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fevereiro 27, 2018


“Era estranho pensar nas reviravoltas que a vida de um homem podia dar”.

Alguns autores simplesmente conseguem dar um toque mágico a histórias, que a princípio parecem comuns, mais do mesmo, clichês... Porém, quando menos esperamos, somos fisgados por esses enredos que nos levam a sonhar com dias melhores, amores atemporais e uma vida simples, mas cheia de qualidade.

Nicholas Sparks é um mestre dessa arte.

Recentemente a Editora Arqueiro decidiu relançar alguns de seus títulos, enquanto aguardamos seus novos trabalhos e o mais recente relançamento é Um Homem de Sorte, escrito originalmente em 2008. O livro já teve sua adaptação cinematográfica com Zac Efron no papel principal, sendo um grande sucesso de público nos cinemas e nos conta a história de Logan Thibault, fuzileiro americano que atuou junto ao exército dos Estados Unidos no Iraque. 

Enquanto se preparava para mais uma de suas missões, Logan encontra uma foto enterrada no chão durante uma corrida, onde é possível ver uma linda e jovem mulher sorrindo. Inicialmente pensa em jogar a foto fora, mas pensando que talvez ela significasse algo para alguém, coloco-a no quadro de avisos do acampamento. Porém, dias passam-se e como ninguém se interessa pela foto, ele a guarda consigo, com a intenção de encontrar o dono. Depois disso, Logan começa a experimentar uma maré de sorte, escapando inclusive de um confronto que poderia ter sido fatal para ele. Estimulado por seu melhor amigo Victor, começa a acreditar que talvez a foto seja a responsável por sua repentina sorte.

“Até encontrar a fotografia, a vida de Thibault seguia como ele tinha programado muito tempo antes. Sempre tivera um plano”.

Quando recebe licença do exército, Logan parte em uma jornada pessoal, atravessando o país praticamente a pé, tendo como companhia seu pastor alemão, em busca do lugar de origem da foto e acaba esbarrando com Elizabeth, a moça da foto. Divorciada, com um filho pequeno para criar, ela ainda precisa cuidar da avó Nana e da escola de adestramento de cães que possuem, levando uma rotina extremamente exaustiva, mas sem perder a força que a faz seguir em frente, mesmo com o coração machucado por perdas irreparáveis do passado.

Porém, Logan hesita em contar de cara a Elizabeth sobre a foto que encontrou e inicia uma amizade com a mulher, passando a trabalhar no canil com ela e com Nana, conquistando espaço pouco a pouco na vida delas e de Ben, o filho de Elizabeth. Essa amizade entre eles, evolui para uma paixão avassaladora que arrebata a ambos, levando-os a sonhar com um futuro juntos. Futuro esse, que pode estar em perigo não só pelo segredo de Logan, como também pela atitude de Keith, ex-marido de Elizabeth e xerife da cidade.

Keith é o típico homem soberbo que faz uso da autoridade e influência que possui e que não suporta ser passado para trás. Ao ver a aproximação de Logan e Elizabeth, ele decide que quer sua família de volta e fará o que achar necessário para alcançar isso, mesmo que tenha que passar por cima dos sentimentos de Elizabeth e do próprio filho Ben.

“Quanto mais conhecia você, mais real eu me sentia. Mais feliz e mais vivo, de um modo que não me sentia fazia muito, muito tempo. Como se você e eu devêssemos ficar juntos”.

Repleto de doçura e reviravoltas, Um Homem de Sorte é um dos melhores livros de Nicholas Sparks. Mais uma vez ele usa a instituição do Exército americano para dar vida a um de seus personagens, tecendo uma sutil, mas perceptível crítica à supervalorização da figura do soldado americano. 

Logan é um jovem sério, maduro e que viu em seus poucos anos de vida, muito mais do que a maioria das pessoas leva uma vida para ver. Isso lhe deixa marcas profundas, tormentos com os quais ele simplesmente não consegue lidar sozinho. Sua busca pela garota da foto, é apenas um pretexto para se manter em movimento, agora que não precisa mais se preocupar com quantas pessoas vão tentar tirar sua vida nas próximas horas. É real e muito tocante perceber que a vida militar pode ser tão ambígua, trazendo glórias, mas também muito sofrimento.

Do outro lado, nós vemos em Elizabeth o efeito colateral de uma guerra, já que perdeu uma de suas maiores referências para ela. Lidar com o luto, nunca é fácil, mas infelizmente a vida não para quando você precisa reunir os pedaços de seu coração para seguir em frente, ela continua em movimento e você só pode torcer para não deixar nenhum pedaço de si para trás.

Um Homem de Sorte é um dos meus livros favoritos do Nicholas, não só pela beleza do amor que ele evidencia, mas também por nos mostrar o lado feio de coisas que muitas vezes nos são passadas como gloriosas. É uma história de sobreviventes, que lutam para não sucumbir quando a tormenta chega e que encontram na família o seu ponto de apoio e segurança, mesmo quando os entes amados não mais estão presentes.

Espero que curtam mais esta leitura!

Um abraço e até a próxima!


Sinopse: Durante uma missão no Iraque, o fuzileiro Logan Thibault encontra, enterrada no chão, uma fotografia de uma linda jovem sorridente. Logo depois, ele experimenta uma súbita onda de sorte – ganha todos os jogos de pôquer e até sobrevive a um confronto mortal. A explicação parece ser uma só: a foto que ele encontrou se transformou em seu amuleto.

Ao voltar para casa, nos Estados Unidos, Logan não consegue tirar a jovem da cabeça e empreende uma jornada ao outro lado do país para encontrá-la. Na viagem, conhece Elizabeth, uma mulher divorciada, mãe de um menino, e é pego de surpresa pela forte atração que nasce entre eles.

Enquanto ele e Elizabeth se entregam a uma enlouquecedora paixão, Logan decide não dizer nada sobre sua busca. Em pouco tempo, porém, esse segredo poderá separá-los e destruir não apenas seu amor, mas também a vida dos dois.

Repleto de romance e suspense, Um homem de sorte é uma história inesquecível sobre os caminhos surpreendentes que o destino nos leva a seguir.
novembro 23, 2017


Editora Arqueiro | Resenha por Regiane Medeiros

"Do seu modo ordeiro, Cal organizou o acampamento. Comida em uma área, roupas em outra, ferramentas em uma terceira. Com a faca de escoteiro e a bússola em seu bolso, foi apanhar alguns gravetos. Os arbustos espinhosos o espetavam e arranhavam à medida que andava. Com os braços cheios, não viu quando algumas gotas de seu sangue pingaram no chão na beira do círculo... Ou o modo como o sangue chiou, fumegou e depois foi sugado por aquela terra marcada." (p. 28)

"- Nós nascemos dez anos atrás, na mesma noite, na mesma hora, no mesmo ano. Somos irmãos. Na Pedra Pagã juramos lealdade, verdade e fraternidade. Misturamos aqui nosso sangue." (p. 33)

#Resenha: Vocês já demoraram a ler um determinado autor e quando finalmente lê algo dele, se arrepende de não ter feito isso antes? Eu sim, para minha eterna agonia e vergonha.

Eu sempre ouvi falar da Nora Roberts e sempre tive curiosidade, mas por motivos além da minha compreensão, ainda não o tinha feito! Mas, fico feliz em anunciar que já remediei esse lapso!

Minha última leitura foi Irmãos de Sangue, primeiro livro de uma trilogia que tem como principal cenário uma cidade pequena do interior dos EUA. Nessa cidade existe uma floresta, daquelas sombrias e repletas de lendas de assombração, mas que de fato esconde algo maligno. Isso até Cal, Fox e Gage libertarem esse mal. Não é culpa deles, afinal, eram apenas garotos querendo comemorar o aniversário de 10 anos juntos em uma aventura, porém, acabam despertando uma maldição que vai assombrá-los e assolar a cidade onde moram, a cada 7 anos, durante 7 dias, no 7° mês do ano.

A culpa os impulsiona a buscar por uma solução, enquanto trabalham para minimizar o estrago causado, mas as coisas só começam a clarear com a chegada de uma jornalista, disposta a escrever a história da cidade e o fenômeno que a cerca durante o período dos Sete. Porém, mais do que curiosidade, Quinn tem visões, daquelas que arrepiam todos os cabelos do corpo, as mesmas visões que assombram Cal, Fox e Gage. Mas, se Quinn não é da cidade, porque vê e é afetada pelas mesmas coisas que eles? Essa resposta só vem com a leitura!!!

A escrita da Nora é deliciosa, fluida e dinâmica. Seus personagens são interessantes, singulares e nos atraem a cada página, a cada diálogo. E o suspense em torno de todos os acontecimentos que os uniram é digno dos maiores mestres do gênero! Já estou ansiosa pelas continuações, pois o final de Irmãos de Sangue, é apenas o início dessa aventura sobrenatural!

"Quando se virou, viu o garoto. Estava em pé na calçada, a meio quarteirão de distância. Não usava casaco, chapéu ou proteção contra o vento cortante, que não agitava os seus cabelos compridos. Seus olhos brilhavam, assustadoramente vermelhos, enquanto repuxava os lábios para emitir um rosnado." (p. 65)

"Quantas perdas ele vira? Quinn gostaria de saber. Quantas perdas sofrerá desde seu décimo aniversário? E ainda assim voltava para aquela floresta, para onde tudo começara. Ela achou que nunca tinha visto uma atitude mais corajosa." (p. 103)


Sinopse: A misteriosa Pedra Pagã sempre foi um local proibido na floresta Hawkins. Por isso mesmo, é o lugar ideal para três garotos de 10 anos acamparem escondidos e firmarem um pacto de irmandade. O que Caleb, Fox e Gage não imaginavam é que ganhariam poderes sobrenaturais e libertariam uma força demoníaca.

Desde então, a cada sete anos, a partir do sétimo dia do sétimo mês, acontecimentos estranhos ocorrem em Hawkins Hollow. No período de uma semana, famílias são destruídas e amigos se voltam uns contra os outros em meio a um inferno na Terra.

Vinte e um anos depois do pacto, a repórter Quinn Black chega à cidade para pesquisar sobre o estranho fenômeno e, com sua aguçada sensibilidade, logo sente o mal que vive ali. À medida que o tempo passa,

Caleb e ela veem seus destinos se unirem por um desejo incontrolável enquanto percebem a agitação das trevas crescer com o potencial de destruir a cidade.

Em Irmãos de sangue, Nora Roberts mostra uma nova faceta como escritora, dando início a uma trilogia arrebatadora em que o amor é a força necessária para vencer os sombrios obstáculos de um lugar dominado pelo mal.
outubro 15, 2017


“Então, acredite: o amor,
o amor completo,
é quando você quer o outro sempre perto.
Só isso” 
(pág. 18)

Há muitas formas de se contar uma história e o formato de como isso ocorre depende muito de como o autor prefere ou consegue se expressar. As melhores histórias são sempre aquelas que nos fazem sentir o que está sendo descrito, são aquelas que conseguem nos transportar para a vida de outra pessoa, seja ela fictícia ou não, e isso é privilégio para poucos. 

Não são muitos os autores que eu já li e que me passaram a impressão de que escrevem com o coração na ponta dos dedos. Ique Carvalho é um desses raros e me sinto realmente abençoada por conhecer o seu trabalho. Em Trago seu amor de volta sem pedir nada em troca, publicado pela Editora Sextante, Ique mais uma vez conseguiu me arrebatar durante a leitura, me fazendo sentir cada linha escrita, como se fosse comigo o que estava se passando.

Contar uma história através de crônicas requer uma certa capacidade de se desprender dos próprios sentimentos para expô-los e aqui, Ique faz isso com maestria e simplicidade. Através de suas palavras, conhecemos a sua luta e a de seu pai, vítima de uma doença neurodegenerativa sem cura, fato que junto a um término de namoro doloroso desestruturou a vida de Ique.

Muita coisa muda na nossa vida quando sabemos que corremos contra o tempo e Ique percebeu isso, a ponto de se dedicar com amor e carinho ao pai enquanto viam sua capacidade motora se esvair aos poucos. Paralelamente ao que se passava em seu lar, Ique seguiu com sua vida amorosa até encontrar a sua atual namorada, uma mulher que entende o que está passando e o apóia incondicionalmente, algo que ele parece nunca ter encontrado antes.

Suas crônicas são viscerais, trazendo à tona nossos maiores medos, angústias, mas também a esperança de que algo melhor sempre vem, ainda que sejamos atingidos pela dor da perda e não saibamos como reagir a ela.


“Você quer passar a vida inteira procurando alguém perfeito
ou alguém que te ame por inteiro?” – pág. 51. 

“Você é feito da soma dos momentos inesquecíveis que viveu e das pessoas que conheceu” – pág. 62.

“Ser mulher neste mundo deve ser foda.
E o mais incrível de toda essa história
é que, no final, você ainda continua cheirosa, linda e corajosa.
E pronta para sorrir novamente e viver.
Porque essa é a beleza do amor que ninguém pode tirar de você” – pág. 87.


“O que realmente muda a sua vida
são as escolhas
que você faz todos os dias” – pág. 120.

“No amor e na vida, quem quer vai atrás e conquista.
Para sempre
ou mais um dia” – pág. 136.

“Por mais que eu sinta falta, sei que ele nunca mais vai voltar.
Durante anos, pensei que não poderia viver com essa ideia.
Mas hoje eu posso sentir que ele pode viver com as estrelas, e eu aqui.
Porque uma parte do nosso amor está com ele, mas a outra ficou em mim” – pág. 215.

Repleto de sensibilidade e doçura, Ique aborda temas como perdas, términos, recomeços, dores, amores e desamores, amor-próprio e ao próximo de uma forma delicada, nos emocionando a cada página virada e deixando ao final da leitura a certeza de que amar vale a pena, sempre.

A edição está linda, com a capa texturizada e trechos do livro em destaque entre um texto e outro, além de uma trilha sonora incrível que nos deixa completamente envolvidos enquanto lemos e ouvimos – ele já abre o livro com a minha música favorita de todos os tempos, da minha banda favorita do mundo todo. Tem como não amar? Não tem.

Apenas pisco três vezes.



Sinopse: A vida de Ique Carvalho era tranquila e parecida com a de muitos jovens de Belo Horizonte, sua cidade natal. Ele morava com os pais e os irmãos, era apaixonado pela namorada e trabalhava na agência de publicidade da qual era sócio. Suas impressões sobre o cotidiano iam para o blog The Love Code, onde podia dar vazão ao seu talento para escrever. Até que, em 2013, dois fatos fizeram tudo virar de ponta-cabeça.

Na mesma semana, seu namoro teve um fim traumático e o pai recebeu o diagnóstico de uma doença degenerativa grave, que o mataria aos poucos. Sem chão e em meio a um turbilhão, foi no blog que encontrou refúgio para expressar seus sentimentos.

Os textos fortes e genuínos acabaram viralizando, popularizando o site e dando a Ique milhares de fãs e seguidores. Suas palavras possuem o incrível dom de ser, ao mesmo tempo, simples e profundamente verdadeiras, traduzindo o que há de mais puro e desejável no amor.

Essa mesma capacidade de causar impacto e despertar as emoções dos leitores permeia as reflexões tocantes de Trago seu amor de volta, seu aguardado segundo livro solo. Ique mais uma vez demonstra sua vocação única como cronista do amor em todas as suas expressões.

outubro 11, 2017


Depois que a surpresa passou, eu achei que conseguiria me manter indiferente ao seu charme e ao seu perfeito uso das palavras, achei que conseguiria manter distância e não demonstraria o quanto você ainda me afeta... Mas não consegui resistir ao seu canto de sereio e, quando dei por mim, estava com um sorriso no rosto, abrindo suas mensagens e sentindo aquele frio na barriga de expectativa... 

Difícil não sucumbir à expectativa, mesmo sabendo que o caminho à frente já foi traçado por nós no passado. E não pense que me iludo achando que dessa vez pode ser diferente, porque não acho que vai, eu já reconheço o seu padrão de atuação. Mas é difícil me negar uma parcela, ainda que pequena, de alegria nesses tempos tão turvos. E é assim que me sinto ao falar contigo, alegre. Por motivos diversos e que a maioria das pessoas não vai entender, por isso nem tento explicar.

Mas não faz mal, o que me importa é como eu me sinto quando nos falamos... É como se você me enxergasse melhor do que quem convive de perto comigo e não faz ideia de como isso é libertador... Porque eu sei que com você posso ser eu mesma, e você não vai me recriminar ou julgar, algo que sei que aconteceria se fosse com outra pessoa. 

E hipnotizada por suas palavras, seu jeito de falar comigo e me estimular, eu vou seguindo o fluxo de nossas conversas, tentando não deixar meu imaginário me levar a querer mais do que sei que você está disposto a me dar. Até que ponto isso vai bastar eu não sei. Mas também não estou com pressa de descobrir. 

Só quero que esse sorriso, esse aqui no meu rosto que você provocou, continue aqui por enquanto, adornando minha face e meu estado de espírito.

Oh again
and again
Now I'm hyp
hypnotised
Yeah I lift
to a permanent high
Oh I'm hyp
hypnotised
It was dark
Now it's sunrise

Kaleidoscope EP, 2017

outubro 08, 2017


Uma das maiores recompensas da literatura atual é o fato de que um autor pode ter o reconhecimento por seu trabalho ainda em vida, diferente do que acontecia há alguns séculos. Mas, o que faz um autor ser digno de ser lembrado? A qualidade de sua obra? A quantidade de pessoas que o leem? A aprovação da sociedade literária? O número de vezes em que seus livros estiveram na lista de mais vendidos?

Para mim, um autor é digno de honrarias quando sua obra consegue tocar e sensibilizar a vida das pessoas – no caso, ao menos a minha -, se for um romance de ficção, é preciso que seus personagens sejam críveis e a gente consiga enxergar um pouco de nós em cada um deles. É preciso refletir problemas reais que cada um de nós pode vir a enfrentar de um jeito ou de outro. 

Existem muitos nomes que se enquadrariam nesses critérios, mas hoje eu vou falar – mais uma vez – de Nicholas Sparks. Seu livro Querido John, um dos mais emblemáticos de sua carreira, completou esse ano o marco de 10 anos de seu lançamento mundial e ainda é um dos mais discutidos entre os fãs do autor norte-americano, e para comemorar essa data, a Editora Arqueiro está relançando o livro em uma nova edição – mais bela do que a anterior, preciso dizer – que chegou recentemente às livrarias de todo o país. 

O enredo conta a história de John Tyree e Savannah Curtis, dois jovens que se conhecem durante um verão e tem suas vidas alterdas para sempre.

John foi um típico adolescente rebelde, sem interesse por estudos ou um trabalho que agregasse à sua vida. Criado somente pelo pai, um homem introspectivo e metódico, com um interesse peculiar e quase obssessivo por moedas raras, ele quase se perdeu para uma vida desregrada e sem limites ao ver sua vida comparada a de seus amigos que tinham muito mais regalias que ele e alimentar um grande ressentimento contra isso. Mas, um dia John desperta para a realidade e pensando principalmente no futuro do pai, decide se alistar no Exército, onde aprende a ser disciplinado, a levar uma vida mais  saudável, a estudar e a ter um propósito, nem que seja temporário.

“Um dia eu me cansei daquela vida. Não me lembro de ter ficado especialmente infeliz, eu só não aguentava mais” – pág. 19.

“O erro que muita gente comete é se perguntar como é que soldados são capazes de arriscar suas vidas dia após dia, ou como conseguem lutr por algo em que talvez não acreditam. Ninguém faz isso. (...) Encontrei gênios e idiotas, mas no fim das contas fazemos o que fazemos uns pelos outros. Por amizade. Não pelo país, não por patriotismo, não porque somos máquinas programadas para matar, mas por causa do cara que está a seu lado. Você luta por seu amigo, para mantê-lo vivo, e ele luta por você. Tudo que diz respeito ao Exército se baseia nessa simples premissa” – pág. 23.

Em uma de suas licenças, John conhece Savannah, uma jovem encantadora que está na cidade de passagem, realizando trabalho voluntário para ajudar algumas famílias a terem um teto sobre suas cabeças. Ambos veem algo no outro que os atrai e acabam se aproximando, o que faz John rever a própria vida e perceber coisas a respeito de si mesmo que ele não se dava conta antes de conhecê-la.

“Tudo nela – desde o jeito fácil com que ria, até sua perspicácia, sua evidente preocupação com os outros – me impactava, como algo novo e desejável. Além disso o tempo que passamos juntos também me fez perceber como eu sou solitário. Não tinha admitido isso para mim mesmo, mas após dois dias com Savannah, eu sabia que era verdade” – pág. 64.

Com delicadeza e suavidade, eles vão se apaixonando conforme passam os dias juntos, mas Savannah com seu jeito doce e simples, faz com que John refreie os próprios instintos, esperando o momento certo de dar cada passo nesse relacionamento delicado e diferente de tudo o que ele já vivenciou. 


Savannah consegue até mesmo fazê-lo rever o relacionamento com o pai, do qual ele sempre se ressentiu e se manteu distante por serem tão diferentes. Mas, agora sob um novo prisma, John percebe o quão injusto ele foi e seus sentimentos em relação ao homem que o criou da melhor maneira que pode, mudam.  

“No entanto, eu me importava com meu pai. Compreendi que ele era afetado por uma condição e tinha formado um conjunto de regras que o ajudava a se encaixar no mundo. E, mesmo com essa dificuldade ele encontrara um caminho para que eu pudesse me tornar o homem que eu era. Para mim, isso era mais do que suficiente. Ele era meu pai e tinha feito o melhor que podia” pág. 118.

Quando a licença de John chega ao fim, eles já estão completamente apaixonados e fazem juras de aguardarem o período de alistamento de John terminar para ficarem juntos definitivamente, ainda que enfrentem alguns percalços no caminho, já que Savannah continua levando sua vida em frente, com a rotina de estudos e trabalho, enquanto John sente que sua vida está estagnada, presa ao Exército em coisas que já não fazem sentido para ele. Da melhor maneira que conseguem, através de ligações, e-mails, mas principalmente cartas, eles tentam manter uma comunicação constante que os alivie da saudade durante a separação.

O que nenhum dos dois esperava, era que em 11 de Setembro de 2001, houvesse um atentado terrorista que alteraria completamente seus planos. Sabendo que tinha uma grande responsabilidade em mãos com seu pelotão, John se realistou no Exército, estendendo seu período de serviço militar e ainda que Savannah entendesse e apoiasse o trabalho dele, essa decisão levou a um afastamento gradual entre os dois amantes, até que uma carta mudou completamente o futuro que eles tinham planejado.

“Você é um herói e um cavalheiro, é gentil e honesto; porém, mais do que isso, é o primeiro homem que amei. E não importa o que o futuro trará, você sempre será, e sei que minha vida será melhor por causa disso” – pág. 169.

Narrado pelo ponto de vista de John, conseguimos enxergar o amadurecimento de sua personalidade ao longo dos anos em que esteve no Exército, adquirindo uma seriedade e intensidade comum somente às pessoas que viram de perto e em pouco tempo, muito além do que a maioria das pessoas vê durante uma vida inteira e isso pautou a mudança de seu relacionamento com o pai, valorizando os pequenos momentos que compartilhavam, bem como as decisões que tomou ao encontrar uma realidade complexa e sofrida na vida de Savannah após anos sem se verem. 

Como em todos os livros de Nicholas, há muitos questionamentos morais em seus personagens, que buscam tomar as melhores decisões, ainda que essas causem algum sofrimento, especialmente a si mesmos e é difícil ficar indiferente a essas questões, acabamos nos perguntando o que faríamos se estivésemos em seus lugares e a resposta nem sempre é simples de encontrar. 

Delicadamente e com brandura, Nicholas nos presenteia com uma história sobre o poder que o amor tem de mudar nossas vidas e nosso olhar sobre as verdades que consideramos absolutas, sabendo que nem sempre as coisas são como gostaríamos e que só podemos fazer o melhor que estiver ao nosso alcance.

“Amar significa se preocupar com a felicidade de outra pessoa mais do que com a sua” – pág. 246. 



Sinopse: Após uma juventude de rebeldia e bebedeira, John Tyree decidiu dar início a um novo capítulo em sua vida e se alistou no Exército. Um ano depois, agora um novo homem, ele retorna a Wilmington, na Carolina do Norte, para passar um tempo com o velho pai.

Uma tarde, enquanto admira o pôr do sol da pequena cidade litorânea, ele conhece a garota de seus sonhos. Além de ser linda, Savannah é amigável, de sorriso fácil, um exemplo de boa conduta e altruísmo. Curiosamente, esse contraste de personalidades não impede que um sentimento arrebatador nasça entre os dois.

No entanto, John precisa voltar para a Alemanha a fim de concluir o serviço militar. Em nome do amor, Savannah decide esperar por ele, enquanto o jovem soldado promete que, após esse período, vai ficar para sempre ao lado da mulher que conquistou seu coração.

O que nenhum dos dois poderia esperar eram os eventos do 11 de Setembro. Enquanto John entra em combate no Iraque, Savannah precisa reunir forças para superar a dor da distância. Nesse cenário de saudade e incertezas, uma simples carta pode mudar a vida dos dois para sempre.

setembro 22, 2017


Então você voltou...

A escolha de ir embora foi sua. Eu lamentei, mas depois superei e cheguei a aceitar que era melhor assim, afinal nós dois queríamos coisas muito diferentes naquele momento.

Eu resisti bravamente à vontade de continuar sabendo o que você estava fazendo e agi da mesma maneira que nas ocasiões anteriores a essa: me desvinculei completamente de você, desabilitando seus contatos da minha agenda e excluindo as redes sociais que compartilhávamos. Apaguei as mensagens trocadas, deletei a maior parte das fotos (deixei uma ou duas, somente para me lembrar do que foi bom e de como eu fiquei no final, para não cair na onda de outro igual a você). Parei de pensar em você quando me deitava. Deixei de esperar que você sentisse saudade e me procurasse.

O tempo passou e você se tornou uma mera lembrança, mais um aprendizado na minha vida. E achei que estava tudo certo, que eu estava no caminho que devia seguir mesmo, sempre em frente.

Agora você volta e bagunça minha cabeça, me fazendo duvidar de minhas decisões, dos meus sentimentos. Porque tava tudo bem com você em silêncio, eu achava que estava tudo bem...  

Você podia facilitar e ter agido como a maioria, lançando um “oi sumida”, como se nada tivesse acontecido e eu que tivesse evitando você. Isso automaticamente me faria ter raiva de você e expulsar você definitivamente da minha vida, como se não houvesse existido... Mas, não. Como sempre, você sabe a coisa certa a dizer, me confundindo, me fazendo pensar em coisas que eu já não vislumbrava há muito tempo.

E aí, some de novo, me deixando na dúvida se foi uma breve recaída ou se foi uma isca jogada para que eu ficasse curiosa e decidisse dar o passo seguinte e te procurar. Aí vem aquela leve aflição de que talvez eu esteja interpretando tudo errado mais uma vez e de novo, eu não sou eu mesma por causa de você. 

Gostaria de concluir que você já não me afeta, mas não posso mentir para mim mesma. Ainda não entendo porque ouço seu canto de sereio, se já sei como vai terminar essa história. Eu, com mais algumas rachaduras no peito, algumas lágrimas desperdiçadas e a sensação de impotência diante de algo que não posso mudar. Mas, é praticamente impossível ignorar o apelo que vem daqui de dentro... Aquele que diz que pode ser diferente dessa vez.

Porque a gente insiste em acreditar? Porque precisamos ceder a essa louca esperança de que pode sim, finalmente ser diferente? No fundo, sabemos a resposta. Nosso coração não suportaria a certeza de que tudo sempre pode dar errado, ainda que as probabilidades sejam imensas e as estatísticas da vida sempre corroborem para isso.

Ainda não sei o que fazer a seu respeito. Não sei o que fazer com o que sinto. Não sei o que fazer comigo. Só quero me sentir eu mesma de novo, com ou sem a sua presença na minha vida.

“Fiz de mim descanso pra você
Te decorei, te precisei
Tanto que esqueci de me querer
Testemunhei o fim do que era agora

Agora eu quero ir
Pra me reconhecer de volta
Pra me reaprender e me apreender de novo
Quero não desmanchar com teu sorriso bobo
Quero me refazer longe de você”
 
Agora eu quero ir, Anavitória – Forasteiro, 2016.
setembro 17, 2017


E para finalizar a leitura da edição especial Clássicos do Terror da Editora Martin Claret, vamos falar sobre Drácula, escrito pelo irlandês Bram Stoker e publicado pela primeira vez em 1897, e que atualmente encontra-se em domínio público, sendo acessível em língua inglesa em diversas bibliotecas online. Embora não seja a primeira história escrita sobre vampiros, definitivamente foi a que os popularizou e tornou-se a maior referência sobre esses seres que sempre despertam curiosidade, fascínio e uma atração irresistível.

Jonathan Harker, jovem advogado inglês, faz uma viagem à Transilvânia para tratar de negócios jurídicos com o cliente do escritório para o qual trabalha, o Conde Drácula. O início da viagem de Jonathan já começa cheia de mistérios, pois ao chegar ao vilarejo de Bistritz, na região dos montes Cárpatos em um local remoto da Europa, acaba conhecendo um pouco sobre a história local e as superstições daquele povo, tão diferentes do que ele está acostumado na Inglaterra. Tais superstições se aplicam inclusive ao próprio Conde, nobre senhor da região.

“Quando lhe perguntei se conhecia o Conde Drácula e se poderia dizer-me algo sobre seu castelo, tanto ele como sua esposa se benzeram e, dizendo não saber absolutamente nada, simplesmente se recusaram a prosseguir com a conversa” – pág. 234.

Inicialmente encantado com o local e a educação do Conde, Jonathan acaba um pouco deslumbrado com o requinte e a aparente riqueza que o cerca, ainda que durante o caminho que percorreu até chegar ali, tenha passado por tantas situações estranhas que já deveriam ter lhe alertado de que algo estava muito errado com seu anfitrião. Mas é difícil ser indiferente à figura imponente e nobre do Conde, principalmente quando seu diálogo é tão rico e cheio de sentimentos.


“Não procuro alegria e prazeres nem desejo a ardente voluptuosidade de muito sol e de águas brilhantes que agradam aos jovens e alegres. Já não sou jovem e meu coração, cansado de chorar durante anos os mortos, não se adapta aos prazeres. (...) Amo a escuridão e a sombra, e gosto de ficar a sós com meus pensamentos, quando possível” – págs. 250 e 251.

Mas Jonathan não demora a perceber que tem algo sinistro acontecendo ao tentar explorar o castelo e descobrir que todas as portas de acesso ao lado externo, se encontram trancadas, bem como a ausência de criados, tendo observado sorrateiramente o Conde fazendo alguns serviços domésticos. Em um estalo, o jovem percebe que é um prisioneiro do castelo. Com essa constatação, suspeitas sobre o anfitrião começam a surgir, especialmente ao se dar conta de que Drácula nunca se alimenta durante as refeições, parece nunca dormir em um horário socialmente aceitável e não apresenta reflexo ao espelho: “Súbito, senti que alguém colocava a mão sobre meu ombro e ouvi a voz do Conde, que me desejava bom dia. Assustei-me, pois me perturbava o fato de que não o vira, uma vez que o espelho refletia todo o aposento atrás de mim.(...) Tendo respondido ao cumprimento do Conde, voltei-me para o espelho novamente, a fim de verificar como me enganara. Porém desta vez não havia possibilidade de erro: o espelho não revelava homem algum junto de mim, mas eu podia vê-lo sobre o meu ombro! Todo o quarto atrás de mim se projetava no espelho, porém nele não havia sinal de homem, a não ser eu mesmo. Isso era assustador e, somado a tantas outras coisas fantásticas, principiava a aumentar aquela vaga sensação de insegurança que eu sempre sentia quando o Conde estava próximo” – pág. 252.

Vendo-se prisioneiro, Jonathan começa a arquitetar formas de se libertar antes que se torne alvo de um destino que ele não consegue identificar, mas que pressente e do qual quer se esquivar, apegando-se a objetos que lhe foram entregues por pessoas no caminho durante a sua viagem até o castelo: “Por que me haviam dado o crucifixo, o dente de alho, a rosa silvestre e o cornogodinho? Abençoada seja aquela bondosa mulher que pendurou este crucifixo ao meu pescoço! Ele me proporciona consolo e força sempre que o toco” – pág. 254.

A partir de então, segue-se uma série de descobertas que vai levar Jonathan ao limite da sanidade mental e física, em uma busca frenética para colocar fim ao reinado de horror que Drácula começa a impor à Londres. Durante essa empreitada, ele vai contar com a ajuda de  Abraham Van Helsing, professor de antropologia e filosofia, especialista em doenças obscuras, além de ser um cientista de métodos pouco ortodoxos, fazendo uso de símbolos religiosos para derrotar seus inimigos, bem como de alguns amigos e da própria esposa, Mina, que durante um tempo acaba sendo acometida por uma “maldição”, que a conecta psiquicamente ao Conde Drácula e dessa ligação é que surge a inspiração para um plano que pode finalmente, livrá-los do mal que os cerca.

Dos três romances clássicos do terror que li, esse foi o mais difícil, não apenas por ser o mais longo, mas por algumas características que tornaram a leitura mais lenta, ainda que os acontecimentos me instigassem a prosseguir. O livro é todo narrado através de epístolas escritas pelos personagens, relatos em diário, jornais e registros de bordo, mas tudo era tão detalhado (inclusive o conteúdo das refeições feitas por Jonathan, por exemplo), que eu às vezes voltei alguns trechos para ter certeza de que não tinha deixado passar nada de importante, tamanha a minha distração durante a leitura.


Apesar disso, a linguagem do texto não é tão formal e teve uma ou outra palavra apenas que eu precisei buscar o significado ou do que se tratava, para entender, por isso a leitura também não é complexa de se fazer, é apenas um pouco cansativa. Mas isso só dura até começar a ação de verdade, a caçada ao predador mais temido dentre os seres sobrenaturais, pois a partir de então, a leitura é fluida e instigante. 

Eu gostei muito do fato do autor ter incluído entre os protagonistas da história, mulheres que não fizeram apenas figuração, elas participaram ativamente de todo o enredo e isso foi muito positivo em se tratando de uma obra do séc. XIV, onde a maioria dos enredos dá preferência aos narradores masculinos, bem como o protagonismo das histórias, mesmo escritas por mulheres, acabava caindo também sobre o gênero masculino.

Outro ponto positivo, foi que mesmo conhecendo a história e tendo visto muitas versões cinematográficas, a obra é surpreendente e digna do status de obra referencial de terror, apresentando surpresas e momentos realmente assustadores, quando comparada aos outros dois enredos lidos anteriormente.

Espero que vocês tenham curtido essa nossa viagem ao mundo clássico do terror e que apreciem essas leituras, que já se tornaram atemporais. Nós aqui, aguardamos quais serão as próximas apostas da Editora Martin Claret no nicho da literatura clássica.

Beijinhos, até breve!
Gih



Nesta edição, reunimos três clássicos do terror mundial. Frankenstein (1818), da autora inglesa Mary Shelley, tornou-se um dos maiores clássicos da literatura de terror e conta a história do dr. Victor Frankenstein. Essa história ficou imortalizada no teatro e no cinema em várias adaptações. O médico e o monstro (1886) aborda a dialética dos valores morais em forma assombrosa e vai além do bem e do mal da alma humana. O escritor escocês Robert Louis Stevenson impregnou neste romance um forte clima de apreensão, suspense, terror e perplexidade, que garantem a atenção do leitor do início ao fim. O romance gótico Drácula (1897), do autor britânico Bram Stocker, narra a história do Conde Drácula, vilão morto-vivo da Transilvânia, que se tornou o típico representante do mito do vampiro. Tradutores: Roberto L. Ferreira, Cabral do Nascimento, Maria L. L. Bittencourt.
 

setembro 11, 2017


Muitos são os motivos que me levam a me interessar por uma leitura. Se o livro é um clássico da literatura, meu interesse redobra, especialmente se a tal obra não é muito conhecida, embora o sobrenome do autor seja um dos mais notórios quando se trata de literatura inglesa. Afinal, quem nunca ouviu falar das irmãs Brontë? Certamente muitos leitores conhecem Emilly, autora de O Morro dos Ventos Uivantes e seu trágico Heathcliff. Também devem conhecer ou ter ouvido falar ao menos, de Charlotte e o brilhante Jane Eyre. Mas pouca gente conhece a irmã mais nova, Anne, que assim como as irmãs mais velhas, iniciou sua carreira literária fazendo uso de um pseudônimo masculino, algo bem recorrente na Europa do séc. XIX.

Anne escreveu apenas dois livros: Agnes Grey, que é o mais conhecido e A Senhora de Wildfell Hall, objeto de minhas atuais reflexões. O fato mais curioso a respeito dessa obra e que obviamente, me fez ansiar ainda mais por essa leitura, foi a descoberta de que o texto foi condenado pelas próprias irmãs de Anne. A família Brontë foi quase toda dizimada pela Tuberculose e Anne morreu precocemente vítima desse mal antes de Charlotte, que ficou com os direitos da obra literária das irmãs, impedindo a publicação desse texto específico, considerando-o como muitos críticos na época, exagerado e contundente na descrição das relações desproporcionais entre homens e mulheres. O texto só veio a ser republicado em 1855 após a morte de  Charlotte, mas quando viva, Anne escreveu um prefácio para a segunda edição, após ter sofrido reprimendas sobre a forma e tema de sua escrita, onde explica seus motivos para abordar o assunto e sua maneira para isso, deixando claro que tudo o que envolve o enredo se trata de observações da vida real e que seu maior desejo com essa abordagem, é o de que o leitor aprenda e não repita os erros expostos de seus personagens:

“Meu propósito ao escrever as páginas seguintes não foi apenas divertir o leitor; tampouco satisfazer meu próprio gosto ou ganhar as boas graças da imprensa ou do público: meu desejo era relatar a verdade, pois a verdade sempre comunica sua própria moral para quem é capaz de absorvê-la(...). Que não se imagine, no entanto, que eu considere ter competência para reparar os erros e abusos da sociedade, mas que deseje contribuir com minha humilde cota para um propósito tão bom; e que, se os ouvidos do público estão voltados para mim, prefira sussurrar neles algumas verdades saudáveis a bobagens sem sentido” – prefácio à segunda edição, presente na edição integral publicada pelo Grupo Editorial Record.

A história retrata a jornada de Helen Graham, jovem viúva que se muda para Wildfell Hall, propriedade que fica em alguma cidade rural da Inglaterra. Sua chegada, gera especulações por parte da vizinhaça, já que a mesma não cumpriu os rituais sociais de visitar e se apresentar aos vizinhos, nem foi à igreja no primeiro domingo após a sua mudança. Intrigados, os moradores das redondezas começam a fazer visitas à nova vizinha, em busca de informações sobre sua vida e rotina, geralmente saindo frustrados desses encontros, já que a sra. Graham é muito discreta com relação ao próprio passado e não esconde o desejo de ficar sozinha quando assim o deseja.

Entre os vizinhos intrigados, encontra-se Gilbert Markham, um jovem fazendeiro que assume o cuidado das terras da família com as próprias mãos, cultivando e fazendo melhorias em suas terras junto com os empregados. À primeira vista, há um choque não apenas cultural como também de opiniões entre Gilbert e Helen, gerando um estado de tensão, sempre que há a necessidade de um encontro e conversa entre ambos.

“’É bem como eu achei’, pensei com meus botões. ‘O temperamento dessa senhora não é dos mais afáveis, apesar de seu rosto doce e pálido e da testa imponente, onde a reflexão e o sofrimento parecem ter deixado marcas igualmente fundas’” – pág. 36.


O mal-estar entre eles, começa a se dissipar a partir do momento em que Arthur, filho da sra. Graham demonstra simpatia e uma certa predileção pela companhia de Gilbert durante os encontros sociais a que comparecem, fazendo com que os jovens sejam mais amistosos um com o outro e uma genuína admiração surja no coração de Gilbert, ao constatar que se precipitou em suas opiniões a respeito de Helen.

“Nos casos de amor, não há mediador melhor do que uma criança alegre, de alma simples – sempre pronta a unir corações separados, a construir uma ponte sobre o abismo hostil do costume, a derreter o gelo da reserva e a destruir as muralhas da formalidade e do orgulho” – pág. 96.

Com a passagem do tempo, uma delicada amizade surge entre eles e Gilbert descobre na sra. Graham uma mulher culta, que quer ter uma vida comandada por si própria, sustentando a si e ao filho com o que ganha vendendo obras que ela mesma pinta, encantando-o com sua sensibilidade e destreza ao transpor para as telas, paisagens que ele conhece desde sempre, mas que agora vê com outros olhos ao enxergá-las pelo olhar da mulher que vem conquistando seu coração ao demonstrar força de caráter, uma moral elevada e uma maturidade para ensinar o caminho do bem ao filho, como ele nunca viu em nenhuma mulher de seu convívio. Aliás ao comparar Helen com as demais, percebe o quão fúteis e rasas elas são, perto da mulher que possui um olhar da vida cheio de uma sabedoria que geralmente só quem já viveu muito e passou por muitas provações tem.

É claro que não demora e o comportamento da sra. Graham, a sua severidade ao condenar determinados costumes, como o consumo de álcool ainda que com moderação e a insistência em privar seu filho de experimentar determinadas situações, leva a um falatório maldoso por parte daqueles que tentam, mas não conseguem adentrar a muralha que ela ergueu sobre seu passado e nosso jovem apaixonado, crente de que tudo o que dizem a respeito dela não passa de mentiras, a defende ardentemente, levando os demais a suspeitar de seus sentimentos para com a viúva. Sentimentos, que ela conhece, mas prefere ignorar até quando é possível e quando finalmente Gilbert não consegue mais guardar o que sente para si, Helen toma a decisão de contar a ele seu passado, para que então ele decida se ela é digna de seu afeto ou não.

“É possível olhar nos olhos de alguém, ver o coração da pessoa e descobrir mais sobre a altura, a largura e a profundidade de sua alma em uma hora do que em uma vida inteira, se o outro não estiver disposto a revelá-la ou se você não tiver a inteligência de compreender o que vê” – pág. 102.

Mas essa conversa não chega a acontecer, devido a um acontecimento que deixa Gilbert atormentado por dúvidas e frustração, que ele ao invés de tentar elucidar, prefere tratar Helen com o mesmo desprezo que condenou em seus pares anteriormente. Após um desentendimento entre eles, Helen entrega a Gilbert seu diário, pendindo que ele o leia e só então a procure, para que eles conversem a respeito. Porque é claro que Helen tem um passado, do qual foge para salvar a si e ao filho e que pretende esconder de todos. Exceto de Gilbert.


Anne Brontë, de fato é uma autora contundente em suas palavras. Através de Helen, podemos ter um vislumbre de tudo o que ela reprovava no comportamento das pessoas, na pequena sociedade em que vivia, bem como do horror que ela provavelmente presenciou para falar com tanta propriedade de relações tóxicas, sejam elas entre um casal, sejam entre os membros de uma comunidade. Sua narrativa é instigante, falando diretamente conosco através das cartas emitidas por Gilbert para o cunhado, onde ele descreve todos os acontecimentos e os próprios sentimentos em relação a tudo o que aconteceu desde a chegada de Helen Graham à vizinhança, não nos poupando de nada do seu temperamento que varia entre o extremamente feliz até o miserável torturado pela dúvida. 

Dono de uma personalidade intensa, Gilbert vive tudo muito ao extremo e nos leva junto com ele na jornada que mudou seu coração e sua vida. De um jovem irreverente, que não se preocupa muito com os sentimentos dos outros, ele se transforma em um homem maduro, consciente do seu papel na sociedade e na família, enxergando e tentando corrigir os próprios erros e defeitos, a fim de se tornar uma pessoa não só digna de ser amado, mas também um homem digno de ser respeitado.

Quanto à Helen, é impossível não ter empatia imediata com ela. Delicada, mas firme, ela não tem tempo nem paciência para alimentar relações vazias. Atua em sociedade quando é preciso, para que o filho não seja alvo de ostracismo, mas não faz muita questão de companhias que em nada lhe acrescentam. Com sua atitude honesta, acaba sendo confundida com alguém cheia de soberba e pompa, que quer ser superior aos outros, mas diante desse julgamento, ela simplesmente se retira e ensina o filho a fazer diferente das pessoas que a julgam erroneamente, preparando-o para o mundo ao invés de deixá-lo sofrer as consequências de atos impensados.


Os personagens secundários são muito bem elaborados e dão o suporte necessário para que a trama, que é um pouco longa, não seja cansativa e dou um destaque especial a Arthur, que é um menino inteligente e muito observador, soltando algumas pérolas durante a história que nos fazem rir ou chorar, dependendo do momento.

Eu já havia lido O Morro dos Ventos Uivantes de Emilly, obra que tem uma trama muito forte, com personagens intensos, mas que não me conquistou completamente – me julguem, mas eu odeio Catherine e tudo o que ela fez com todos a seu redor – e já vi uma adaptação da BBC para Jane Eyre da Charlotte, que me deixou com os cabelos em pé ao descobrir o segredo de Edward Rochester, o “mocinho” da história. Comparando o que conheço dessas obras com o texto de Anne, ainda estou tentando entender porque ela foi tão mal apreciada na época. Talvez seja o fato de que ela não usou de fatos fictícios exagerados em sua trama, ela simplesmente retratou o que provavelmente aconteceu em muitos lares da época e que sinceramente, continua acontecendo nos dias de hoje. 

Uma trama com acontecimentos mirabolantes e surpreendentes, nos mantém presos sim e claro que a impressão causada pela surpresa e o choque contam muito na hora de dizer se uma obra é realmente boa ou não. Mas, particularmente, eu gosto de uma leitura mais próxima da realidade quando se trata de um romance histórico, gosto de saber como eram as sociedades antigas e seus costumes, gosto de entender os jogos políticos e sociais que eram feitos e isso não desabona um livro para mim, ao contrário, eu aprecio e comemoro por saber que algum autor foi capaz de transformar relações cotidiandas em algo digno de ser lido e reeditado tanto tempo depois de seu primeiro original vir a público. Talvez por isso, Anne tenha acabado de se tornar a minha favorita entre as Brontë, porque sua obra é exatamente assim, cotidiana e real, nos transportando diretamente para uma fazenda na Inglaterra do séc. XIX, para vivenciarmos junto com um inteligente e sagaz rapaz, o que o amor é capaz de fazer na vida de uma pessoa.

Espero que vocês que apreciam romances históricos, venham a conhecer essa obra incrível, que merece por muito tempo ainda, o destaque que lhe foi negado de berço.

“Todos os romances são, ou deveriam ser, escritos para os homens e as mulheres lerem, e não compreendo como um homem poderia se permitir escrever algo que seria realmente desonroso para uma mulher, ou por que uma mulher deveria ser repreendida por escrever algo que seria apropriado para um homem e digno dele”. Anne Brontë – 22 de Julho de 1848.


A Senhora de Wildfell Hall - Anne Brontë

Filha mais nova da família Brontë, Anne era irmã de Emily Brontë, autora de O morro dos ventos uivantes, e de Charlotte Brontë, autora de Jane Eyre — livros clássicos e reeditados até hoje. Anne Brontë (1820-1849) desafia as convenções sociais do século XIX neste romance, A senhora de Wildfell Hall. A protagonista da obra quebra os paradigmas de seu tempo como uma mulher forte e independente, que passa a comandar a própria vida. Ao chegar à propriedade de Wildfell Hall, a Sra. Helen Graham gera especulação e comentários por parte dos vizinhos. O jovem fazendeiro Gilbert Markham, por sua vez, desperta um grande interesse pela moça e, aos poucos, vai criando uma amizade com ela e com seu filho. Porém, os segredos do passado da suposta viúva e seu comportamento arredio impedem que o sentimento nutrido pelos dois se concretize, fazendo com que Gilbert tenha dúvidas sobre a conduta da moça. Quando a Sra. Graham permite que ele leia seu diário a fim de esclarecer os fantasmas do passado, o rapaz compreende os tormentos enfrentados por aquela mulher e as razões de suas atitudes. Ela narra sua história até então, desde a relação com um marido alcoólatra e de conduta abominável até a decisão de abandonar tudo em nome da proteção do filho.
agosto 23, 2017

 
Deixe-me escolher o meu próprio destino, por pior que seja” – Henry Jekyll.

Desde o início de nossa compreensão, durante a infância, são incutidos em nossas mentes os conceitos de bem e mal, certo e errado, moral e imoral. Tais conceitos são a principal base da convivência harmoniosa em sociedade e fazem uma importante distinção entre os indivíduos. Mas, em diversas culturas, há a premissa (em grande parte filosófica) de que ninguém é exclusivamente bom ou mau, de que há parcelas de ambos os conceitos em nossas personalidades e que essa dualidade promove o equilíbrio para o nosso desenvolvimento.

Tal dualidade tem sido tema recorrente em todas as vertentes artísticas, especialmente na literatura, e talvez seu maior representante seja o clássico O Médico e o Monstro, escrito pelo escocês Robert Louis Stevenson, considerada sua obra-mestra até hoje, reproduzida em diversas versões literárias, teatrais e adaptações cinematográficas, além de servir de inspiração para o desenvolvimento de tantas outras obras – qualquer semelhança com histórias em que há a presença de um alter-ergo, é mera coincidência... Ou não (risos). A obra faz parte da edição especial criada pela Editora Martin Claret, que reúne os três maiores clássicos de terror de todos os tempos – Frankenstein já teve sua resenha publicada no blog.

Publicado originalmente em 1886, segundo os relatos históricos, essa história nasceu de um sonho ou melhor, de um pesadelo (algo parecido com o que aconteceu com Mary Shelley antes de escrever Frankenstein – uma coincidência peculiar) e toda a narrativa parece nos levar a esse clima natural de maus sonhos, onde somos acometidos de uma inexplicável apreensão que cresce até que algo nos desperta do sono e nos traz alívio. Logo nos primeiros capítulos, nos é apresentado um crime brutal, característica que marca quase toda essa história:

Via-se à noite em uma cidade cheia de lampiões; um homem seguia velozmente; de outro lado vinha uma criança, da casa do médico; os dois chocavam-se, e o demônio humano pisoteava a menina, sem atender aos seus gritos” – pág. 183.

Esse crime hediondo assombra o Dr. Utterson, advogado residente em Londres, durante boa parte da história porque segundo testemunhas, tal ato foi cometido por Edward Hyde e Hyde é protegido do Dr. Henry Jekyll, médico e amigo de longa data de Utterson. Inicialmente, o advogado teme que a reputação do amigo esteja em jogo por se associar a um homem capaz de tamanha brutalidade, mas conforme vai investigando a vida de Hyde, Utterson descobre que há muito mais que força bruta e vileza em tal pessoa... Há, a verdadeira presença do mal. Mal esse, que continua a mover Hyde a cometer crimes sem encontrar a punição devida, em parte por conta de seu benfeitor, Henry Jekyll.


O que Utterson não sabe a respeito do seu amigo Henry Jekyll, é que o renomado e respeitado médico está realizando experiências em seu laboratório particular. Jekyll acreditava que tinha encontrado uma fórmula capaz de separar as duas partes do ser humano, o bem e o mal que há dentro de cada um:

Na minha própria pessoa habituei-me a reconhecer a verdadeira e primitiva dualidade humana, sob o aspecto moral. Depreendi isso das duas naturezas que formam o conteúdo da consciência, e, se eu pudesse corretamente dizer que era qualquer das duas, seria ainda uma prova de que eu era ambas. Desde muito tempo, ainda antes que as minhas descobertas científicas começassem a sugerir-me a simples possibilidade de semelhantemilagre, aprendi a admitir e a saborear, como uma fantasia deliciosa, o pensamento da separação daqueles dois elementos. Se cada um, dizia eu comigo, pudesse habitar numa entidade diferente, a vida libertar-se-ia de tudo o que é intolerável. O mau poderia seguir o seu destino, livre das aspirações e remorsos do seu irmão gêmeo, a sua contraparte boa; e esta caminharia resolutamente, cheia de segurança, no caminho da virtude, fazendo o bem em que tanto se compraz, sem se expor à desonra e à penitência engendradas pelo perverso. Constitui uma maldição do gênero humano que esses dois elementos estejam tão estreitamente ligados; que no âmago torturado da consciência continuem a digladiar-se” – pág. 215.

Creio que não constitui spoiler (já que a obra é tão conhecida e tão reproduzida em todos os lugares do mundo) dizer que a conclusão desse mistério nos leva à revelação de que Jekyll e Hyde são, na verdade, a mesma pessoa, pois o médico iniciou seus experimentos usando a si mesmo como primeira cobaia. Através de Hyde, Jekyll é capaz de vivenciar todos os prazeres a que sempre se negou para manter a postura diante da sociedade que era esperada dele, devido à sua posição como médico vindo de uma família conceituada. Enquanto Jekyll é educado e preocupado com o próximo, Hyde se entrega à luxúria como um fim em si, incluindo entre seu meios de expressá-la, a força física, regozijando-se cada vez que machuca alguém, enquanto Jekyll, sente todo o peso do remorso de seus atos, mas também sente-se reenergizado, mais leve e mais jovem fisicamente e logo essas sensações tornaram-no um escravo de seu alter-ego: “Havia algo de estranho nas minhas sensações, algo de novo e indescritível que, pelo seu ineditismo, era incrivelmente agradável” – pág. 216.

Mas como lidar de forma sensível com a certeza de que dentro de si há tamanha crueldade? Como obter o controle necessário para que não se perca nesse frágeis prazeres obtidos por um momento de consciência amoral? De que forma, podemos encontrar o equilíbrio necessário entre nossas parcelas de bondade e maldade, para que uma não seja mais alimentada que a outra e a submeta completamente? Esses e outros questionamentos permeiam a mente do leitor durante essa leitura. Stevenson conseguiu de maneira magistral construir um thriller psicológico que nos abala ao mesmo tempo em que nos mantém presos às suas palavras até o fim da narrativa, permanecendo em nossa mente muito depois de finalizada a leitura.

Há muita influência da ficção científica iniciada com a obra de Mary Shelley, tanto que as duas obras são consideradas praticamente a base para todos os enredos posteriores que se valem do cenário da ciência para seus enredos. Mas, há em O Médico e o Monstro um algo diferente no tocante ao plano psicológico de seus personagens, que são extremamente bem desenvolvidos e críveis. Claro que a teoria de que é possível separar fisicamente nossas porções boas e más, é extremamente surreal, mas no campo da psquiatria e psicologia, há diversas síndromes que mostram o desenvolvimento de múltiplas personalidades, cada uma delas com suas peculiaridades, trejeitos e até mesmo constituição moral e sim, são reais e estão entre nós.

A única ressalva a respeito dessa história, é que ela é curta – risos!!! – eu adoraria ter visto mais desses personagens tão elaborados, profundos e intensos. Mas, ainda assim, a narrativa empolgante de Stevenson, com o toque certo de suspense e horror, me ganhou eternamente!!! Quero ler tudo dele!!!

Espero que vocês tenham a oportunidade de vivenciar essa leitura e por favor, esqueçam tudo o que viram no cinema sobre tais personagens... Nada na tela nos prepara para a história original!!!


SINOPSE: O tema do “Duplo”, tão caro à literatura do século XIX, tem em O médico e o monstro sua expressão mais icônica. A obra, que conta a história de um médico acima de qualquer suspeita que se transforma numa criatura odiosa e amoral, propõe discussões que desafiam alguns dos nossos conceitos mais arraigados. Indo muito além da dinâmica entre o bem e o mal, “O médico e o monstro” nos convida a refletir sobre a real natureza do homem, seu papel na sociedade e a ideia de civilização como força coerciva e condicionante. Nesse jogo entre ser e parecer, a multilateralidade se revela como o aspecto mais basilar do indivíduo. Publicada originalmente em 1886, a obra, que se tornou sucesso instantâneo de público, é ainda hoje um verdadeiro símbolo pop. Continuamente adaptada, citada e reinterpretada, a criação de Robert Louis Stevenson está presente nas mais diversas mídias, do cinema ao desenho animado.
agosto 17, 2017


Conhecer a história de vida de alguém através de uma biografia, é sempre uma experiência enriquecedora que muitas vezes nos leva a um outro tempo e lugar. Mas, raramente isso é possível com a pessoa que inspirou tal biografia ainda viva. Ter esse privilégio é como conhecer de perto uma lenda viva e fazer parte da sua história. Foi assim que me senti ao ler Maurício – A história que não está no gibi, primeira publicação do selo Primeira Pessoa do grupo editorial Sextante.

Difícil não se emocionar ou se envolver com a história de alguém que contribuiu para que eu me tornasse uma leitora tão voraz, alguém que está tão em pauta nos dias atuais quanto estava durante a minha infância e antes que eu chegasse ao colo da minha mãe. Alguém, que eu nem conheço pessoalmente (ainda!), mas com quem tenho uma afinidade sem explicação!!! Meus caros, é impossível segurar essa emoção e o envolvimento quando a pessoa é tão palpável, tão próxima de seu público, quanto Maurício de Sousa consegue ser.

Maurício nasceu em Santa Isabel, cidade situada na região do Alto Tietê em São Paulo, que até hoje tem ares de cidade do interior apesar da proximidade com a metrópole paulista. Mas, logo teve de dividir a infância entre Mogi das Cruzes, uma das maiores cidades da região do Alto Tietê e a capital paulista em idas e vindas dos pais, numa tentativa de melhorar de vida – como ainda é feito nos dias de hoje! Ainda na infância descobriu os quadrinhos, que foram a porta de entrada não apenas para sua alfabetização, como também para o desenrolar de sua habilidade como desenhista. Habilidade que lhe custou a formação no ensino médio, já que em um momento de “descuido”, foi pego por um professor que lhe reprovou em sua matéria durante alguns anos, até Maurício desistir de continuar seus estudos, algo que não era incomum na época.

Trabalhando desde criança em diversas ocupações, passou por muitas “profissões” até conseguir chegar ao posto que queria ocupar, recebendo “nãos” de pessoas “entendidas” profissionalmente do ofício de desenhista. Mas, Maurício se recusava a desistir, apenas continuou aprimorando sua técnica e conhecimento até a oportunidade perfeita surgir.

“A história, o mundo está cheia de ‘nãos’ que podiam fazer sentido para quem os disse, mas que depois se revelaram estupendas bolas fora. A gravadora Decca recusou os Beatles por julgar que eles nunca teriam futuro na música e muito menos aceitação do público. Criadora do bruxo Harry Potter, J. K. Rowling levou mais de 10 nãos antes de encontrar a editora que publicaria seu primeiro livro. Walt Disney foi demitido de um jornal sob a alegação de ter pouca imaginação e nenhuma ideia original. Mesmo batendo no muro, nenhum deles desistiu” – pág. 12.


Dono de uma personalidade forte, Maurício nunca desanimou diante das negativas que recebeu, apenas aceitou pegar atalhos ou caminhos inesperados que o levariam a conquistar uma oportunidade, contando para isso com a ajuda e apoio não só da família, como de pessoas que enxergavam nele o potencial futuro e ao longo do tempo, de pessoas que apostavam em seu talento e carisma pessoal, afinal seus quadrinhos falam uma língua universal, compreendida em qualquer lugar do mundo. E nesse relato, ele nos mostra de forma humilde e generosa, como alcançou corações de crianças do mundo inteiro, em locais impensáveis para ele quando deu início ao trabalho como jornalista (na época não era necessário cursar Faculdade para ser jornalista, bastava escrever bem e ser esperto para captar o que podia ser de interesse do público leitor, algo em que o Maurício já era pós-graduado com tão pouca idade), trabalho esse que lhe abriu as portas para a prática do desenvolvimento de desenhos e em pouco tempo tirinhas que se transformaram em sua marca pessoal.

“Duas lições me acompanhariam vida afora. A primeira é que queimar pontes nunca é bom negócio para ninguém. Isso só gera desgaste, ruptura, isolamento, oportunidades perdidas. A segunda é que, como meu pai, também gosto de estar certo. Mas, se não estiver, ao contrário dele, hoje eu incentivo as pessoas a demonstrarem onde está o erro no meu modo de pensar ou de fazer as coisas. Eu gosto de ser convencido, de que me apontem um caminho melhor do que aquele que eu tinha sugerido” – pág. 37.

Nessa autobriografia, ele nos conta como seus dez filhos inspiraram personagens que adentraram a casa das famílias brasileiras em períodos difíceis do governo brasileiro e da educação religiosa, que durante muito tempo exigiu o fim das revistas infantis por considerar seu conteúdo impróprio e abusivo. Nesse cenário similar à Inquisição Espanhola, Maurício conseguiu destoar de muitos autores de gibis ao demonstrar uma capacidade incrível de escrever e mostrar como a infância pode ser boa e divertida, conseguindo de certa forma um indulto da Igreja para continuar distribuindo suas histórias.

“Jamais tive crise de criatividade. A maioria das histórias sempre veio num jorro, como se já estivessem escritas em algum lugar do cosmos e eu as captasse e colocasse no papel” – pág. 64.

Com o tempo, Maurício aprendeu não apenas a desenvolver personagens, como também a expandir seus negócios, transformando sua marca num negócio lucrativo e de fácil acesso a todas as crianças através do desenvolvimento de produtos, brinquedos, peças de teatro, filmes e qualquer coisa que possa nos lembrar de sua turminha. Também desenvolveu com o tempo, o crescimento de seus personagens, que hoje podem ser vistos tanto na infância, com os clássicos gibis, quanto nas revistas da Turma da Mônica Jovem que resgatou um público que ama a turminha, mas que já não compreendia suas tramas ou se envergonhava de ler as histórias clássicas de Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão e Chico Bento, em suas travessuras infantis, transformando-se imediatamente em um sucesso de vendas no país que é tão duramente criticado pela falta de incentivo à leitura às novas gerações.

Acompanhar a trajetória de Maurício, é conhecer também um pouco da história do nosso país nesses últimos oitenta anos ao menos, onde através de situações que ele e a família enfrentaram, podemos ter um vislumbre dos costumes, da política e do desenvolvimento do pensamento artístico e social ao longo do tempo, além de observar o amadurecimento de uma mente criativa e a visão de um empreendedor que não deixa escapar oportunidades, não para angariar mais lucro (o que convenhamos, se ele decidisse usar a partir de hoje o que já foi produzido até então, não precisaria mais inovar ou desenvolver nada para isso, seu portfólio fala por si só), mas para responder a um desafio que o move desde que ele pode se lembrar: porque não?

“Com mais de 80 anos, uma pessoa já passou por tanta coisa que tem toda a consciência de que certos comportamentos ou reações não valem a pena, como se estressar por algo que, de um jeito ou de outro, será resolvido e voltará ao normal. Por outro lado, essa pessoa também aprendeu que as coisas mais importantes da vida estão associadas à família, à simplicidade, à solidariedade e ao amor” – pág. 221.

Sinto que, por mais que eu fale e elabore a respeito, não estou fazendo jus à essa leitura. Não apenas movida por um sentimento de reverência por falar de alguém que admiro, mas porque Maurício merece mais, sua história merece mais. Ler sua biografia me fez sentir como se estivesse sentada em seu estúdio, observando-o trabalhar enquanto batemos papo, como se fôssemos amigos de longa data, sem frescura nem rebuscamento na linguagem. Uma simples, honesta e gentil conversa.

Espero que você aí do outro lado, possa ter essa oportunidade também, de rir e se emocionar com esse genial e fabuloso ser humano ao conhecer a sua jornada, porque ele está contando-a para você!!!

“Em última instância, sou um sobrevivente, um homem que começou do nada, realizou seu sonho e não quer desistir dele de jeito nenhum.
Enquanto eu estiver por aqui, saiba que foi você quem sempre alimentou meus sonhos. Depois que eu partir, não se esqueça de que ideias e também sonhos improváveis, é que movem o mundo. De um jeito ou de outro, sempre estarei com vocês”
– pág. 300.