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julho 01, 2018

Olá, Leitores! Domingo, primeiro de julho, e o dia começa com a resenha da Paloma, uma de nossas amigas-colunistas que nos acompanha desde o início do Blog :) Atualmente, além de compartilhar leituras e resenhas no Instagram, a Paloma se dedica às artes digitais, e nos próximos meses publicará suas impressões criativas acompanhadas por livros igualmente inspiradores <3 Para conhecer mais o trabalho da Paloma, siga o perfil PARTES, tanto no Insta como no Tumblr.

A ilustração abaixo foi inspirada no livro Queria que você me visse, de Emery Lord, publicado pela Companhia das Letras. Espero que gostem da inspiração e da resenha! 

Até a próxima! 
Rebeca




Sinopse: Jonah Daniels vive em uma cidadezinha na Califórnia desde que nasceu. Há seis meses, com a morte de seu pai, toda a sua família teve que se adaptar: Jonah e seus cinco irmãos se tornaram responsáveis por manter a casa em ordem e cuidar do restaurante que o pai deixou. No começo do verão, porém, a vida do garoto parece prestes a seguir um novo rumo com a chegada de Vivi Alexander.

Vivi é apaixonada pela vida. Encantadora e sem papas na língua, ela se recusa a tomar um de seus remédios porque sente que ele reprime seu ímpeto de viver novas aventuras. E, ao encontrar Jonah, ela tem certeza de que está prestes a viver mais uma. Mas será que Jonah está disposto a correr os mesmos riscos que ela?



Impressões: Logo no início somos apresentados a dois mundos, que inicialmente parecem ser completamente diferentes, mas que ao longo da leitura vamos perceber que carregam dores parecidas. Em capítulos alternados, conhecemos as narrativas de Jonah e Vivi.

Jonah apresenta ao leitor seu mundo que está em completa desordem. Perder o pai alterou toda a rotina de sua enorme família. Percebemos logo de cara que ele é um rapaz fofo, destruído, que teve que crescer às pressas pra dar conta das novas responsabilidades que teve que assumir. Ou seja: não tem como odiar Jonah. 

Vivi entra nessa história de forma vibrante e cativante. Ela acabou de chegar nessa cidade (por motivos que vamos conhecer melhor ao longo da leitura), e é cheia de vida e cores, e estilo, e alegria. Vivi é apaixonante logo nas primeiras páginas. 


Apesar de serem completamente diferentes um do outro, parece que os dois se encontram num momento propicio. Jonah precisa da alegria de Vivi, e ela está muito disposta a embarcar nisso.

Nessa jornada, conhecemos os personagens secundários, mas extremamente importantes, que são os familiares de ambos. A família enorme de Jonah, e seus irmão que são incríveis, trazem ao livro algumas singularidades.

Mas apesar de ser uma história de amorzinho, ela também trás algumas dores no caminho e somos pegos de surpresa ao ter que lidar com outras perspectivas dos mesmos personagens.


Nessas perspectivas mais sombrias, a autora nos pega pela mão e aborda temas como depressão, luto e bipolaridade, abrindo diálogo para entendermos mais sobre as doenças mentais e todas essas pautas.

A autora conseguiu falar sobre isso de maneira muito informativa, deixando muitas portas abertas pra que a gente consiga entender e falar sobre o assunto.

Por fim, Queria que você me visse é uma leitura ótima pra quem procura um YA de jovenzinhos problemáticos, complicados e cativantes.

E você, já conhecia essa história? Compartilha nos com a gente suas impressões aqui nos comentários!

Um abraço,
Paloma


fevereiro 06, 2018


"A fim de reprimir a nossa impaciência, saímos da casa para dar uma volta, imaginando que o tempo iria passar mais depressa se nos afastássemos do cheiro gostoso que vinha da cozinha. Pelo que lembro, demos uma ou duas voltas em torno da casa. Talvez tenhamos começado uma conversa mais animada sobre sei lá o quê (não consigo lembrar), mas, seja lá o que tenha acontecido, e seja lá quanto tempo tenhamos ficado fora da casa, o fato é que na hora em que entramos de novo a cozinha estava cheia de fumaça. Corremos para o forno e puxamos a torta para fora, mas já era tarde demais. Nossa refeição estava morta. Tinha sido incinerada, queimada até virar uma massa carbonizada e empretecida, e não dava para salvar nem um pedacinho.

Hoje a história parece engraçada, mas na época não teve graça nenhuma."


Para que muitas coisas deem certo, é preciso que muitas deem errado. Nesta semana, comemoramos o aniversário do autor Paul Auster, que fala destes grandes imprevistos em seu livro O Caderno Vermelho. Coincidentemente, achei esse livro incrível aqui na estante, e é sobre ele que vamos conversar em nossa vídeo-resenha. Confira:


Espero que tenham gostado da sugestão de leitura!
Um beijo e até a próxima!
Mich


O Caderno Vermelho - Paul Auster 

Paul Auster, autor elogiado internacionalmente pela força imaginativa de seus romances, explora em O caderno vermelho acontecimentos do mundo "real" - grandes e pequenos, trágicos e cômicos - que revelam a natureza imprevisível e mutável da experiência humana.

Dividido em quatro partes, compostas por pequenas histórias independentes, O caderno vermelho tem no acaso seu elemento unificador. Fatos bizarros ricocheteiam em outros com precisão, mas se esquivam das expectativas do leitor: uma torta de cebola queimada, um engano ao telefone, um menino atingido por um raio, um homem que caiu de um telhado, um pedaço de papel encontrado num quarto de hotel em Paris - tudo isso compõe um jogo em que sorte, azar e coincidência são tão impressionantes que mais parecem ficção.
março 21, 2017

"As pessoas perguntam sempre por que a gente escreve e eu fico pensando em todos os motivos que levam de repente uma pessoa a escrever e penso que a raiz disso em mim está na vontade de ser amada, numa avidez pela vida. Quem sabe também se não é uma necessidade de viver o transitório com intensidade, uma força oculta que nos impele a descobrir o segredo das coisas. (...) Eu fico impressionada quando ouço pessoas que dizem sentir prazer em escrever. Para mim é sofrimento, um sofrimento de que não posso fugir, mas me amedronta. Penso que escrever serve mais para perdurar, para existir fora de nós mesmos, nos outros. (...) É por isso que penso que o que me leva a escrever é uma vontade de ultrapassar-me, ir além da mesquinha condição de finitude." (Trecho de entrevista de Hilda Hilst para O Estado de São Paulo, 1975)

No Dia da Poesia, uma das notícias que mais me chamou a atenção foi a de um lançamento da Companhia das Letras (já em pré-venda na Amazon e com um grande desconto!) com toda a obra poética de Hilda Hilst. O livro de 616 páginas reúne poemas de seus mais de vinte títulos, além de inéditos, e inclui comentários críticos de Lygia Fagundes Telles, posfácio de Victor Heringer e carta de Caio Fernando Abreu para Hilda. Um dos melhores lançamentos do ano, com toda certeza!


Outro lançamento recente, também relacionado a obra de Hilda, é o livro Numa Hora Assim Escura, publicado pela José Olympio. Resultado de anos de pesquisa, o projeto da autora Paula Dip reúne cartas de Caio Fernando Abreu enviadas a Hilda Hilst entre os anos de 1971 e 1990. O projeto gráfico da obra está lindo, e conta com diversas imagens dos poetas, assim como facsimiles das cartas datilografadas e manuscritas. Aliás, este livro também está em promo na Amazon hoje, aproveitem!

Sobre  obra: "Inéditas, algumas (cartas) ainda em envelopes selados, escritas à mão em papéis amarelados, devorados por cupins, ou datilografadas, elas estavam com o poeta baiano Antonio Nahud Júnior que, assim como Caio, viveu na companhia de Hilda na Casa do Sol, que recebeu de Hilda após uma briga com Caio, quando ela queria queimar tudo para afastá-lo de vez da sua vida. Confessional e íntimo, o conteúdo dessas correspondências revelou a grande amizade e o verdadeiro caso de amor literário entre os dois. Numa hora assim escura é uma reunião de cartas repletas de expressão e a transcrição do laço entre esses dois grandes escritores, que Paula nos apresenta com a sensibilidade de sempre."



Alguns excertos de poemas de Hilda Hilst:



II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.
Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.
Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.

 (Em: Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor)



XIII

Ávidos de ter, homens e mulheres
Caminham pelas ruas. As amigas sonâmbulas
Invadidas de um novo a mais querer
Se debruçam banais, sobre as vitrines curvas.
Uma pergunta brusca
Enquanto tu caminhas pelas ruas. Te pergunto:
E a entranha?
De ti mesma, de um poder que te foi dado
Alguma coisa mais clara se fez? Ou porque tudo se perdeu
É que procuras nas vitrines curvas, tu mesma,
Possuída de sonho, tu mesma infinita, maga,
Tua aventura de ser, tão esquecida?
Por que não tentas esse poço de dentro
O incomensurável, um passeio veemente pela vida?

Teu outro rosto. Único. Primeiro. E encantada
De ter teu rosto verdadeiro, desejarias nada.


(Em: Poemas aos homens do nosso tempo)



Sobre a autora: "Hilda Hilst (1930-2004) foi uma ficcionista, cronista, dramaturga e poeta brasileira, considerada pela crítica especializada como uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século 20.

Hilda iniciou sua produção literária em São Paulo, com o livro de poemas Presságio (1950). Em 1965, ela se muda para Campinas e inicia a construção da Casa do Sol, para ser um porto seguro de sua criação. É na Casa do Sol que Hilda dedica-se exclusivamente ao trabalho literário, realizando ali mais de 80% de sua obra. Em 1967, ela estreia na dramaturgia e em 1970, na ficção, com Fluxo floema.

Dona de uma linguagem inovadora e abrangente, Hilda produziu mais de quarenta títulos, entre poesia, teatro e ficção, e escreveu por quase 50 anos, recebendo importantes prêmios literários do Brasil. Criadora de textos em que Atemporalidade, Real e Imaginário se fundem, e os personagens mergulham no intenso questionamento dos significados, buscando compreensão e encontro do essencial, Hilda retrata sem cessar a frágil e surpreendente condição humana.

Muitos de seus livros tiveram as edições originais esgotadas. A partir dos anos 2000, a Globo Livros reeditou sua obra completa, e em 2016 os direitos de publicação passaram para a Companhia das Letras. Hilda já ganhou traduções em países como Itália, França, Portugal, Alemanha, Estados Unidos, Canadá, Argentina.

O acervo pessoal deixado pela escritora se divide, hoje, entre a Sala de Memória Casa do Sol — onde há, inclusive, produções inéditas — e o Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio da Universidade Estadual de Campinas (Cedae-Unicamp)." 

(texto retirado do site do Instituto Hilda Hilst)

março 15, 2017



Novidade para os leitores amigos do Rio de Janeiro: no dia 30 de março (quinta-feira), às 18h30, a Livraria Leonardo da Vinci, no centro da cidade, convida todos vocês para a primeira edição de seu Clube do Livro <3  Neste primeiro encontro, conversaremos sobre a obra "A Cabeça do Santo", da autora Socorro Acioli, publicada pela Companhia das Letras. Notícia incrível, não? <3

Bora então clicar no evento abaixo, confirmar sua inscrição e trocar uma ideia com a gente?
https://www.facebook.com/events/750902831735377/

Ah, as vagas são limitadas - é essencial a inscrição no formulário do link a seguir para garantir sua vaga: http://bit.ly/2n50pp2


Sobre o livro:

A cabeça do santo

Desenvolvido na oficina de Gabriel García Márquez, o romance de Socorro Acioli conta a história de um jovem que descobre possuir o fantástico dom de ouvir as preces das mulheres para santo Antônio.

Pouco antes de morrer, a mãe de Samuel lhe faz um último pedido: que ele vá encontrar a avó e o pai que nunca conheceu. Mesmo contrariado, o rapaz cumpre a promessa e faz a pé o caminho de Juazeiro do Norte até a pequena cidade de Candeia, sofrendo todas as agruras do sol impiedoso do sertão do Ceará.

Ao chegar àquela cidade quase fantasma, ele encontra abrigo num lugar curioso: a cabeça oca e gigantesca de uma estátua inacabada de santo Antônio, que jazia separada do resto do corpo. Mas as estranhezas não param aí: Samuel começa a escutar uma confusão de vozes femininas apenas quando está dentro da cabeça. Assustado, se dá conta de que aquilo são as preces que as mulheres fazem ao santo falando de amor.

Seu primeiro contato na cidade será com Francisco, um rapaz de quem logo fica amigo e que resolve ajudá-lo a explorar comercialmente o seu dom da escuta, promovendo casamentos e outras artimanhas amorosas. Antes parada no tempo, a cidade aos poucos volta à vida, à medida que vai sendo tomada por fiéis de todos os cantos, atraídos pelo poder inaudito de Samuel. Em meio a esse tumulto, ele ainda irá se apaixonar por uma voz misteriosa que se destaca entre as tantas outras que ecoam na cabeça do santo.



Sobre a autora: 

Nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista, mestre e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi bolsista da Biblioteca Internacional da Juventude de Munique e aluna de Gabriel García Márquez, ganhador do prêmio Nobel, na oficina Como Contar um Conto, em Cuba. Escreveu diversos livros, entre eles Ela tem olhos de céu (editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013.
março 13, 2017


A poesia é um lugar-comum para o amor, e também seu maior estandarte. Neste território de escrita, o amor é como um precipício; seus versos, um olhar sem esquinas, assim raso e escuro, como um amante sujeito ao verso quebrado, ao tropeço da pena. À ruptura de seu próprio destino, o poeta é também um  Kintsukuroi perfeito.

Às margens de um soneto, estrofes de coragem e confissão e pouco senso: é assim que o amor nos conduz e paralisa. Sobre o estado-de-amar, pode-se dizer que intransitivo, porém de longe um verso simples. Afinal, o que pulsa é um amor emaranhado, é um nó de letras, um longo capítulo ou um Infinito, como um poema de Vinicius, cujo primeiro salto, O caminho para a distância, foi assim descrito:

Este livro é o meu primeiro livro. Desnecessário dizer aqui o que ele significa para mim como coisa minha — creio mesmo que um prefácio não o comportaria normalmente.

São cerca de quarenta poemas intimamente ligados num só movimento, vivendo e pulsando juntos, isolando-se no ritmo e prolongando-se na continuidade, sem que nada possa contar em separado. Há um todo comum indivisível.

Seus defeitos de ideia são os meus defeitos de formação. Seus defeitos de construção são os meus defeitos de realizador. Eu o dou tal como o fiz, com todos os arranhões que lhe notei na fixação inicial, virgem de remodelações, na mesma seiva em que sempre viveu.

Ofereço-o aos meus amigos.

V.M. Rio, 1933

Por ruas e bossas, gerações e esquinas, assim foi sua trajetória. No salto de um poeta, o amor de Vinicius irrompe em palavras, esgueira-se em partituras, em partidas e páginas, e no voo de toda uma vida.

Há poucos dias, um novo olhar editorial replicou esta poesia: em uma belíssima edição da Companhia das Letras, sonetos retornam aos seus abismos, e também às suas cantigas —  como se à beira de um disparo, como se às voltas de um escape ao tiro; porque o amor é assim.


Pela luz dos olhos teus

Ilustrada pelo artista plástico carioca Filipe Jardim, esta antologia reúne 22 poemas de um dos fundadores da bossa nova. Desde seu livro de estreia, O caminho para a distância, lançado em 1933, passando por Forma e exegese (1935) e Livro de sonetos (1957), até chegar a Novos poemas II (1959), o encantamento amoroso é o tema que perpassa toda a obra de um dos nossos principais poetas líricos.

Se no poema “A mulher que passa” Vinicius pergunta: “Por que me faltas, se te procuro?”, nos versos iniciais de “Soneto do Corifeu” ele define o estado de urgência em que vivia, numa assombrosa constatação: “São demais os perigos desta vida/ Para quem tem paixão, principalmente”.


Abaixo, alguns poemas da edição:

Namorados no mirante

Rio de Janeiro
Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas súbitas estátuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
Remontavam às origens - a realidade
Neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espécie - tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas no magma incandescente
Que milênios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas galáxias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o silêncio... 


 
Soneto de inspiração

Não te amo como uma criança, nem
Como um homem e nem como um mendigo
Amo-te como se ama todo o bem
Que o grande mal da vida traz consigo.

Não é nem pela calma que me vem
De amar, nem pela glória do perigo
Que me vem de te amar, que te amo; digo
Antes que por te amar não sou ninguém.

Amo-te pelo que és, pequena e doce
Pela infinita inércia que me trouxe
A culpa é de te amar — soubesse eu ver

Através da tua carne defendida
Que sou triste demais para esta vida
E que és pura demais para sofrer.



Sobre o poeta: Nasceu em 1913, no Rio de Janeiro. Cursou a Faculdade de Direito da rua do Catete e a Universidade de Oxford, onde estudou língua e literatura inglesas. Em 1941 entrou para o Itamaraty, assumindo em 1946 seu primeiro posto diplomático, de vice-cônsul em Los Angeles. Poeta, cronista e dramaturgo, em 1953 conheceu Antonio Carlos Jobim e iniciou um apaixonado envolvimento com a música brasileira, tornando-se um de seus maiores letristas. A lista de seus parceiros musicais é vasta, incluindo, além de Tom Jobim, Baden Powell, Chico Buarque, Carlos Lyra, Edu Lobo e Toquinho, entre outros. Morreu em 1980.
janeiro 09, 2017



João Cabral de Melo Neto nasceu em Recife no dia 9 de janeiro de 1920. Seu primeiro livro, Pedra do sono, é de 1942. Nos anos seguintes, publicou obras que o consagraram como um dos maiores escritores do Brasil. Dentre os trabalhos mais conhecidos estão O cão sem plumas (1950), Morte e Vida Severina (1955) e A Educação pela Pedra (1966). O autor faleceu em 1999.

No segundo post da série Poesia no Papel, rememoramos a poesia de João Cabral de Melo Neto com uma pequena seleção de seus escritos.




IV. Discurso do Capibaribe 

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
 do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.


Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).


(Poema publicado em O cão sem plumas)



novembro 27, 2016

Domingo, dia de post e reflexões coletivas. Como nossa amiga Regiane comentou anteriormente de sua ida ao cinema para conhecer Elis - O Filme, nesta postagem, Bruno e Jonatas apresentam suas leituras mais recentes, e Rebeca apresenta suas comprinhas de Black Friday, e de algum modo se aproxima da conversa iniciada pelos guris. E de algum modo tudo saiu meio "reflexivo demais" também. Mas... a gente é assim. E não tem receios de ser assim não :) Conheçam as histórias de nossa semana:



Bruno

"Naturalmente, portanto, essa gente fala "dos bons tempos que hão de vir", do "paraíso futuro", da "humanidade liberta das grilhetas do vício e da virtude", e assim por diante. (...)  Também às massas que aplaudem eles falam da felicidade futura e do gênero humano por fim libertado. Mas nas suas bocas (...) estas frases felizes têm um significado medonho. Eles não têm ilusões, são demasiado intelectuais para pensar que neste mundo o homem se possa libertar completamente do pecado original e da luta pela vida. O que eles querem é a morte. Quando falam no gênero humano por fim livre, querem dizer com isso que a humanidade se suicidará. Quando falam em paraíso sem certo nem errado, querem dizer o túmulo. Têm apenas dois objetivos: primeiro, destruir a humanidade; depois, destruírem-se a si próprios." (G..K Chesterton) 

Poderia falar da ida ao Maracanã nesse fim de semana, ver o meu time voltar ao lugar que nunca deveria ter saído, entretanto, depois de postar sobre UFC e Turf, vou quebrar minha sequência esportiva e ao ar livre para falar de uma leitura muito satisfatória que comecei esse fim de semana, e provavelmente terminarei até segunda, pois trata-se de um livro muito curto.

Estou falando de The Man Who Was Thursday de G.K Chesterton, de apenas 120 páginas e que trata com humor e muita criatividade em uma leitura leve de uma história que tem como tema a Anarquia. Estamos falando de um livro que completará 100 anos em 2018, mas tão popular e atual como o tema são os "inocentes" anarquistas do dia-a-dia que nem sabem bem o que estão fazendo e convivem entre nós. Não mudou nada em 100 anos... digo, agora eles usam Iphone.

A propósito: “Viva Cuba livre!"

*

"(...) - Que quer dizer com isso? Eles não podem dominar assim o Mundo. Há certamente muitos trabalhadores que não são anarquistas, e se assim não fosse, certamente simples multidões não poderiam vencer a polícia e os exércitos modernos!

- Simples multidões! - repetiu, trocista, o seu novo amigo. - Com que então você fala de massas e de classes operárias, como se fosse disso que se tratasse. Você tem essa ideia fixa e idiota que a anarquia virá dos pobres. Porquê? Os pobres têm sido rebeldes, mas nunca foram anarquistas, têm mais interesse do que quaisquer outros na existência de Governos decentes. Quem está verdadeiramente ligado à pátria é o homem pobre; o rico não, esse pode partir no seu iate para a Nova Guiné. Os  pobres às vezes repontam por serem mal governados, os ricos têm repontado sempre contra qualquer forma de Governo. Os aristocratas foram sempre anarquistas, tem como exemplo as guerras dos barões."
(G.K Chesterton)


Jonatas

O Livro do Cemitério, Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, Os Pássaros, A História Sem Fim, Coração das Trevas, e agora, prosseguindo uma das minhas melhores sequências de leitura até hoje, O Pavilhão Dourado, do autor japonês Yukio Mishima, publicado pela editora Companhia das Letras. Não lhes posso dar-lhes muitas informações, pois pouco li, mas acentuo que a lentidão é justa pela delicadeza com que Mishima conduz a narrativa. Não consigo ler nenhum parágrafo apenas uma vez.

O Pavilhão Dourado é a história de um filho de monge, gago, orgulhoso, que relata sua dificuldade em comunicar-se com o mundo inacessível. Sente-se feito pássaro preso no próprio interior viscoso, e traduz seus sentimentos, muitas vezes hostis, igual a um amante confesso ante ao menor gesto da pessoa amada. A ambígua relação de amor e ódio com o mundo é irresistível. O Pavilhão Dourado, local sagrado sobre o qual seu pai sempre falava, torna-se a representação da máxima beleza, espécie de mito pessoal de Mizogushi. Sendo orientado pela visão do Pavilhão Dourado, residência, símbolo e essência da beleza imutável, o jovem atravessa os conflitos naturais da alma humana.

"Tenho certeza de que nesse momento uma clara consciência despertava em mim: a consciência de que eu me encontrava em um mundo envolto em trevas, com ambos os braços abertos em expectativa; de que, com o tempo, as flores de maio, o uniforme, os colegas de classe maldosos, todos viriam ter em meus braços estendidos; de que eu sustentava o mundo, sofreando-o pelas bases. Porém, essa espécie de consciência era por demais opressiva para um adolescente como eu para constituir motivo de orgulho.

O orgulho deveria ser algo mais leve, mais luminoso, fisicamente visível, mais resplandecente. Algo visível –– eis o que eu queria. Algo que todos pudessem ver e que me fosse de fato motivo de orgulho, como, por exemplo, o espadim que ele trazia à cintura." 




Rebeca 


Seria quase impossível riscar novembro do calendário e não comentar qualquer coisa sobre a Black Friday. E sim, como estamos em nosso post de domingo, onde nos permitimos falar de um universo não apenas literário, compartilho com vocês algumas comprinhas realizadas no próprio dia 25 em um shopping do Rio, e um segundo assunto também, logo em seguida.

Eu que pouco adiciono cores ao guarda-roupa (saudações, cinza branco e preto!), dificilmente penso em colorir olhos e face em tons de veraneio. No entanto, "me encontrei" neste novo universo do cobre e do coral disponível na linha Intense do Boticário, assim como em diversos produtos Color Mania da Maybelline. Gestalt aguçada pelo vermelho, comprei algumas coisinhas então: esmalte, batom, pó e gloss. Gostei das texturas, das embalagens, e claro, do preço - neste clima promocional, o mais caro foi o pó, que custou 19.90. Valeu a pena!

*

Também na sexta-feira, uma postagem no Instagram me chamou a atenção. Sem nomear instituições, claro, porém, o exemplo descreverei: junto a imagem de um post, uma densa legenda a respeito da febre do consumo e da desordem que a mercadoria pode causar no emocional da pessoa (especialmente a mulher) brasileira. Confesso que ao ler este "alerta" no Instagram me senti em um banco de universidade lá nos anos 2000 - ou seja, a Academia de Humanas permanece a mesma pelo visto.

Só que o post era de uma empresa. E de uma "empresa que vende produtos". E que por sua atividade é formada por todo um time operacional de vendedores, caixas, tios da limpeza e demais trabalhadores cuja sobrevivência depende desta engrenagem de vendas. Apesar disso, a equipe de Marketing preferiu compartilhar um pequeno tratado sobre a febre do consumo e em 140 caracteres imputar suas bandeiras políticas. Pois bem, vamos às possíveis reflexões a partir deste exemplo:

Ponto 1: Sim, é claro que há práticas de trabalho desumanas, tanto na China, no Brás, como nas inúmeras Zaras do ocidente. Daí a possibilidade (pra não dizer obrigação) de incentivar e consumir o trabalho desenvolvido pelos empreendedores locais, e não o das "grandes corporações", se isto nos fere profunda e ideologicamente. Aliás, se não me engano, antes de inventarem a tal Sustentabilidade, este sentimento de fortalecimento da vida e economia locais chamava-se Senso de Comunidade. Talvez nossos pais ou até muitos de nós se lembrem ainda disso...

Ponto 2: Queria entender quando foi que o homem passou a ser (convencido de que é) tão vulnerável, e tão suscetível aos "apelos do mundo"... Assim: desde quando passou a ser tão impossível entendermos nossa própria realidade e desejos? (por ora, não mencionemos o desejo sexual-amoroso; acho que não cabe neste momento da conversa) Afinal, a realidade construída pelo ser humano é desigual, assim como o próprio ser humano, que sempre foi e sempre será esta balança que pende ou para a aptidão ou para a fraqueza, ou para a coragem e a covardia, ou ainda a obsessão e a apatia, sem falar do senso de justiça ou a sociopatia. Enfim, tudo isso são fatos, não sentimentos, a espécie humana é assim, por mais dolorosa que seja a constatação de tudo isso.

Ponto 3: "Ah, mas eu penso na ofensa que é este consumo desenfreado para as pessoas que não podem sequer comprar um pão...". Sim, não digo que seja fácil conviver em uma realidade social que a cada momento desafia nossas próprias forças, sustento e estima; porém, concordo com as citações do Bruno: se vivêssemos o Fazer o Bem em uma escala ao alcance de nossas mãos, ao invés de depender de uma (i)lógica Governamental, acredito que o mundo-perto-da-gente poderia ser menos medíocre. Por exemplo: por que ao pensarmos em Solidariedade sempre lembramos das "Ongs sem fronteiras" ou dos paliativos assistenciais de nossas prefeituras e demais instâncias de governo? Por que não podemos cada um de nós estender uma ajuda a uma vizinha que perdeu o marido, ou ao senhorzinho que ainda não se recuperou do incêndio de sua casa, ou ainda apoiar a causa dos que coletam roupas e mantimentos para o auxílio das famílias carentes de nosso próprio bairro? São tantos os exemplos... 

Enfim... muito poderia ser dito, mas não em um (textão de) fim de domingo. 

E... o que nos resta em meio a tudo isso? Olha, apenas torcer pra que o coração da gente consiga ser um pouquinho melhor a cada dia. Porque o dos Grandes Irmãos será sempre mesquinho mesmo...



outubro 22, 2016

Um dia pra lembrar do que ficou, uma semana pra contar o que não se esquece. Estranheza é medir assim o tempo; pior é abafar a vida. Talvez o texto não traduza o melhor de nossa experiência, porém, sem ele, muito do que viveríamos simplesmente desapareceria. Em momentos assim, melhor não descartar a sensação de que poderíamos ter contado um pouco mais, assim como a de que o que importa mesmo é não ter vivido menos.

Uma semana e(m) um dia é um projeto de postagem coletiva, a ser realizado semanalmente (assim desejamos) por todos os colaboradores do Blog Papel Papel. Este formato de post é inspirado em algumas páginas que seguimos, especialmente a da querida Val do blog Uma Pedra no Caminho e suas postagens "Resumo da Semana". Afinal, nem só de literatura vivemos, e há um tanto de assuntos que também gostaríamos de conversar com vocês. Só falta começar, né? :) 


Semana de 15/10 a 22/10



Bruno

Esta semana, apesar de muito trabalho, consegui ler Nostromo, romance de um dos meus escritores favoritos, Joseph Conrad, que sempre me surpreende positivamente na escolha das palavras, cada linha traz uma riqueza única. Os clássicos russos talvez também tenham essa característica, mas não vou entrar em detalhes para isso aqui não virar uma resenha. Selecionei dois trechos que exemplificam bem Conrad e sua habilidade poética mesmo após tradução: o primeiro de Lord Jim e o segundo de Nostromo.

"O homem que nasce cai num sonho, como o homem que cai no mar. Se tenta elevar-se no ar, como as pessoas inexperientes tentam fazer, afoga-se – nicht wahr?… Não! Eu lhe digo! O jeito é o elemento destrutivo se submeter, e com os movimentos dos pés e das mãos na água fazer o mar profundo mantê-lo à tona.”

"A ação é um mero consolo. É a inimiga do pensamento e a amiga das ilusões aduladoras"

Em formato pocket, Nostromo pode ser encontrado em edição da Companhia das Letras e Lord Jim pela Martin Claret.



Jonatas

Essa semana foi bem esquisita. Quinta-feira estava sozinho em casa, quando, de repente, ouvi um estalo baixo na minha janela. Parecia o som de pequenas pedras se chocando no vidro. Olhei para trás. Não havia nada. Depois de cinco minutos o som voltou, repetitivo e incômodo. Virei a cabeça rápido para que não escapasse. Era um pombo tentando entrar desesperadamente. Corri para espantá-lo pensando sobre o que minha mãe sempre me falou sobre as doenças que essas aves transmitem. Mas antes que abrisse a janela, ele fugiu. Então encontrei algo estranho encostado no basculante. Um pacote negro com uma caveira branca impressa e a inscrição “Darkside”. Jeito estranho dessa editora mandar livros pra gente, pensei. Abri. Dentro estava um livro. O lançamento Os Pássaros, escrito por Frank Baker. Capa dura, arte gráfica impecável, lombada de página negra, marcador de página em tecido e uma pena... Saibam que li as primeiras páginas no mesmo instante e garanto que os amantes de literatura pós-apocalíptica irão gostar. Muito.

Aqueles que desejarem saber acerca da minha experiência de leitura, na próxima semana publicarei uma resenha no Nerdgeek Feelings.



Rebeca

 

Dá um certo arrepio na espinha lembrar que tal banda ou filme ou disco comemoram vinte anos agora em 2016. Primeiro, porque eu com certeza desconheço todas as músicas lançadas neste ano, mas lembro perfeitamente do cenário cultural lá dos mil novecentos e noventa. Sim, aqui no Papel Papel estamos todos nesta fase nostálgica pra lá dos muitos 20, e entendendo que a vida é mesmo esta coleção de memórias e rugas, assim como bolhas nos pés de ter caminhado tanto por aí. 

Há uma semana, ganhei ingresso para o show de uma banda que nunca imaginei assistir. No último 15 de outubro, a banda mineira Skank passou aqui pelo Rio para realizar um show comemorativo dos vinte anos do disco Samba Poconé, que inundou os ouvidos de toda uma geração com o pegajoso hit Garota Nacional. Apesar dos pesares desta música (e de ter começado com 1h de atraso), o show foi realmente bom demais! E a sensação de gostar de uma banda ou filme ou disco assim de forma tão inesperada (okay, eu já curtia uma ou outra baladinha da banda, mas, para um show de 2h, confesso que fiquei meio perdida; não sabia cantar muita coisa) é algo a se guardar na memória. E quem sabe curtir um outro show deles.



Regiane

Essa semana realizei um sonho antigo (cof cof nem tão antigo, sabe como é, né): adquiri o box com as seis temporadas de Dawson's Creek, seriado idealizado por Kevin Williamson (diretor de clássicos como Pânico e Eu sei o que vocês fizeram no verão passado) e produzido/exibido entre 1998 e 2003. A história de Dawson, jovem idealista que sonha em ser o novo Spielberg, emocionou toda uma geração ao abordar os temas mais complexos e sinistros da passagem da adolescência para a vida adulta, sendo pioneiro ao explorar de maneira delicada, mas profunda, temáticas que até então em outros seriados, eram abordadas de maneira superficial. Observar o crescimento de Dawson, Joey, Pacey e Jen definitivamente ajudou a minha geração a entender um pouco melhor o que acontecia conosco, nossa dualidade e nossos receios, e mostrou que a jornada pode não ser tão favorável ou tranquila, mas se você não perde sua essência no caminho, seus sonhos podem vir a se tornar realidade. É, eu me empolgo sim com essa série que na minha opinião, ainda é a melhor do seu gênero e poder reviver essa história está sendo delicioso. A garota de 16 anos que vive em mim, ainda se emociona ao ver a abertura com os quatro jovens andando na praia e eu espero que permaneça assim, me emocionando com algo tão simples, até quando eu tiver 80 aninhos.

maio 15, 2016


Minha vida está nos meus versos.
 
Terra
Um poço de memórias, estanques como um texto, que por vezes poesia: nesta procura por águas, o corpo torna-se áspero, sedento como um solo ou um desejo. Ao distanciar-se da foz, perde-se pela cidade, que hoje não mais lembrança, apenas ruína.

Homem
Pouca luz à pena, um desenho à escrivaninha. Em um naufrágio de orações, o homem canta sua herança, e diz: outrora em passaporte, em cicatriz rabisco meus passos hoje, que ainda revoltos, seja num verso ou em paralisia.

Sangue
Fere o mundo aquilo que do coração esqueces, e diz: do mal não afastes os teus pés, e dos umbrais apagues tuas origens.

Silêncio
E deixou-se fotografar. Tênue e fugaz, como névoa do chá e do tabaco, e também dos corpos, que apagam-se em texto e restituem-se em memória, nesta condição de homem que atravessa mares e terras, e por vezes deixa-se por eles naufragar.


Lembro das sabatinas nos jornais de 2011 quando do anúncio da publicação de uma autora polonesa, conhecida no Brasil por seu Nobel em 1996, e por alguns poucos escritos de nossas universidades. Em edição da Companhia das Letras (hoje, em 4ª reimpressão), a coletânea de poemas de Wislawa Szymborska era ao mesmo tempo descoberta e velho debate: seria a poesia ainda um retrato de um mundo sujeito aos homens e à guerra? Muitas as questões e interlocuções da época, que por escolha não trazemos ao blog, mas que de algum modo rememoramos hoje, nesta conversa sobre a memória e nossa origem, e também sobre a herança que nos ombros carregamos, e por vezes esquecemos.

Nesta postagem então, alguns poemas da autora, e um texto do jornalista Victor Grinbaum, de biografia também polonesa, que compartilha hoje uma reflexão sobre a memória e o holocausto, e suas reminiscências.


Sinopse: Wislawa Szymborska viveu desde menina em Cracóvia, cidade situada às margens do Vístula, no sul da Polônia. O fato de ter permanecido a vida inteira no mesmo lugar diz muito sobre essa poeta conhecida por sua reserva e extrema timidez. Contudo, embora os fatos de sua vida tenham permanecido privados, quase secretos, seus poemas viajam pelo mundo. Não são tantos: sua obra inteira consiste em cerca de 250 poemas cuja função, como declarou a poeta no discurso de Oslo, é perguntar, buscar o sentido das coisas.

Com sua poesia indagadora, Szymborska foi chamada “poeta filosófica”, ou “poeta da consciência do ser”. No Brasil, teve poemas esparsos publicados em jornais e revistas ao longo dos anos, mas esta edição da Companhia das Letras, com seleção, introdução e tradução de Regina Przybycien, é a primeira oportunidade que tem o leitor brasileiro de lê-la em português. A coletânea de 44 poemas é uma belíssima apresentação à obra dessa importante poeta contemporânea.

Poemas, de Wislawa Szymborska. Tradução de Regina Przybycien. SP: Companhia das Letras, 2011. 

 

A curta vida de nossos antepassados
Wislawa Szymborska

Não eram muitos os que passavam dos trinta.
A velhice era privilégio das pedras e das árvores.
A infância durava tanto quanto a dos filhotes dos lobos.
Era preciso se apressar, dar conta da vida
antes que o sol se pusesse,
antes que a primeira neve caísse.

Meninas de treze anos gerando filhos,
meninos de quatro rastreando ninhos de pássaros na moita,
jovens de vinte servindo de guias nas caçadas -
ainda há pouco não existiam, já não existem.
Os fins da infinitude rápido se juntavam.
As bruxas ruminavam maldições
ainda com todos os dentes da mocidade.
Sob os olhos do pai o filho se tornava homem.
Sob as órbitas do avô nascia o neto.

De todo modo, não contavam os anos.
Contavam as redes, os tachos, os ranchos, os machados.
O tempo, tão generoso para qualquer estrela do céu,
estendia-lhes a mão quase vazia
e a retirava rápido, como se tivesse pena.
Mais um passo, mais dois
ao longo de um rio brilhante,
que da treva emerge e na treva some.

Não havia nem um instante a perder,
perguntas a postergar e iluminações tardias
a não ser as que tivessem sido antes experimentadas.
A sabedoria não podia esperar os cabelos brancos.
Tinha que ver claro, antes que a claridade chegasse,
e ouvir toda voz, antes que ela se propagasse.

O bem e o mal -
dele sabiam pouco, porém tudo:
quando o mal triunfa, o bem se esconde;
quando o bem aparece, o mal fica de tocaia.
Nem um nem outro se pode vencer
nem colocar a uma distância sem volta.
Por isso se há alegria, é com um misto de aflição,
se há desespero, nunca é sem um fio de esperança.
A vida, mesmo se longa, será sempre curta.
Curta demais para se acrescentar algo.




A Primeira Fotografia 
Um texto de Victor Grinbaum

"Este é meu trisavô, Moshe Lewartovsky, na única fotografia que tirou em toda sua vida, na cidade de Łódź, Polônia, no ano de 1936.

O original deste retrato pertence ao meu tio. É um pequeno cartão, de uns 10 x 6 cm, em tom de sépia, muito danificado pelo tempo. Esta é uma ampliação posterior e retocada que está na sala da casa do meu pai. A foto original foi enviada para sua filha, minha bisavó Nechema (a quem cheguei a conhecer), às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Minha bisavó havia emigrado anos antes para o Brasil, já casada com meu bisavô Zelik, e havia lhe escrito uma carta onde expressava sua preocupação com o restante da família.

Moshe era um talmudista. Vivia para o estudo e enxergava o mundo à sua volta pelas lentes da religião. Para ele, Hashem estava zelando por Seu povo e nada de mais grave poderia lhes acontecer. Mas ele jamais escreveu tais palavras. Ao invés disso, ele apanhou um de seus grossos volumes do Talmude Babilônico e se dirigiu a um estúdio fotográfico qualquer. Naquele dia ele consentiu que se batesse a única foto de sua vida. Para judeus religiosos como ele, uma fotografia poderia acabar por se transformar em objeto de culto, contrariando o mandamento de não adorar nenhum ídolo. Mas naquele dia ele rompeu com suas crenças e se fez retratar com o volume do Talmude aberto e seu braço apoiado sobre suas páginas. Com a outra mão, ele apontou para a própria testa. E fitou as lentes da câmera.

A fotografia acabou por se tornar mais eloquente do que qualquer carta. E o recado do pai chegou à filha exilada nos trópicos: havia que se confiar em Deus acima de tudo. Mas ainda que Ele não o protegesse, sua memória sobreviveria nas mentes de seus descendentes salvos.

Três anos depois, a Polônia foi invadida pelas tropas de Hitler. Moshe Lewartovsky foi assassinado junto com sua esposa, filhos, netos, irmãos, sobrinhos e primos, logo nos primeiros dias de ocupação. Nunca se soube ao certo de que forma foram mortos e que destino tiveram seus corpos. Um único membro dos Lewartovsky, um sobrinho de Moshe, sobreviveu ao Holocausto e se estabeleceu na Bélgica após o fim da Guerra. Esteve uma única vez no Brasil, nos anos 60, para conhecer o outro pedaço sobrevivente da família. Hospedou-se em casa dos meus avós. Pouco tempo depois, minha tia, em lua de mel pela Europa, retribuiu a visita em Bruxelas. Por alguma razão desconhecida, ela acabou sendo mal recebida e desde então nunca mais houve contato entre os primos. Seus descendentes vivem hoje em Israel.

Hoje rendemos homenagens a cerca de seis milhões de homens, mulheres e crianças judeus que morreram como meu trisavô, entre os anos de 1939 e 1945. Que o seu sacrifício não tenha sido em vão."

(Victor Grinbaum é jornalista e escritor e mora no Rio de Janeiro)


Retrato de Mulher
Wislawa Szymborska

Deve ser para todos os gostos,
Mudar só para que nada mude.
É fácil, impossível, difícil, vale tentar.
Seus olhos são, se preciso, ora azuis, ora cinzentos,
negros, alegres, rasos d'água sem nenhuma razão.
Dorme com ele como a primeira que aparece, a única no mundo.

Dá-lhe quatro filhos, nenhum filho, um.
Ingênua, mas a que melhor aconselha.
Fraca, mas aguenta.
Não tem cabeça, pois vai tê-la.
Lê Jaspers e revistas de mulher.
Não entende de parafusos mas constrói uma ponte.
Jovem, como sempre jovem, ainda jovem.
Segura nas mãos um pardalzinho de asa partida
seu próprio dinheiro para uma viagem longa e longínqua
um cutelo para carne, uma compressa, um cálice de vodca.
Corre para onde, não está cansada.
Claro que não, só um pouco, muito, não importa.
Ou ela o ama ou é teimosa.
Para o bem, para o mal e para o que der e vier.