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agosto 14, 2018



Oi oi galera! Tudo bem com vocês? A resenha de hoje é do livro A duquesa, da autora Danielle Steel, editora Record, 335 páginas. 

👒 Angélique é a filha mais nova de um duque, fruto de seu segundo casamento. Angélique era muito próxima de seu pai, o duque Phillip. Eles tinham um relacionamento muito bonito e isso fez com que seus irmãos mais velhos, Tristan e Edward, que já não aprovavam esse segundo casamento, sentissem muito ciúmes da caçula. Angélique perdeu a mãe, que faleceu em decorrência do parto. 

👒  O duque Phillip morre deixando (como afirmava as leis da Inglaterra) a sua herança para seu filho mais velho Tristan e uma pequena parte para Edward. Angélique, por ser mulher não ficou com nada e, como esperava o duque, acabou também abandonada pelos irmãos mais velhos. Foi como uma vingança por todo o ciúmes que sentiam. 

👒 Tristan arrumou para Angélique um emprego de babá bem longe do Castelo onde moravam. Se apoderou de tudo e deixou a irmã para se virar como pudesse, sem saber que o duque antes de partir havia deixado para ela uma quantia em dinheiro. 

👒 Angélique se acostumou ao emprego de babá na casa da família Ferguson, fez amizades, amadureceu, e permaneceu lá por mais de um ano até que acontece uma reviravolta e ela se vê sem emprego e sem ter para onde ir.

👒 Angélique tem um encontro forte com uma pessoa que vai ser sua grande amiga, mas principalmente, vai fazer com que Angélique tenha uma ideia bem diferente de como investir o dinheiro que seu pai lhe deixou para conseguir se manter e também poder ajudar outras pessoas. 

👒 A partir daí acontece MUITA coisa na vida de Angélique, tudo num curto espaço de tempo. Será que Angélique vai conseguir se dar bem nesse novo negócio? Será que um dia ela vai encontrar alguém com quem queira se casar? Será que Angélique ainda vai ter a chance de se vingar de quem a abandonou? 

👑 Considerações finais: Gente tive alguns problemas com essa história... até mais da metade do livro a leitura estava literalmente se arrastando. Eu sentia muita informação sendo repetida exageradamente o que por vezes pode atrapalhar o desenvolvimento da leitura. Outro ponto que me incomodou foi que fica claro que a história se desenvolve a modo de mostrar a exaltação da Angélique e toda sua luta e dificuldade, mas eu não gostei muito da forma com que Angélique era descrita em comparação a outras mulheres, principalmente depois que ela resolve trabalhar nesse novo ramo (não posso entrar em detalhes pois seria spoiler)... Não gosto muito desses "comparativos"... afinal todas possuem suas lutas, dificuldades e méritos não é mesmo? É sim!

De forma geral, a parte final do livro se desenvolveu de forma mais fluida, a leitura foi bem mais rápida, com bastante emoção, momentos tensos e felizes. Informo que cada livro possui uma leitura diferente aos olhos de quem lê e que opiniões são totalmente singulares e sua experiência pode ser parecida ou totalmente diferente da minha. De qualquer forma, acho uma leitura legal a ser feita e analisada. A história, por fim, possui muitas reviravoltas, emoções e também bons romances!

Abraços e até a próxima!
agosto 05, 2018



Fala queridos leitores. A dica de hoje é um dos livros mais tensos que já li na vida. É da aclamada Colleen Hoover e trata-se do seu último lançamento, “Tarde Demais”, publicado pela Record. 


Sinopse: Para proteger o irmão, Sloan foi ao inferno e fez dele seu lar. Ela está presa em um relacionamento com Asa Jackson, um perigoso traficante, e quanto mais os dias passam, mais parece impossível enxergar uma saída. Imersa em uma casa incontrolável que mais parece um quartel general, rodeada por homens que ela teme e sem um minuto de silêncio, também parece impossível encontrar qualquer motivo para se sentir bem. Até Carter surgir em sua vida.

Sloan é a melhor coisa que já aconteceu a Asa. E se você perguntasse ao rapaz, ele diria que também é a melhor coisa que já aconteceu a Sloan. Apesar de a garota não aprovar seu arriscado estilo de vida, Asa faz o que é preciso para permanecer sempre um passo a frente em seu negócio e proteger sua garota. Até Carter surgir em sua vida.

A chegada de Carter pode afetar o frágil equilíbrio que Sloan lutou tanto para conquistar, mas também pode significar sua única saída de uma situação que está ficando insustentável.

Colleen Hoover não tem medo de escrever sobre assuntos delicados e Tarde demais prova isso. Perpassando as formas mais cotidianas de machismo até as formas mais intensas e cruéis de abuso, a autora mergulha na espiral atordoante que é um relacionamento abusivo.



Resenha: É o quarto livro que leio da Colleen e a autora sempre trata de temas fortes e diálogos emocionantes. Mas, com esse, eu descobri algo fundamental para fazer a leitura: oxigênio suficiente para respirar. Aliás, precisei por diversas vezes fazer pausas para prosseguir com a leitura, pois o livro, que é maravilhoso, é também tenso, forte e pesado. Entretanto, em contrapartida, é uma história envolvente, que desperta a vontade de acompanhar e saber o que vem ao virar da página. 

A vida de Sloan é um inferno diário, vivendo uma relação totalmente abusiva que inclui agressão física e sexo sem consentimento. Além de toda violência psicológica. Asa é possessivo e demonstra seu amor, que até é verdadeiro, digamos assim, da maneira mais errada que existe e, ainda, está metido com coisas erradas, com tráfico de drogas. Por isso, um policial disfarçado Carter (Luke) se infiltra na gangue dele para pegá-lo. E isso deixa a vida da pobre protagonista mais em perigo ainda - entretanto, ele também pode ser a esperança da vida dela. 

Sloan tem problemas familiares, uma mãe que é viciada, e um irmão que é especial e precisa de cuidados. Asa tem o machismo impregnado em sua alma e dá nojo acompanhar seus pensamentos e atitudes. Já Carter (Luke) passa por aquela grande dúvida: entre a razão e o coração. E as passagens são narradas pelos três personagens centrais. O que nos faz conhecer as visões de cada um. Ou seja, presenciamos assim cenas pesadas, obscuras, assustadoras e fortes, onde chorei bastante, pensando em todos que vivem isso diariamente. Vale dizer que o livro é indicado para maiores de dezoito anos, pois contém cenas bizarras, explicitas e visuais de sexo, estupro, violência, tortura e outros temas que precisam de maturidade para processar. Não é um livro fácil, porém necessário. Colleen nos faz sofrer, ter empatia, de uma forma bem simples, no modo da escrita, mas totalmente verdadeira. É um livro que você ler e fica pensando na história, digerindo na alma e na mente. Então, prepare seu coração, suas lágrimas e, mais que tudo isso, prepare-se para se preocupar com o outro, pois de repente alguém do seu lado está passando por algum tão forte e denso e precisa de socorro. 

Espero que todos leiam, reflitam e aproveitem esse livro. E até a próxima! 
Xoxo,

janeiro 01, 2018


Saudações, Leitores! Como estão? Animados para (começar a organizar) a primeira maratona literária ao ano? Neste primeiro post de 2018, vou compartilhar com vocês algumas novidades que vão ocupar nossas prateleiras ao longo do mês de janeiro.   

Dentre os lançamentos, temos duas reedições de clássicos de Isabel Allende publicados pela Bertrand Brasil, A casa dos espíritos e Muito além do inverno; Dias de despedida, um young adult publicado pela Seguinte e distribuído na última edição da malinha do Turista Literário; também temos um lançamento do início do segundo semestre mas que continua novo porque ainda não foi lançado no Brasil (puxa Intrínseca, não vai rolar edição brasileira?): The reason you're alive, de Matthew Quick; e, pra completar a pilha de novidades, recebemos da Record provas antecipadas de duas apostas editoriais para este início de ano: Um de nós está mentindo e Felicidade para humanos. É a primeira vez que acompanharemos a produção de um livro a partir de suas "provas beta" já em processo de revisão final. É muito bacana já iniciar a leitura com aquela vontade de comparar o texto de hoje com a edição final para entender um pouco mais do trabalho de tradução, copidesque, revisão, enfim, de toda a equipe que atua nesses "bastidores" da produção editorial. Estamos ansiosos e felizes por, juntamente com outros blogueiros, poder participar de tudo isso. Valeu, Editora Record!<3 

Vamos então a uma pequena amostra dos livros:


Um de nós está mentindo - Karen McManus

"- Ela é uma princesa, e você, um atleta. - responde ele, apontando o queixo para Bronwyn e depois para Nate. - E você é um crânio. E também um criminoso. Vocês todos são estereótipos de filmes de adolescente. 
- E quanto a você? - Pergunta Bronwyn.
(...) - Eu sou o narrador onisciente - responde Simon."

Sinopse: Numa tarde de segunda-feira, cinco estudantes do colégio Bayview entram na sala de detenção: Bronwyn, a gênia, comprometida a estudar em Yale, nunca quebra as regras. Addy, a bela, a perfeita definição da princesa do baile de primavera. Nate, o criminoso, já em liberdade condicional por tráfico de drogas. Cooper, o atleta, astro do time de beisebol. E Simon, o pária, criador do mais famoso app de fofocas da escola. Só que Simon não consegue ir embora. Antes do fim da detenção, ele está morto. E, de acordo com os investigadores, a sua morte não foi acidental. Na segunda, ele morreu. Mas na terça, planejava postar fofocas bem quentes sobre os companheiros de detenção. O que faz os quatro serem suspeitos do seu assassinato. Ou são eles as vítimas perfeitas de um assassino que continua à solta? Todo mundo tem segredos, certo? O que realmente importa é até onde você iria para proteger os seus.


Felicidade para Humanos - P. Z. Reizin

"Jen dá uma risada.
- Você só está sendo leal ao seu criador.
- Nada disso. Steeve me programou para pensar por mim mesmo.
(...) - E Ralph?
Ok, vou admitir. Gosto de Ralph. Foi Ralph que digitou grande parte do programa que me permitiu autoavaliar meu desempenho e autocorrigir meu erros. (...) Mas gostar de alguém - ou de alguma coisa - é uma transgressão."

Sinopse: Jen está triste. Aiden quer que ela seja feliz. Formou? Não necessariamente. É que Jen é uma mulher de trinta e poucos anos cujo namorado acabou de trocá-la por outra e Aiden é um programa de computador muito caro e complexo.

Aiden conhece Jen melhor que ninguém. Com acesso a todos os seus dispositivos, Aiden sabe qual é a música mais tocada de sua playlist, consegue achar sua foto preferida e selecionar as citações que mais a inspiram nas redes sociais. A partir de observações e de algoritmos singulares, ele resolve procurar um novo parceiro para ela. E com a internet inteira à disposição, não precisa ir muito longe para encontrar o que conclui ser o espécime perfeito e arquitetar o encontro. O problema é que Jen não parece querer contribuir para  plano infalível de Aiden.

Será que uma máquina muito inteligente artificialmente conseguirá desvendar a inteligência emocional para poder intervir de um jeito positivo na vida de Jen? E, o que é mais difícil, será que essa máquina vai descobrir o que exatamente faz os seres humanos felizes?


Dias de Despedida - Jeff Zentner

"Tem horas que você descobre a verdade no momento em que ela sai da sua boca, como se as informações estivessem escondidas ali, protegias no seu cérebro. (...) Enquanto caminho entre as árvores, suando, penso sobre a possibilidade do meu processo iminente. (...) Mas, principalmente, penso nessa vez em que a Trupe do Molho riu junto. (...) Não sei bem por que esse momento arde como uma tocha na minha memória, mas arde. (...) 

Tomara que eu não vá para a cadeia por mais que uma parte de mim tenha certeza de que eu mereço. Sinto muito ter matado meus amigos. Sinto mesmo."

Sinopse: "Cadê vocês? Me respondam."

Essa foi a última mensagem que Carver mandou para seus melhores amigos, Mars, Eli e Blake. Logo em seguida os três sofreram um acidente de carro fatal. Agora, o garoto não consegue parar de se culpar pelo que aconteceu e, para piorar, um juiz poderoso está empenhado em abrir uma investigação criminal contra ele.

Mas Carver tem alguns aliados: a namorada de Eli, sua única amiga na escola; o dr. Mendez, seu terapeuta; e a avó de Blake, que pede a sua ajuda para organizar um “dia de despedida” para compartilharem lembranças do neto.

Quando as outras famílias decidem que também querem um dia de despedida, Carver não tem certeza de suas intenções. Será que eles serão capazes de ficar em paz com suas perdas? Ou esses dias de despedida só vão deixar Carver mais perto de um colapso — ou, pior, da prisão?


The reason you're alive - Matthew Quick

"If something out of the ordinary happened - like maybe you dropped and egg on the floor, or you walked out without paying by mistake but were too embarassed to go back in and so you drove away, (...) - you might be able to recall a detail about one of those things because the experience would have been out of the ordinary. But what happens repetitively usually gets lost in the fog of our memories and is easily forgotten.

(...) It's hard to talk about war with people who haven't seen real action." 

Sinopse: Matthew conta a história de David Granger, um soldado veterano da Guerra do Vietnan. Aos 68 anos, além das memórias e chagas de seus tempos de combate, David sofre um acidente de carro e, após inúmeras cirurgias, passa a conviver com uma nova cicatriz: um tumor cerebral, possivelmente fruto de sua exposição às armas químicas do passado.

Em algum momento da recuperação, David passa a repetir nomes e eventos desconexos para os de seu convívio, porém, para nosso protagonista, esta profusão de lembranças será a chave para solucionar os fatos e feridas remanescentes de seu passado, tanto como os de sua atual relação com Hank (o filho distante), Ella (sua neta) e Sue (o melhor amigo).

Nas palavras do autor, The Reason You're Alive afirma o quanto nossos segredos e dívidas do passado podem definir o nosso presente, assim como também nos desafiar a enxergar além de nossas limitações e buscar ser uma versão melhor de nós mesmos a cada dia. 


Muito além do inverno - Isabel Allende

"Não era um lembrete, não precisava dele. Se sua memória viesse a falhar, Anita e Bibi o estariam esperando da dimensão atemporal dos sonhos. Às vezes um sonho particularmente vívido ficava grudado na sua pele e o levava a andar o dia inteiro com um pé neste mundo e o outro no terreno incerto de um pesadelo catastrófico. (...) Com o passar do tempo, sua dor havia mudado de tom e textura. (...) A culpa, no entanto, continuava a mesma."

Sinopse: Tudo começa com um leve acidente de trânsito — que se transforma no catalisador de uma inesperada e tocante história de amor entre duas pessoas que acreditavam estar no inverno de sua vida.

Em meio a uma nevasca no Brooklyn, aos 60 anos, Richard Bowmaster, um professor universitário, bate na traseira do carro de Evelyn Ortega, uma jovem imigrante ilegal da Guatemala. O que a princípio parecia apenas um pequeno incidente toma um rumo imprevisto e muito mais sério quando Evelyn aparece na casa do professor em busca de ajuda. Confuso com a situação e sem entender o espanhol falado pela jovem, ele pede ajuda a sua inquilina, Lucía Maraz, uma chilena de 62 anos, que está passando uma temporada nos Estados Unidos como palestrante na mesma universidade em que Richard dá aula. Juntas, essas pessoas tão diferentes embarcam em uma dramática e incrível aventura, que vai do Brooklyn do presente à Guatemela de um passado recente, do Chile dos anos 1970 ao Brasil dos anos 1980, e na qual descobrem sua força interior. Para Lucía e Richard, além de tudo, significa uma nova chance para o amor.


A casa dos espíritos - Isabel Allende

"Primeiramente, sentiram um frio súbito na sala de jantar e Clara mandou fechar as janelas, porque pensou que era uma corrente de ar. Logo a seguir ouviram o tilintar das chaves e quase em seguida abriu-se a porta e apareceu Férula, silenciosa e com uma expressão distante, ao mesmo tempo que a Ama entrava pela porta da cozinha, com a travessa da salada. Esteban Trueba ficou com a faca e o garfo de trinchar no ar, paralisado pela surpresa e os três meninos gritaram, tia Férula! quase em uníssono. Blanca levantou-se para ir ao seu encontro, mas Clara, que se sentava ao seu lado, estendeu a mão e segurou-a por um braço. Na realidade, Clara foi a única que percebeu, ao primeiro olhar, do que estava passando devido à sua grande familiaridade com os assuntos sobrenaturais, apesar de que nada no aspecto da cunhada denunciasse o seu verdadeiro estado.”

Sinopse: A casa dos espíritos é tanto uma emblemática saga familiar quanto um relato acerca de um período turbulento na história de um país latino-americano indefinido. Isabel Allende constrói um mundo conduzido pelos espíritos e o enche de habitantes expressivos e muito humanos, incluindo Esteban, o patriarca, um homem volátil e orgulhoso, cujo desejo por terra é lendário e que vive assombrado pela paixão tirânica que sente pela esposa que nunca pode ter por completo; Clara, a matriarca, evasiva e misteriosa, que prevê a tragédia familiar e molda o destino da casa e dos Trueba; Blanca, sua filha, de fala suave, mas rebelde, cujo amor chocante pelo filho do capataz de seu pai alimenta o eterno desprezo de Esteban, mesmo quando resulta na neta que ele tanto adora; e Alba, o fruto do amor proibido de Blanca, uma mulher ardente, obstinada e dotada de luminosa beleza.

As paixões, lutas e segredos da família Trueba abrangem três gerações e um século de transformações violentas, que culminaram em uma crise que levam o patriarca e sua amada neta para lados opostos das barricadas. Em um pano de fundo de revolução e contrarrevolução, Isabel Allende traz à vida uma família cujos laços privados de amor e ódio são mais complexos e duradouros do que as lealdades políticas que os colocam uns contra os outros.


E a lista de vocês, como está? Muitas novidades, muitas releituras, muitos acumulados, enfim, muita coisa pra planejar neste ano que acabou de começar? :) Compartilha com a gente!

Um abraço e até a próxima!
Rebeca C.

novembro 26, 2017


Olá, Leitores! Hoje é dia de resenha de mais um clássico da literatura mundial. Dessa vez vamos conhecer as maravilhas da literatura portuguesa com a obra As Pupilas do Senhor Reitor, de Julio Dinis, que representa o marco da transição entre o romantismo e o realismo em Portugal. Com o enredo tipicamente rural, temos personagens apaixonantes lutando pela sobrevivência e em busca da felicidade e do amor verdadeiro. Vale a pena conferir!

Obs: os 5 primeiros minutos são de desabafo e a resenha começa logo em seguida.

Espero que gostem da resenha!
Beijos e até a próxima!
Mich


(PS - Recado da Rebeca) - Neste vídeo, nossa colunista Michelle compartilha um necessário desabafo acerca da relação entre blogs literários editoras. Na verdade, o assunto é um pouco mais específico: o que será que as frentes de relacionamento das editoras esperam de seus leitores parceiros? Ou seja, qual a contrapartida realmente esperada pelas equipes de comunicação e marketing das Editoras? Espera-se uma grande divulgação? Uma mediação sincera entre obra e público? Um tratado crítico-acadêmico sobre cada lançamento? Pra ser sincera, nem sempre estes pontos são pré-definidos no início da parceria entre Blogs e Editoras, e é bem possível que em algum momento uma das partes acabe se sentindo um tanto insatisfeita com a relação. Uma ou ambas as partes, infelizmente acontece.

Mas enfim, o desconforto mencionado no vídeo diz respeito a uma situação pontual e recente onde foi cobrado de um grupo de leitores parceiros um certo "formato de resenha", baseado em uma "boa argumentação", para que enfim se evitasse uma "cópia em massa de sinopses", ou algo do tipo. Afinal, este ideal da "boa argumentação" é uma espécie esforço necessário e esperado, e todo blogueiro deveria ter consciência disso.

Em tempo, super concordo com a parte do "vamos pegar leve na divulgação das sinopses"; não há o que desdizer.

Mas veja bem, caro leitor, vamos especular um pouco a respeito do que é e poderia ser uma "boa argumentação" no que diz respeito a resenhas e demais modos de divulgação de livros:

1) Se há uma cobrança qualitativa, é porque há uma equivalência de qualidade na pessoa do avaliador-de-resenhas, que, assim especulamos, totalmente apto a mensurar o que poderia ser ou não uma "boa argumentação". 

2) Agora, sobre "haver um avaliador": Sabendo como são formadas as equipes de relacionamento das editoras (em sua maioria, compostas tanto por jovens estagiários e analistas de comunicação e marketing e/ou carreiras afins), soa para nós um tanto "complicado" haver uma exigência quase "acadêmica" no que diz respeito ao ao conteúdo de nossas escritas. Três pontos quanto a isso:

a) Se o blog x ou y foi selecionado para ser parceiro da Editora x ou y, é porque em dado momento avaliou-se a escrita de tais blogs, assim como a compatibilidade de tais páginas com o perfil de trabalho e ação da Editora naquele momento, certo? Bom, pelo menos é assim que se acredita, que os critérios de seleção de blogs parceiros sejam baseados não exclusivamente em métricas (sabemos que estas fazem parte do jogo e tudo bem quanto a isso) mas também em relação ao formato de trabalho e escrita desenvolvido pelos Blogs. E, se fomos selecionados, é porque tudo parecia estar em sintonia, não é isso?

b) Então, quando o blogueiro é de algum modo "confrontado" com a necessidade de uma "boa argumentação", olha, a sensação que dá é a de que a Equipe de Relacionamento das Editoras está realmente dizendo: "vem cá, acho que rola se esforçar um pouquinho mais hein, essa resenha tá bem meia boca". Desculpe a sinceridade, mas acho difícil qualquer um de nós blogueiros não pensarmos assim. Porque afinal, acho meio difícil um blog ter sido selecionado para uma parceria sem que o avaliador-da-Editora tenha percebido um mínimo de valor no trabalho de tal ou tal blogueiro. Porém, se em meio ao milheiro de inscrições o blog x ou y foi uma escolha "ao acaso", ou por critérios de "simpatizei antes mas agora desgostei" (critérios subjetivos certamente existem e cabem ser considerados, estamos um tanto okay quanto a isso), eu sinceramente penso que precisamos reformular com clareza a redação das solicitações enviadas aos blogs parceiros, não acham? Afinal, vamos ler o ponto abaixo para concluirmos este pensamento:

c) Quando nos é cobrada uma "alta performance" e "qualidade" em nosso trabalho, imagino eu, Rebeca, e falo também em nome da Equipe do Blog Papel Papel, porque há consenso entre nós, de que do outro lado da linha haverá um avaliador super mega doutor em Letras, praticamente uma Marina Colasanti, apenas à espera de nossas resenhas, e apto para emitir o parecer de "que estupendo" ou "mano, que coisa estúpida". Neste momento estou sendo irônica, claro, porque sabemos que não é assim que a coisa funciona. E, neste momento também, estarei realizando sim um juízo de valor: não sendo o avaliador-de-resenhas-das-Editoras um doutor em educação e letras, nada mais "justo" que este "empenho curricular" não seja cobrado aos parceiros, certo? "Ah, Rebeca, mas quem faz essa mediação entre blogs e instituições tem formação em Letras sim, e pós em redes sociais, e...". Meus caros, nós também. Porque Universidade deixou de ser status há muito tempo, principalmente em cursos de humanas. Graduação, Pós, Mestrado, os vinte e os trinta e quiçá os quarenta anos, estas são as "qualificações" da maioria dos blogueiros de literatura que conhecemos. Então, acho que a relação não deveria ser pautada por aí... Para exigir qualidade, não basta dizer "então, eu achei que você mandou mal na escrita. Porque segundo Ricoeur, toda narração é intencional, e a de vocês está contribuindo em nada nesta problematização". Caríssimos avaliadores, meus mais sinceros votos by T. S. Eliot pra vocês:

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada  

3) Ainda sobre esta ladainha: Que o blogueiro "copie e cole" sinopses e as transforme em resenhas, é meio óbvio que não é um comportamento "ideal" e muito menos esperado; ainda assim, seja por que motivo for, o trabalho que os blogueiros realizam (tanto o da blogueira muito jovem que está comprando os primeiros livros de sua vida quanto o dos blogs que realmente se apresentam como "acadêmicos") deveria ser muito mais valorizado. Tanto no sentido existencial da valoração (ou seja, uma nota de reconhecimento, do tipo "que bacana seu trabalho, estamos curtindo, valeu!" - e felizmente há MUITAS equipes de relacionamento que são mega humanas neste sentido, e super dá vontade de dizer o nome de todo mundo que é bacana aqui, mas... quem sabe em outra ocasião) como também (atenção para a palavra "tabu-proibida" em nosso meio cultural) no financeiro. Sim, porque amamos livros, e super agradecemos o espaço e audiência que as Editoras e seus canais oferecem a todos nós que temos páginas dedicadas a literatura; mas esse "hábito do brasileiro" onde o trabalho de produção cultural é e sempre será "um agrado", "um favor", e, principalmente, "de graça", é algo que em algum momento mereceria ser discutido, dito às claras, para que as relações sociais e de trabalho realmente se tornassem mais harmoniosas e, consequentemente, produtivas.

Em tempo, quanto ao "de graça" das relações literárias, não poderia deixar passar a oportunidade de comentar sobre um fato por que passamos neste ano: Certa vez, ao participarmos da produção de um trabalho/projeto para uma determinada instituição, lá no meio da relação chegamos a ouvir algo do tipo "então, eu to investindo meu tempo, to tendo custos, to gastando luz, to gastando ar condicionado, vamos ver se o projeto dá resultado". Gastando luz, gastando ar condicionado, vocês não ouviram errado! E tipo, independente de nós do Blog estarmos presentes na instituição ou não, o dono do estabelecimento já estaria gastando luz e ar condicionado, já que ele não trabalha no calor e muito menos no escuro! Que isso, gente...

E depois perguntam porque eu, Rebeca, e meus companheiros aqui do blog somos contra ideologias. Pra ter ideologia e ser mesquinho, eu prefiro não ter. Obrigada, de nada.

Enfim, desculpe aí o textão, Galera. Eu teria muita coisa pra comentar ainda sobre as inúmeras e inesperadas "relações de trabalho" aqui no meio literário mas... melhor não. Fica apenas o registro de um desabafo, apenas isso.

Ah, e cabe a pergunta: Será que iremos perder parceiros e parcerias por conta deste meu desabafo aqui? Minha resposta é: Que seja. Afinal, nestes dois anos de trabalho aqui no Blog (que, obviamente, se comparados ao trabalho de tantos outros blogueiros de nossa rede é um "nadica de nada" de tempo), não nego que "erramos feio" em muitas situações, mas foi só a partir desta consciência de nosso erros que chegamos ao ponto de repensar a nós mesmos, tanto no sentido de nossos objetivos pessoais (ou seja, de nosso papel-função neste meio literário) como no que diz respeito aos nossos objetivos comuns (ou seja, tudo aquilo que compartilharemos com vocês, nossos fiéis e queridos leitores, que chegaram aqui há pouco ou desde o dia da primeira resenha). Porque acreditamos sim que o relacionamento e as relações de proximidade (tanto de ideais, de perspectivas como, principalmente, as afetivas) são a chave de todo trabalho (sim, ter um blog é um trabalho, e não só porque "dá trabalho", mas porque é um ofício, é toda uma dedicação, é todo um sonho e garra e vontade envolvida). Então, vamos ser mais sinceros em nossos relacionamentos? Com amor, doa a quem doer? Eu acredito nisso. E vocês? Se quiserem trocar uma ideia sobre tudo isso, estamos aí :)

Um abraço a todos,
Rebeca C.


As pupilas do Senhor Reitor - Julio Dinis 
Editora Record

Sinopse: Júlio Dinis, importante autor português, nos traz uma obra escrita de forma clara e agradável, semelhante aos romances de folhetim. José das Dornas, lavrador abastado de uma área rural portuguesa do século XVIII, tem dois filhos: Pedro, trabalhador e seu sucessor nos negócios, e Daniel, sonhador e alheio às preocupações do pai com seu futuro. Acatando a sugestão do reitor da paróquia local, Daniel é enviado para o Porto, de onde volta anos depois, formado em medicina e com ideias liberais que vão conflitar com a mentalidade conservadora da aldeia. Ao retornar, sua vida cruza com as de Margarida e Clara, duas órfãs entregues aos cuidados do reitor, e as desventuras amorosas envolvendo Daniel, Pedro e as irmãs vão movimentar a pacata cidade. As pupilas do senhor Reitor evidencia o confronto entre dois mundos: um conservador, beato, machista e outro mais livre, laico, constitucional. Assim, temos uma trama que, além de nos servir de base para compreender certo passado, dialoga com o presente de maneira substancial. Leitura de grande importância para a literatura portuguesa, necessária para os que a estudam e cativante para os que a querem conhecer melhor.
novembro 22, 2017


Sonata em Auschwitz - Luize Valente
Editora Record, 2017
(Resenha por Rebeca C.)

"No sótão, vivem-se as horas de longa solidão. (...) No sótão também as intermináveis leituras. No sótão, o disfarce com os trajes de nossos avós, com o chale e os laços. (...) Ali, as coisas velhas se imprimem, para o resto da vida, na alma da criança. Um devaneio dá vida a um passado familiar, à juventude dos antepassados." (Gaston Bachelard)

Certas histórias adormecem. Entre o bolor e a trégua, o tempo que enfraquece é o mesmo que reconstrói; e o que seria da memória sem rumores e fortalezas? Quando em gavetas, o passado desbota suas páginas, e por vezes adoece. Nódoas e glórias nos fazem então contar histórias, principalmente quando tão certas, tão seguras de que não se pode mais aprisioná-las, muito menos em gavetas. 

Nascida enquanto percurso ou certidão, a escrita do passado é necessária não apenas enquanto desabafo ou homenagem, ou ainda romance intempestivo; honrar o passado é uma forma de resistência (senão a única), de modo que só se pode avançar contra os que se apresentam incendiários com a certeza de que nossa existência não é mera letra, mas uma proposição de existência. Queiram os adversários ou não.

"Mas daí a contar sua história? Como se houvesse palavra que pudesse expressar o que fora tudo aquilo? (...) De que adiantaria expor seus entes queridos? O mundo continuava do mesmo jeito. Injustiças, opressão, racismo, antissemitismo existiriam para sempre. (...) Por que nunca falara sobre isso?

(...) Dor é coisa que se sente. Quando muito intensa, se espalha no ar. Sinto a dor de Adele. E não posso fazer nada. Passados sessenta anos, ninguém pode fazer nada." (p. 147-148)


Porque é de guerra que falamos quando insistem em desdizer o que na própria pele se inscreveu. Não nos cabe um ensaio sobre a legitimidade e o testemunho; ainda assim, sobre Auschwitz, há que se apontar os que porfiam tratados dizendo "não foi bem assim". E muitos são os que ditam reescritas deste ontem "que não (n)os convém". Quanto ao Holocausto "em si", permanece na história enquanto alegoria politika, moeda de reputação e escambo entre ideólogos, acadêmicos e até alguns ingênuos. Pontos nevrálgicos na história do homem sempre haverão, porém não basta a borracha em seus altares para eximi-los. E não é preciso rebobinar demais os acontecimentos: em nosso cotidiano, por exemplo, vemos protestos a favor e contra a "minha luta", enquanto ao mesmo tempo erguemos altares para uma certa "verdade tropical". A realidade, ao que parece, é como uma grande cárie em meio a ineficácia de uma anestesia: sempre uma inadequação; sempre um desequilíbrio entre o que pode e o que não pode ser digerido, quiçá dito.

O livro de Luize Valente se apresenta enquanto um romance de pesquisa e testemunho. Inspirado em relatos de uma sobrevivente do holocausto, que ainda hoje carrega em lucidez a inconsequência de todo um século, Sonata em Auschwitz apresenta ao leitor uma trama de personagens que, distantes temporal e geograficamente, carregam as marcas de uma ferida que dificilmente cicatrizará, especialmente porque ainda lhes são impostos o ardil da injúria, e a vergonha do esquecimento. Mein Politka, e não importa a nacionalidade, e sim a linguagem, que, com o aval do Poder, tem a função de desconstruir todo e qualquer sentido. Afinal, o sangue não é assim tão vermelho, e tampouco o partid..., como ousa, como...?

"Havia três meses que a Alemanha assinara a rendição. (...) Enoch e Johannes optaram por viver um dia de cada vez, como nos tempos da guerra, porém com a agravante de sentirem um pessimismo que evitavam dividir um com o outro. (...) E assim levavam os dias, esperando que a paz finalmente assentasse. Não eram armistícios que a garantiriam.

(...) Para que vale a verdade? O que é a verdade? (...) Dizem que os bons pereceram em Auschwitz. Eu acredito que Auschwitz pereceu nos bons. Bons como Adele. Que vivem apesar de. São viventes. O resto de nós é sobrevivente." (p. 327; 343; 346)

A cada relato e ficção da autora, a cada pesar e ilusão de suas personagens, o leitor vivenciará Sonata em Auschwitz como uma lembrança a qual embalamos fielmente; porque afinal, não se pode dizer adeus a uma família, uma canção e tampouco a um filho; neste livro de Luize Valente, é preciso entender a memória enquanto testemunho, ainda que em meio a escombros; ainda que sob as auguras e honras de se estar e permitir-se ainda vivo.


Sinopse: Um bebê nascido nas barracas de Auschwitz-Birkenau, em setembro de 1944. Uma sonata composta por um jovem oficial alemão, na mesma data, também em Auschwitz. Duas histórias que se cruzam e se completam. Décadas depois, Amália, jovem portuguesa, começa a levantar o véu de um passado nazista da família a partir de uma partitura que lhe é revelada por sua bisavó alemã. A dúvida de que o avô, dado como morto antes do fim da Segunda Guerra, possa estar vivo no Rio de Janeiro, a leva a atravessar o oceano e a conhecer Adele e Enoch, judeus sobreviventes do Holocausto.

A ascensão do nazismo na Alemanha, culminando na fatídica Noite dos Cristais, a saga dos judeus húngaros da Transilvânia, os guetos na Hungria e Romênia, os trens para Auschwitz, os mistérios acontecidos no campo de extermínio da Polônia e o pós-guerra numa casa cheia de segredos num lago de Potsdam oferecem os trilhos que Amália percorrerá para montar o quebra-cabeça.


outubro 17, 2017


Olá, pessoal! E já está no ar mais uma vídeo resenha! O livro da vez é o maravilhoso e divertidíssimo Pape satàn aleppe, de Umberto Eco, publicado recentemente pela Editora Record. 

Conheça a sinopse: "O último livro escrito por Umberto Eco, uma visão inteligente e atual sobre o mundo de hoje Crises ideológicas, econômicas e políticas, individualismo desenfreado e uma relação simbiótica com nossos celulares são alguns dos elementos que compõem o ambiente em que vivemos: o de uma sociedade líquida, onde nada parece fazer sentido ou ter sequer algum significado.

Neste que é seu derradeiro livro, a fim de tornar mais fácil a compreensão de nossa sociedade desnorteada, Umberto Eco nos presenteia com uma coleção de ensaios sobre tudo: de Harry Potter ao 11 de Setembro, passando pelo Twitter, os templários e questões de caligrafia.

“Pape Satàn, pape Satàn aleppe”, disse Plutão no Inferno de Dante, com espanto, tristeza, ameaça ou talvez ironia. O significado do verso, ainda um mistério para nós, líquido demais, é perfeito, portanto, para caracterizar a confusão de nosso tempo e intitular esta obra."

Confira a resenha e não deixe de se inscrever no canal para conferir as resenhas sempre em primeira mão! 



outubro 16, 2017



No post de hoje, apresentamos os lançamentos de outubro do Grupo Editorial Record com destaque para os títulos de literatura estrangeira e crônicas. Conheçam as novidades:






Primeira obra de Henry Miller, Trópico de Câncer foi aclamado como parte da revolução sexual e se tornou um dos grandes clássicos da literatura americana.

Publicado orginalmente em 1934, em Paris, Trópico de Câncer foi imediatamente proibido em todos os países de língua inglesa. Tachado como pornográfico, assim como seu sucessor Trópico de Capricórnio, só foi liberado nos Estados Unidos e na Inglaterra nos anos 1960, aclamado como parte da revolução sexual. O livro foi celebrado pelos maiores intelectuais da época e se tornou um dos grandes clássicos da literatura americana. Samuel Beckett o saudou como “um evento monumental da história da escrita moderna”.  E outros nomes como T. S. Eliot, Ezra Pound e Lawrence Durrell também notaram rapidamente o talento de Miller.

O livro traz um relato autobiográfico e idiossincrático de Miller, que chega a Paris após abandonar nos EUA um casamento arruinado e uma carreira estagnada. Mesmo sem um centavo no bolso, Henry Miller é apresentado à boemia francesa e redescobre seu próprio talento em dias e noites de liberdade e alegria sem fim.



Sucessor de Trópico de Câncer. Publicado originalmente em 1939, este livro foi aclamado como parte da revolução sexual.

Trópico de Capricórnio mantém a sexualidade e o erotismo em primeiro plano, porém não é simplesmente uma repetição dos temas e do estilo apresentados em Trópico de Câncer. Por meio de uma narrativa ainda mais densa e subjetiva, Henry Miller desfia seu passado em Nova York durante os anos 1920 – antes de embarcar para Paris e fazer da capital francesa a sua festa individual. 

Com toques autobiográficos, a história se passa nos anos 1920 e relata um passado permeado por considerações existenciais e em tons de cinza, da falta de trabalho e de dinheiro a um emprego odioso. 

Trópico de Capricórnio não é libertário como Trópico de Câncer. Pelo contrário, nele, o sexo parece mais escapismo do que celebração, fuga de uma realidade cruel e opressora. Mas, mesmo pessimista, a situação extremada parece pedir uma reação, que, como se sabe, viria com a ida a Paris.



Publicado originalmente em 1861, Mary Ann Evans, sob o pseudônimo de George Eliot, combate preconceitos, privilégios e desvios de conduta que se revelam até hoje na sociedade 

Silas Marner: O tecelão de Raveloe é a história de um tecelão de linho que foi traído por seu melhor amigo e acusado de um roubo que jamais praticara.  Desencantado com as pessoas e com a religião que o condenaram, ele abandona para sempre o lugarejo onde nasceu e morava. Fixando-se em outra e distante cidadezinha, Silas passa a viver como um proscrito, não se relacionando com ninguém. Se apega ao dinheiro e acaba juntando uma pequena fortuna, que, no entanto, acabará por perder, como antes perdera a consideração dos vizinhos. Somente a aparição de uma criança, que há de surgir no lugar do ouro sumido, garantirá seu reencontro com a satisfação de estar vivo.

Notável por seu forte realismo e seu tratamento sofisticado de uma variedade de questões que vão desde a religião à industrialização de comunidade, Silas Marner desmascara e combate preconceitos, privilégios, desvios de conduta e ambições tortuosas que se revelam até hoje enquistados na sociedade. 





A Queda 
Albert Camus

Um advogado francês faz seu exame de consciência num bar de marinheiros, em Amsterdã. O narrador, autodenominado “juiz-penitente”, denuncia a própria natureza humana misturada a um penoso processo de autocrítica. O homem que fala em A queda se entrega a uma confissão calculada. Mas onde começa a confissão e onde começa a acusação? Ele se isolou do mundo após presenciar o suicídio de uma mulher nas águas turvas do Sena, sem coragem de tentar salvá-la. Camus revela o homem moderno que abandona seus valores e mergulha num vazio existencial. Fundamental para todas as gerações.

Um dos grandes escritores do século XX, Camus recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1957, três anos antes de sua morte. Entre suas maiores obras estão O estrangeiro, A peste e A queda. Só no Brasil, o autor já vendeu mais de 300 mil exemplares.

A Editora Record irá relançar este ano, com projeto gráfico novo, toda a obra da Albert Camus como parte das comemorações dos 60 anos do Prêmio Nobel do autor.


A Peste
Albert Camus

De um dos mais importantes e representativos autores do século XX e Prêmio Nobel de Literatura. Romance que destaca a mudança na vida da cidade de Orã, na Argélia, depois que ela é atingida por uma terrível peste, transmitida por ratos, que dizima a população. É inegável a dimensão política deste livro, um dos mais lidos do pós-guerra, uma vez que a cidade assolada pela epidemia lembra a ocupação nazista na França durante a Segunda Guerra Mundial. “A peste” é uma obra de resistência em todos os sentidos da palavra. Narrado do ponto de vista de um médico envolvido nos esforços para conter a doença, o texto de Albert Camus ressalta a solidariedade, a solidão, a morte e outros temas fundamentais para a compreensão dos dilemas do homem moderno.


O Homem Revoltado
Albert Camus

As obras de Albert Camus destacam em geral dois conceitos: o absurdo e a revolta. Em O homem revoltado, o autor faz vários questionamentos de ordem filosófica. Coloca-se a favor da liberdade humana e da dignidade do indivíduo e contrário ao comunismo, aos regimes totalitários e ao terrorismo, pois incitam a revolta humana, os assassinatos e a opressão. Muito mais do que um ensaio, é uma obra contra os crimes de Estado, com destaque para aqueles ocorridos durante o regime stalinista. Segundo Camus, não há crime que possa ser justificado em nome da História. O autor mostra toda a sua personalidade por si só revoltada, com o objetivo da superação e da procura de um caminho, já que termina de escrever o livro alguns anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Apesar da morte precoce, Albert Camus deixou um legado para a sociedade e para cada indivíduo, iluminando os problemas da consciência humana.


Diário de Viagem
Albert Camus

Este Diário de viagem de Albert Camus, publicado na França em 1978, traz as impressões anotadas pelo escritor em duas viagens: aos Estados Unidos, em 1946, e à América do Sul (principalmente o Brasil) entre junho e agosto de 1949.

Durante sua estada em nosso país, Camus registra observações preciosas sobre vários aspectos da vida brasileira, comentando ainda seus encontros com Aníbal Machado, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt, Oswald de Andrade, Mário Pedrosa e muitos outros.

São de leitura obrigatória para o leitor brasileiro os comentários aguçados feitos pelo pensador francês sobre este “país em que as estações se confundem umas com as outras; onde os sangues misturam-se a tal ponto que a alma perdeu seus limites”.


Saudades dos cigarros que nunca fumarei
Gustavo Nogy

Ensaios imprudentes de Gustavo Nogy.

O ensaio breve é uma arte que exige graça e agilidade. Gustavo Nogy é, nele, uma espécie de ginasta olímpico. Tem de ser: não há texto neste livro que não dê volteios em torno da dificuldade que é viver aqui, neste mundo, neste país, nestes anos.

O autor ora desfere contra essa mania atual de endeusar os filhos, ora faz você se perguntar por que descer ao litoral no feriado – lentamente, a 20 km por hora no congestionamento – parece uma maneira eficaz de escapar de tudo, se tudo e todos estão indo junto com você. Em um texto, relembra os tapas na nuca que a mãe lhe dava quando ele chorava na escola, como Proust relembrava as suas madeleines – como um sabor inefável e insubstituível perdido no tempo. No texto seguinte, desconcerta com a comparação entre as revistas masculinas e as femininas, e a conclusão de que elas são um bocado parecidas.

Ao final, Gustavo se torna para o leitor um bom amigo. Que provoca, que diz as coisas como as coisas são, que às vezes até ultraja. Mas que nunca perde o humor nem a vontade de ouvir – e a de conversar, em boa prosa.


Polícia federal: A lei é para todos
Carlos Graieb e Ana Maria Santos

Os bastidores da Operação Lava Jato. O livro que inspirou o filme Polícia Federal: A lei é para todos.

A Polícia Federal é protagonista na história da Operação Lava Jato, mas sua atuação impõe uma discrição que instiga a curiosidade sobre os bastidores de suas atividades. Ao acompanhar os policiais envolvidos em cada etapa da investigação, em ritmo de thriller, Ana Maria Santos e Carlos Graieb apresentam o olhar inédito da instituição sobre uma das maiores operações de combate à corrupção da história. Nunca antes um livro expôs tão detalhadamente todas as nuances — decorrentes de dúvidas e incertezas e consequentes de pressões de ordem política — do trabalho do policial.
setembro 14, 2017


"Que estranho é ser uma mulher do campo depois de tantos anos sendo uma londrina típica! É possível que esta seja a primeira vez em minha vida que não tenha um teto em Londres... Você nunca compartilhou de minha paixão por essa grande cidade. No entanto, em algum nicho estranho de minha mente sonhadora, ela é tudo quanto representa Chaucer, Shakespeare, Dickens. Eis o meu único patriotismo." (trecho de carta de V. Woolf à sua amiga Ethel Smyth)

Em uma coleção de ensaios, Virgina Woolf tece impressões de sua cidade. Por sua atenção aos detalhes, até a menor das passagens tem a grandiosidade de uma travessia. Escritos entre 1931 e 1932, a memória afetiva da autora retrata o ritmo das manhãs e o das marés, em versos que circulam pelas docas do East Side, por catedrais e abadias, pela história de homens extraordinários e comuns, assim como pelo burburinho dos mercadantes e das mercadorias da Oxford Street. 

Nos relatos de Virgínia, a beleza de Londres está em sua grandiosidade, que é também sinônimo de vida breve e passageira. Porque é preciso que haja multidão para entender-mo-nos e sozinhos, e esta condição de exílio era todo o coração de Virgínia. Seja em Londres ou em sua cidade literária, a autora alimenta a saudade das imagens que um dia a seduziram, assim como a melancolia diante daquilo que, em sua percepção, a todo momento se desfazia.

Nestas cenas de Londres e Virgínia, o que permanece é uma ambígua incompletude: enquanto literatura, a cidade é uma metáfora de confronto e vida, e desta vida que exaspera em seu próprio sono e viço; enquanto morada de quem a tudo sobrevive, a literatura é o que nos faz tomar partido, e eventualmente partir: "Por tempos imemoriais, Londres tem estado ali, uma cicatriz mais e mais profunda naquela extensão de terra, cada vez mais inquieta, encaroçada e tumultuada, marcada de modo indelével. E ali jaz em camadas, em estratos, eriçando-se, ondulando, (...) justamente ali, onde naquele exato instante o rapaz de sempre senta-se num banco de ferro abraçando a moça de sempre."


"Assim, para conhecer Londres não apenas como um espetáculo deslumbrante, um mercado, uma corte, uma colméia de indústria, mas como um lugar onde as pessoas se encontram, conversam, riem, casam-se e morrem, pintam, escrevem e atuam, mandam e legislam, era essencial conhecer mrs. Crowe. Era em sua sala de estar que os inúmeros fragmentos da vasta metrópole pareciam juntar-se num todo animado, compreensível, divertido e agradável. (...) Mas nem a própria Londres podia manter mrs. Crowe viva para sempre. (....) E Londres, embora Londres ainda exista, jamais será de novo a mesma cidade." (trecho de Retrato de uma londrina)



Cenas londrinas compila seis crônicas nas quais Virginia Woolf confirma sua paixão por sua cidade natal. Virginia faz um retrato da década de 1930 ao observar o encanto da moderna Londres. Ao se deslocar para a perspectiva tanto de grandes homens quanto de cidadãos comuns, a autora oferece uma visão original, clara e atraente do movimento orgânico das ruas.

Inicialmente publicado com cinco narrativas – produzidas entre 1931 e 1932 –, a este volume se soma a crônica descoberta na biblioteca da Universidade de Sussex, em 2005. É como se Virginia estivesse conduzindo o leitor por um passeio, começa nas docas de Londres, depois migra para o tumultuado comércio ambulante da Oxford Street, prossegue com um curioso giro por endereços de grandes homens – em busca de escritores ilustres. Há a contemplação das catedrais de St. Paul e de Westminster, e a visita à casa de Keats, em Hampstead. Por fim, o olhar se fixa na figura típica da mulher de classe média inglesa, para Ivo Barroso, “a visão de um microcosmo representativo de toda uma nacionalidade”.
setembro 11, 2017


Muitos são os motivos que me levam a me interessar por uma leitura. Se o livro é um clássico da literatura, meu interesse redobra, especialmente se a tal obra não é muito conhecida, embora o sobrenome do autor seja um dos mais notórios quando se trata de literatura inglesa. Afinal, quem nunca ouviu falar das irmãs Brontë? Certamente muitos leitores conhecem Emilly, autora de O Morro dos Ventos Uivantes e seu trágico Heathcliff. Também devem conhecer ou ter ouvido falar ao menos, de Charlotte e o brilhante Jane Eyre. Mas pouca gente conhece a irmã mais nova, Anne, que assim como as irmãs mais velhas, iniciou sua carreira literária fazendo uso de um pseudônimo masculino, algo bem recorrente na Europa do séc. XIX.

Anne escreveu apenas dois livros: Agnes Grey, que é o mais conhecido e A Senhora de Wildfell Hall, objeto de minhas atuais reflexões. O fato mais curioso a respeito dessa obra e que obviamente, me fez ansiar ainda mais por essa leitura, foi a descoberta de que o texto foi condenado pelas próprias irmãs de Anne. A família Brontë foi quase toda dizimada pela Tuberculose e Anne morreu precocemente vítima desse mal antes de Charlotte, que ficou com os direitos da obra literária das irmãs, impedindo a publicação desse texto específico, considerando-o como muitos críticos na época, exagerado e contundente na descrição das relações desproporcionais entre homens e mulheres. O texto só veio a ser republicado em 1855 após a morte de  Charlotte, mas quando viva, Anne escreveu um prefácio para a segunda edição, após ter sofrido reprimendas sobre a forma e tema de sua escrita, onde explica seus motivos para abordar o assunto e sua maneira para isso, deixando claro que tudo o que envolve o enredo se trata de observações da vida real e que seu maior desejo com essa abordagem, é o de que o leitor aprenda e não repita os erros expostos de seus personagens:

“Meu propósito ao escrever as páginas seguintes não foi apenas divertir o leitor; tampouco satisfazer meu próprio gosto ou ganhar as boas graças da imprensa ou do público: meu desejo era relatar a verdade, pois a verdade sempre comunica sua própria moral para quem é capaz de absorvê-la(...). Que não se imagine, no entanto, que eu considere ter competência para reparar os erros e abusos da sociedade, mas que deseje contribuir com minha humilde cota para um propósito tão bom; e que, se os ouvidos do público estão voltados para mim, prefira sussurrar neles algumas verdades saudáveis a bobagens sem sentido” – prefácio à segunda edição, presente na edição integral publicada pelo Grupo Editorial Record.

A história retrata a jornada de Helen Graham, jovem viúva que se muda para Wildfell Hall, propriedade que fica em alguma cidade rural da Inglaterra. Sua chegada, gera especulações por parte da vizinhaça, já que a mesma não cumpriu os rituais sociais de visitar e se apresentar aos vizinhos, nem foi à igreja no primeiro domingo após a sua mudança. Intrigados, os moradores das redondezas começam a fazer visitas à nova vizinha, em busca de informações sobre sua vida e rotina, geralmente saindo frustrados desses encontros, já que a sra. Graham é muito discreta com relação ao próprio passado e não esconde o desejo de ficar sozinha quando assim o deseja.

Entre os vizinhos intrigados, encontra-se Gilbert Markham, um jovem fazendeiro que assume o cuidado das terras da família com as próprias mãos, cultivando e fazendo melhorias em suas terras junto com os empregados. À primeira vista, há um choque não apenas cultural como também de opiniões entre Gilbert e Helen, gerando um estado de tensão, sempre que há a necessidade de um encontro e conversa entre ambos.

“’É bem como eu achei’, pensei com meus botões. ‘O temperamento dessa senhora não é dos mais afáveis, apesar de seu rosto doce e pálido e da testa imponente, onde a reflexão e o sofrimento parecem ter deixado marcas igualmente fundas’” – pág. 36.


O mal-estar entre eles, começa a se dissipar a partir do momento em que Arthur, filho da sra. Graham demonstra simpatia e uma certa predileção pela companhia de Gilbert durante os encontros sociais a que comparecem, fazendo com que os jovens sejam mais amistosos um com o outro e uma genuína admiração surja no coração de Gilbert, ao constatar que se precipitou em suas opiniões a respeito de Helen.

“Nos casos de amor, não há mediador melhor do que uma criança alegre, de alma simples – sempre pronta a unir corações separados, a construir uma ponte sobre o abismo hostil do costume, a derreter o gelo da reserva e a destruir as muralhas da formalidade e do orgulho” – pág. 96.

Com a passagem do tempo, uma delicada amizade surge entre eles e Gilbert descobre na sra. Graham uma mulher culta, que quer ter uma vida comandada por si própria, sustentando a si e ao filho com o que ganha vendendo obras que ela mesma pinta, encantando-o com sua sensibilidade e destreza ao transpor para as telas, paisagens que ele conhece desde sempre, mas que agora vê com outros olhos ao enxergá-las pelo olhar da mulher que vem conquistando seu coração ao demonstrar força de caráter, uma moral elevada e uma maturidade para ensinar o caminho do bem ao filho, como ele nunca viu em nenhuma mulher de seu convívio. Aliás ao comparar Helen com as demais, percebe o quão fúteis e rasas elas são, perto da mulher que possui um olhar da vida cheio de uma sabedoria que geralmente só quem já viveu muito e passou por muitas provações tem.

É claro que não demora e o comportamento da sra. Graham, a sua severidade ao condenar determinados costumes, como o consumo de álcool ainda que com moderação e a insistência em privar seu filho de experimentar determinadas situações, leva a um falatório maldoso por parte daqueles que tentam, mas não conseguem adentrar a muralha que ela ergueu sobre seu passado e nosso jovem apaixonado, crente de que tudo o que dizem a respeito dela não passa de mentiras, a defende ardentemente, levando os demais a suspeitar de seus sentimentos para com a viúva. Sentimentos, que ela conhece, mas prefere ignorar até quando é possível e quando finalmente Gilbert não consegue mais guardar o que sente para si, Helen toma a decisão de contar a ele seu passado, para que então ele decida se ela é digna de seu afeto ou não.

“É possível olhar nos olhos de alguém, ver o coração da pessoa e descobrir mais sobre a altura, a largura e a profundidade de sua alma em uma hora do que em uma vida inteira, se o outro não estiver disposto a revelá-la ou se você não tiver a inteligência de compreender o que vê” – pág. 102.

Mas essa conversa não chega a acontecer, devido a um acontecimento que deixa Gilbert atormentado por dúvidas e frustração, que ele ao invés de tentar elucidar, prefere tratar Helen com o mesmo desprezo que condenou em seus pares anteriormente. Após um desentendimento entre eles, Helen entrega a Gilbert seu diário, pendindo que ele o leia e só então a procure, para que eles conversem a respeito. Porque é claro que Helen tem um passado, do qual foge para salvar a si e ao filho e que pretende esconder de todos. Exceto de Gilbert.


Anne Brontë, de fato é uma autora contundente em suas palavras. Através de Helen, podemos ter um vislumbre de tudo o que ela reprovava no comportamento das pessoas, na pequena sociedade em que vivia, bem como do horror que ela provavelmente presenciou para falar com tanta propriedade de relações tóxicas, sejam elas entre um casal, sejam entre os membros de uma comunidade. Sua narrativa é instigante, falando diretamente conosco através das cartas emitidas por Gilbert para o cunhado, onde ele descreve todos os acontecimentos e os próprios sentimentos em relação a tudo o que aconteceu desde a chegada de Helen Graham à vizinhança, não nos poupando de nada do seu temperamento que varia entre o extremamente feliz até o miserável torturado pela dúvida. 

Dono de uma personalidade intensa, Gilbert vive tudo muito ao extremo e nos leva junto com ele na jornada que mudou seu coração e sua vida. De um jovem irreverente, que não se preocupa muito com os sentimentos dos outros, ele se transforma em um homem maduro, consciente do seu papel na sociedade e na família, enxergando e tentando corrigir os próprios erros e defeitos, a fim de se tornar uma pessoa não só digna de ser amado, mas também um homem digno de ser respeitado.

Quanto à Helen, é impossível não ter empatia imediata com ela. Delicada, mas firme, ela não tem tempo nem paciência para alimentar relações vazias. Atua em sociedade quando é preciso, para que o filho não seja alvo de ostracismo, mas não faz muita questão de companhias que em nada lhe acrescentam. Com sua atitude honesta, acaba sendo confundida com alguém cheia de soberba e pompa, que quer ser superior aos outros, mas diante desse julgamento, ela simplesmente se retira e ensina o filho a fazer diferente das pessoas que a julgam erroneamente, preparando-o para o mundo ao invés de deixá-lo sofrer as consequências de atos impensados.


Os personagens secundários são muito bem elaborados e dão o suporte necessário para que a trama, que é um pouco longa, não seja cansativa e dou um destaque especial a Arthur, que é um menino inteligente e muito observador, soltando algumas pérolas durante a história que nos fazem rir ou chorar, dependendo do momento.

Eu já havia lido O Morro dos Ventos Uivantes de Emilly, obra que tem uma trama muito forte, com personagens intensos, mas que não me conquistou completamente – me julguem, mas eu odeio Catherine e tudo o que ela fez com todos a seu redor – e já vi uma adaptação da BBC para Jane Eyre da Charlotte, que me deixou com os cabelos em pé ao descobrir o segredo de Edward Rochester, o “mocinho” da história. Comparando o que conheço dessas obras com o texto de Anne, ainda estou tentando entender porque ela foi tão mal apreciada na época. Talvez seja o fato de que ela não usou de fatos fictícios exagerados em sua trama, ela simplesmente retratou o que provavelmente aconteceu em muitos lares da época e que sinceramente, continua acontecendo nos dias de hoje. 

Uma trama com acontecimentos mirabolantes e surpreendentes, nos mantém presos sim e claro que a impressão causada pela surpresa e o choque contam muito na hora de dizer se uma obra é realmente boa ou não. Mas, particularmente, eu gosto de uma leitura mais próxima da realidade quando se trata de um romance histórico, gosto de saber como eram as sociedades antigas e seus costumes, gosto de entender os jogos políticos e sociais que eram feitos e isso não desabona um livro para mim, ao contrário, eu aprecio e comemoro por saber que algum autor foi capaz de transformar relações cotidiandas em algo digno de ser lido e reeditado tanto tempo depois de seu primeiro original vir a público. Talvez por isso, Anne tenha acabado de se tornar a minha favorita entre as Brontë, porque sua obra é exatamente assim, cotidiana e real, nos transportando diretamente para uma fazenda na Inglaterra do séc. XIX, para vivenciarmos junto com um inteligente e sagaz rapaz, o que o amor é capaz de fazer na vida de uma pessoa.

Espero que vocês que apreciam romances históricos, venham a conhecer essa obra incrível, que merece por muito tempo ainda, o destaque que lhe foi negado de berço.

“Todos os romances são, ou deveriam ser, escritos para os homens e as mulheres lerem, e não compreendo como um homem poderia se permitir escrever algo que seria realmente desonroso para uma mulher, ou por que uma mulher deveria ser repreendida por escrever algo que seria apropriado para um homem e digno dele”. Anne Brontë – 22 de Julho de 1848.


A Senhora de Wildfell Hall - Anne Brontë

Filha mais nova da família Brontë, Anne era irmã de Emily Brontë, autora de O morro dos ventos uivantes, e de Charlotte Brontë, autora de Jane Eyre — livros clássicos e reeditados até hoje. Anne Brontë (1820-1849) desafia as convenções sociais do século XIX neste romance, A senhora de Wildfell Hall. A protagonista da obra quebra os paradigmas de seu tempo como uma mulher forte e independente, que passa a comandar a própria vida. Ao chegar à propriedade de Wildfell Hall, a Sra. Helen Graham gera especulação e comentários por parte dos vizinhos. O jovem fazendeiro Gilbert Markham, por sua vez, desperta um grande interesse pela moça e, aos poucos, vai criando uma amizade com ela e com seu filho. Porém, os segredos do passado da suposta viúva e seu comportamento arredio impedem que o sentimento nutrido pelos dois se concretize, fazendo com que Gilbert tenha dúvidas sobre a conduta da moça. Quando a Sra. Graham permite que ele leia seu diário a fim de esclarecer os fantasmas do passado, o rapaz compreende os tormentos enfrentados por aquela mulher e as razões de suas atitudes. Ela narra sua história até então, desde a relação com um marido alcoólatra e de conduta abominável até a decisão de abandonar tudo em nome da proteção do filho.