peixes é uma história que inquietará leitores de todas as idades!
 

Ah! A Editora Rocco tem em seu catálogo duas edições desta obra de Clarice, sendo uma destas em capa dura e com ilustrações da artista Mariana Vallente. A edição que está no vídeo foi publicada em formato brochura pelo selo Rocco Jovens Leitores (compartilhamos algumas imagens no fim deste post).

Conheça mais dessa história assistindo a vídeo-resenha que a Mich preparou pra gente:


Sinopse: "A mulher que matou os peixes infelizmente sou eu." Clarice Lispector começa confessando o "crime" que cometeu sem querer. E para explicar como tudo aconteceu, ela escreveu uma história de compreensão e afeto, contando sobre todos os bichos de estimação que já viveram em sua casa. Os que vieram sem ser convidados e foram ficando, e os que ela escolheu para criar, e que foram muitos: uma lagartixa que comia os mosquitos e mantinha limpa a sua casa, cachorros brincalhões, uma gata curiosa, um miquinho esperto, vários coelhos...

Antes de mais nada, ela explica que sempre foi alguém que gosta de animais, de crianças e também de gente grande. Todos os bichos que aparecem em seus livros fizeram, em algum momento, parte de sua vida. Nada mais natural, então, do que contar simplesmente o que aconteceu com cada um deles. Por isto mesmo, estas histórias são narradas de modo coloquial e muito próximo do cotidiano infantil. Mesmo quando ela fala sobre dor e perda, quando explica que, às vezes, as coisas acontecem diferente da maneira que queremos.

Clarice mostra, em A mulher que matou os peixes, que além de conhecer muito de perto o universo infantil, é alguém que sabe conversar com crianças com extrema sensibilidade. Ela trata os sentimentos com toda a delicadeza e fala direto ao coração.


janeiro 12, 2017

Há quase um ano fizemos uma lista com os livros do nosso parceiro Ateliê Editorial que estavam nas listas dos principais vestibulares do país. Neste ano, repetimos a proposta compartilhando a lista divulgada recentemente pela Unicamp, válida para as provas de Literatura de Língua Portuguesa do Vestibular 2017. A lista de obras inclui romances, poesia, peça teatral e contos. Confira:





Luís de Camões - Sonetos | Ateliê Editorial

O desejo de plenitude amorosa, as dificuldades existenciais e a injustiça dos homens estão entre os grandes temas do Renascimento presentes na lírica de Camões. Ricos em antíteses e metáforas, seus sonetos estão entre as mais belas expressões literárias da língua portuguesa. A voz reflexiva que se ergue desses versos produz a elevação do espírito e o entusiasmo verbal. Esta edição traz os poemas mais representativos do acervo camoniano, comentados por dois experientes professores de Literatura.





Jorge de Lima - Poemas Negros | Alfaguara / Companhia das Letras

Esta seleção permite um olhar panorâmico sobre a diversificada obra de Jorge de Lima, poeta que percorreu de forma única os caminhos da poesia brasileira — do início parnasiano, passando pelo verso livre, as experimentações com o soneto, até a épica-lírica de Invenção de Orfeu.

O ritmo e a capacidade de evocar imagens são marcantes na obra do poeta. Mas não se pode esquecer seu profundo senso de responsabilidade humana: o olhar atento para a realidade do povo, do negro e da desigualdade social.

Outro aspecto importante é a densidade mística, resultante de uma forte religiosidade. Por trás da complexidade de seus versos, revela-se uma poesia absolutamente singular e sedutora.




Clarice Lispector, Amor, do livro Laços de Família | Editora Rocco

Laços de família, publicado pela primeira vez em 1960, e reeditado pela Rocco dentro do projeto que incluiu novo padrão gráfico e revisão da obra de Clarice pela especialista em crítica textual Marlene Gomes Mendes, é um tesouro da ourivesaria literária. São treze contos, hoje tidos como clássicos. Entre eles, os festejadíssimos "Amor", "O crime do professor de Matemática", "O búfalo" e "Feliz aniversário", adaptado para a televisão por Ziembinsky.

Neles os personagens são sempre surpreendidos por uma modalidade perturbadora do insólito, no meio da banalidade de seus cotidianos. Clarice cria situações onde uma revelação, que desconstrói e ameaça a realidade, desvela a existência e aponta para uma apreensão filosófica da vida. Em Laços de família, Clarice aprofunda sua técnica narrativa em uma abordagem quase fenomenológica.

Trata a solidão, a morte, a incomunicabilidade e os abismos da existência através da rotina de dona-de-casa ("Devaneio e embriaguez duma rapariga", "Amor", "A imitação da rosa"), do mergulho trágico em uma festa familiar nos 89 anos da matriarca ("Feliz aniversário"), da domesticação da natureza mais selvagem das mulheres ("Preciosidade", "O búfalo"), ou dos pequenos crimes cometidos contra a consciência, como o drama do professor de Matemática diante do abandono e da morte de um animal. São lições de vida na prosa definitiva e transcendente de uma sacerdotisa da nossa literatura.


Guimarães Rosa, A hora e a vez de Augusto Matraga, do livro Sagarana | Editora Nova Fronteira

Guimarães Rosa é, por seus experimentos lingüísticos, sua técnica e sua inventividade, o mais completo renovador de nossa ficção. segundo Alceu Amoroso Lima, trata-se de 'autor absolutamente inqualificável, a não ser nas categorias do gênio, isto é, dos grandes isolados'. Apresentando a paisagem e o homem de sua terra numa linguagem já então exclusiva, Guimarães Rosa fez de Sagarana a semente de uma obra cujo sentido e alcance ainda estão longe de ser inteiramente decifrados.

(Ps: Livro esgotado em muitos sites. De repente vale entrar em contato com a Nova Fronteira. Ah, existe uma edição de bolso deste conto publicada pela Editora Saraiva. Vale a pesquisa também!)


Monteiro Lobato, Negrinha, do livro Negrinha | Globo Livros (Na Livraria da Folha você encontra uma edição apenas com o conto)

"Negrinha" (Editora Globo), originalmente publicada em 1923, após o sucesso de "Urupês", forma um painel que coloca lado a lado a farsa e o sarcasmo, a tragédia e a compaixão, construindo alguns tipos nacionais da época, como o burguês escravocrata e o ex-escravo sofredor.

O conto, drama da filha de uma ex-escrava nas mãos da patroa, é o que dá título à obra. Os personagens das histórias formam um retrato da população brasileira do início do século 20, com os quais Lobato denuncia os bastidores de uma sociedade patriarcal.

É uma forte crítica que deixa transparecer os vestígios de uma persistente mentalidade escravocrata da sociedade, mesmo décadas após a abolição.



Osman Lins - Lisbela e o prisioneiro | Editora Planeta de Livros

Original de 1964, o livro que inspirou o filme de Guel Arraes é uma comédia com referências nordestinas.

A fidelidade de Osman Lins à busca de uma expressão própria na ficção, decorrente de uma recusa à cômoda retomada do já conquistado e de uma fé inabalável no poder criador da palavra, foi reconhecida e admirada pela crítica brasileira e estrangeira, com raras exceções. No entanto, ele é um autor ainda pouco difundido. Por isso é oportuna esta publicação de Lisbela e o Prisioneiro.

Esta obra permite ao público entrar em contato com o texto, no registro dramático, de um autor meticuloso no uso da palavra e na arquitetura da peça. Lisbela e o Prisioneiro foi sua primeira peça a ser encenada com sucesso. E com certeza, é a que até hoje teve mais alcance de público. Se muito da fama de uma peça deve ser creditado ao trabalho de direção, ao desempenho dos atores, à cenografia, ao figurino, à iluminação, ao som; outro tanto pelo menos também deve ser atribuído ao texto do dramaturgo.

(ps: em breve vai rolar resenha do Lisbela aqui no Blog <3 Nossa amiga Regiane já está com o seu exemplar em sua prateleira)




Aluísio Azevedo - O cortiço | Ateliê Editorial

No Rio de Janeiro do final do Império, o cotidiano miserável de uma habitação coletiva. Em seus cubículos amontoam-se os desfavorecidos e marginalizados da sociedade, com suas agruras e percalços na luta pela sobrevivência.

Trabalhadores modestos, imigrantes, malandros, prostitutas... Em meio a tantos personagens marcantes, o protagonista deste livro é o próprio cortiço, que parece adquirir vida própria e arrasta tudo e todos com seu ímpeto de degradação.

Se O Cortiço é dos romances mais contundentes da literatura brasileira, este volume possui atributos que o convertem na melhor edição do clássico de Aluísio Azevedo. Além de texto estabelecido conforme a última edição em vida do autor, contém iconografia histórica e notas de rodapé por Leila Guenther. O ensaio de apresentação foi escrito por Paulo Franchetti, que, revisando noções consagradas, oferece argumentos para uma nova leitura do romance.


Camilo Castelo Branco, Coração, cabeça e estômago | Martins Fontes

Neste livro, o leitor encontrará um dos momentos mais luminosos da obra do autor: uma novela satírica, na qual o que dá a solda dos vários episódios soltos e razoavelmente simples é o estilo e o jogo entre as instâncias narrativas e autorais. Por conta disso, Coração, cabeça e estômago talvez seja, dentre todos os de Camilo, o livro que reúna mais probabilidades de permanecer como referência viva para a prosa contemporânea de língua portuguesa ao longo do século que se inicia.

Sobre o autor: Um dos escritores mais lidos no Brasil durante o século XIX, Camilo Castelo Branco é uma referência importante para se compreender os rumos da ficção brasileira dos períodos romântico e realista. Foi o primeiro escritor português a viver apenas do seu ofício. Numa sociedade que não dispunha de um número expressivo de leitores, num tempo em que os direitos autorais estavam começando a ser reconhecidos, Camilo teve de escrever muito. Suas obras contam-se em centenas: foi poeta, teatrólogo, novelista, crítico literário e tradutor de grande atividade. O espantoso, no caso, não é que tenha escrito tanto, mas que tenha escrito tanto e tão bem sobre um enorme leque de assuntos, versados em vários gêneros.

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Érico Veríssimo, Caminhos Cruzados | Companhia das Letras

Neste romance, Erico Verissimo narra episódios da vida de duas dezenas de personagens na Porto Alegre da década de 1930 e tece uma crítica incisiva aos desníveis sociais e à hipocrisia moral de nossa sociedade. Com apresentação de Antonio Candido e prefácio de Moacyr Scliar.

Influenciado pela técnica de intrigas entrelaçadas e pela ausência de personagem principal da ficção de Aldous Huxley, Erico Verissimo escreveu Caminhos cruzados, tendo como cenário uma Porto Alegre onde já se confrontavam modernização e miséria, luxo e desencanto.

Sem narrar acontecimentos de vulto, o autor expõe o nervo da fragilidade humana. Sua capacidade de fabulação ainda hoje provoca impacto e lança um apelo à sensibilidade.


José de Alencar, Til | Ateliê Editorial

Til é o apelido de Berta, moça que se envolve nas mais intrincadas tramas, sempre buscando ajudar os que precisam. Capaz de enfrentar jagunços, Berta não mede esforços ao buscar a realização de seus intentos. Violências, mistérios e triângulos amorosos constituem esta história.

Além do texto fidedigno de Til, o presente volume contém o primeiro ensaio sistemático sobre o romance de José de Alencar. Nele, Ivan Teixeira desenvolve a hipótese de que, por trás de aparente ingenuidade romântica, a narrativa esconde uma densa investigação poética da existência. A obra conta ainda com notas de esclarecimento ao texto de Til, em que se discutem aspectos de construção narrativa e de sentido literário, e um extenso glossário de termos considerados estranhos ao leitor atual. As ilustrações são de Sergio Kon.


Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas | Ateliê Editorial

Publicado em 1881, “Memórias póstumas de Brás Cubas” é um dos mais famosos romances de Machado de Assis, um marco na literatura brasileira. Narrado por um defunto autor, uma voz irônica que se dirige constantemente ao leitor, a trama começa com o enterro de Brás Cubas, passa por seus delírios, volta à infância do personagem e, de forma nada linear, traz para o centro da cena vários episódios da vida desse excêntrico narrador.

Apesar desse mote fantasioso, o primeiro grande livro de Machado de Assis é um retrato realista do Segundo Reinado brasileiro. De maneira crítica e bem-humorada, o defunto conversa com o leitor para narrar casos de adultério e tramas políticas da elite do período. Além de um ensaio estimulante sobre o texto machadiano, o professor Antônio Medina Rodrigues preparou mais de 500 notas que explicam a obra e seu contexto.


Mia Couto - Terra Sonâmbula | Companhia das Letras

Primeiro romance de Mia Couto, Terra Sonâmbula é uma verdadeira aula sobre a velha arte de contar histórias. No Moçambique pós-independência, mergulhado em uma devastadora guerra civil, um velho e um menino empreendem uma viagem recheada de fantasias míticas.

Um ônibus incendiado em uma estrada poeirenta serve de abrigo ao velho Tuahir e ao menino Muidinga, em fuga da guerra civil devastadora que grassa por toda parte em Moçambique. Como se sabe, depois de dez anos de guerra anticolonial (1965-75), o país do sudeste africano viu-se às voltas com um longo e sangrento conflito interno que se estendeu de 1976 a 1992.
O veículo está cheio de corpos carbonizados. Mas há também um outro corpo à beira da estrada, junto a uma mala que abriga os 'cadernos de Kindzu', o longo diário do morto em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a viagem de Tuahir e Muidinga, e, em flashback, o percurso de Kindzu em busca dos naparamas, guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que são, aos olhos do garoto, a única esperança contra os senhores da guerra.

Terra Sonâmbula - considerado por júri especial da Feira do Livro de Zimbabwe um dos doze melhores livros africanos do século XX e agora reeditado no Brasil pela Companhia das Letras - é um romance em abismo, escrito numa prosa poética que remete a Guimarães Rosa. Couto se vale também de recursos do realismo mágico e da arte narrativa tradicional africana para compor esta bela fábula, que nos ensina que sonhar, mesmo nas condições mais adversas, é um elemento indispensável para se continuar vivendo.

outubro 28, 2016



"Ainda continuo um pouco sem jeito na minha nova função daquilo que não se pode chamar propriamente de crônica. E, além de ser neófita no assunto, também o sou em matéria de escrever para ganhar dinheiro. Já trabalhei na imprensa como profissional sem assinar. Assinando, porém, fico automaticamente mais pessoal. E sinto-me um pouco como se estivesse vendendo minha alma. Falei nisso com um amigo que me respondeu: mas escrever é um pouco vender a alma. É verdade. Mesmo quando não é por dinheiro, a gente se expõe muito. Embora uma amiga médica tenha discordado: argumentou que na sua profissão dá sua alma toda, e no entanto cobra dinheiro porque precisa viver. Vendo, pois, para vocês como o maior prazer uma certa parte da minha alma - a parte de conversa de sábado."

Escrever aos que descansam à beira da página e do sábado: entre os anos 1967 e 1973, Clarice atuou como cronista no Jornal do Brasil, onde semanalmente compartilhou textos claros como os de um diário, porém obscuros aos que esperavam de Clarice um gênero literário, e não um engenho de si mesma.

Por descobrir-se poeta, desnudar o coração era entregar-se ao mundo, e, ao mesmo tempo, vivê-lo: "Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Há o amor. Que tem de ser vivido até a última gota..." (em "Mas há a vida", p. 57). Nestas crônicas de sábado, Clarice dedicou seus versos à audácia dos primeiros encontros, assim como aos enganos de toda pequena juventude: "Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. (...) Enquanto isso, sem saber da realidade, continuava por puro instinto a flertar com os meninos que me agradavam, a pensar neles. Meu instinto precedera a minha inteligência. (...) Sofri muito..." (em: "A descoberta do mundo", p. 29). Com as dores de cada descoberta, resta-nos, tal como Lispector, atravessar o amor e recomeçar o caminho. Ou nele insistir.

O amor que a todos fere é comum ao texto de Clarice. E também o ciúme, este disfarce para o coração inconformado com a vida que não se conquistou plenamente. Em "Por causa de um bule rachado" e "Sem aviso", a desigualdade do sentimento torna-se o estopim de uma "comunicação muda" (este, também nome de crônica), onde o par predispõe-se ao desencanto, e, sem ventura alguma, às portas fechadas, ao assombro da partida: "O que nos salva da solidão é a solidão de cada um dos outros. Às vezes, o que elas comunicam silenciosamente uma à outra é o sentimento de solidão". (p. 53)

O fim de um amor pode ser o início de uma amizade, ou o seu indício. Em certas crônicas, Clarice revive alguns seus amores: Leopoldo, San Tiago, Sergio Porto e Lucio Cardoso, este último, por quem nutriu legítima admiração e pesares infinitos:

"Enquanto escrevo levanto de vez em quando os olhos e contemplo a caixinha de música antiga que Lúcio me deu de presente. (...) Tanto ouvi que a mola partiu. A caixinha de música está morta? Não. Assim como Lúcio não está morto dentro de mim." (p.92)

Tanto ouvimos que a música não terminou. Arrepia o ouvido. Como estrofe sem par ou um par sem horizonte, suspenso e frio, tão frio como a duração de um amor que não disse adeus. Neste ponto da história, Clarice enfrenta a solidão do nada, assim como o peso do infinito: "Não, não quero mais gostar de ninguém porque dói. Não suporto mais nenhuma morte de ninguém que me é caro. Meu mundo é feito de pessoas que são as minhas - e eu não posso perdê-las sem me perder." (em "As dores da sobrevivência: Sérgio Porto", p. 93). Romper o fio do mundo é um malabarismo próprio ao fim do amor, mesmo. Em dias assim, só nos resta o espanto de uma nova rima, ou os encantos de um passado e seu precipício.

Todo sentimento, porém, pode tornar-se uma espécie de amigo: "Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença". Penso neste abrir de crônicas em um sábado antigo: como fugir ao que ainda nos consome e enfrentar outras verdades? E como encontrar uma verdade que doa menos e, continuamente, escrevê-la com a intensidade de um rito? Nesta reunião de textos, Clarice demonstra todo um encanto pelo cotidiano e seus episódios (um homem e seu cachorro; um olhar, um carro novo e um galanteio; uma viagem de táxi ou um jantar; as inimizades e uma carta esquecida...), que, de tão triviais, em pouco se distanciam do sentimento amoroso: ao grudarem no olhar e na pele, os guardamos em nossa história, assim como em nosso texto, como se deles aguardássemos o próximo enredo de nossas vidas, e quem sabe esse tal amor, de novo e de novo...

"Tive um dia desses um almoço alegre e melancólico. Tratava-se do reencontro de três ex-colegas da Faculdade Nacional de Direito. (...) Reencontro alegre porque gostávamos umas das outras, porque a comida estava boa e tínhamos fome. (...) E melancólico porque nenhuma de nós terminara sendo advogada. Advogada, meu Deus. (...) Voltando ao grupo: nós nos despedimos alegres ou tristes? Não sei. Em mim havia um certo estoicismo, em relação a ter tido uma parte do meu passado tão inútil. Ora, mas quantas outras coisas inúteis eu já havia vivido. Uma vida é curta: mas, se cortarmos os seus pedaços mortos, curtíssima ela fica. (...) 
Tomei um táxi que me deixaria em casa, e refleti sem amargura: muita coisa inútil na vida da gente serve como esse táxi: para nos transportar de um ponto útil a outro. E eu nem quis conversar com o chofer." (p.129).


"Até que começou a madrugar, a quase amanhecer devagar. (...) E San Tiago descobriu nas esquinas de Paris as primeiras vendedoras de flores. Não posso dizer quantas rosas ele comprou para mim. Sei que eu andava pelas ruas sem poder carregar tantas, e à medida que eu andava as rosas caíam pelo chão. Se jamais fui bonita foi naquele amanhecer de paris, com as rosas caindo de meus braços plenos. E um homem que enfeita uma mulher não tem lucidez fria." (p.96)


Clarice lispector | Org. Pedro Vasquez
Ed. Rocco Jovens Leitores, 2010

Sinopse: Amor e amizade inspiraram Clarice Lispector dezenas de vezes. Prova disso são as quatro dezenas de textos selecionadas pelo editor Pedro Karp Vasquez para a coletânea De amor e amizade – crônicas para jovens, primeiro de uma coleção que reunirá crônicas, escolhidas por temas, de Clarice Lispector.

Sem prender-se a significados prosaicos, a escritora criou durante anos histórias que remetem a amizades daquelas sem tamanho, a amores para o resto da vida, a relacionamentos baseados na superficialidade e até mesmo ao episódio daquele amor destruído por causa de um bule de bico rachado. Passadas mais de três décadas da morte de Clarice Lispector, os textos confirmam que esses sentimentos permeiam relações e gerações.

Os textos escolhidos apresentam-se impregnados pela forma incomum com que a escritora transporta para o papel seu jeito de ver o mundo e de lidar com o amor e a amizade. Linha após linha, Clarice conduz seus leitores pela “mistura de observações das miudezas do cotidiano com vastos voos do espírito”, como define o editor no prefácio. Leitores de Clarice Lispector não tem idade, mas desta vez a seleção foi pensada para provocar uma experiência inspiradora em jovens leitores, aqueles que “estão começando a descobrir os mistérios e os prazeres do amor e da amizade”.

Histórias fictícias intercalam-se com relatos pessoais, nos quais Clarice parece prestar uma homenagem a amigos queridos. Aparecem nesses momentos, companheiros de episódios de alguma fase da vida da autora, como é o caso do matemático Leopoldo Nachbin. Clarice e Leopoldo encontraram-se no primeiro dia de aula do Grupo Escolar João Barbalho, em Recife. Durante alguns anos, os dois foram os mais impossíveis da turma, com boas notas em todas as disciplinas, exceto em comportamento.

Clarice escreve ainda sobre outro tipo de amor/amizade, aquele com toques genuínos de admiração, algo próximo ao sentimento que levou a leitora anônima a fazer um suéter especialmente para a escritora. A resposta, em tom de agradecimento, foi escrita com a delicadeza que Clarice costumava dedicar aos leitores – a quem chegava a responder cartas e a escrever crônicas baseadas em suas sugestões e seus questionamentos: “E eis-me dona de repente do suéter mais bonito que os homens da terra já criaram.”

De amor e de amizade – crônicas para jovens não se restringe, porém, somente àqueles que encontram-se com Clarice pela primeira vez, mas serve também como um “sopro de renovação e reflexão para os leitores mais maduros”, aqueles que há muito já descobriram que a vida não foi feita para ser vivida automaticamente e que tanto a amizade quanto o amor devem ser experimentados até a última gota – “sem nenhum medo”, como ressalta em determinado momento a escritora.




setembro 18, 2016

Retratos em branco e preto, a poesia que o dia não apagou: em um domingo, o fim de tarde é para o corpo um descanso, e também saudade e desconforto. Neste quase vinte de setembro, a voz de nossos autores espelha horizontes e rotinas, e anunciam primaveras. 

Uma feliz semana com os versos de Clarice, Drummond, Tom, Elis, Vinicius e Adélia!


Clarice Lispector - Atenção ao Sábado

Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.

No sábado é que as formigas subiam pela pedra.

Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho.

De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana.

Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?

No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde.

Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais.

Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã. 

Domingo de manhã também é a rosa da semana. 

Não é propriamente rosa que eu quero dizer.



Carlos Drummond de Andrade - Poema que aconteceu

Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.


Elis Regina - Domingo em Copacabana
Compositores: Paulo Peres Tito / Roberto Faissal

Copacabana cheia
Bom é domingo mesmo
Dias de sol
Vêm alegrar o nosso amor
Mar azul, onda azul
Vem beijar meus amores

Copacabana bela
Lua de luz acesa
Ando na calçada cheia
Sem pensar
Ah, Rio até sozinha
Da beleza do meu Rio

Da Tv Rio até o forte
Gente que passa sem ter norte
Copacabana
Eu vou sonhar junto de ti

Copacabana bela
Lua de luz acesa
Ando na calçada cheia
Sem pensar
Ah, Rio até sozinha
Da beleza do meu Rio

Da Tv Rio até o forte
Gente que passa sem ter norte
Copacabana
Eu vou sonhar junto de ti


Tom Jobim - Domingo azul do mar

Quando eu vi o seu olhar
Sorrindo para mim
Neste domingo
Domingo azul do mar
Eu compreendi que nada terminou

Vi então que o coração
Sabe adivinhar em tanta dor
Que havia de chegar em nosso amor
O domingo azul do mar

Nossos amigos que me encontravam
Falavam de você
O banco antigo, lugares vazios
Falavam de você

Mas agora que eu senti
Tremer a sua mão na minha mão
Eu vejo este domingo azul do mar
Refletido em seu olhar



Vinicius de Moraes - Soneto de um Domingo

Em casa há muita paz por um domingo assim.
A mulher dorme, os filhos brincam, a chuva cai...
Esqueço de quem sou para sentir-me pai
E ouço na sala, num silêncio ermo e sem fim,

Um relógio bater, e outro dentro de mim...
Olho o jardim úmido e agreste: isso distrai
Vê-lo, feroz, florir mesmo onde o sol não vai
A despeito do vento e da terra que é ruim.

Na verdade é o infinito essa casa pequena
Que me amortalha o sonho e abriga a desventura
E a mão de uma mulher fez simples, pura e amena.

Deus que és pai como eu e a estimas, porventura:
Quando for minha vez, dá-me que eu vá sem pena
Levando apenas esse pouco que não dura.



Adélia Prado - Grande desejo

Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai.
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.



setembro 12, 2016


Gosto de imaginar esta dança de pés tortos e seus ruídos. Pela cidade, pisamos em falso, e parece-me tão verdade que seja amor, porém com giz escrito (fere a lousa o traço e o eco: amor, amo, r...). Porque é do coração que pulsa o abrigo, assim como o precipício: "Através de seus graves defeitos — que um dia ela talvez pudesse mencionar sem se vangloriar — é que chegara agora a poder amar. Até aquela glorificação: ela amava o Nada. A consciência de sua permanente queda humana a levava ao amor do Nada. E aquelas quedas — como as de Cristo que várias vezes caiu ao peso da cruz — e aquelas quedas é que começavam a fazer a sua vida."

Como náufragos, teu corpo em arquipélagos pesa, assim como o meu; diante do mar, resta-nos recobrar o fôlego, e ouvir o amor em seus dias de âncora, e também embarcação.

Hoje, doze de setembro de dois mil e seis, páginas e páginas anunciaram o amor (e suas ruínas) a partir de ensaiada biografia. Talvez não nos caiba um novo comentário sobre este emaranhado das águas; no entanto, prefiro acreditar em um outro Verbo, de um prenome também Clarice: "A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Lóri está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização da Natureza. A coragem de Lóri é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir, e agir sem se conhecer exige coragem. (...) E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça, nunca poderá perder tudo isso. De algum modo obscuro seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe — sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano."

(ambas as citações entre aspas foram tiradas do livro Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres)

E por falar em Lispector, nada melhor que uma saudação a uma de suas melhores obras, e também uma pequena nota a uma publicação póstuma, organizada pela Editora Rocco, contendo um universo-sem-fim de suas histórias:


Miopia Progressiva

"Se era inteligente, não sabia. Ser ou não inteligente dependia da instabilidade dos outros. Às vezes o que ele dizia despertava de repente nos adultos um olhar satisfeito e astuto. Satisfeito, por guardarem em segredo o fato de acharem-no inteligente e não o mimarem; astuto, por participarem mais do que ele próprio daquilo que ele dissera. Assim, pois, quando era considerado inteligente, tinha ao mesmo tempo a inquieta sensação de inconsciência: alguma coisa lhe havia escapado. A chave de sua inteligência também lhe escapava. Pois às vezes, procurando imitar a si mesmo, dizia coisas que iriam certamente provocar de novo o rápido movimento no tabuleiro de damas, pois era esta a impressão de mecanismo automático que ele tinha dos membros de sua família: ao dizer alguma coisa inteligente, cada adulto olharia rapidamente o outro, com um sorriso claramente suprimido dos lábios, um sorriso apenas indicado com os olhos (...).

Às vezes, pois, ele tentava reproduzir suas próprias frases de sucesso, as que haviam provocado movimento no tabuleiro de damas. Não era propriamente para reproduzir o sucesso passado, nem propriamente para provocar o movimento mudo da família. Mas para tentar apoderar-se da chave de sua "inteligência". Na tentativa de descoberta de leis e causas, porém, falhava. E, ao repetir uma frase de sucesso, dessa vez era recebido pela distração dos outros. Com os olhos pestanejando de curiosidade, no começo de sua miopia, ele se indagava por que uma vez conseguia mover a família, e outra vez não. Sua inteligência era julgada pela falta de disciplina alheia? (...)

Mais tarde, quando substituiu a instabilidade dos outros pela própria, entrou por um estado de instabilidade consciente. Quando homem, manteve o hábito de pestanejar de repente ao próprio pensamento, ao mesmo tempo que franzia o nariz, o que deslocava os óculos - exprimindo com esse cacoete uma tentativa de substituir o julgamento alheio pelo próprio, numa tentativa de aprofundar a própria perplexidade. (...)

Uma vez ou outra, na sua extraordinária calma de óculos, acontecia dentro dele algo brilhante e um pouco convulsivo como uma inspiração. Foi, por exemplo, quando lhe disseram que daí a uma semana ele iria passar um dia inteiro na casa de uma prima. Essa prima era casada, não tinha filhos e adorava crianças. "Dia inteiro" incluía almoço, merenda, jantar, e voltar quase adormecido para casa. E quanto à prima, a prima significava amor extra, com suas inesperadas vantagens e uma incalculável pressurosidade - e tudo isso daria margem a que pedidos extraordinários fossem atendidos. Na casa dela, tudo aquilo que ele era teria por um dia inteiro um valor garantido. Ali o amor, mais facilmente estável de apenas um dia, não daria oportunidade a instabilidades de julgamento: durante um dia inteiro, ele seria julgado o mesmo menino. (...)

Aos poucos, durante a semana precedente, o círculo de possibilidades foi se alargando. E, com a capacidade que tinha de suportar a confusão - ele era minucioso e calmo em relação à confusão - terminou descobrindo que até poderia arbitrariamente decidir ser por um dia inteiro um palhaço, por exemplo. Ou que poderia passar esse dia de um modo bem triste, se assim resolvesse. O que o tranqüilizava era saber que a prima, com seu amor sem filhos e sobretudo com a falta de prática de lidar com crianças, aceitaria o modo que ele decidisse de como ela o julgaria. (...)

Lá pelas tantas, limpando os óculos, tentou, embora com certa isenção, o golpe da inteligência e fez uma observação sobre as plantas do quintal. Pois quando ele dizia alto uma observação, ele era julgado muito observador. Mas sua fria observação sobre as plantas recebeu em resposta um "pois é", entre vassouradas no chão. Então foi ao banheiro onde resolveu que, já que tudo falhara, ele iria brincar de "não ser julgado": por um dia inteiro ele não seria nada, simplesmente não seria. E abriu a porta num safanão de liberdade. (...)

Nesse dia, pois, ele conheceu uma das raras formas de estabilidade: a estabilidade do desejo irrealizável. A estabilidade do ideal inatingível. Pela primeira vez, ele, que era um ser votado à moderação, pela primeira vez sentiu-se atraído pelo imoderado: atração pelo extremo impossível. Numa palavra, pelo impossível. E pela primeira vez teve então amor pela paixão. (...) Foi apenas como se ele tivesse tirado os óculos, e a miopia mesmo é que o fizesse enxergar. Talvez tenha sido a partir de então que pegou um hábito para o resto da vida: cada vez que a confusão aumentava e ele enxergava pouco, tirava os óculos sob o pretexto de limpá-los e, sem óculos, fitava o interlocutor com uma fixidez reverberada de cego."

Fragmentos de conto de Clarice Lispector publicado em Felicidade Clandestina. RJ: Rocco, 1998.



Um salto no tempo agora: conheçam Todos os contos, uma publicação recente também da Rocco.

Sinopse: Autora de romances e contos que figuram entre os mais emblemáticos da literatura brasileira, Clarice Lispector é considerada uma das mais importantes escritoras do século XX. Nesta coletânea, que reúne pela primeira vez todos os contos da autora num único volume, organizado pelo biógrafo Benjamin Moser, é possível conhecer Clarice por inteiro, desde os primeiros escritos, ainda na adolescência, até as últimas linhas.

Todos os contos foi lançado nos Estados Unidos em 2015, figurando na lista de livros mais importantes do ano do jornal The New York Times e ganhou importantes prêmios, como o Pen Translation Prize, de melhor tradução. Agora é a vez de os leitores brasileiros (re)descobrirem por completo esta contista prolífica e singular.

Mais sobre a obra: Organizado de forma cronológica, “Todos os contos” começa com as histórias que Clarice escreveu na metade dos anos 1940, quando, depois de emigrar da Ucrânia, onde nasceu, em 1920, e passar pelo Nordeste, já estava radicada no Rio de Janeiro. É dessa época seu primeiro conto conhecido, “O triunfo”, publicado no jornal “Folha de Minas” em dezembro de 1944, já depois do impacto causado por “Perto do coração selvagem”.

A antologia reúne ainda textos dos livros “Laços de família”, “A legião estrangeira” (1964), “Felicidade clandestina” (1975), “Onde estivestes de noite” (1974), “A via crucis do corpo” (também de 1974) e “Visão do esplendor” (1975). E dois contos incompletos publicados em “A bela e a fera” (1979), dois anos depois da morte de Clarice.

junho 09, 2016


Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina 
que era a felicidade.


Das histórias que contamos nos últimos dias, faltou-nos algum relato sobre o ciúme. E pra falar das (im)possibilidades do desejo, pensei em compartilhar uma história de um amor verdadeiro, desses que arrebatam e surpreendem, justamente por se apresentar como um sentimento fora das fronteiras do coração - e também do humano.

E pra traduzir toda essa abstração e pulsar, nada como um texto de Clarice <3 Espero que curtam!

Ps: Aceitam um spoiler? Dessa vez não tem romancinho no post rs



TORTURA E GLÓRIA


Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos. Veio a ter um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de algum livrinho, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima com paisagem de Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como data natalícia e saudade.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes eram a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Bom, mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do dia seguinte ia se repetir com o coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer está precisando que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você não veio, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se formando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Esta devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não entender. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para ela não era essa descoberta. Devia ser a descoberta da filha que tinha. Com certo horror nos espiava: a potência de perversidade de sua filha desconhecida, e a menina em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar agora mesmo As reinações de Narizinho. E para mim disse tudo o que eu jamais poderia aspirar ouvir. “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse é tudo o que uma pessoa, pequena ou grande, pode querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração estarrecido, pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei mais comendo pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.


Clarice Lispector, Tortura e Glória in A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999
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